Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Maria e José contemplam Jesus recém-nascido na estrebaria.Pregações

A mensagem de Natal

Amados irmãos, amadas irmãs,

nasceu a luz do mundo; nasceu o pão da vida; nasceu o bom pastor; nasceu a ressurreição e a vida; nasceu a porta das ovelhas; nasceu a videira verdadeira, nasceu o Alfa e o Ômega, nasceu o caminho, a verdade e a vida!

Jesus nasceu! Deus nasceu! É um bebê ao mesmo tempo em que é Deus. É o Deus-Filho, enviado pelo Deus-Pai e concebido na força do Deus-Espírito Santo. É o Emanuel, o Deus Conosco. Deus não distante no céu. Deus não com raios dos olhos e espada na mão. Deus não com vontade de aniquilar o pecador. Não! O Deus Conosco que é Deus perto, Deus presente, Deus que se faz gente como a gente, Deus que sofre, Deus que vem para passar por tudo o que passamos. Em Jesus não temos um deus como nossa mente costuma imaginar: velho, ranzinza com uma enorme barba branca. Não! Em Jesus temos a face do Deus que é um bebê, o Deus que tem um rosto gracioso e amoroso como uma criança, o rosto de uma criança que chora porque saiu do confortável ventre da sua mãe. Deus também nasceu chorando. E foi acolhido no colo quente e amoroso de sua mãe Maria. Maria que amamentou Deus, dizia Lutero, não apenas o bebê Jesus. O próprio Deus que nasceu em um rancho, um paiol fedido e com coco e xixi de animais. Deus que se encarna e entra neste mundo em um dos piores lugares para alguém nascer. Jesus é Deus que não nasceu em um hospital higienizado e limpinho, mas em uma das estrebarias de Belém. Deus que não nasce no centro onde há muito movimento e compras, compras e compras, preocupações, pressa, aglomeração! Não! Deus não nasceu no centro! Deus nasceu na periferia, na margem. E por Deus estar ali, a periferia, o lugar à margem se torna o centro, o lugar mais importante da cidade de Jerusalém, mesmo sendo um lugar desconhecido e não procurado por ninguém.

Jesus é o Deus que entrou em nosso mundo. É o Verbo que se fez carne e habitou entre nós. Não precisamos mais crer em um deus distante, raivoso e impiedoso; Não! Podemos crer no Emanuel que é o Deus Conosco, aqui em baixo, pertinho da gente e que está com quem sofre e se encontra não no centro das atenções, mas à margem!

Esta é a maravilhosa mensagem de natal. Deus está presente! Deus está conosco! Deus habita também em nosso coração. No natal, Deus anuncia ao mundo uma tocante e maravilhosa mensagem. E é sobre essa mensagem – a melhor notícia que o mundo já recebeu, mesmo não estampada em nenhuma capa de jornal – que queremos falar nesta noite, para que também nós, mais de 2000 anos depois, possamos nos maravilhas com essa linda mensagem de Deus a nós.

1 A MENSAGEM RECEBIDA (v. 8-12)

Os primeiros a receberem a mensagem do natal também estavam à margem, na periferia e não no centro. Enquanto muitos aproveitavam o recenseamento convocado pelo Imperador Romano César Augusto (cf. Lucas 2.1) para encontrar parentes, amigos e festejar a vida, os pastores continuavam cuidando das suas ovelhas no campo. A noite daqueles pastores era uma noite como qualquer outra. Não apresentava nada de especial. Os pastores que cuidavam das ovelhas sujas e eram considerados sujos e imundos pelos fariseus, escribas, enfim, as autoridades religiosas daquele tempo. Os pastores de ovelhas eram gentalhas, gente que não serve quase para nada, gente desprezada e tirada do centro.

E então, àqueles pastores que são uma classe humilhada e desprezada, aparece um anjo. No grego do Novo Testamento, a palavra anjo significa mensageiro. Então, pôs-se um mensageiro diante deles. E claro que ficaram com medo. Quem não ficaria? E qual é a primeira mensagem de natal? “ – Não tenham medo!” (Lucas 2.10). Não tenham medo é a primeira mensagem de natal. Não se desesperem. Fiquem calmos. O que trago a vocês é uma boa notícia. Essa é a mensagem do mensageiro. Enviado por Deus não para amedrontar, mas para confortar!

