PregaçõesA professora inútil
Amados irmãos, amadas irmãs,
praticamente todos nós tivemos professores que nos instruíram em nossa vida. Seja na escola ou na própria família, houve pessoas que passaram a nós ensinamentos valiosos. De repente, de casa aprendemos valores caros como honestidade, o valor do trabalho, etc.; já na escola, recebemos o conhecimento que respalda e ajuda no dia a dia, desde o saber ler e escrever até resolver questões de matemática.
Claro que havia professores de quem a gente não gostava muito. Na minha época de criança, lembro que tínhamos pavor do professor Ademir que (graças a Deus) não chegou a nos dar aula. Porém, as outras turmas contavam que quando ele ficava bravo com alguém, puxava a orelha até no teto. Era um jeito de educar que hoje seria visto como controverso.
Acredito que na época de muitos que estão aqui, o ensino era ainda mais rígido. Corria-se o risco de ter de ficar ajoelhado no milho; e se os pais ficassem sabendo que não tinham se comportado bem na escola, mais algum castigo em casa. Na minha época, além do prof. Ademir, o único risco que a gente corria era ter de ficar em pé cheirando parede ou ser expulso da sala.
Enfim, os professores da escola (ou da vida) têm a função de repassar aquilo que aprenderam, i. é, fornecer a nós uma bagagem que possibilite seguirmos adiante. E os professores continuam aparecendo por toda a vida. Sempre haverá pessoas sábias com quem podemos aprender lições de vida valiosas. A única pessoa que acha que não precisa aprender nada é aquela que acha que sabe tudo. Infelizmente, estas pessoas deixam de aprender muita coisa por causa do orgulho e da arrogância.
O texto previsto para a pregação de hoje também fala de uma professora. Inclusive, ela tinha um nome de apenas três letras: a Lei. O apóstolo Paulo fala desta professora aos Gálatas com um propósito bastante específico. Esta professora tinha uma função e um propósito importante na história do povo de Deus. No entanto, há um perigo muito grande quando essa professora é mal interpretada.
Havia uma comunidade de cristãos na região da Galácia. Esta região ficava onde hoje se encontra o país da Turquia. Não sabemos ao certo como foi que o Evangelho chegou àquele lugar. Provavelmente, em uma das viagens missionárias de Paulo.
Esta comunidade era formada por gentios, ou seja, pessoas que não tinham ligação com a religião judaica. Eles não conheciam os 10 mandamentos, a história de Israel e dos profetas. Nem mesmo tinham por que conhecer. Eram cristãos que receberam o amor de Jesus e, a partir disso, viviam este amor entre os irmãos e as irmãs. Era uma comunidade frutífera. Era um lugar de comunhão.
Porém, em algum momento da história da comunidade (que não sabemos), alguém começou a ensinar na comunidade da Galácia que eles precisavam cumprir as leis do Antigo Testamento para serem salvos. Senão, tudo o que eles fizessem seria em vão e não os levaria para o céu. Alguém começa a fazer a cabeça do pessoal de que eles precisam cumprir uma série de regramentos para que assim estejam agradáveis a Deus. Hoje, isso não é muito diferente. Isso já mudou em alguns contextos, mas basta lembrar que anos atrás, em alguns círculos religiosos, as mulheres tinham que andar com cabelo comprido e usar saias e os homens deveriam ir ao culto com terno. Hoje, o discurso de salvação mudou bastante: se tornou uma verdadeira extorsão: “você é aceito e amado por Deus se der tanto, aí vais te tornar um filho de Deus e receber a tua herança”. Ou ainda quando alguém diz que você não está salvo porque não fala em línguas, porque não recebeu o batismo no Espírito Santo, isto e mais aquilo, assim por diante.
A mesma situação estava acontecendo na comunidade dos Gálatas. Alguém fez a cabeça deles a tal ponto de acharem que a salvação dependia do cumprimento de leis. Eles se esqueceram que eram salvos não pelo que faziam ou deixavam de fazer, mas por causa daquilo que Cristo fez na cruz por eles e por nós.
O grande problema é que acreditar na salvação pela Lei também gera orgulho e vanglória na comunidade. Um começa a se achar mais espiritual que o outro. Um começa a se achar mais salvo que o outro. “Deus me ama mais que a ele.” “A minha vitória tem sabor de mel”. Meu cabelo é mais comprido. Minha saia é mais bonita. Meu dízimo é o maior. Eu sou o que mais trabalha pela comunidade. Estas coisas não estão sendo desprezadas. Mas precisamos saber que não são elas que conduzem à salvação. Nada do que fazemos pode nos levar à Salvação! Somente Jesus Cristo, pela graça e pela fé, como estão reveladas nas Escrituras.
