Teologia LuteranaA autoridade da Bíblia
INTRODUÇÃO
A Bíblia é o livro fundamental da fé cristã. Sem as Escrituras, a fé cristã se torna uma forma sem conteúdo, um vaso sem preenchimento, um corpo sem vida. Como religião de um livro, o cristianismo é essencialmente bíblico – e não existiria se não fosse a Bíblia. O meio luterano, influenciado pela peste da Teologia Liberal, tem diminuído o valor das Escrituras – como se fosse apenas mais um livro qualquer da estante de uma biblioteca. O intuito desse artigo é resgatar uma visão bíblica da Bíblia e, ao mesmo tempo, reformatória. Não há aqui a intenção de aprofundar um tema em específico, mas em buscar uma visão panorâmica da importância das Escrituras para a vida da Igreja.
O QUE É A BÍBLIA?
A palavra Bíblia vem do grego Biblos e significa livros. Portanto, a Bíblia é antes de tudo uma coleção de livros – uma biblioteca disponível em um único volume. Não se trata, portanto, de um “livro pronto” que caiu do céu ou foi ditado “palavra por palavra” para um único escritor através de uma “inspiração verbal”.
A coleção de livros da Bíblia divide-se entre Antigo Testamento e Novo Testamento.
COMO A BÍBLIA FOI ESCRITA?
A coleção de livros foi escrita por cerca de 40 autores em diferentes tempos e épocas. Isso não quer dizer que a Bíblia foi “ditada” do céu e as pessoas apenas copiavam o que ouviam. A Bíblia não foi escrita por “mediunidade”. Deus age na História do seu povo. Inicialmente, as histórias do agir de Deus (como a Criação e a libertação do Egito, por exemplo), eram transmitidos de forma oral de geração em geração. Os hebreus literalmente decoravam trechos enormes da Bíblia que eram posteriormente declamados para os seus filhos e estes, por sua vez, aos seus filhos, assim por diante. Vemos isso claramente em Deuteronômio 6.4-9 onde encontramos o famoso Shemá Israel: “Escute, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Portanto, ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e com toda a sua força. Estas palavras que hoje lhe ordeno estarão no seu coração. Você as inculcará a seus filhos, e delas falará quando estiver sentado em sua casa, andando pelo caminho, ao deitar-se e ao levantar-se. Também deve amarrá-las como sinal na sua mão, e elas lhe serão por frontal entre os olhos. E você as escreverá nos umbrais de sua casa e nas suas portas.”
Coração no hebraico é lêv que também significa a mente e a memória. Por isso, ter as palavras no coração não significava algo “bonito” ou “romântico”, mas literalmente decorá-las para passá-las às próximas gerações. Quando os ensinamentos do agir de Deus paravam de acontecer, isso significava afastamento de Deus e desgraça para o povo: “Toda aquela geração também morreu e foi reunida aos seus pais. E, depois dela, se levantou uma nova geração, que não conhecia o Senhor, nem as obras que ele havia feito por Israel. Então os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos do Senhor, servindo os baalins” (Juízes 2.10-11). A idolatria surgia quando os pais deixavam de transmitir as histórias do agir de Deus para os seus filhos. Aqui já está presente a importância da Bíblia na família.
Apenas muito tempo depois é que as histórias começaram a ser escritas em rolos. Um exemplo que podemos dar é o relato da Criação conforme o livro de Gênesis que surgiu quando o Reino de Judá (Sul) estava exilado na Babilônia. Os babilônios consideravam os elementos da natureza como divindades: o sol, a lua, as estrelas etc. Neste período é que os judeus escrevem o primeiro relato da Criação como uma confissão de fé no Deus criador de todas as coisas – que não são deuses, mas Criação do único Deus.
Então, ao longo do tempo, as histórias que eram contadas de forma oral vão ganhando versões escritas até termos o que hoje chamamos de Antigo Testamento enquanto Antiga Aliança de Deus com o seu povo. Um processo parecido aconteceu com o Novo Testamento. Com exceção das cartas de Paulo que já foram, obviamente, diretamente escritas, o Evangelho de Jesus foi primeiramente transmitido de forma oral pelas testemunhas oculares do ministério de Jesus. Apenas no final do Século I, quando estas testemunhas estavam bastante idosas, é que surgiu a importância de fazer o registro escrito da História de Jesus. Assim fizeram Mateus, Marcos e João, testemunhas oculares, e Lucas que não era uma testemunha ocular, mas fez uma acurada investigação (cf. Lucas 1 e Atos1).
