Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Duas pessoas se reconciliando em um parque.Pregações

A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena

A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena.

Senhor Madruga.

A sociedade na qual vivemos e marcada pela violência e pela vingança. Dá até nojo de assistir alguns telejornais, pois na tela da TV eles revelam por vezes que o ser humano voltou a ser (me desculpem a força da expressão) um animal. A crueldade toma cada vez mais conta das ruas e dos bairros. Podemos dar muitas graças a Deus pelo local em que vivemos onde temos segurança.

Quem acompanhou os telejornais da semana passada certamente se espantou com o caos no Estado do Espírito Santo. Mais de 130 mortos por causa da crise na segurança. Não houve outra solução a não ser colocar tropas do Exército nas ruas para amenizar a situação. Ainda assim, aquelas 130 vidas não voltam mais para suas famílias. Famílias se desesperam. Criminosos estão livres nas ruas e as pessoas de bem estão presas dentro de suas casas.

Brasil, um país que se diz de maioria cristã, mas onde as atitudes do dia a dia revelam exatamente o contrário: a violência, a vingança, a corrupção, a crise, a inveja, o rancor, etc. Às vezes me pergunto: como os países árabes que não são cristãos nos enxergam? “Olha só, aqueles são os cristãos no Brasil.”

Mas não precisamos olhar apenas para longe para constatarmos que as coisas vão de mal a pior. Também na nossa cidade ou até em nossa família o ódio e a violência, talvez, se fazem presente. Podemos ter paz em relação à segurança pública em nosso município, mas talvez não nos sintamos seguros dentro de casa com as nossas famílias. Discussões, brigas e desavenças por causa de herança, por causa de política, por causa de religião podem estar dentro da nossa casa. Ao invés da reconciliação, do perdão e do amor, vivemos a separação, a culpa e a indiferença. Vemos pessoas sofrerem e ao invés de auxiliarmos, fazemos fofocas para outras pessoas.

Mas não vamos ficar apenas nas notícias ruins. É por isso mesmo que Evangelho significa “A boa notícia” de Deus para todos nós. Existe esperança, não em nós mesmos, não em nossa força, mas no próprio Senhor Jesus.

Jesus procura dar um novo sentido às leis do seu povo, o povo judeu. Ele diz que antigamente eles pensavam de um jeito, mas que agora há, por sua graça, uma nova maneira de pensar e agir. Todo o capítulo cinco do Evangelho Conforme Mateus aponta como eram as leis do Antigo Testamento e como Jesus concedeu novo sentido a elas. Aparecem várias vezes a frase: “vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados, mas eu lhes digo...”. Jesus não veio eliminar as leis do Antigo Testamento, mas cumpri-las para a nossa salvação. Ele era o Filho de Deus justo, sem pecado, oferecido pela nossa salvação. Aquilo que ele viveu ele deixou como lição para que pudéssemos viver como ele. Suas leis não são leis de papel, mas leis práticas que organizam a sociedade no dia a dia. Jesus diz coisas simples, mas que estão no fundamento da sociedade na qual vivemos, não só na igreja, mas por detrás da nossa constituição federal, dos Direitos Humanos, direitos da Mulher, etc.

Antigamente se dizia olho por olho, dente por dente. Esta era a maneira justa pela qual Israel realizava seus julgamentos. Exemplo: Se José matar o boi de João, João também tinha o direito de matar o boi de José. Mas atenção: só um boi, não dois ou mais. Olho por olho, dente por dente era a maneira justa de ajudar quem foi prejudicado. Não lhe dando mais do que perdeu, mas exatamente o que lhe fez falta.

