PregaçõesA Palavra que confronta e transforma
Amados irmãos, amadas irmãs,
Jeremias não viveu em uma época fácil. A nação de Judá não ia bem. A fé em Deus havia se perdido. Falsos profetas anunciavam uma mensagem que “passava a mão na cabeça”, mas não tocava no fundo do coração dos ouvintes. O povo passou mais a confiar em coisas e em pessoas do que no seu próprio Deus.
Neste contexto, Jeremias recebe o seu chamado ainda jovem. No início, ele rejeita a ideia de ser profeta, ou seja, de falar em nome de Deus, pois era jovem demais para isso. Ele diz: “ah, Senhor Deus! Eis que não sei falar, porque não passo de uma criança. Mas o Senhor me disse: Não digas: Não passo de uma criança; porque a todos a quem eu te enviar irás; e tudo quanto eu te mandar falarás.” (Jr 1.6-7). E diz o livro que Deus tocou na boca de Jeremias para pôr nele as suas palavras.
Um profeta não é (como costumeiramente acreditamos) um adivinhador do futuro. Pelo contrário. Um profeta é aquele que é responsável por anunciar a Palavra de Deus. Ao conhecer a Palavra de Deus, anuncia a mesma aos corações de seus ouvintes. Esta era a tarefa de Jeremias. Deus lhe deu a sua Palavra. Jeremias deveria anunciar a mensagem de Deus tanto ao povo quanto aos poderosos de seu tempo. A Palavra tem poder para destruição e construção. Deus criou tudo o que existe por meio da Palavra! Por isso, Deus diz a Jeremias: “Olha que hoje te constituo sobre as nações e sobre os reinos, para arrancares e derribares, para destruíres e arruinares e também para edificares e para plantares.” (Jr 1.10).
Além disso, aquilo que Deus anuncia se cumpre. Esta é a garantia de que aquilo que o profeta irá anunciar não é uma palavra sua, mas, de fato, a Palavra de Deus. Por isso, Deus também diz a Jeremias: “porque eu velo sobre a minha palavra para a cumprir.” Aquilo que Deus anuncia ele também cumpre! Jeremias era só um “moleque” que a maioria desprezava. Mas foi este humilde servo de Deus que recebeu a Palavra do Senhor a ser anunciada ao povo e aos grandes de seu tempo. O poder não estava em Jeremias. O poder estava no próprio Deus que anuncia sua Palavra ao seu povo.
Mas, afinal de contas, qual era o problema? O Reino estava dividido. Roboão, filho de Salomão e neto de Davi, impôs taxas e um trabalho tão duro ao povo que as 10 tribos do norte, sob a liderança de Jeroboão se rebelam e formam um novo reinado, o do norte, que será chamado de Israel e cuja capital era Samaria. No sul, ficam duas tribos sob a liderança de Roboão, formando o reino chamado de Judá e a capital será Jerusalém. Israel foi levado ao cativeiro assírio em 722 a. C. e nunca mais retornou (cf. 2 Rs 18). Os seus sobreviventes serão chamados, posteriormente de samaritanos.
Já o sul, Judá, encontra-se em uma enorme crise de fé. As pessoas preferiam confiar no comércio com os povos vizinhos a confiar na fidelidade de Deus. Além disso, acreditavam que por terem o Templo de Salomão na cidade de Jerusalém, nada poderia lhes acontecer. Ao invés de ser um lugar de adoração e sacrifício a Deus, o templo havia se tornado em um amuleto de sorte, um instrumento de superstição como se a construção, por si, pudesse salvar e proteger o povo. Por isso, em Jr 7.4, Deus diz através do profeta: “Não confieis em palavras falsas, dizendo: Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é este.” Ou seja: estavam adorando ao templo e não ao Deus do templo. Além disso, Judá começa a fazer uma política de ping-pong onde de vez em quando procurava fazer alianças com o Egito e outras vezes com a Babilônia, não sendo fiel a nenhum dos dois e causando raiva em ambos.
Para que as pessoas voltem para a Palavra da verdade e para a verdadeira fé em Deus é que o Senhor chamou Jeremias. Ele deveria pregar a Palavra da verdade para que o povo de Deus voltasse a Deus e deixasse de lado a confiança no mundo do aqui e agora.
Entretanto, é interessante notar que Jeremias não anuncia que os problemas irão deixar de vir. Ao contrário, ele pede ao povo justamente o contrário. A mensagem de Jeremias não quer prevenir que o seu povo seja arrastado para a Babilônia. Pelo contrário, o povo de Deus precisaria passar pelo juízo, pelo sofrimento e pela provação para ser purificado de todos os seus pecados. Em Jr 8.7, Deus diz: “Até a cegonha no céu conhece as suas estações; a rola, a andorinha e o grou observam o tempo da sua arribação; mas o meu povo não conhece o juízo do Senhor.”
Portanto, não havia volta. O povo de Judá precisaria passar pelo juízo, para que houvesse verdadeiro arrependimento e para que pudesse voltar novamente ao caminho do Senhor. Era isso que Jeremias deveria pregar. Mas era exatamente isso que o povo e os poderosos de seu tempo não queriam ouvir. O profeta Jeremias sofreu muito por causa disso.
Jeremias ditava as palavras e Baruque, outro servo de Deus, as copiava. Quando o rei Jeoaquim recebeu o livro, ficou irado e o entregou a Jeudi que, conforme Jr 36.23, “Tendo Jeudi lido três ou quatro folhas do livro, cortou-o o rei com um canivete de escrivão e o lançou no fogo que havia no braseiro, e, assim, todo o rolo se consumiu no fogo que estava no braseiro.” Porém, o poder de Deus é maior que o fogo. Jr 36.28 diz: “Toma outro rolo e escreve nele todas as palavras que estavam no original, que Jeoaquim, rei de Judá, queimou.” Por isso, temos o livro de Jeremias na Bíblia. Se não tivessem copiado tudo novamente, não teríamos este livro tão importante das Escrituras.