Os pastores de ovelhas sujos são os primeiros a receberem a notícia do natal. Aqueles considerados imundos pelos tais “queridinhos de Deus” que eram os fariseus e escribas é que recebem a notícia do nascimento de Jesus. Percebe como Deus inverte as coisas? Percebe como o centro mudou de lugar? Antes, o centro estava nas gloriosas hospedarias e nas festanças de Belém; agora, o centro está na estrebaria e os desprezados pastores são os primeiros a saber disso. William Barclay, um falecido teólogo inglês e pastor da Igreja da Escócia, disse: “os pastores que cuidavam dos cordeiros do templo fossem os primeiros a ver o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”1. É assim que a mensagem foi recebida por aqueles que de um dia comum foram subitamente ao melhor dia de toda a história, capaz de dividi-la em antes e depois de Cristo. E assim, vamos ao segundo ponto:

2 A MENSAGEM GLORIOSA (v. 13-14)

Após o mensageiro entregar a sua mensagem e dar o “endereço” onde poderiam encontrar o Salvador, aconteceu uma linda revelação. Um glorioso coral de anjos aparece louvando a Deus e dizendo em alta voz: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens a quem ele quer bem.” (Lucas 2.14). Os céus se enchem de glória e a terra se enche de paz. Deus não quer o mal para os seres humanos, Deus quer o seu bem. E envia seu único Filho como encarnação do seu amor para dentro do nosso mundo. É assim que foi composto o primeiro e mais original hino de natal, entoado naquela noite onde a glória não estava nas hospedarias, mas no céu e na terra, na manjedoura de Belém e acima da cabeça e da compreensão dos humildes pastores. O pastor presbiteriano brasileiro Hernandes Dias Lopes diz: “Os céus cobriram-se de anjos, as nuvens transformaram-se em partituras musicais e uma música excelsa ecoou das alturas, o Gloria in Excelsis”2. Uma noite tão linda e maravilhosa para aqueles olhos que a puderam ver. Graças a Deus pelo médico e historiador Lucas que fez questão de colocar essa história com tantos detalhes no seu Evangelho. Ele que não estava entre os discípulos, mas que pesquisou tudo com detalhes para nos expor esses acontecimentos (cf. Lucas 1.1-4). E vamos ao terceiro ponto:

3 A MENSAGEM VISTA (v. 15-19)

Certamente, aquela cena majestosa poderia ser vista o dia inteiro. Mas eles precisavam ir. Os anjos se afastaram e voltaram para o céu. Os pastores então conversam entre si, usando dois verbos bem especiais: “Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer.” (Lucas 2.15).

Primeiro eles dizem vamos. É preciso ir até Belém. Não sabemos a que distância Belém se encontrava deles, mas certamente isso levou alguns dias. Não foi imediatamente. Eles decidem: vamos. Utilizando a linguagem dos jovens de hoje, colocaríamos a hashtag #partiubelém. #Bora! E dizem o segundo verbo que é vejamos. Eles querem ir e ver com os próprios olhos o que os anjos lhes testemunharam. Se aquele coro majestoso já foi especial, imagina só ver o próprio Deus que se fez gente, o próprio Salvador, o próprio Cristo, o Senhor, deitado em uma manjedoura. Os pastores não tinham sequer permissão para acessar o Templo. Eram considerados sujos. Imundos. Mas são esses pastores que agora são escolhidos para irem até Belém e verem o Salvador. De desprezados foram tornados em escolhidos.

A mensagem de natal está deitada na manjedoura. Jesus é, em pessoa, a própria mensagem de natal. Ele não só anunciará a mensagem, mas ele mesmo é a mensagem. Jesus em pessoa é a carta – a Palavra – que Deus enviou a este mundo. Uma mensagem que não é apenas lida, mas vista. A mensagem do natal é uma pessoa: Jesus Cristo. Eles encontraram Maria e José e a criança deitada na manjedoura. Eles viram Deus deitado em uma manjedoura. Eles viram a mensagem de Deus que se fez carne e habitou entre nós. Eles podem se aproximar de Deus que se fez fraco e indefeso como um bebê.