Hoje em dia se diz “toma lá, da cá”, ou também, “aqui se faz, aqui se paga.” Estas frases são bastante populares. Entretanto, não possuem nada a ver com o ser cristão. Jesus aconselha exatamente o contrário: “se alguém lhe ferir na face direita, ofereça-lhe a face esquerda.” A princípio, isto parece coisa de “palhaço”. Na verdade, esta simples frase de Jesus vai contra nosso “jeitinho brasileiro” de querer tirar vantagem em todas as situações e negócios. Mas atenção, aqui Jesus está falando de ofensas quanto à fé. Se formos debochados por sermos cristãos, não devemos ficar irados e partir para a briga; ao contrário, é nosso dever orar e pedir a Deus para que aquela pessoa também possa encontrar a misericórdia de Deus e, assim, aprender a ser misericordiosa. Ao invés de retrucarmos, damos um paço para trás. Aliás, não foi exatamente isto que Cristo fez? Poderia ter se vingado de todos os que o estavam o pregando na cruz. Alguns debochavam dele, mas Ele, ao contrário, deu a outra face e suportou tudo aquilo, dor e sofrimento, até à morte. Não se vingou, mas se entregou. Eis o exemplo do que é ser um verdadeiro cristão: se entregar, não se vingar, amar para que o outro vá bem. Ser cristão é recuar para que o outro avance. Ser cristão é agir como Cristo agia. Ser cristão é imitar o seu agir.

O texto continua dizendo que se alguém for logrado, isto é, por levar seu chapéu embora, ofereça a ele também a sua roupa. Do ponto de vista humano tudo continua muito confuso. É como se um ladrão entrasse em nossa casa para roubar a televisão e oferecêssemos de brinde um mês grátis de assinatura Sky. É como se ele viesse roubar a geladeira e oferecêssemos de brinde o fogão a gás. A lógica de Jesus se comprova como muito diferente da nossa lógica. É por isso que o Apóstolo Paulo cita em 1 Coríntios 1.25: “Porque a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria humana, e a fraqueza de Deus é mais forte que a força do homem.” Deus que é grandioso, poderoso, que poderia destruir e aniquilar seus opressores, seus filhos desobedientes, seus pecadores decide se fazer fraco e morrer em uma cruz em favor daqueles que lhe fizeram mal. Estamos conseguindo pensar em que loucura nos metemos quando decidimos nos tornar cristãos? A cabeça não entende estas coisas, por isso a recebemos em nosso coração pela fé. Jesus Cristo morre e na cruz, inclusive, pediu o perdão daqueles que o matavam dizendo “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.” Estamos percebendo Jesus praticou seu ensino até à sua morte? E nós, que se dizemos cristãos, o que estamos fazendo com isso? Vingamo-nos, nos iramos, queremos castigar os que nos fazem mal ou, como verdadeiros cristãos, somos capazes de pelo próprio Deus perdoar aqueles que nos fazem o mal? Não digo isso só a vocês; isto é um desafio também para eu e para qualquer pessoa, pastores, padres, assim por diante. Queremos só tirar vantagem ou nos dispomos a ajudar esta comunidade a crescer colocando nossos dons a serviço e contribuindo com o que for necessário? Ou, ao contrário, estamos apenas assistindo e reclamando de barriga cheia? Ajudamos ao outro que sofre ou só falamos dele ou dela por aí?

Certa vez havia um rei que decidiu acabar com todos os seus inimigos. Ele chamou o chefe dos seus soldados para conversar a respeito. O soldado pergunta qual é o plano do rei para acabar com todos os seus inimigos. O rei respondeu: “é simples, vou torna-los meus amigos.” O Rei desta história representa Deus Pai e o Soldado é Jesus Cristo. O Pai queria se reconciliar conosco e Jesus veio e realizou esta reconciliação. Quando nos arrependemos de nossos pecados, Deus realmente nos perdoa e nos concede a salvação. Assim também devemos nós ir e transformar nossos inimigos em amigos.

O texto fala disso: “Vocês ouviram o que foi dito: Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem.” A Palavra de Jesus não está dizendo que isto é uma tarefa fácil. Perdoar e orar pelos nossos inimigos vai contra a nossa natureza que quer sempre estar por cima dos outros. É uma vergonha se rebaixar diante de um inimigo. É uma vergonha se humilhar deste jeito. Mas foi isto que Jesus fez por nós; o mesmo devemos fazer pelos outros. Ficar brigando por causa de religião, futebol ou política não nos leva a lugar algum. Ao contrário, nos distancia uns dos outros. Por mais difícil que seja, às vezes devemos nos humilhar e pedir perdão a quem nos fez o mal.

