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Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Crucifixo em um altar simples de igreja luterana, iluminado pela luz da janela.Pregações

Teologia da Cruz

Querida comunidade, o texto escolhido para a mensagem de hoje não é em vão, este texto que logo vamos ler faz parte da chamada “Teologia da Cruz” que tanto me marcou nestes quatro anos e meio de estudos na Faculdade Luterana de Teologia em São Bento do Sul/SC. A teologia da cruz muitas vezes escondida por uma interpretação equivocada da ressurreição de Cristo. Por isso, convido a abrirmos o texto bíblico de 1 Coríntios 1.18-25 onde está escrito...

Leitura Bíblia; Saudação: “Bem aventurados são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a guardam no seu coração, amém.”

Este é um dos textos centrais do Novo Testamento, pois aponta para o centro da nossa fé: o Deus da Cruz, o Deus que foi crucificado, o Deus que não parece ser Deus, pois um Deus verdadeiro não poderia derramar o seu próprio sangue, deixando-se pregar em uma cruz. O Deus que se fraco confunde as potências, os poderes deste mundo. Enquanto o ser humano deseja o empoderamento, muitas vezes em nome do próprio Deus, Deus que é poderoso se humilhou até à morte e morte de cruz.

Paulo chama esta cruz de loucura. Crer no Deus da cruz é coisa de hospício. Quem crê na loucura da cruz deveria procurar um psiquiatra. Afinal de contas, crer no Deus que se fez fraco vai contra toda a lógica humana que quer imaginar Deus como forte e poderoso. O Deus cristão é o Deus da loucura.

Temos de lembrar que estes texto foi escrito no início da era cristã. O mundo como um todo ainda não era cristão e a religião predominante era a mitologia grega com Zeus e seus semideuses, todos poderosos e preguiçosos, pois não faziam nada além de castigar o ser humano. A imaginação popular de que deus castiga vem de Zeus e não do Deus da Bíblia. Deuses completamente distantes do ser humano. Vejamos a grande diferença!. Pois bem, um grego (ou gentio, como diz o texto), ao ouvir a palavra da cruz entrava em colapso. Afinal de contas, como o Deus que é todo-poderoso poderia se reduzir a tão pouco, derramando o próprio sangue em uma cruz? Os gregos pensavam que essa imagem de sangue era nojenta demais para Deus e que, de fato, um Deus que derrama sangue não pode ser Deus de verdade. O mesmo ocorre com os judeus. Conforme Gênesis 1 e 2, Deus criou todas as coisas com sua palavra poderosa e agora, conforme Paulo, este mesmo Deus foi pendurado em uma nojenta cruz. Aos olhos humanos, a cruz sempre será uma loucura inexplicável, pois, de fato, Deus morreu.

Nos primeiros séculos da era cristã, a cruz gerava muita repulsa e deboche. Cristãos eram perseguidos e mortos justamente por seguirem um Deus tão fraquinho que se deixa pregar em uma cruz. Aos olhos do mundo, esta era uma tremenda idiotice. Uma gravura em gesso sobre uma parede nas proximidades de Roma nos mostra o choque que o Deus da cruz causava nos primeiros séculos da Igreja Cristã. A gravura é um deboche ao Deus da cruz: a imagem mostra um jovem prostrado diante de um homem com cabeça de burro. Abaixo da imagem está escrito em grego: “Αλεξαμενος ϲεβετε θεον”, ou seja, “Alexamenos adora o seu Deus.” Alexamenos, provavelmente, era uma pessoa crente. A gravura é um deboche tanto ao Deus da cruz quanto ao Alexamenos que se prostra diante de algo tão fraco, sutil e nojento. Esta é a loucura da cruz cujo Paulo nos afirma no texto lido e que está bem representada nesta gravura. Crer no Deus que se fez fraco é coisa de louco.

Mas não apenas para os primeiros séculos da era cristã que a cruz era loucura. Há um pouco mais de cem anos atrás o teólogo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche questionou o Deus que se fez fraco afirmando que “este Deus fez da terra um hospício.” Nietzsche estudou a Bíblia inteira e disse que gostou muito mais do Antigo Testamento, pois no AT há heróis e grandes homens enquanto no Novo Testamento só há o Deus nojento que morre na cruz. Para Nietzsche, somente a Cruz colocou os discípulos diante de duas verdadeiras questões: “Quem foi este? O que foi isto?”. A morte de Cristo foi repulsiva e nauseabunda: Deus derramou seu próprio sangue e se deixou pregar pelas mãos de homens, algo que colide diretamente com a racionalidade e com a própria teologia humana. O Deus da cruz é tão estranho que Nietzsche o chama de “paganismo medonho!” Para Nietzsche, a cruz é a maior decadência da civilização humana. Esse Deus é tão fraquinho.

