PregaçõesAção de Graças
Amados irmãos, amadas irmãs,
O ser humano atual, no pós-iluminismo do século XVII, perdeu a noção de dádiva de Deus. O ser humano, após o século XVII, sai das lavouras e vai trabalhar nas empresas. Tantas horas por dia de serviço são suficientemente necessárias para manter a casa. Mas, o que isso implica na mensagem de hoje?
O ser humano atual, chamado de pós-moderno, perdeu a noção de que as coisas, desde as mínimas às mais grandiosas, são dádivas de Deus. Na lavoura, tem que se esperar pelo sobrenatural, pela chuva, pelo sol, coisas que não estão no alcance humano, assim, o agricultor, o colono sabe que sua lavoura unicamente depende da ação de Deus que pode controlar o tempo, logo, o agricultor, aquele tido por muitos como ingênuo sabe que sua lavoura depende de Deus e por isso, agradece ao criador que mantém e cuida de sua criação.
Porém, aqueles que trabalham nas fábricas e indústrias, representando a maioria da população hoje, perdem esta dimensão, pois, convivem com o trabalho monótono de todos os dias e assim mantêm a casa. Essas famílias são marcadas pelo desperdício, isso porque perderam a dimensão do cuidado de Deus que fornece todas as coisas. Desperdiçam porque seus bens não possuem história. Tudo é rapidamente comprado, consumido e jogado fora. As coisas recebem seu devido valor quando se sabe de onde vêm. O pão, por exemplo, este no interior possui uma história. O pai que corta a lenha, a filha ou o filho que levam a lenha até o forno da mãe que por sua vez faz a brasa para assar o pão. Este pão tem história e por isso não será facilmente desperdiçado. Já nas cidades, o leite vem em caixa, o pão é facilmente adquirido nas padarias e mercados, como também outros alimentos, logo, a noção de que Deus fornece todas as coisas aos seres humanos é perdida, pois, tudo vem fácil, tudo está facilmente ao alcance das pessoas. Esta própria humanidade faz questão de substituir a palavra criação por outros termos científicos, pois assim, livra-se de Deus, de ter que afirmar uma criação de Deus.
As carnes, os frangos, são carregados em cima de caminhões e logo se precisa perguntar, onde foi parar a dignidade da criação? O problema crucial da sociedade atual não é a fome, mas o excesso, pois, tem-se demais. Com estes acontecimentos, a sociedade tende a esquecer de Deus, esquecer que o Senhor mantém a sua criação, logo, o homem está no centro, se acha o grande herói de si mesmo, aquele que com seu suor e trabalho consegue manter a família. São estes culpados? Não, pelo menos em primeira instância, pois, são induzidos pelo moderno modelo de sociedade e desde o nascimento até a morte os seres humanos são induzidos a pensar que suas conquistas vêm deles próprios, por isso, pode-se abortar, pode-se testar remédios em seres humanos cobaias. Logo, também a salvação passa a depender das boas obras humanas, pois, é ele quem deve se levar ao céu. Esta aliás, foi a grande descoberta de Lutero, de que o ser humano não pode se basear em suas próprias possibilidades, mas, que Deus em Jesus Cristo já fez tudo pelo ser humano de forma que em si, o ser humano nada pode fazer a não ser crer naquele Jesus que lhe estende a mão.
Deus, porém, ama a sua criação mantendo-a e concedendo o pão todos os dias, seja este de forma ou de padaria.
Agora, o que tudo isto tem a ver com os textos lidos? Tudo. No primeiro, o Sl 13, o salmista murmura que Deus se esqueceu dele, porém, em uma última análise, vê-se que ele agradece a Deus pela sua bondade, o Deus que tem concedido diariamente a ele o que este necessita.
Diante de nossos problemas e aflições, é costumeiro esquecer-se do óbvio, das coisas simples que Deus nos concede todos os dias. De fato, é no óbvio, nas coisas simples, no banal e insignificante que Deus se faz presente, tanto que Jesus, quando ensina a orar, fala do pão, o pão nosso de cada dia, pois sim, são nestas coisas que Deus está todos os dias, mantendo-nos vivos apesar dos problemas e aflições que fazem parte da criação caída. Logo, embora a sociedade coloque o ser humano no centro, nós, cristãos, precisamos recolocar Deus no centro, devemos saber que tudo o que temos, desde o ar até o corpo, é dádiva de Deus a cada dia. É Deus quem dá o sopro da vida e é ele quem pode retirar este sopro.
Já o outro salmo, o salmista bendiz ao Senhor que tem dado benefícios. O salmista e o AT reconhecem que todas as coisas procedem de Deus, do mais banal ao mais significante. Se olharmos para trás neste ano, teríamos agradecimentos a este Deus? A resposta com certeza deveria ser sim, pois ele nos manteve em nossas ansiedades, cuidou de nós em nossas enfermidades, esteve conosco em nossas aflições, deu-nos o trabalho, deu-nos por meio do trabalho o pão. Sim, teríamos muito a agradecer a Deus neste ano.
Tudo o que até aqui foi falado se resume em uma palavra: GRATIDÃO. A gratidão nada mais é do que uma fé que olha para o passado, pois, quem não tem fé, não sabe agradecer. A fé, por sua vez, nada mais é do que uma gratidão que olha para o futuro, para aquilo que Deus fará. Se chegamos ao final de 2029, devemos reconhecer que não fomos nós em nossas possibilidades que conseguimos algo, mas, tudo foi dado por Deus, o Deus que mantém a sua criação. Gratidão não fecha com ganância, pois, a ganância é a precursora do consumismo, do querer possuir mais e mais, o ser humano cego que só consegue enxergar a si mesmo.
Em meio a esta sociedade mundanizada, somos convidados pelo Senhor a reconhecer que nada somos e que sem ele nada podemos fazer. Somos convidados a repartir o pão com o próximo, pois, sabemos que tudo recebemos de Deus de forma que este nos dá o suficiente para repartir. Precisa-se olhar para 2029 e dizer que cada segundo de ar, de água, de alimento, vestes e tudo o mais necessário para a vida humana foi dado por Deus.