PregaçõesAção de Graças em meio ao Deserto
Amados irmãos, amadas irmãs,
Axel Noack, pastor e professor na Martin Luther Universität – Halle-Wittenberg – certa vez disse: “As pessoas esqueceram que esqueceram de Deus.”1 Axel Noack declara esta frase no contexto de uma Alemanha cada vez mais longe do cristianismo. Naquele país, não são poucas as igrejas que são vendidas e transformadas em restaurantes, bares ou até baladas.
Para esse pastor luterano, as pessoas não apenas esqueceram-se de Deus, mas esqueceram de Deus e depois se esqueceram também disso. Antes poderiam ainda lembrar de que precisavam voltar aos braços do Senhor. Agora, porém, o próprio esquecimento de Deus não gera nenhuma comoção a mais. É o esquecimento do esquecimento.
Conforme estatísticas do ano de 2018, há mais pessoas que se denominam “sem religião” na Alemanha do que de luteranos. Enquanto 25,5% se denominam protestantes, 37,8% dos alemães se denominam sem religião. O país que é berço da Reforma Luterana do século XVI vivenciam o esquecimento do esquecimento de Deus.
Sobre esse fenômeno, a chanceler alemã Angela Merkel, filha de pastor Luterano, declarou em 2016:
Que desastrosa a condição humana. O que seria o caminho natural soa estranho. A nossa civilização, as nossas universidades, as nossas vidas já estão distantes das suas origens. [Deveríamos] ter a coragem de voltar à igreja e à Bíblia. Gostaria de ver mais pessoas tendo a coragem de dizer ‘Eu sou cristão’.2
O progresso tem levado o ser humano ao orgulho ao invés de à humildade. Ele não reconhece que o que sabe é apenas uma gota. Ao contrário, ao conseguirmos avançar um pouco, deixamos Deus fora de nossas vidas. Esquecemos que esquecemos Deus.
Este esquecimento não é novidade na história da humanidade. É recorrente. É pandêmico com alto risco de infecção. O povo de Israel era o povo do esquecimento por excelência. Experimentavam o grande poder de Deus e, em seguida, esqueciam-se completamente do que haviam experimentado. Deus agia entre eles com sua mão forte, mas o que recebia do povo era uma boca cheia de murmuração. O Senhor enviou as 10 pragas ao Egito, fez seu povo passar pelo Mar Vermelho, deu-lhes sustento no deserto, mas viviam como se nada tivesse acontecido.
Deus não escolheu este povo por seus méritos, pois não havia nenhum. O povo continuamente quebrava a sua Aliança com Deus. Deus, porém, mantinha a sua Aliança com o seu povo. Deus não é como nós. Quando alguém quebra um acordo conosco, logo reclamamos ou pensamos em como será a vingança. Geralmente é isso que as novelas da Rede Globo ensinam: que a vingança é um prato que se come frio. Com Deus não funciona assim. O povo continuamente quebra a Aliança, mas Deus a renova. Se Deus agisse como age o ser humano, o ser humano teria sido extinto da face da terra a muito tempo.
Este é o propósito do livro de Deuteronômio. Na língua grega, Deuteronômio significa “segunda lei”. Deus concedeu os 10 mandamentos ao seu povo e isso está registrado em Êxodo 20. Porém, o povo esqueceu completamente das leis do Senhor e dos seus feitos poderosos. Por isso, é escrito o livro de Deuteronômio para lembrar o povo das leis do seu único Deus e Senhor.
O povo está no deserto. Estar no deserto significa depender completamente e unicamente de Deus. No deserto, não havia como plantar algo para comer. No deserto, não havia como cavar o chão ou esperar uma chuva para ter água para beber. Deserto é dependência de Deus. Moisés está guiando o povo de Deus pelo deserto, onde é quente ao dia e frio à noite. Moisés escuta as diversas queixas do povo e, muitas vezes, intercedia para que Deus não se esquecesse da sua Aliança.
Este povo tinha sérios problemas de memória. Esqueciam-se completamente da maneira como Deus agiu entre eles. É por isso que está escrito o capítulo 8 de Deuteronômio.
O povo estava peregrinando por 40 anos no deserto. Entretanto, a Terra Prometida não era tão distante. Hoje em dia, esta viagem demora apenas 2 horas de carro. Mas Deus os fez vagar por 40 anos no deserto por causa da sua desobediência, porque continuamente esqueciam de Deus.
Agora, o medo de Moisés é que quando o povo chegar à Terra Prometida pensarão que não precisam mais de Deus, pois já passaram pelo deserto. Moisés teme que ao entrar na Terra Prometida, o povo esqueça completamente de Deus e nem passe essa história adiante aos seus filhos e netos, geração após geração. Por isso existe o livro de Deuteronômio, para lembrar o povo quem é Deus e como agiu em sua história.