Atualmente a mesma cruz permanece sendo motivo de blasfêmia e escárnio. Ano passado o Jornal Nacional divulgou a seguinte reportagem... Vamos assistir, é um pouco forte. “Uma mensagem assinada com sangue ao povo da cruz.” Entendemos o que isso quer dizer? Entendemos o deboche que o estado islâmico fez do cristianismo? O que estes terroristas querem dizer? “Enquanto nós cremos em Alá, poderoso, vocês creem em um Deus que derrama sangue. Já que os cristãos gostam de sangue, pois o Deus dele é isso, então vamos derramar um pouco.” O vídeo é forte, eu sei. Mas esse vídeo mostra para os tempos atuais o que Paulo estava vivendo quando escreveu sua carta primeira carta aos Coríntios, onde também havia perseguição.

Amados do Senhor, em Filipenses 3.18 o mesmo apóstolo Paulo nos diz: “Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo.” Se somos cristãos, então temos que viver a cruz de Cristo. A marca do cristianismo é a cruz e sem a cruz não existe fé cristã. É por isso que nossa igreja tem uma cruz aqui no altar. Ela não está ali por enfeite, mas para nos lembrar que Deus derramou o seu próprio sangue em nosso favor. Se estivesse por enfeite, deveríamos arrancá-la fora. Quem crê e já recebeu Jesus Cristo em seu coração e vive uma Nova Vida com ele entende o que aconteceu na cruz e, além disso, leva a o Deus da cruz dentro do coração.

Muitos hinos antigos falam muito bem do Deus da cruz: rude cruz se erigiu, foi na cruz foi na cruz, oh fronte ensanguentada ferida pela dor, graças dou por esta vida (pela cruz e sofrimento), etc. Na atualidade, faltam hinos que cantem da cruz. Várias músicas do estilo “Gospel” exaltam um Deus poderoso que parece muito mais com o Zeus dos gregos do que com o Deus que em Jesus Cristo se tornou pessoa humana, nosso irmão, morrendo em nosso lugar. Um hino muito conhecido diz: “Quem quer cantar do amor não poderá calar da cruz.” Este é o critério. É só ouvir a Rádio Agrolândia, muitos cantam músicas achando que isso é amor, mas quem não conheceu a cruz de Cristo, nunca vai conhecer o amor de verdade.

A cruz de Cristo elimina a nossa religião, pois a religião é querer fazer coisas boas para ir até Deus, por isso, o cristianismo não é uma religião. Se for religião, deixou de ser cristianismo. Infelizmente os professores não ensinam isso direito nas escolas. Fé cristã não é religião, pois não somos nós que vamos até Deus pelas nossas obras, mas Deus é quem vem até nós por meio da obra de cruz. Fé cristã não é religião; ao contrário, ser cristão significa ser antirreligião.

Esta foi também a descoberta de Martinho Lutero que voltou ao Evangelho. Ali está uma pintura de Lucas Cranach, o pintor da Reforma. Nesta pintura vemos Lutero pregando à direita e estão retratados do outro lado como parte da comunidade, a esposa de Lutero, Katharina von Bora, Hans Luther, seu filho e o próprio pintor, Lucas Cranach. Lutero, do púlpito, está com a mão esquerda na Bíblia e com a mão direita aponta para o Cristo crucificado. Esta imagem quer nos dizer que Cristo é o centro da pregação, da comunidade, da vida. Se Jesus Cristo não for o centro da pregação, da igreja e da vida, então só resta barulho sobre qualquer coisa, mas não sobre Deus. Ao mesmo tempo, esta imagem aponta para nós, luteranos, que não devemos olhar demais para Lutero. Quando olhamos demais para Lutero, ele mesmo nos diz: “não olhe para eu, olhe para a cruz de Cristo.” Este Cristo deve ser também o centro das nossas vidas. Isso não é apenas um conhecer a Cristo com a cabeça, mas com o coração. Conhecimento na Bíblia sempre pressupõe relacionamento. Quem crê em Cristo precisa e deve agir tal como Cristo agiu: em amor. Não tem outro caminho.

