Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Pessoa compartilhando pão em gesto de solidariedade.Pregações

A quem pertence o monopólio do bem?

Amados irmãos, amadas irmãs,

a quem pertence o monopólio do bem? Sim. Vivemos uma época em que o bem quer ser monopolizado. “Eu e os meus somos os que são bons e estão do lado da verdade. Todos os outros são maus e estão do lado da mentira”. Para monopolizar o bem, preciso fazer com que o outro – principalmente o que pensa diferente – seja visto como mal. Para que eu esteja do lado do bem, preciso amaldiçoar os discordantes. E isso não acontece de maneira endêmica, mas está por todos os lados. Diferentes forças que disputam o monopólio pelo bem acabam se retroalimentando e sustentando esse jogo.

No tempo do profeta Amós, as coisas não iam nada bem. Embora houvesse prosperidade em Israel, a injustiça, a corrupção e as desigualdades estavam por todos os lados. Amós era um agricultor, um homem do campo. Contudo, profetizou duras palavras contra os pecados do seu povo. Não sou eu quem está dizendo, mas o profeta Amós é quem diz que quem mais sofre com a corrupção são as pessoas mais pobres. A corrupção piora a vulnerabilidade daqueles que sofrem. Quem mais sofre com a corrupção são aqueles que precisam de atendimento na saúde e não tem; educação e não tem; segurança pública e não tem. Porém, no tempo de Amós o problema é que justamente aqueles que mais frequentavam o templo é que mais praticavam a corrupção – como se não fosse nada!

Amós diz duras palavras: “Vós que converteis o juízo em alosna e deitais por terra a justiça” (Amós 5.7 ARA). Uma tradução mais contemporânea diz: “Ai de vocês que fazem a justiça virar pó e arrastam a justiça na lama!” (Amós 5.7 A Mensagem – Eugene Peterson). Ai de vocês que transformam o errado em certo e o certo em errado; aí de vocês que transformam o bem em mal e o mal em bem; ai de vocês que transformam a justiça em injustiça e a injustiça em justiça. Aí de vocês que monopolizam o bem para tratar aos outros como maus. Estas são as duras palavras pronunciadas por Amós. Contudo, ele mesmo diz que não há ouvidos para ouvir a verdade: “Aborreceis na porta ao que vos repreende e abominais o que fala sinceramente” (Amós 5.10 ARA). Ou seja: quem tem coragem de dizer alguma verdade não é ouvido, mas é rejeitado.

Como devemos viver a nossa fé em meio a este mundo que faz a justiça virar pó e arrasta a justiça na lama? Como vivemos a nossa fé em meio ao drama da corrupção que está tão enraizada em nossa sociedade? Qual é o convite do profeta Amós e do Senhor Jesus a nós neste Domingo? Quais são os ensinamentos?

As respostas a estas perguntas podem ser muito perigosas. Podemos responder com um discurso cheio de “moralina” onde, novamente, monopolizamos o bem ao amaldiçoar ao próximo. Temos a tendência de enxergarmos muito bem o problema dos outros; mas nos negamos a enxergar onde esta palavra fala a nós mesmos. Talvez tenhamos facilidade em enxergar a corrupção em outros e dificuldade em reconhecer as próprias corrupções. Quem sabe, o estacionamento em uma vaga prioritária para pessoas com deficiência; quem sabe, o colar em uma prova; quem sabe, ao tirar vantagem em um negócio – e ainda sair contando aos outros sobre o quanto a outra pessoa foi “trouxa”. A partir da palavra profética de Amós, quem é o verdadeiro “trouxa” nessa história?

Então, qual é a resposta bíblica a todas estas questões? A resposta bíblica nos leva diretamente para Gênesis 3: a Queda. O ser humano desobedeceu a Deus. Esta foi a primeira corrupção. A partir da Queda, o ser humano pecador buscará maneiras de beneficiar em primeiro lugar a si mesmo e aos seus. O pecado é a tentativa do ser humano de ser seu próprio Deus. Esta é a corrupção que afeta a todos nós desde o nosso nascimento, conforme o Salmo 51.5.