Após a morte das testemunhas originais, os discípulos dos primeiros discípulos reuniram os escritos disponíveis e formaram o Canon do Novo Testamento, isto é, os livros que são canônicos e, portanto, que possuem autoridade a partir dos seguintes critérios:
Assinatura Apostólica: Havia um intenso cuidado em confirmar se o documento havia sido escrito verdadeiramente por um dos discípulos diretos de Jesus ou pelo Apóstolo Paulo;
Doutrina Correta: Os documentos que apresentassem um ensinamento diferente da doutrina cristã ou que eram fantasiosos demais foram alocados como apócrifos. Eles possuem importância, mas não tem autoridade canônica;
Uso Universal: Documentos que já eram utilizados por várias comunidades foram aceitos por causa do seu uso comunitário.
Desta forma, a Bíblia é composta de Antigo Testamento e Novo Testamento. Para os Pais da Igreja (autoridades cristãs dos primeiros séculos) o uso do Antigo Testamento era importante para que o Novo Testamento fosse compreendido. Assim, estabelecem-se as relações de continuidade e descontinuidade entre AT e NT: continua valendo do AT aquilo que o NT não revogou ou modificou. Um exemplo disso é o mandamento do Shabbat, do Sábado: Jesus reinterpretou a Lei, dizendo que não foi o homem feito para a Lei, mas a Lei para o homem. Assim, o descanso ganha um novo significado no NT e não mais a visão legalista do AT.
Importante é destacar que, mesmo sendo escrita por cerca de 40 autores, a Bíblia é um livro extremamente coeso e com profunda lógica interna – como se fosse escrito por um autor só. Chama atenção especialmente o fio vermelho que permeia a História da Salvação de Deus com o seu povo, um fio que inicia em Adão, passa por Abraão (especialmente em Gênesis 15) e chega até Jesus. A melhor maneira de perceber esse fio vermelho é estudando a história de cada personagem presente na Genealogia de Jesus (cf. Mateus 1.1-17; Lucas 3.23-38). A Bíblia não é um livro de histórias isoladas, mas sempre correlacionadas umas com as outras e, principalmente, coesas com o centro em Jesus.

Cada arco na imagem é a correlação de um texto bíblico com outro, desde Gênesis (do lado esquerdo) até Apocalipse (do lado direito).
A BÍBLIA É OU CONTÉM A PALAVRA DE DEUS?
Já vimos como a Bíblia foi escrita e que ela não foi “ditada palavra por palavra do céu” para um médium que “psicografou” seu conteúdo na forma de um livro escrito. Também sabemos que a Bíblia não “caiu pronta do céu”. Então, surge outra pergunta: a Bíblia é a Palavra de Deus? Ou ela contém a Palavra de Deus? Se ela apenas contém, então cabe a pergunta mais importante: o que é a Palavra de Deus? Há muita confusão sobre esse assunto, especialmente após o Séc. XIX onde a Teologia Liberal buscou dar explicações frias e racionais para a fé. Então, vamos esclarecer o assunto.
Vejamos o que está escrito em João 1.1-5: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. A vida estava nele e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela”. Verbo aqui no grego do Novo Testamento é Lógos cujo um dos significados possíveis é Palavra. O que João está nos dizendo é que Jesus é a Palavra de Deus que existe desde a eternidade. Inclusive, por meio dele todas as coisas foram criadas. Sabemos que Deus criou o mundo através da Palavra: ele dizia e acontecia: haja luz e houve luz. Agora, João está revelando a nós que essa Palavra é Jesus: o Pai dizia e o Filho fazia na força do Espírito Santo. Portanto, quem é a Palavra de Deus? A Palavra de Deus é Jesus. Na pessoa e obra de Cristo encontramos a Palavra de Deus que “se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória – glória como do Unigênito do Pai” (João 1.14). Sim! Antes de tudo, a Palavra de Deus é uma pessoa – Jesus Cristo, o Senhor e Salvador.
Diante disso, muitos teólogos (inclusive luteranos) irão dizer que como Jesus é encontrado na Bíblia e ele mesmo é a Palavra de Deus, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas apenas a contém por conter Jesus. Nesta visão, a Bíblia não é a Palavra de Deus. Contudo, o que fazemos então com 2 Timóteo 3.16-17, onde está escrito: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o servo de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”. E agora? De um lado, sabemos que Jesus é a Palavra de Deus; de outro lado, Paulo diz a Timóteo que toda a Escritura foi inspirada por Deus. Que Jesus é a Palavra de Deus nós já sabemos! Devemos ter certeza disso! Mas, o que é a Bíblia então? Se ela não é a Palavra de Deus, o que ela é?
