Pregações150 anos do Massacre dos Mucker
Amados irmãos, amadas irmãs,
Deus criou a vida para ser sagrada. Fomos criados e criadas à imagem e semelhança de Deus. O ser humano foi colocado no Jardim do Éden para o cultivar e o guardar. A vida é sagrada. Contudo, o ser humano preferiu dar ouvidos à serpente. Sim! Preferiu ouvir a palavra da serpente ao invés da Palavra de Deus. E o que aconteceu em seguida foi uma tragédia: uma violenta e brutal ruptura com o sagrado. A vida perdeu o sentido. Apareceu um vazio impreenchível. O ser humano foi desconectado de Deus. O pecado se tornou o nosso destino e a nossa tragédia. Como diria Nikolaus Ludwig von Zinzendorf, a humanidade é “a raça indefesa de Adão”.
Desligado de Deus, o ser humano se desligou do seu próximo. Caim assassinou a seu irmão Abel – não foi apenas um homicídio, mas um fratricídio. Irmão matou irmão! A vida não é mais vista como sagrada! Legitima-se a morte de muitas maneiras: inveja, egoísmo, ambição... Ou diferenças nas opiniões, no futebol, na religião. Motivo para matar é o que não falta! Aí de quem estiver à frente. Mata-se por medo ao diferente, raiva ao diferente, ódio ao diferente... Morte.
Sim, naqueles meses de Abril a Agosto de 1874, o Morro Ferrabraz presenciou Tod, morte. Caim mata Abel! Familiar mata familiar! Conhecido mata conhecido! Gritos! Violência! Medo! Raiva! Ódio! Tod – morte! E tudo isso na densa mata do Morro Ferrabraz – que, calado, presenciou o ser humano em sua mais violenta versão. Há se esse Morro Ferrabraz pudesse falar tudo o que presenciou. Há se o Morro Ferrabraz pudesse contar sua opinião sobre o ser humano. Há se o Morro Ferrabraz pudesse testemunhar tudo o que em suas terras, rochas e natureza aconteceu. Na densa natureza do Morro Ferrabraz o ser humano revelou o pior da sua natureza humana. E embora também aqui haja uma linda e bela natureza, em 1874 ficou claro que também aqui não estava – ou não era – o Jardim do Éden.
A violência não apareceu “do nada”. O massacre não foi um acontecimento que aconteceu de um dia para o outro. O “tempo de guerra” havia começado muito antes. Houve uma dura perseguição que levou o grupo de Jacobina e estar cada vez mais isolado. Antes de, enfim, nascer, o ódio foi gestado aos poucos. “Tempo de paz” não era uma definição para o Morro Ferrabraz. Preocupados com a própria segurança, o grupo de Jacobina enviou uma carta à capital do Império no Rio de Janeiro na esperança de que Dom Pedro II intervisse de alguma forma. Era um pedido de socorro – que nunca foi ouvido!
O medo, o ódio e a raiva não nascem em um estalar de dedos, mas precisam ser alimentados, sustentados, espalhados – até que se torne a única verdade! Até que não haja dúvidas! Ferdinand Schoenell, correspondente do Deutsche Zeitung em Maratá, escreveu no dia 01 de Agosto de 1874:
“Este bando também deve ser caçado como cães loucos e morto com fogo e espada... até que nenhum vestígio deles reste e nossos descendentes sejam poupados do perigo... Nenhuma compaixão com estes canibais... Esta é a opinião de toda a população... Cortar a cabeça de todos eles, sem exceção.
O ódio começa um processo de desumanização. O outro deixa de ser outro. A alteridade é aniquilada. O próximo já não é mais meu próximo. “É um canibal”, podem dizer. Ou podem usar outros adjetivos. Caim mata Abel. Abel já não é mais visto como irmão, como outro, como alteridade... É uma coisa a ser eliminada... Inseto a ser desinfetado... Sujeira a ser limpa. Não são humanos, são chamados de “cães loucos” a serem caçados.
Aos desumanizados restou a defesa. Na batalha de 18 de Julho de 1874, o coronel Genuíno Sampaio foi alvejado, vindo a morrer no dia seguinte. O medo, a raiva e o ódio aumentaram ainda mais. Então, há exatos 150 anos aqui neste lugar em que estou, os remanescentes do grupo de Jacobina foram alcançados pelos soldados e civis armados na densa mata do Morro Ferrabraz. Jacobina e sua filha recém-nascida, Leidard, foram mortas. Soldados e colonos mutilaram uma dezena de corpos e os jogaram em uma vala comum na floresta. “Jogados fora” simplesmente como algo a ser “descartado”.
O cunhado de Jacobina, o Johann Georg Klein, sobreviveu porque havia sido preso pouco tempo antes. Ele era um pastor-colono. Sobre o episódio, Klein escreveu: “Toda essa perniciosa guerra dos Mucker deve ser atribuída à atuação errada e ilegal das autoridades”.
Amados irmãos, amadas irmãs,
há 150 anos tudo isso aconteceu. Como pastor da Paróquia Ferrabraz em Sapiranga, percebo o quando esta ferida ainda está aberta. Ainda é delicado tocar nesse assunto. Ainda dói tocar nestas feridas. Contudo, sem tocá-las, não há como haver cura. Se ainda estamos presos ao passado de uma forma que continue com a desumanização de Jacobina e seu grupo, então precisamos muito tocar nessa ferida para que seja curada. E a função dos historiadores é lembrar tudo aquilo que a sociedade quer esquecer.
Caim matou seu irmão Abel. A violenta ruptura com Deus gerou uma sociedade cheia de violências – muitas vezes até em nome de Deus. Entretanto, em Jesus Cristo, Deus providenciou que estivéssemos novamente ligados ao seu amor. Jesus Cristo é o Deus encarnado entre nós. Deus acessível e misericordioso. Deus-humano que diz, como ouvimos na leitura do Evangelho, “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.” Em Jesus, Deus nos ensinou sensibilidade, mansidão, justiça, misericórdia, paz e resiliência.
Além disso, em Jesus, Deus sofreu a violência humana na cruz. Ele mesmo foi vítima da raiva, do ódio e da violência. Sofreu como um de nós e é empático às vítimas da raiva, do ódio e da violência hoje. Deus não está ao lado dos que matam, mas dos que morrem. E, na morte e ressurreição de Jesus, Deus se tornou acessível novamente. O sagrado está disponível através do amor a Deus, ao próximo e a si mesmo. No Cristo crucificado, Deus mostrou seu rosto misericordioso. Em nome de Jesus não é possível justificar a violência.
O que Jesus nos oferece é vida e vida em abundância. Portanto, a partir da memória histórica, da reparação e da consciência histórica, busquemos a justiça, a paz, o respeito – o amor ao próximo. E que toda violência em nome de Deus cesse! E que todo preconceito acabe! Que as pedras caiam das mãos e pavimentem o caminho para o amor. E que essa cruz seja para Sapiranga um monumento que aponta para o Cristo crucificado que está do lado dos que sofrem. Nele está o caminho para a nossa paz. Amém.