Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Martinho Lutero estudando uma Bíblia em uma mesa com uma vela acesa.Pregações

500 anos da Reforma Luterana

Amados irmãos, amadas irmãs, Jesus enxerga a multidão. Não com os olhos da cabeça, mas com os olhos do coração. Quando Jesus olha para o povo, Jesus vê suas preocupações, suas ansiedades, seu clamor. Jesus vê gente que sofre e que aguarda esperançosamente por justiça. Jesus enxerga pessoas que passavam por um momento difícil em suas vidas, mas que não perderam a fé, pois seguem ao Messias.

Assim como Moisés recebeu de Deus as tábuas dos 10 mandamentos no Monte Sinai, o evangelista Mateus apresenta a Jesus como novo Moisés, pois Jesus traz novas leis ao povo sofrido. Assim como Moisés escreveu cinco livros (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), Jesus faz cinco discursos sobre o Reino de Deus. E Jesus o faz ao olhar para as pessoas, ao ter sobre elas um olhar misericordioso que não podia calar as palavras que batiam forte dentro do seu coração. Jesus olha a situação e se compadece das pessoas que o cercam.

Mas é interessante notarmos que Jesus não inicia falando do sofrimento. Ao contrário, a primeira palavra da prédica de Jesus ao povo sofrido é bem-aventurados. E repete esta palavra nove vezes. Bem-aventurado significa uma mistura de alegria com esperança. É assim que Jesus Cristo liga o presente ao futuro. Cristo não prometeu outra coisa senão a paz de Deus. Bem-aventurança não significa apenas uma felicidade. Mas significa estar debaixo da bênção de Deus na confiança da vinda do seu Reino que nós recebemos.

Deus não está distante das situações de sofrimento, perseguição, fome e miséria. Nós sabemos que o Reino de Deus está por vir, mas seu eco já chega até nós no presente, no agora, por meio da fé e do amor. Tornamos o Reino de Deus visível quando nos dispomos a auxiliar aqueles e aquelas que sofrem. Quando nossas mãos, pés, mente, coração, enfim, todo nosso corpo se dispõe ao serviço cristão. Quando podemos levar a paz e a bênção de Deus às outras pessoas. Bem-aventurados somos não apenas quando recebemos, mas também quando podemos dar. Este é o ensinamento de Cristo. Alegres, jubilamos, quando nos dispomos à fé e a ação. A fé sem obras é morta; a obra sem fé é fazer de si a deus.

Jesus enxergou. A visão é a janela do coração. Diz o ditado que “o que os olhos não veem, o coração não sente”. Isto é verdade. Mas por isso mesmo não podemos fechar ou vendar os nossos olhos não querendo ver as coisas que estão acontecendo como se tudo estivesse caminhando às mil maravilhas. Quando olhamos atentamente ao nosso redor, nosso coração é comovido e movido à ação. Quando percebemos o sofrimento, a dor, a solidão, nosso coração bate ainda mais forte por transformar a realidade. É Deus quem age apesar de nós. Jesus enxergou as multidões e isso fez uma grande diferença. O olhar misericordioso de Jesus é extremamente transformador. Mateus 9.36 diz: Vendo as multidões, Jesus se compadeceu delas como ovelhas que não têm pastor. O ver com o coração que nos comove, nos leva a uma ação. O enxergar através do Evangelho da Salvação que nos faz levar luz em meio à escuridão; o perceber que este mundo perdeu seu sabor para que então possamos ser sal e temperar o mundo com novos sabores como amor, fé e esperança. Assim como Jesus olhou e se compadeceu, nós também somos convidados a olharmos não com nossos olhos humanos, mas com os olhos de Deus.

Jesus consegue enxergar o sofrimento, a opressão, a perseguição, mas também olha além, para o horizonte, para o amor e a misericórdia de seu Pai. Por isso precisamos trocar nosso modo de olhar pelo modo de olhar de Deus.

Lutero descobriu que todos nós somos Justos e Pecadores por causa de Cristo. A partir da cruz de Cristo, Deus não enxerga mais a nós a partir da sua Lei e do seu Juízo como um juiz impiedoso pronto a nos castigar. Deus olha para a cruz e vê a nós, pecadores, lá crucificados. Ao mesmo tempo, quando Deus olha para nós agora, ele não vê a nós pecadores, mas enxerga ao seu Filho Jesus. Deus Pai põe os óculos de seu Filho Jesus Cristo para olhar para nós como pessoas justificadas pela fé. A isto Lutero chamou de “maravilhosa troca”: o que é nosso, o pecado, passa a ser de Cristo; o que é de Cristo, a justiça, passa a ser algo nosso. Assim, diz Lutero, nos tornamos em “uma cuca com Cristo”, pois estamos tão misturados com a Justiça do Senhor que Deus não nos enxerga através do castigo, mas da misericórdia.

Lutero percebeu isso após estudar as Escrituras. Por isso, como cristãos evangélicos de confissão luterana, direcionamos nosso olhar primeiramente para a Palavra de Deus que é fonte de consolo, esperança e alegria. Por meio dela, Deus fortalece a nossa fé para a prática do amor. Através da Bíblia nós conhecemos quem é Deus e como ele se revelou a nós. Na Bíblia encontramos nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Lutero diz: “A Bíblia é uma manjedoura na qual está contido Jesus; se não o encontrarmos, só temos palha”. Assim como Lutero, os luteranos devem ler e estudar a Bíblia com tempo e profundidade. Deus fala conosco por meio dela nas diversas situações da nossa vida.