Nosso país vive uma das maiores crises econômicas da sua história. A corrupção é o grande motor que impulsionou esta crise. O que mais me admira é que a maioria dos corruptos são cristãos, católicos e também evangélicos. Pessoas que se dizem cristãs, mas não vivem o Deus da cruz, pois vivem apenas de uma religiosidade. Se seguissem a cruz de Cristo, fariam como ele: negariam a própria vontade para agir em favor do próximo, pois foi isto que Jesus Cristo enquanto Deus fez: abriu mão de seu poder para servir em amor. Clóvis de Barros Filho, um professor de filosofia da Universidade de São Paulo diz: “No amor cristão, a primazia não é própria, mas do outro”.

Queridos, no início desta prédica eu vos falei que a crença na ressurreição muitas vezes esconde a cruz de Cristo. Por isso esta mensagem se concentrou tanto em falar da cruz e do Deus que se fez fraco. Entretanto, Deus de fato ressuscitou e retomou o seu poder. Mas ele ressuscitou com as chagas. As marcas da cruz permaneceram e quando o encontrarmos no céu, lembraremos de sua ressurreição, mas também de sua cruz, pois as marcas estarão nos punhos. Quem nos lembra disto também é a Santa Ceia, feita “em memória” de Cristo que entregou o seu corpo e derramou o seu sangue por nós. Deus é poderoso, é grandioso, mas também foi humilde ao ponto de se humilhas a se tornar gente como nós e a se entregar à morte em nosso lugar. Quem peca? Nós! Quem merece o castigo? Nós! Quem é injusto? Nós! Quem morreu na cruz? Jesus Cristo! Como assim? Não deveríamos ter sido nós os pregados na cruz? Sim, mas Deus em sua graça fez isso em nosso lugar. Deus matou nosso pecado na cruz, ou, para ficar com uma frase de Lutero: “Deus pega o teu pecado e o afoga na cruz de Cristo.”

Queridos desta comunidade. Minha origem é daqui, disto nunca esquecerei. Como mensagem para vocês que permanecem aqui digo o seguinte: nunca abandonem a teologia da cruz centrada em Jesus Cristo. Se a pregação não tiver seu centro em Jesus Cristo, como nos mostra o quadro de Lucas Cranach, algo está muito errado, pois o principal está faltando. Antes das palavras, a nossa própria vida deve ser uma pregação viva da graça de Deus. Gottfried Brakemeier, pastor emérito da IECLB, diz: “Mil palavras sobre o amor não substituem o gesto que o torna palpável.” O amor não se prega, o amor se vive, amando a Deus e ao próximo como a nós mesmos. Sem amor, a fé cristã perde sua essência, pois o Deus da cruz é amor puro.

É interessante notar que a mesma cruz que é loucura, também é poder de Deus. Não um poder que se usa para abusar as pessoas financeiramente como tanto se vê atualmente com vários pastores na televisão, por exemplo. Não é um poder que podemos domesticar para que esse poder faça o que nós queremos. Ao contrário, o poder de Deus só pode ser encontrado na fraqueza do Filho que morreu em nosso lugar e eliminou toda a nossa culpa, se cremos nele.

Em 2 Coríntios 12.9 temos a famosa resposta de Deus a Paulo que sofre com seu espinho na carne: “A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.” O poder de Deus está na fraqueza. Deus sofre com os sofredores. Deus também pode curar, mas isso não pode ser exigido de Deus.

Amados do Senhor, amada Comunidade Evangélica de Confissão Luterana Martin Luther em Agrolândia, permaneçam na loucura da cruz. É loucura, é! Confunde a mente humana, confunde! Mas isso é salvação e libertação dos nossos pecados. Sem a cruz de Cristo não há salvação. Que nossas vidas estejam pautadas no evento da cruz que confunde os poderes deste mundo. Que nossas atitudes condigam com o que cremos, pois crer da boca para fora adianta muito pouco. Que esta cruz não seja apenas um enfeite, mas nos lembre a cada vez que entramos nesta igreja que Deus morreu no nosso lugar.

E a paz de Deus que excede todo o entendimento, guardará o nosso coração em Cristo Jesus, amém.