O grande e conhecido filósofo inglês Blaise Pascal testemunha: “Jesus Cristo é um Deus de que a gente se aproxima sem orgulho, e sob o qual a gente se abaixa sem desespero”3. Esta frase é muito profunda! Diante do Deus deitado na manjedoura, o nosso orgulho cai por terra, pois o ser mais poderoso que existe agora se fez fraco em um coxo onde os animais comem. Não há como manter qualquer orgulho ou prepotência diante de Jesus; ao mesmo tempo, posso estar debaixo dele sem desespero por sofrer algum castigo ou sofrer a sua ira. Posso estar debaixo dele sem desespero, pois ele é humilde, manso e humano. “Jesus Cristo é um Deus de que a gente se aproxima sem orgulho, e sob o qual a gente se abaixa sem desespero” Esse é o Deus do natal. Esse é o Deus visto pelos pastores. Esta é a mensagem vista pelos pastores. Eles não vão até o Emanuel com orgulho, mas com humildade; e também não vão ao Emanuel com medo, mas com alegria. É assim que vamos a Jesus nesta noite. Podemos nos aproximar dele sem orgulho e também se abaixar diante dele sem desespero. E vamos ao quarto e último ponto:

4 A MENSAGEM ESPALHADA (v. 17-20)

Os pastores viram o Salvador. A seguir, contaram a Maria e José como ficaram sabendo do nascimento do Salvador. Todos ficaram admirados com o seu anúncio, com o seu testemunho. “Todos os que ouviram se admiraram das coisas relatadas pelos pastores.” (Lucas 2.18). Essa mesma admiração temos nós hoje ao lermos esse testemunho escrito pelo médico e historiador Lucas. Maria, ao ouvir o relato dos pastores, fez o que todos nós devemos fazer, pois ela “guardava todas estas palavras, meditando-as no coração.” (Lucas 2.19).

Então os pastores voltaram. E tudo o que viram agora era seu testemunho. Esse acontecimento precisava ser testemunhado, precisava ser divulgado. Deus desceu até nós e se fez gente como a gente. O Salvador não era apenas Salvador de Maria, José e dos pastores, mas do mundo inteiro. Jesus veio para salvar! É o Salvador que é o que significa a palavra Jesus. Jesus é o Salvador porque o nome Jesus significa Salvador; ao mesmo tempo, ele é o Ungido, pois o nome Cristo significa o ungido. Jesus Cristo é o Salvador Ungido enviado dos céus para toda a humanidade perdida no pecado, no orgulho e na arrogância.

Lutero diz: “Os anjos não precisam do Redentor, e os diabos não o querem. Ele veio por nossa causa, nós é que precisamos dele”4. Sim, amados irmãos e irmãs: Jesus não veio para os anjos e nem para os diabos. Jesus veio para nós! Jesus é o aniversariante, mas quem ganha o presente somos nós. Ganhamos o presente do Salvador Ungido, o presente daquele que veio morrer para nos dar a Salvação, nos substituir na cruz. A mensagem do amor de Deus vem para você e para mim.

Em Jesus, a vida ganha um novo significado: amar a Deus e amar ao próximo. Esse é o sentido da vida. Um sentido que não é meu. A pergunta não é qual o meu sentido da vida, mas qual é o nosso sentido da vida. Ele veio para nós para que vivamos não para si mesmos, encurvados em si, mas diante de Deus e diante do próximo. Recorro outra vez a Blaise Pascal que diz: “Fora de Jesus Cristo não sabemos o que é nossa vida, nem nossa morte, nem Deus, nem nós mesmos.” Ele diz também: “todos os que procuram Deus fora de Jesus caem ou no ateísmo”5. Hoje poderíamos dizer: sem Jesus Cristo, o natal é só um comércio, só um amontoado de luzes e enfeites que dão uma satisfação momentânea, mas que não sustenta a vida por um ano inteiro. Receber a mensagem de Jesus é viver com Jesus diariamente e não apenas no Natal e na Páscoa. É a certeza de que de fato ele é o Emanuel, o Deus conosco dia a dia, na vida e na morte.

Que também nós nessa noite recebamos a mensagem de natal, percebamos a glória na mensagem de natal, vejamos a mensagem de natal que é o próprio Jesus Cristo; anunciemos esta mensagem sem ter medo ou vergonha de testemunhar que quem nasceu em Belém é o Deus-Filho. Só assim o natal faz sentido. Só assim o natal é natal: se a sua mensagem – que é o próprio Deus em pessoa – estiver no centro da nossa vida, família e comunidade.

O Senhor é Conosco.

Amém.

Notas e referências

  1. BARCLAY, William. Lucas. Buenos Aires: La Aurora, 1973, p. 27.

    ↩
  2. DIAS LOPES, Hernandes. Lucas. São Paulo: Hagnos, 2017. p. 73. (Edição do Kindle). Grifo do autor.

    ↩
  3. PASCAL, Blaise. Pensamentos. Brasília: Monergismo, (sem ano). p. 92. (Arquivo PDF).

    ↩
  4. Referência ainda não encontrada, senão em comentários bíblicos.

    ↩
  5. PASCAL, (sem ano), p. 59.

    ↩