Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

Voltar a Pregações
Comunidade de várias gerações compartilha uma refeição.Pregações

A Grande Família de Deus

Amados irmãos, amadas irmãs,

reconstrução! Essa é a palavra-chave do nosso texto bíblico. A cidade de Jerusalém havia sido destruída; o templo de Jerusalém foi derrubado; o povo de Judá foi levado para o exílio babilônico. O povo que antes tinha o benefício de viver na terra prometida por Deus foi arrastado para uma terra estrangeira. Todos os judeus foram deportados para a Babilônia – para que estivessem impedidos de se fortalecerem novamente.

E então, após 70 anos de exílio, chegou a hora de voltar. O exílio terminou quando o Império Persa, sob o rei Ciro, o Grande, conquistou a Babilônia em 539 a. C. Assim, Ciro permitiu que os judeus retornassem a Judá e reconstruíssem o Templo de Jerusalém. O Decreto do Rei Ciro pode ser encontrado em Esdras 1.1-4, onde está escrito: “No primeiro ano do reinado de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor, por boca de Jeremias, o Senhor despertou o espírito de Ciro, rei da Pérsia, que ordenou que se proclamasse em todo o seu reino e que se pusesse por escrito o seguinte: “Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O Senhor, Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra e me encarregou de lhe edificar um templo em Jerusalém, que fica em Judá. Aquele dentre vocês que for do seu povo, que o seu Deus esteja com ele e que suba para Jerusalém, que fica em Judá, e edifique a Casa do Senhor, Deus de Israel; ele é o Deus que está em Jerusalém. Todo aquele que restar, seja qual for o lugar em que habita, que os homens desse lugar ajudem com prata, ouro, bens e gado, além das dádivas voluntárias para a Casa de Deus, em Jerusalém”.

Esdras e Neemias vão nos contar sobre os detalhes desse tempo de reconstrução. Inclusive, deixo como dica a todos nós que leiamos os livros de Esdras e Neemias durante as próximas duas semanas. Eles trazem maravilhosos detalhes sobre a grande volta do povo de Deus à sua própria terra. E as palavras do profeta Isaías, dos capítulos 56 a 66, também são palavras dirigidas ao povo que está tentando reconstruir Jerusalém e o templo. O capítulo 56 está apenas no início dessa jornada de reconstrução. Mas não bastava voltar à terra: era preciso reconstruir a si mesmos.

Diante do retorno para Jerusalém, o povo de Deus vive uma “crise de fé” e de identidade. De um lado, eles são o original povo de Deus que está retornando para a terra prometida; de outro lado, há aqueles poucos que ficaram em Jerusalém durante aqueles últimos 70 anos e que se misturaram aos costumes e culturas dos outros povos. Ou seja: de um lado há aqueles que acham que só eles são o povo de Deus; de outro lado, há aqueles que abriram suas fronteiras para que outros façam parte do povo de Deus. A pergunta é: quem está certo? Os originais ou os que se misturaram?

Através da boca do profeta Isaías, o próprio Deus fala ao seu povo sobre a sua identidade. Isaías 56 é essa resposta! Isaías 56 é um texto sobre a inclusão dos povos estrangeiros na própria terra de Judá. Deus diz ao povo por meio da boca do profeta: “porque a minha casa será chamada ‘Casa de Oração’ para todos os povos” (Isaías 56.7). Ou seja: não haverá exclusão! Deus está disponível para todos que quiserem se achegar a ele – sendo judeus ou não!

Não aos muros; sim às pontes! Não ao ódio que isola; sim ao amor que nos une! Não ao preconceito; sim à diversidade! Não à intolerância; sim à empatia! Não às exclusões; sim à inclusão!

Inevitavelmente, esse texto bíblico me lembra da crise dos refugiados que embora não nos afete tanto no Brasil, é uma situação bastante presente na Europa. Milhares de pessoas estão fugindo da guerra, da miséria, da fome, da morte em seus próprios países. O simples ato de fugir já é em si um grande ato de sobrevivência. Porém, quando chegam às fronteiras dos países chamados “desenvolvidos”, muitos desses sobreviventes tem as ‘portas fechadas’ em suas caras. Não são acolhidos. Não são aceitos. Não são amparados.

Em 2015, nossa turma de Teologia foi conhecer diferentes religiões na cidade de Curitiba/PR. Ao visitar a Igreja Ortodoxa Antioquina, conhecemos o Padre Samaan Nasri. Ele é um fugitivo da guerra da Síria e estava recomeçando a sua vida no Brasil. Na ocasião, ele mesmo nos contou que para evitar a morte, só havia uma saída: fugir! Antes de sair da Síria, Samaan teve sua Paróquia destruída pelo Estado Islâmico. De maneira assustadora, ele nos contou também sobre as horríveis cenas das várias pessoas que o Estado Islâmico havia decapitado e jogado seus corpos nas ruas. Após todos os cristãos deixarem a cidade, foi a sua vez. Aqui no Brasil, Samaan e sua família foram bem acolhidos. Todos ganhamos naquele dia o ícone do Cristo Pantocrátor (Todo-Poderoso).