Entretanto, ao mesmo tempo em que olhamos para a Palavra de Deus, o Senhor Jesus Cristo, devemos também olhar pelo nosso próximo. Se Deus nos torna gratuitamente justos por causa de Cristo, então não podemos nos calar diante das situações de injustiça do mundo presente. Deus direciona nosso olhar às situações de sofrimento, perseguição e opressão para que, movidos pela fé que recebemos lendo a sua Palavra, possamos ter ações que possam reformar o mundo. Pela fé somos servidos por Deus; pelo amor, servimos aos nossos semelhantes.

Esta é a pregação de Cristo no Sermão da Montanha; essa foi a redescoberta do Reformador. Somos bem-aventurados não pelo que nós fazemos; ao contrário, somos bem-aventurados unicamente por causa de Cristo e sua graça. Se Deus nos concedeu a salvação de graça, então não podemos nos calar diante da atual comercialização do Evangelho. Deus faz cura, mas ele continua sendo Deus quando não há curas. Na sua cruz, Deus sofre com o sofredor.

No dia de hoje, comemoramos, acima de tudo, o dia do Evangelho redescoberto pelo bem-aventurado Reformador Lutero. Lembro as palavras do Pastor Presidente da IECLB, Nestor Paulo Friedrich, na sua mensagem para o dia da Reforma deste ano: “Na comemoração do Jubileu, precisamos ter cuidado: não podemos trocar o presente pelo embrulho, ou seja, o presente do Jubileu da Reforma não é Martim Lutero. O presente desse Jubileu é o Evangelho de Jesus Cristo. O presente dessa comemoração é aquilo que Deus fez e faz por nós por meio de Jesus Cristo: em Cristo, nós somos irmãs e irmãos resgatados do poder do pecado e da maldade para viver vida alegre, livre e responsável mediante a graça de Deus.”

Bem-aventurados somos por termos a oportunidade de comemorarmos o dia de hoje; mas somos ainda mais bem-aventurados quando conseguimos servir ao nosso próximo com amor. Assim como Deus serve a nós com a sua Palavra e os Sacramentos, nós agimos no mundo em favor do nosso próximo. Pela graça de Deus somos livres para cuidar. Cuidar dos humildes, dos que choram, dos mansos, dos que têm fome, dos misericordiosos, dos limpos, dos perseguidos, dos injustiçados, assim por diante. Ao fazemos isso, descobrimos a quem pertence o Reino de Deus, quem recebe consolo, quem herdará a terra, quem será farto, quem alcançará misericórdia, quem verá a Deus e de quem será o seu Reino. Olhar com os olhos de Jesus e se mover à transformação, ou seja, á uma Reforma que não ficou restrita à 500 anos atrás, mas que está em continuação até a consumação dos séculos.

Bem-aventurada é a pessoa que enfrenta a vida, movida pelo Espírito Santo, na certeza de que o Pai está presente por meio de Jesus Cristo. Jesus Cristo fez tudo o que era preciso pela nossa libertação e redenção. Por isso, não podemos nos deixar escravizar por este mundo. Quando olhamos o mundo com os olhos da cabeça, nos decepcionamos; mas quando olhamos o mundo com os olhos do coração, nos compadecemos.

Lutero diz: “o amor ensinado por Jesus não é simplesmente querer bem o outro, mas é amor ação. Este amor carrega aquilo que é penoso e que não se quer carregar com prazer.”. Para Lutero, “o amor é doce, benigno, paciente, não em receber, mas em dar.” Somos luteranos, somos luteranas. Agora são outros 500.

Para que o processo de Igreja sempre em Reforma não pare, todas as nossas mãos são importantes. Só haverá outros 500 se a Igreja de Jesus Cristo permanecer fiel ao que a manteve até aqui: a Palavra de Deus, os Sacramentos, a fé, a gratidão, o serviço e o amor. Deus olha para nós com amor e misericórdia; vamos colocar os óculos de Deus enxergar o mundo de uma maneira diferente; clamemos a Deus para que o nosso coração não se endureça como o do Faraó do Egito, mas que possamos ter um coração de carne que bate forte pela Missão de Deus no mundo. Sejamos fiéis a Deus que não abandonou o ser humano em sua desgraça, pobreza e insuficiência.

Ao mesmo tempo, não esqueçamos que o melhor está por vir. Como pessoas cristãs, agimos em favor do mundo já agora, mas também cremos e confessamos a nossa fé naquilo que há de vir. A vinda do Reino de Deus é uma ação do próprio Deus. É ele quem nos promete novos céus e nova terra. É ele quem enxugará dos nossos olhos todas as lágrimas e nos promete eliminar as ameaças de ódio, opressão e morte. A esperança é a chave do nosso movimento: esperamos não de braços cruzados, mas com mãos unidas no serviço. Lutero nos diz: “Fé e amor perfazem a natureza do cristão. A fé recebe, o amor dá; a fé leva a pessoa a Deus, o amor a aproxima das demais. Através da fé ela aceita os benefícios de Deus, através do amor ela beneficia seus semelhantes.”

Tal qual Cristo olhou pelo povo triste em seu tempo e morreu e ressuscitou prometendo perdão de pecados e esperança de vida eterna, tal qual Lutero redescobriu o Evangelho ao se debruçar sobre as Sagradas Escrituras, assim nós, como cristãos e cristãs, evangélicos de confissão luterana, olhamos e agimos em favor do mundo. É o que disse o pastor luterano e mártir, Dietrich Bonhoeffer, morto em 1945 por se opor ao regime nazista: “A ação não surge do pensamento, mas de uma disposição para assumir responsabilidades.”

Eu desejo que pela graça de Deus possamos olhar ao nosso redor com os olhos do coração. Em primeiro lugar, crer que Deus é soberano; em segundo lugar, orar pela sua piedade e misericórdia para com o povo e o mundo; em terceiro lugar, agirmos em favor do nosso próximo. Agora são outros 500. Deus queira que sim.

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém.