PregaçõesA água que mata a sede
Amados irmãos, amadas irmãs,
Agostinho de Hipona escreveu: Senhor, “fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousar em ti”1.
A Festa das Cabanas (ou Tabernáculos) estava no fim. A festa durava sete dias. Enquanto a Páscoa Judaica era a festa que celebrava o início da colheita, a Festa das Cabanas celebrava o fim de todas as colheitas do ano (frutas, oliveiras e videias). A Festividade possuía esse nome (Tabernáculos ou Cabanas) porque os agricultores montavam cabanas nos campos onde se hospedavam durante o tempo das colheitas. As festividades eram marcadas por diversos rituais que faziam parte das teias de significado do povo de Deus e eram uma rememoração de como o Senhor agiu no passado. Durante os sete dias da Festa das Cabanas, todas as manhãs, uma procissão de sacerdotes descia até o tanque de Siloé com uma jarra de ouro. A jarra era enchida de água e então os sacerdotes subiam de volta ao templo onde a água era derramada solenemente sobre o altar ao som de trombetas e coros que entoavam os Salmos 113 e 118. Assim, durante os sete dias da festa, com o gesto da água, o povo de Deus era lembrado de que o Senhor saciou a sua sede na peregrinação pelo deserto rumo à Terra Prometida. Além disso, o ritual das águas também era uma oração que clamava por chuvas para a fertilidade da terra nas novas plantações.
Jesus estava na Festa das Cabanas com os seus discípulos. Por seis dias ele apenas observou o ritual das águas que era repetido anualmente. No sétimo dia, Jesus foi impulsionado a falar. E o que ele diz denuncia o vazio das nossas próprias vidas.
1 VINDE E BEBA (v. 37)
A água foi derramada sobre o altar – mas não pode matar a sede mais interior do ser humano: a sede de Deus. Por isso, Jesus se levantou e se apresentou como água a ser bebida. No contexto do Novo Testamento, a Festa das Cabanas não apenas rememorava o passado e comemorava o presente, mas carregava a esperança pelo messias prometido. A marca da esperança estava bem presente na celebração. A festividade já acontecia a muitos anos. Profetas antigos haviam profetizado a vinda do Messias. A Festa das Cabanas era a Festa da Esperança – e o que Jesus está dizendo é que a esperança se cumpriu nele. Chegou o momento de a sede ser saciada. Chegou o momento de descobrir uma nova vida. Chegou o momento em que Deus está cumprindo tudo o que havia dito aos antepassados.
Jesus não apenas convida – mas ele é a água da vida. Ele diz: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (João 7.37b). Qual sede? A sede de Deus! Pode acontecer um momento na nossa vida em que descobrimos o quanto somos insaciáveis. Nada é suficiente para preencher a nossa vida. A mansão, o carro de marca do último modelo, a televisão de “mil polegadas”, os treinos em dia, os investimentos financeiros... Ou as redes sociais que escancaram o nosso tédio... A família que não parece ser perfeita como todas as outras... Então, olhamos para dentro de nós e tudo o que vemos é um vazio que queremos preencher a todo custo, sem sucesso! Como nessa escultura de Albert Gyorg chamada “Melancolia” onde uma pessoa sentada em um banco olha para o vazio que há na sua vida.
Facilmente podemos nos reconhecer nesta escultura. Muitas pessoas tiveram sucesso em tudo na sua vida, mas ainda buscam o sentido da sua vida; muitas pessoas têm orgulho de tudo o que construíram na vida, mas ainda buscam o fundamento das suas vidas; muitas pessoas fizeram tudo certo na vida, mas ainda sentem que algo do lado de dentro está errado! É o vazio! É o caos! Como na pintura de Edward Munch, “O Grito” onde o caos pode não estar do lado de fora, mas de dentro. O coração fica inquieto – porque parece pulsar sem uma direção a seguir. Então, Jesus faz esse convite amoroso: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (João 7.37b).
2 CREIA E TRANSBORDE (v. 38)
Após ir a ele, Jesus pede que creiamos nele: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (João 7.38), citando Ezequiel 47.1 e Zacarias 14.8. Jesus promete não apenas um preenchimento, mas um transbordamento. Não é apenas saciar a sede, mas um fluir contínuo. É a água vinda diretamente da nascente – a melhor água que existe. É uma nova vida. É um novo sentido para a vida. É a libertação de tudo o que fazemos para preencher o vazio das nossas vidas. É o Evangelho.