Ao ler Isaías 56, imediatamente me lembrei de Samaan Nasri e de tantos outros refugiados que não procuram outra coisa senão segurança e uma possibilidade de reconstrução. E perguntas me vêm à mente: por que pessoas ainda são excluídas? Por que pessoas são desumanizadas por serem de uma nação ou cultura diferentes? Por que erguer muros quando podemos construir pontes? Por que manifestar ódio quando podemos gerar a empatia? Por que aprender a odiar se podemos aprender a amar? Martin Luther King Jr., o pastor batista e ativista dos direitos civis nos EUA, disse:

Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor da sua pele, ou sua origem, ou sua religião. As pessoas têm que aprender a odiar, e se elas podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto.1

Como Isaías 56 é atual! Isaías 56 é um texto que fala sobre acolhimento, inclusão e justiça. Já sabemos o significado do acolhimento e da inclusão. Mas, conforme o nosso texto, o que significa a justiça?

1) Justiça é agir pelo coletivo: do ponto de vista do texto bíblico, a justiça não é apenas o amparo aos interesses individuais e egoístas de cada um. Justiça, do ponto de vista bíblico, não é cada um conseguir o que quer – apenas para si! A justiça pressupõe o coletivo. Portanto, os judeus que estavam voltando a Jerusalém não deveriam pensar apenas em si mesmos, mas nos outros judeus e nos estrangeiros que lá viviam. Assim, poderiam todos juntos (mesmo nas diferenças) fazerem parte da grande família de Deus;

2) Justiça é ter misericórdia: fazer o que é certo é justo; fazer o que é bom é melhor ainda. A justiça é boa, mas a misericórdia é ainda melhor. E muitas vezes, para agir com misericórdia nós precisamos renunciar àquilo que é nosso por direito para que a outra pessoa seja auxiliada. Isso acontece até mesmo nas contribuições mensais e nas ofertas no culto: você tem direito ao seu tesouro, pois trabalhou para tal. Isso é justo. Porém, é a misericórdia que faz você ir além, beneficiando também ao seu próximo com a sua oferta ou contribuição. Se a justiça é boa, a misericórdia é melhor ainda!

3) A justiça é acolhedora: por isso mesmo que ela é cega. A cegueira da justiça não diz respeito a não ver o que é justo; ao contrário, a justiça é cega para que trate de todas as questões de igual maneira. Ela acolhe a todos. Aceita a todos. Concede os mesmos direitos e deveres a todos. Não há exclusão. Nesse sentido, é tarefa da justiça equilibrar a balança para que todos possam ter acesso aos mesmos benefícios, como saúde, educação, segurança etc. – desde o que vive no condomínio até o que vive na favela;

Amados irmãos, amadas irmãs,

assim é a grande família de Deus! Há lugar para todas as pessoas aqui em nossa comunidade? Ou ainda olhamos estranho quando entra alguém que é um “pouco diferente” do que esperávamos? Tem acolhida aqui? Qualquer pessoa que chegar até nós encontrará uma “grande família de Deus”?

Judá vivia um momento de reconstrução. Sua identidade foi ampliada. A identidade do povo de Deus já não estava mais ligada à descendência, mas à Palavra de Deus! Deus disse: “Aos estrangeiros que se aproximam do Senhor, para o servir e para amar o nome do Senhor, sendo deste modo servos deles, sim, todos os que guardam o sábado, não o profanando, e abraçam a minha aliança, também os levarei ao meu santo monte e lhes darei alegria na minha Casa de Oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar, porque a minha casa será chamada ‘Casa de Oração’ para todos os povos”. (Isaías 56.6-7). É Deus quem disse que Judá seria um povo inclusivo; se Deus disse, está dito! Basta a sua Palavra!

Isso se concretizou ainda mais no Novo Testamento. O nosso primeiro versículo diz: “porque a minha salvação está prestes a vir”. (Isaías 56.1). Para a palavra “Salvação” temos no hebraico original do Antigo Testamento a palavra יְשׁוּעָה (yeshu'ah) que significa “Salvação”, mas também é o nome Jesus. Poderíamos, sim, hoje traduzir o versículo como: “porque Jesus está prestes a vir”.

E ele veio! E quanto ele veio, a Grande Família de Deus se ampliou ainda mais. “Todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome”. (João 1.12).

Assim é o Reino de Deus. Aqui você tem lugar! Venha como estás. Faça parte desse reino. Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que não há como ser cristão sem agir com misericórdia e acolhimento. Se alguém se diz cristão, mas não pratica a misericórdia e a acolhida, está mentindo! Precisamos ser uma igreja aberta. Ou, como diz o Plano de Ação Missionária da IECLB, precisamos ser uma igreja atrativa, inclusiva e missionária.

Que todos tenham aqui dentro deu espaço e sua voz. Que todos tenham aqui o seu lugar, desde as crianças até os idosos. Que todos possam chamar essa igreja de sua comunidade. Que todos possam viver a fé com justiça, mas também com misericórdia, contribuindo com seu tempo, talentos e tesouro.

Vamos ser igreja que acolhe, que ama, que ampara. Não tratemos os diferentes como “estranhos”; ao contrário, tratemos uns aos outros como irmãos e irmãs; fazemos parte da grande família de Deus.

Por isso, vamos cantar juntos:

Somos a família de Deus, sim

somos a família de Deus.

Ele tem nos chamado pra ter união

trazendo ao mundo a luz.

Amém.

Notas e referências

  1. Frase citada por: NIEWÖHNER, Stéfani; MATIAS, Fernando José. “Acolher o diferente e praticar a justiça”. apud: HEFELMANN, Verner (Coord.). Proclamar Libertação. v. 47. São Leopoldo: Sinodal, 2022. p. 242.

    ↩