A Teologia Luterana resolve isso de forma genial. Para Martinho Lutero (1483-1546), a realidade só pode existir por meio dos seus opostos de forma que, sem os opostos, a realidade deixa de existir. O nome disso é bem complicado: dialética. Pense comigo: precisamos igualmente de frio e calor para sobreviver, luz e escuridão, vida e morte. Ou seja: a realidade só existe por causa dos opostos. Quando um oposto é eliminado, a realidade deixa de existir.
É assim que Lutero interpretava a fé cristã. Ele dizia que devemos ler a Bíblia como Lei e Evangelho (veremos adiante); ele dizia que somos simultaneamente Justos e Pecadores por causa de Cristo. Da mesma forma acontece com a Bíblia: ela contém a Palavra de Deus e é a Palavra de Deus. Por conter, não deixa de ser; por ser não deixa de conter. Se apenas conter, deixa de ser; se deixar de ser, deixa de conter.
Contudo, há uma diferenciação importante: as placas não são o caminho. O que isso significa? Vejamos João 14.6 onde Jesus diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim”. O caminho para o céu é Jesus. A Bíblia não é o caminho, mas pode ser comparada às placas que indicam o caminho. Ela jamais deixa de ser Palavra de Deus – mas não pode ser confundida com o próprio Senhor Jesus. Isso precisa ser claro!
COMO INTERPRETAR A BÍBLIA?
A Bíblia não deve apenas ser lida, mas interpretada. Na Teologia Luterana, interpretamos a Bíblia sempre a partir da distinção entre Lei e Evangelho. Isso evita os cristãos se tornarem legalistas ou de baratearem a graça de Deus1. Legalismo significa quando tudo deve ser seguido exatamente como está escrito, à risca. Baratear a graça de Deus significa quando achamos que sempre seremos perdoados e que, portanto, podemos fazer tudo o que quisermos contando com a misericórdia de Deus.
Lei e Evangelho fornecem as balizas para evitar os dois erros. Na visão de Lutero, a função da Lei (2º Uso da Lei) é condenar. A Lei revela a sujeira do pecado de forma que “a força do pecado é a lei” (1 Coríntios 15.56). Portanto, enquanto Lei, a Bíblia nos acusa dos nossos pecados, os revela, faz virem à tona. A Lei revela a doença. Já o Evangelho é a fonte do perdão e da misericórdia de Deus. O Evangelho aponta para a graça, para Cristo que morreu em favor do pecador condenado. Enquanto a Lei revela a doença, o Evangelho é o remédio providenciado pelo próprio Deus.
Logo, a pessoa cristã não cai no fundamentalismo do legalismo ou na graça barata do liberalismo. Antes, vive consciente dos seus pecados e do perdão de Cristo, simultaneamente justa e pecadora por causa de Cristo. O Evangelho não elimina o juízo, pois a ausência de juízo não seria sinal de amor, mas de indiferença; da mesma forma a Lei não elimina o Evangelho, pois a ausência do Evangelho significaria a condenação do ser humano. Assim, quando abrimos a Bíblia, sempre interpretamos como Lei e Evangelho. Por exemplo: O que é a Lei em João 3.16? O diagnóstico de que podemos perecer por causa dos nossos pecados. E o que é o Evangelho? Que Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito... Assim, descubro que sou a pessoa mais pecadora que conheço; ao mesmo tempo, descubro que sou a pessoa mais amada por Deus que conheço.
A partir de Lei e Evangelho, sempre interpretamos a Bíblia a partir de Jesus. Lutero dizia: “A Bíblia é uma manjedoura na qual Jesus está deitado; se não o encontrarmos, só temos palha”. Mesmo quando lemos uma passagem do Antigo Testamento é importante encontrar nela Jesus. Agostinho de Hipona fez esse exercício interpretando cada um dos 150 salmos cristologicamente, assim como outros teólogos do período patrístico. Leia a Bíblia sempre buscando encontrar nela Jesus, o Senhor e Salvador.
