PregaçõesA vaidade cega a cruz
Amados irmãos, amadas irmãs,
Jesus anuncia a cruz. Os discípulos querem a glória; Jesus anuncia seu sofrimento. Os discípulos querem o poder; Jesus anuncia que voluntariamente será o menor. Os discípulos discutem entre si quem é o maior! Jesus fala, mas não é ouvido; Jesus proclama a palavra, mas os interesses pessoais a encobrem; Jesus deixa seu futuro muito claro, mas os discípulos estão cegos.
Em um mundo cheio de vaidades, Jesus fala para as paredes! Vaidade que aqui significa colocar as próprias vontades acima de todas as coisas. E aí de quem estiver à frente: ou será atropelado ou terá o tapete puxado. A cruz de Cristo não foi uma surpresa, um erro de percurso ou a falha de um sonho glorioso; ao contrário, Jesus avisou que passaria pela morte e pela ressurreição. Contudo, há ouvidos que suportem ouvir essa mensagem? Há mentes que percebam a entrega voluntária de Jesus a cruz? Essa mensagem consegue penetrar no coração humano?
O que o ser humano quer é o sucesso. E não estou dizendo que é errado desejarmos que as coisas possam ir bem nas nossas vidas, seja na família, educação ou profissão. Todos querem o sucesso! A pergunta é: quem está disposto a olhar pelos fracassados? Quem está disposto a olhar pelos sofredores? Enfim, quem está disposto a olhar pelos que carregam uma pesada cruz?
A natureza humana é em si vaidosa. O ser humano quer subir; Jesus desceu; o ser humano quer ser servido; Jesus serviu; o ser humano quer a glória; Deus, em Jesus, escolheu a cruz! O ser humano é capaz de criar guerras e situações terríveis em nome de um poder momentâneo; Deus, em Jesus, decidiu descer voluntariamente à humilhação da rude cruz!
Em um gesto de humildade, Deus inverte a lógica humana. Nós cremos no Deus diácono que é o Deus que serve! Jesus, a segunda Pessoa da Trindade, nas vésperas do que anunciou – a sua morte – lavou os pés dos seus discípulos. Deus se coloca exatamente naquele lugar em que ninguém quer estar: no lugar daqueles que servem.
Enfim, o que vemos neste texto bíblico são reações humanas – verdadeiramente humanas! Os discípulos alimentam o ciúme entre si. Não estão participando do ministério de Jesus por causa de Jesus, mas para satisfazerem seus próprios desejos pessoais e egoístas. E quando eles têm a oportunidade de ouvirem a revelação do misterioso plano divino para a salvação do ser humano, não fazem outra coisa senão a continuarem discutindo entre si sobre quem deles é o maior!
Está aqui escancarada a natureza humana que não faz outra coisa senão ser um centro de gravidade onde tudo precisa estar em volta de si mesmo o tempo todo! Jesus revelou aos discípulos a vontade de seu Pai; os discípulos, porém, continuam dando atenção apenas à sua própria vontade: a vontade gananciosa e egoísta de querer estar em evidência! O que Jesus propõe? Que o “eu” dê lugar ao “nós”.
É difícil, é verdade! Muitas vezes é bastante difícil entender a misteriosa vontade de Deus que quebra as nossas expectativas e frustra os nossos sonhos! E as perguntas que cabem aqui são: queremos Deus porque ele é Deus ou queremos Deus para que ele satisfaça todas as nossas vontades? Nos torne os maiores? Nos faça importantes? Deus serve para alguma coisa na nossa vida ou Deus serve seu amor às nossas vidas? Amamos a Deus por causa da sua utilidade ou amamos a Deus por tudo o que ele nos revelou em Jesus Cristo? Servimos no Reino de Deus por causa das nossas próprias expectativas ou servimos no Reino de Deus por causa do chamado que o Senhor fez às nossas vidas? Queremos Deus, mesmo com a possibilidade do sofrimento e da cruz, ou queremos um gênio da lâmpada?
Uma fé fundamentada nos sonhos, nas expectativas e nos sentimentos humanos é uma bomba relógio: em algum momento vai explodir! Em algum momento as coisas não serão como nós desejaríamos que fossem; em algum momento, a dureza da realidade vai frustrar as nossas expectativas; em algum momento, não acontecerá o que queremos. E, então, o que faremos? Muitos, então, se revoltam contra Deus – por terem, na verdade, fundamentado sua fé não nas palavras de Jesus – que, como vimos, sempre foi muito sincero sobre a vontade do seu Pai –, mas naquilo que seus próprios corações egoístas diziam. E reconhecer essa vaidade e esse egoísmo é um passo difícil, porém necessário para que sigamos com humildade o caminho da cruz!
Amados irmãos, amadas irmãs,
Jesus disse: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado”. (Mateus 11.25-26).
A quem Deus revelou a sua vontade? Aos pequeninos, aos que não são, aos que foram colocados para fora por outros. E, num gesto inusitado, Jesus colocou uma criança no meio deles e disse: “Qualquer que receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber, não recebe a mim, mas ao que me enviou”. (Marcos 9.37).
Os adultos têm suas mazelas, são alimentados por suas vaidades e agem a partir da utilidade das coisas. As crianças não são assim. As crianças dizem coisas que um adulto nunca diria. As crianças são simples e sinceras. Os adultos é que complicam tudo! A mentalidade dos discípulos é cheia de mazelas adultas; a infância de uma criança é o símbolo que Jesus usa para falar sobre a humildade. Enquanto os discípulos discutem sobre quem deles é o maior, Jesus toma uma criança nos braços para demonstrar que o maior é o menor! Não! Jesus não está dizendo para voltarmos a ser crianças. Jesus está dizendo que a maturidade está na disposição sincera de servir e assumir a própria trajetória conforme a vontade de Deus.
Também hoje o mundo está cheio de vaidades. Mais do que nunca a vida humana é medida por números – especialmente o número de likes nas redes sociais. Jesus continua anunciando a mensagem da cruz. E nós? Continuamos vivendo em uma competição para descobrir quem é o maior? Também na comunidade cristã queremos ser maiores uns que os outros? No Reino de Deus, isso não faz sentido!
Hoje, que Jesus não fale às paredes, mas aos nossos corações. E que possamos ter a coragem de dar um passo para trás para que possamos ouvir a voz de Jesus falar aos nossos corações. Aqui estamos em comunidade. Jesus nos chama hoje à humildade e ao serviço. Venha servir voluntariamente. Venha conversar conosco. Vamos colocar em prática o que Jesus nos ensinou. Amém.