Mas, além disso, havia ainda um outro grave problema: os falsos profetas. Jeremias havia sido chamado por Deus para anunciar a palavra da verdade. Mas, havia entre o povo falsos profetas que diziam que, no fim das contas, tudo ia dar certo, que eles não iriam precisar passar pelo julgamento de Deus. Os falsos profetas anunciavam que não iria haver desgraças, mas a paz estaria sempre com eles. Ou seja: os falsos profetas tinham um discurso religiosamente correto mas que não estava de acordo com a real necessidade do povo naquele momento. Por mais que seja ruim, a tarefa do profeta naquele momento era anunciar o juízo de Deus que, sim, faz parte do amor, pois quem ama, corrige. Um pai e uma mãe corrigem seus filhos porque os amam; do contrário, os deixariam ir para a desgraça.
Os falsos profetas anunciavam que haviam tido sonhos. Diz o v. 25: “Tenho ouvido o que dizem aqueles profetas, proclamando mentiras em meu nome, dizendo: Sonhei, sonhei.” A tarefa do profeta, daquele que anuncia a mensagem de Deus, é falar a verdade e não aquilo que pode amaciar a consciência. A tarefa do pregador é anunciar a verdade e não pregar uma “palavra light” que, no final das contas, não é capaz de gerar nenhuma mudança verdadeira. A tarefa do mensageiro é pregar o que o povo de Deus precisa ouvir e não aquilo que ele quer ouvir. E, claro, muitas vezes, a Palavra de Deus arde em nossos ouvidos.
Diz o Senhor no v. 29: “Não é a minha palavra fogo, diz o Senhor, e martelo que esmiúça a penha?” Ou seja: A palavra de Deus é como um fogo que consome e como um martelo que refina. A Palavra de Deus fala de perdão, reconciliação, amor, mas também fala de um Deus justo que não tolera o pecado. A tarefa do profeta é anunciar a Palavra de Deus assim como ela lhe é comunicada. Tarefa que nem sempre é fácil, mas que deveria fazer parte do ministério de qualquer pastor. Obviamente que isso pode gerar consequências negativas.
Por causa do seu anúncio, Jeremias foi perseguido e precisou se esconder um bom tempo no Egito. Ameaças de morte são comuns àqueles que pregam o verdadeiro evangelho.
Hoje em dia, infelizmente, está entrando na moda (principalmente entre os jovens) o chamado evangelho coach que é uma amenização da Palavra de Deus. São pregadores que dizem coisas belas e bonitas, mas mais vazias que vácuo. Ainda estes dias vi várias pessoas compartilhando um vídeo de um pastor jovem pregando que Jesus é o centro do coração de Deus e o centro do coração de Jesus é você, que Jesus fez tudo apontando para você, ou seja, colocando o ego do ser humano lá em cima. Jesus não fez nada apontando para nós. Nem merecemos isso. Jesus fez tudo apontando para o Pai!
Muitas vezes, recebemos mensagens tão bonitas no celular e logo compartilhamos sem critério nenhum. Às vezes, são mensagens até bonitas, mas que vão contra o que é anunciado na Palavra de Deus. Quantos cristãos ficam compartilhando frases de Chico Xavier no celular.
De repente, se começássemos a pregar esse tipo de mensagem, já teríamos que ter aumentado o tamanho desta igreja de tantas pessoas que a iriam querer frequentar. Porém, do que adiantaria se a mensagem anunciada fosse uma mentira? Deus age pela Palavra da verdade, pois o pai da mentira é o diabo. Anunciamos a graça de Deus, mas também anunciamos o seu juízo.
Todos/as lembramos muito bem de João 3.16, mas deveríamos decorar também João 3.18 onde Jesus diz: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.” Há salvação para quem reconhece seus erros e se prostra diante do Cordeiro em arrependimento. Mas também há condenação para quem acha que pode viver longe de Deus e de maneira irresponsável. Esta é uma palavra dura? Claro que é! Não é do pastor! É de Deus!
Para terminarmos, lembro das palavras do pastor e mártir alemão Dietrich Bonhoeffer. Ele, como Jeremias, se opôs ao regime nazista e, por causa disso, foi enforcado no dia 09 de Abril de 1945. No seu livro Discipulado, Bonhoeffer diz: “A graça barata é graça como doutrina, como princípio, como sistema; é perdão dos pecados como algo já dado por certo”1. E continua: “A graça barata, em vez de justificar o pecador, justifica o pecado”2.
Israel precisou passar pelo fogo e pelo martelo da Palavra de Deus. Foram tempos difíceis. Foram escravizados na Babilônia. Sofreram muito. Muitas pessoas morreram. Inclusive, mataram muitos dos profetas que pregavam o arrependimento. Tudo isso aconteceu por causa do seu distanciamento de Deus.
Entretanto, Deus não se cansou de se relacionar conosco. Deus executou um juízo que, de uma vez por todas, elimina a distância que temos de nosso Pai celestial. Deus executou um juízo único e permanente pela nossa salvação. O apóstolo Paulo nos diz em Gálatas 3.13: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro).” Jesus sofreu todo o juízo de Deus na cruz para que você e eu pudéssemos receber a vitória da salvação. Por isso, se estamos em Cristo, não precisamos temer o juízo divino. Mas se não estamos em Cristo, estamos completamente vulneráveis. Quem nele crer, não está condenado; quem não crer, já está condenado. Você crê em Jesus?
Não vamos baratear a graça de Deus. Que possamos ser cada vez mais fiéis a Deus.
Amém.