SOLA SCRIPTURA: SOMENTE AS ESCRITURAS
Este é o princípio mais importante da Reforma Luterana sobre as Escrituras: Somente as Escrituras. As Escrituras são a norma última por que no lidar com ela surge a fé e a fé cresce, como está escrito: “E, assim, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo” (Romanos 10.17). Quando a Bíblia é proclamada, ela já visa a fé – somente a Fé. Fé que é dom de Deus dado através das Escrituras e que leva ao conteúdo do Evangelho: Jesus Cristo crucificado e ressuscitado – somente Cristo! Jesus Cristo não veio aos seres humanos por obrigação, mas voluntariamente. Ele se doou a nós na cruz pela nossa salvação de graça – somente a Graça.
Esta compreensão nasce principalmente do culto cristão onde a Bíblia é proclamada. O ouvir da sua proclamação desperta a fé no conteúdo que foi proclamado. Sua proclamação motiva a oração e a adoração. Na pregação, ela é interpretada para a nossa realidade, como tesouro em vasos de barro que chega a uma nova geração. Não é Palavra lida apenas individualmente no isolamento doméstico, mas ouvida comunitariamente de forma objetiva no culto cristão onde Deus nos serve com a sua Palavra.
No que diz respeito à doutrina, é preciso distinguir Norma Normans de Norma Normata. Norma Normans é a Norma que rege; Norma Normata é a norma que é regida. A Bíblia é Norma Normans: norma que rege; as doutrinas da Igreja são Norma Normata: normas regidas pelas Escrituras. As doutrinas (os ensinamentos) da Igreja jamais podem estar acima das Escrituras. Por isso Lutero respondeu na Dieta de Worms em 1521:
A não ser que seja convencido por testemunhos das Escrituras ou por argumento evidente (pois não acredito nem no papa nem nos concílios exclusivamente, visto que é certo que os mesmos erraram muitas vezes e se contradisseram a si mesmos) – estou vencido pelas Escrituras por mim aduzidas e minha consciência está presa na palavra de Deus – não posso nem quero retratar-me de nada, porque agir contra a consciência não é prudente nem íntegro. Que Deus me ajude. Amém.2
Assim, a consciência de Lutero está cativa à Palavra de Deus. A Bíblia é sua Norma Normans. Os ensinamentos incorretos da Igreja Católica denunciados por ele são Norma Normata e precisavam ser corrigidos pelas Escrituras.
A BÍBLIA E A ESPIRITUALIDADE
A espiritualidade cristã é essencialmente a espiritualidade de um livro: a Bíblia. As Escrituras estão no centro da espiritualidade cristã através da sua leitura, meditação, oração e contemplação (Lectio Divina). Podemos resumir estes 4 pontos através da carta de Guido, a “escada dos monges”:
A leitura procura a doçura da vida bem-aventurada, a meditação a encontra, a oração pede, a contemplação a experimenta. A leitura, de certo modo, leva à boca o alimento sólido, a meditação o mastiga e tritura, a oração consegue o sabor, a contemplação é a própria doçura que regala e refaz. A leitura está na casca, a meditação na substância, a oração na petição do desejo, a contemplação no gozo da doçura obtida.
E continua:
A leitura sem a meditação é árida, a meditação sem a leitura é errônea, a oração sem meditação é morna, a meditação sem a oração é infrutífera. A oração com fervor obtém a contemplação, mas a aquisição da contemplação sem a oração é rara ou miraculosa.3
Essas camadas proporcionam um encontro profundo com o texto Bíblico e com o próprio Deus. Para serem praticadas, requerem muita ascese (exercício/disciplina), oração, silêncio e tempo. No silêncio e na paciência Deus fala através da sua Palavra e desperta o amor às letras e o desejo de Deus.