Eu já contei esta história na OASE e vou contar esta história aqui no culto também. Trata-se de uma história real. Certa vez vários irmãos em uma família brigaram após o falecimento de seus pais. O motivo: a herança não estava dividida de maneira justa. A distância permaneceu por cerca de dois a três anos, até que o filho de uma das irmãs chamada Nena, casada com Sérgio, ficou seriamente doente. Um dos irmãos, o Vilson, com quem ela estava distante era, inclusive, padrinho de seu Filho Kleber. Assim, Nena e Sérgio não se falavam com o Vilson, embora fossem compadres. A situação se tornou cada vez mais complicada. Então Nena e Sérgio decidiram ir até seu compadre Vilson pedir perdão, mesmo estando com a razão. Vilson logo os abraçou e manifestou sua alegria, pois a tempo esperava algo parecido. O filho da Nena e do Sérgio faleceu e o padrinho Vilson doou a roupa para o caixão. A família estava reconciliada.

Passaram-se nove anos e aquele agora o Vilson descobriu que estava com câncer nos pulmões. Como sua irmã Nena era enfermeira aposentada, acompanhou o irmão dando-lhes os remédios e fazendo os curativos. Certo dia, quando Nena e Sérgio foram visitar o Vilson, perceberam que após um tempo Vilson estava passando mal. Prontamente o colocaram dentro do carro com destino ao hospital da cidade. A cerca de 500 metros de distância do hospital Vilson faleceu no banco traseiro do carro no colo de sua irmã Nena. Meses depois, também o marido da Nena, o Sérgio, veio a falecer.

Amados irmãos. Quando estava em Porto Alegre me preparando para este estágio que agora estou fazendo na paróquia de vocês, a psicóloga Leila Klin da nossa Igreja me perguntou qual o maior exemplo ou qual a maior lição que eu aprendi com os meus pais. Eu respondi o perdão e contei a ela esta mesma história que acabei de descrever para vocês. Nena e Sérgio são meus pais, Kleber era meu irmão e Vilson era meu tio. Como teria sido se meu tio e meu pai tivessem morrido sem que houvesse o perdão entre ambos? Tenho plena certeza e convicção de que partiram em paz. O perdão reabre portas. Temos que deixar nosso orgulho de lado para mostrarmos nossa coragem e dizer me perdoa ou eu te perdoo. Ao contrário da vingança, oferecemos o perdão. Ninguém está dizendo que isto é fácil, mas devemos procurar aprender todos os dias a fazermos isso, pois todos os dias nós cometemos novos erros. A falta de perdão e de mudança de vida é o que promove também a separação de tantos casais. Não basta perdoar, é preciso tomar um novo rumo na vida, ser e fazer diferente. Trilhar uma nova estrada.

Amar aqueles que nos amam é uma tarefa fácil, diz Jesus no v. 46. Isto até os publicanos, que eram pessoas desprezíveis na época, faziam muito bem. Agora, amar aqueles que nos odeiam é um desafio em tanto. Efésios 4 afirma que somos um só rebanho de um só Pastor. Temos pela nossa natureza a vontade de sempre puxar a sardinha para o nosso lado; entretanto, como cristãos, ao invés da vingança e do ódio, devemos procurar a paz. Isso começa na nossa vida, na nossa casa para então chegar também à nossa cidade, estado, país. O perdão não é uma coisa que se aprende na escola; o perdão não é uma coisa que se aprende no trabalho. O perdão se aprende na prática dentro da nossa casa.

Deus conhece o que cada um de nós tem passado com nossas famílias e amigos e ele pede: perdoem-se uns aos outros, parem de brigar. Maridos perdoem suas esposas; esposas perdoem seus maridos. Pais perdoem seus filhos; filhos perdoem seus pais. Ao mesmo tempo, tomem atitudes diferentes. Deus pode transformar a nossa vida em algo bom. Se há problemas na casa de vocês, cheguem em casa hoje, sentem, conversem, desabafem e ouçam. Deus agirá. Se precisarem, contem com nosso apoio espiritual. O que eu ouço, não conto para ninguém.

Nós conhecemos as nossas doenças espirituais, mas a palavra do perdão é o remédio para as nossas vidas. Eu só imagino o que seria de nós se Deus nos julgasse a partir do “olho por olho, dente por dente.” Não restaria nada de nós, seríamos reduzidos ao pó. Ainda bem que Deus já executou este juízo na cruz de seu Filho Jesus Cristo.

Irmãos, Jesus diz no último versículo: “Sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês.” E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o teu coração e a tua mente em Cristo Jesus, amém.