Para transbordar da água da vida é preciso beber continuamente da Palavra de Deus. É pela sua Palavra que o Senhor fala e preenche as nossas vidas. É pela sua Palavra que é gerada a fé, pois “E, assim, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo” (Romanos 10.17). O melhor antídoto para a vida vazia é preenchê-la com a Palavra de Deus. Lê-la. Estudá-la. Conhecê-la. Amá-la!
E é aqui que o texto bíblico se conecta com a festividade de hoje: Pentecostes! É o Espírito Santo aquele que nos conduz à fé pelo ouvir da Palavra de Deus. Como escreveu Martinho Lutero na sua explicação do Credo Apostólico no Catecismo Menor:
Creio que, por minha própria inteligência ou capacidade, não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem chegar a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo Evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim também chama, reúne, ilumina e santifica toda a Igreja na terra, e em Jesus Cristo, a conserva na verdadeira e única fé.2
O Espírito Santo não apenas trouxe Cristo a este mundo através da concepção de Maria, mas traz Cristo para as nossas vidas como fonte de água da vida. É o Espírito Santo que gera a fé em Cristo através do ler e ouvir a Palavra de Cristo. O Espírito Santo não preenche a nossa vida com emocionalismos dopaminérgicos, mas com a Santa Palavra de Deus.
3 RECEBA E TESTEMUNHE (v. 39)
Preenchidos de sentido pela Palavra de Deus no poder do Espírito Santo, somos convidados a testemunhar. Jesus prometeu: “Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cresssem” (João 7.39a). No dia de Pentecostes, Jesus cumpriu o que prometeu. O Consolador desceu sobre os discípulos, Maria e outras mulheres reunidos no Cenáculo em Jerusalém. O Espírito Santo veio ser o poder que encoraja os verdadeiros discípulos do Senhor a testemunharem do Evangelho do Senhor Jesus.
Sempre que descobrimos algo bom, temos a tendência de compartilhar a notícia com os demais. As mulheres compartilham umas com as outras o descobrimento de diferentes flores – e trocam mudas entre si; homens compartilham uns com os outros sobre tecnologia, carros, mercado. Quando descobrimos algo bom, queremos que outros também possam experimentar o que experimentamos.
Da mesma forma aconteceu com os discípulos após Pentecostes. Eles beberam a água viva. Eles transbordaram da água da vida. Eles aceitaram o convite. Eles creram. Eles receberam. Agora, pelo poder do Espírito Santo, são levados ao mundo inteiro para partilhar com outras pessoas tudo o que Deus fez na vida deles. É algo tão bom que não pode ficar guardado apenas para si. Precisa ser partilhado adiante – ainda que isso custe a própria vida! É o Espírito Santo quem cria essa coragem única para que a vida preenchida pelo Evangelho seja testemunhada às vidas vazias que estão ao nosso redor. É preciso testemunhar – pelo poder do Espírito Santo.
Amados irmãos, amadas irmãs,
lembro outra fez a frase de Agostinho: Senhor, “fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousar em ti”3. Há um vazio em nosso coração do tamanho de Deus. Há uma sede em nossa vida do tamanho do Evangelho. Há uma ânsia por ser saciado plenamente.
Com o que você tem preenchido a sua vida? Jesus disse: “A boca fala do que está cheio o coração” (Mateus 25.34). Os assuntos que estão na ponta da sua língua revelam do que está cheio o seu coração: trabalho, finanças, bens... Os assuntos que você mais posta nas Redes Sociais revelam do que está cheio o seu coração: política partidária, fofocas, status... A maneira como você vive revela do que está cheio o seu coração. Do que está cheio o teu coração? E por que mesmo assim você se sente vazio como aquela pessoa sentada no banco olhando para si?
Hoje é Pentecostes. Hoje lembramos que o Espírito Santo está conosco. Hoje lembramos que não estamos sozinhos. Hoje lembramos que no ouvir da Palavra de Deus o Espírito Santo enche a nossa vida de fé e de sentido para que a nossa boca esteja cheia da sua Palavra.
Jesus é a água viva. No poder do Espírito Santo, receba hoje essa água que sacia toda a sua sede. Que o Espírito Santo testemunhe de Cristo no seu coração. Que o Espírito Santo te convença dos caminhos errados que estás seguindo e te conduza a Cristo. Que o Espírito Santo te inspire a com criatividade testemunhar o Evangelho a outras pessoas. Que o Espírito Santo remova todo caos e confusão – e deixe tudo claro!
Bebam, transbordem e testemunhem – humildemente, pelo poder do Espírito Santo. O Senhor preencha a tua vida de sentido. O Senhor preencha a tua vida com seu amor. O Senhor preencha a tua vida com seu Evangelho. E que, pelo Espírito Santo, você saia hoje daqui diferente da maneira como entrou. Amém.