O ponto central da nossa reflexão hoje é o que está ocupando o primeiro lugar em nossas vidas. Ou seja: o que está ocupando o lugar de Deus em nossas vidas? Onde falhamos em cumprir o 1º Mandamento? Será que dinheiro e bens não se tornaram o próprio deus? Lutero, na sua interpretação de Amós 5, escreveu:

Vocês estão seguros em sua santidade e justiça própria, e desprezam a Deus, a quem deveriam temer, e, além disso, em seu governo, não têm juízo nem justiça; e abusam de seu poder para oprimir os pobres. Pois ele demonstra com isso que ambos, tanto o governo eclesiástico quanto o governo secular, são malgovernados.1

Na leitura do Evangelho, encontramos a história de um jovem rico que, ao ser amorosamente perguntado por Jesus quanto às suas riquezas, deu como resposta uma saída triste do diálogo. Jesus e os mandamentos eram importantes para ele, mas não poderiam ocupar o importante lugar dado às riquezas materiais.

Amados irmãos, amadas irmãs,

em meio ao drama do pecado, onde está o bem? Certamente não está em nós mesmos. A salvação não está nas nossas tentativas humanas de monopolizar o bem e amaldiçoar ao próximo. A salvação não está em nossos próprios recursos. A salvação não pode ser comprada. A má notícia desta manhã é que a ninguém pertence o monopólio do bem, por mais bonito que possa parecer o discurso. A má notícia é que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23 ARA) e que “não há justo, nem um sequer” (Salmo 14.1-3; 53.1-3; Romanos 3.10 ARA). A má notícia é que desde a queda em Gênesis 3, tudo o que fazemos está com a marca do pecado. Tudo! Também os sistemas humanos que criamos. Nada escapa! A ruptura inicial com Deus gerou sintomas por todos os lados: corrupção, injustiça, desigualdade, fome, miséria e carências nos sistemas de saúde, educação, segurança pública etc.

A boa notícia é que não fomos abandonados. Em Jesus Cristo, Deus nos ofereceu reconciliação. Ser evangélico de confissão luterana significa afirmar que a salvação não está nas obras e nos sistemas humanos, mas somente em Jesus Cristo. Em Jesus está o perdão dos nossos pecados e a verdadeira reconciliação. Ele é o nosso verdadeiro tesouro – que coloca aos seus pés como nada todos os nossos bens. E, a partir do serviço ofertado em Cristo, somos convidados a servir. O ego é posto de lado. O “eu” é trocado pelo “nós” – comunidade!

O melhor combate à corrupção é o serviço! Quando servimos de coração, não se quer em primeiro lugar satisfazer os próprios interesses; ao contrário, olha-se pelo benefício do outro. Jesus curou a corrupção do pecado quando nos serviu a salvação com sua morte na cruz. A cura da corrupção não é o monopólio do bem. Em meio às vítimas da corrupção, Deus chama sua Igreja ao serviço autêntico ao próximo. E que Deus nos ajude a cumprirmos essa Missão com paixão. “Buscai o bem e não o mal, para que vivais” (Amós 5.14 ARA). Amém.

Notas e referências

  1. LUTHER, Martin. Auslegung des Propheten Amos – 1525. in: WALCH, Johann Georg (ed.). D. Martin Luthers sowol in deutscher als lateinischer Sprache ver-fertige und aus der letztern in die erstere ubersetzte sämtliche Schriften. Druckts und verlegts Johann Justinus Gebauer, 1741. p. 2503-2509. Disponível em: < https://dn790004.ca.archive.org/0/items/dmartinluthersso06luth/dmartinluthersso06luth.pdf > Acesso em: 07. out. 2024.

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