Por isso, o apóstolo Paulo precisa escrever uma carta aos gálatas para chamar a atenção deles de volta ao Evangelho. A lavagem cerebral foi tão grande que eles se “desgraçaram”, ou seja, estavam sem a graça de Deus. A situação era tão grave que logo no início da carta, o apóstolo Paulo menciona que os Gálatas são inconstantes e seguem outro evangelho que não é o de Cristo (1.6). Isto é a própria perversão do evangelho (1.7). Os gálatas seguem um evangelho criado por eles mesmos e não aquele revelado na cruz de Jesus Cristo. Esse é o grande perigo! Quando começamos a seguir as regrinhas que nós mesmos criamos ao invés de receber a graça que Deus nos deu em Jesus.
Por isso, o apóstolo Paulo diz no nosso texto que a Lei foi uma baita professora até Jesus chegar. Esta professora tinha importância até Cristo chegar. Guiou o povo até ali. Porém, não é a professora (a Lei) ou qualquer outro que salva senão Cristo Jesus. Isso precisava ficar claro aos gálatas. Por isso, Paulo escreve sua carta aos Gálatas para que eles redescobrissem a salvação pela fé e não pelas coisas que faziam e deixavam de fazer. Inclusive, porque a fé tem resultados no dia a dia: quem de fato crê em Jesus, buscará viver de maneira santa e digna no mundo.
O v. 25 nos diz claramente que “Mas, tendo vindo a fé, não estamos mais subordinados à nossa professora.” Ela se tornou dispensável para a salvação. Porém, não significa que essa professora está descartada. Ela nos ajuda a viver bem no mundo. Mas não é ela quem nos salva. A salvação não vem de nada que fizermos por nós mesmos, mas daquilo que Cristo Jesus já fez por nós na cruz!
O texto nos deixa claro que alguém se torna filho de Deus não por cumprir uma lista de deveres, mas, cf. o v. 26, por causa da fé em Jesus Cristo. Diante disso, as pessoas são todas niveladas e tornadas iguais por causa do Evangelho. Não há distinções de povos, profissões, gênero, mas todos são um só em Cristo Jesus.
Ao mesmo tempo, mesmo assim os gentios se tornam descendentes de Abraão, ou seja, pertencem a toda a História da Salvação de Deus do Antigo e do Novo Testamento. Afinal de contas, sem o Antigo Testamento, o Novo não é compreendido.
Por isso tudo, em Gl 6.11, Paulo lembra aquele mesmo versículo que está em Rm 1.7 que todo luterano precisa saber de cor: “o justo viverá pela fé!” Não diz pelas obras, por fazer isso ou aquilo, mas pela fé! Por crer em Jesus Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador.
No fim das contas, a lei servia aos gálatas para se cobrarem mutuamente e apontar os erros alheios. Isso só revela que todos, na verdade, eram imperfeitos e careciam imensamente da graça e do amor de Jesus. Afinal de contas, toda a lei se cumpre em um só preceito: amarás o teu próximo como a ti mesmo (5.14). Agora, se os irmãos devoram um ao outro, a lógica é que todos sejam destruídos (5.15). É como se Paulo quisesse dizer: “Querem cumprir regrinhas? Amem-se mutuamente!” E também, ao invés de ficarem se julgando quem é o melhor ou pior, “levem as cargas uns dos outros e assim estarão cumprindo a lei de Cristo”. (6.2). Como se cumpre a lei? Levando as cargas! Ajudando quem erra a achar seu caminho. Orando por aqueles que discordam da gente. Não julgando! Do contrário: amando e levando as cargas. Pois o Evangelho nos nivela. Não tem maior ou menor. Nem o pastor é maior que vocês, mas somos iguais em Cristo Jesus.
Amados irmãos e irmãs,
que a professora chamada Lei também não seja vista por nós como um meio de salvação. Ao contrário: creia em Jesus com todo o seu coração. Receba-o na sua vida. Peça para ele te transformar por completo. Peça para ele escrever o seu nome no Livro da Vida. Confesse sinceramente que você é uma pessoa pecadora e má e só pode receber a salvação deste mundo mal por graça e misericórdia. Do contrário, você está perdido.
Esta semana li uma frase do teólogo Hernandes Dias Lopes que dizia: “O inferno existe e está no final de uma vida sem Cristo.” Como igreja, não precisamos ter medo de dizer estas coisas porque é a verdade! Mas, se você crê em Jesus e o recebe no seu coração, Deus muda isso e lhe dá não o inferno, mas a salvação eterna. Basta crer!
Quando você crer, a professora chamada Lei pode até te ensinar como ser um bom ser humano e um bom cristão; mas, não é isso que te salva. As obras não salvam. Mas o salvo faz boas obras.
Que Deus nos abençoe de tal maneira que possamos cada vez mais viver o Evangelho, não cobrando os outros e nos fazendo a medida de todas as coisas, mas nos auxiliando na prática do amor.
E a paz de Deus que excede todo o entendimento guardará o teu coração e a tua mente em Cristo Jesus,
amém!