Outra forma mais utilizada na Igreja Católica Apostólica Romana é a chamada Liturgia das Horas que tem como objetivo santificar o dia através da leitura da Bíblia. As horas não são aleatórias, mas possuem fundamento bíblico na Sexta-feira Santa e nos Pais da Igreja. Já encontramos esses momentos de oração em Atos dos Apóstolos onde aconteciam três vezes ao dia: às 9 horas da manhã (chamada hora terça), ao meio-dia (hora sexta) e às 15 horas (hora nona). Estas eram as horas canônicas4 onde os seguidores de Jesus paravam o que estavam fazendo para orar o Pai-nosso, conforme ensinado por Jesus (cf. Mateus 6.9-15; Lucas 11.2-4). Importante era que esses momentos de oração fossem encontros com Deus e não oportunismo para a vanglória e soberba humana (cf. Mateus 6.5-8). Em Atos 3.1, lemos: “Pedro e João subiam ao templo para a oração da hora nona”. Atos 10.9: “No dia seguinte, indo eles de caminho e estando já perto da cidade, subiu Pedro ao eirado, por volta da hora sexta, a fim de orar”. E Atos 10.30: “Respondeu-lhe Cornélio: Faz, hoje, quatro dias que, por volta desta hora, estava eu observando em minha casa a hora nona de oração, e eis que se apresentou diante de mim um varão de vestes resplandecentes”. Logo, o próprio Novo Testamento não deixa dúvidas de que a liturgia fazia parte das primeiras comunidades cristãs, organizando a vida de oração dos cristãos individualmente e comunitariamente. Já Hipólito de Roma menciona as horas canônicas de oração, dando a elas um sentido cristológico: “Se estiverdes em casa, rezai e bendizei a Deus na hora terceira. Se estiverdes num outro local, rezai a Deus no coração, pois foi nessa hora que Cristo se viu pregado no madeiro”5. “Rezai, igualmente, na hora sexta pois, quando Cristo foi pregado na cruz, o dia se dividiu e as trevas surgiram”6. “Façam, ainda, uma grande prece exaltando o Senhor por volta da hora nona, para sentirem como a alma dos justos glorifica a Deus, que não é mentiroso e lembra dos seus santos, enviando seu Verbo para iluminá-los”7.
Não há aqui espaço para maiores aprofundamentos deste assunto. Importante é que a Bíblia esteja presente no dia a dia da pessoa cristã através da leitura devocional (que pode ser um Devocionário) e no Domingo através do ouvir no culto que desperta a fé. Não existe espiritualidade cristã sem a atenção e o ouvir da Palavra de Deus.
CONCLUSÃO
Assim escreveu o professor Uwe Wegner:
“Fazer exegese” é um trabalho fascinante. Por seu intermédio, procuramos interpretar a Bíblia (...). O fascínio da exegese reside também no fato de que a Bíblia nos interpreta. Ela também é sujeito de interpretação. Como Palavra de Deus, ela “penetra até dividir alma e espírito”, julgando as disposições e as intenções do coração.8
A riqueza de ler e ouvir as Escrituras é saber que não estamos sozinhos, mas que o Espírito Santo nos acompanha e auxilia. Por nossa conta, nada podemos compreender; através do Espírito Santo, a Palavra se torna compreendida quando meditada com profundidade. Então descobrimos que não apenas nós lemos a Bíblia, mas que a Bíblia também nos lê e interpreta. Não apenas conhecemos as Escrituras, mas as Escrituras nos conhecem.
Por isso é de suma importância ler e ouvir a Palavra de Deus para si mesmo. Quando ouvimos a Palavra de Deus pensando no próximo, perdemos a oportunidade de sermos transformados pelo Espírito Santo para darmos frutos. Jamais devemos ouvir a Palavra de Deus pensando em como seria bom se “meu cunhado, vizinho, parente” a escutasse. “O chapéu deve servir a nós mesmos”. Quem escuta a Palavra de Deus para os outros perde a oportunidade de receber o agir de Deus em sua própria vida.
Portanto, que a Bíblia tenha um lugar especial na sua vida e na sua espiritualidade. Ela é a Palavra de Deus em linguagem humana. Nela, encontramos a Palavra viva de Deus: Jesus Cristo, o Senhor. Nela, encontramos o caminho da Salvação – somente nela: Somente as Escrituras.
Amém.
Notas
Cf. BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. 8. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2004. p. 8-19.
↩LUTERO, Martinho. “Discurso do Dr. Martinho Lutero perante o Imperador Carlos e os Príncipes na Assembleia de Worms – Quinta-feira depois de Misericórdias Domini – 1521. in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas: Fundamentação da Ética Política: Governo – Guerra dos Camponeses – Guerra contra os Turcos – Paz Social. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal; Canoas: ULBRA; Porto Alegre: Concórdia, 2016. p. 126.
↩GUIGO II, Cartuxo. A escada dos monges: a vida contemplativa. Petrópolis: Vozes, 1996.
↩Cf. LIMA VIEIRA, Daniel de. Lecionário Devocional. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2025. p. 11.
↩ROMA, Hipólito de. Tradição Apostólica. Florianópolis, 2025. p. 27. Disponível em: <https://byblos.ecclesia.org.br/wp-content/uploads/2025/02/Tradicao-Apostolica-de-Hipolito-de-Roma.pdf>. Acesso em: 04. fev. 2026.
↩ROMA, 2025. p. 27.
↩ROMA, 2025. p. 27.
↩WEGNER, Uwe. Exegese do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1998. p. 17.
↩