Por isso, diz o versículo 11: “Tenham cuidado de não se esquecer do Senhor, seu Deus, deixando de cumprir os seus mandamentos, os seus juízos e os seus estatutos, que hoje lhes ordeno.” (Dt 8.11). Ou seja: não deixem de cumprir as leis que Deus deu a vocês. Em seguida, diz: “Não aconteça que, depois de terem comido e estarem fartos, depois de haverem edificado boas casas e morado nelas; depois de se multiplicarem o seu gado e os seus rebanhos, e aumentar a sua prata e o seu ouro, e ser abundante tudo o que vocês têm, se eleve o seu coração e vocês se esqueçam do Senhor, seu Deus.” (Dt 8.12-14a). Geralmente este é o caminho que o ser humano faz. Quando consegue o que quer, esquece-se de Deus. Nasce no seu coração o orgulho, o egoísmo, a prepotência. Acredita, de fato, que tudo o que tem veio do seu esforço. Então vem um vírus invisível que coloca todos dentro de casa e acordamos à realidade de quanto somos dependentes de Deus. Sem saúde e vida, não teríamos feito nada! Essa percepção deve nos levar à Ação de Graças, à gratidão a Deus, o Senhor, por quem ele é e por tudo aquilo que ele faz!
E para refrescar a memória do povo, Moisés cita alguns dos feitos que Deus fez entre eles: “que os tirou da terra do Egito, da casa da servidão, que os conduziu por aquele grande e terrível deserto de serpentes abrasadoras, de escorpiões e de aridez, onde não havia água; e que fez sair água da rocha para vocês beberem; que no deserto os sustentou com maná, que os pais de vocês não conheciam;” (Dt 8.14b-16a). Não foi pouca coisa que Deus realizou entre o povo para que agora, ao entrarem na Terra Prometida, esqueçam-se de tudo e do próprio Senhor. Também entre nós Deus já realizou muitas obras maravilhosas para que nos esqueçamos dele e acharmos que fomos nós quem fez tudo. Por isso diz o v. 17-18: “Portanto, não pensem: “A minha força e o poder do meu braço me conseguiram estas riquezas.” Pelo contrário, lembrem-se do Senhor, seu Deus, porque é ele quem lhes dá força para conseguir riquezas; para confirmar a sua aliança, que, sob juramento, prometeu aos pais de vocês como hoje se vê.” Lembrem é a palavra-chave aqui. Voltar ao interior do coração e descobrir o que Deus já fez na nossa vida.
Amados irmãos, amadas irmãs,
isso faz sentido para os dias atuais? A Alemanha é o país mais rico da Europa, mas é o país que, estatisticamente, mais longe está de Deus. Por chegarem a um bom progresso material, creram que sua força conquistou tudo aquilo que têm e são.
O mesmo pode não ser tão diferente conosco no Brasil, no Rio Grande do Sul, em Sapiranga. Temos tudo o que precisamos para viver. Para quê agradecer? Para que acreditar em Deus? O mais fácil é viver como se Deus não existisse. O mais fácil é esquecer de Deus e depois esquecer que esquecemos de Deus.
Porém, Deus não se esqueceu de nós. Mesmo em meio à infidelidade do seu povo, Deus trouxe a nós uma Nova Aliança (Novo Testamento) através do sacrifício do sangue do Cordeiro no altar da cruz. A cruz está no centro dos altares luteranos para nos lembrar do que Deus realizou por nós. Sempre que entramos (ou acessamos) a igreja, devemos olhar para a cruz e pensar: sou aceito não por causa do que faço, mas meramente por sua graça. Deus me aceita por seu amor e não porque fiz isso ou aquilo. Não foram nosso braço e nosso poder que conseguiu a salvação, mas o braço pregado e a fraqueza do Deus que morreu por nós na cruz.
Hoje é Domingo de Ação de graças. O que trazemos diante do altar de Deus? Qual é a nossa gratidão? E não estou falando apenas de dinheiro ou alimentos. Que palavras podemos trazer hoje diante da cruz de Cristo em gratidão?
Hoje, a cruz nos lembra do maior motivo de gratidão: Ele morreu por nós. Ele nos aceita por graça e misericórdia. Ele perdoa os nossos pecados. Ele abre as portas dos céus. Ele nos dá completo acesso ao seu Pai.
Nós somos Israel. Precisamos ser continuamente lembrados das obras de Deus em nossa vida, principalmente da obra da pessoa de Jesus Cristo na cruz do Calvário. Para não esquecermos de Deus e nem esquecermos que esquecemos de Deus, leia a Bíblia. Ela nos lembra continuamente quem é Deus e o que ele fez e faz por nós. Só há uma maneira de não nos tornarmos autossuficientes: lendo a Bíblia. Quanto mais amarmos a Bíblia, mais amaremos a Jesus; quanto mais amarmos a Jesus, mas amaremos e defenderemos a sua Igreja; quanto mais amarmos a sua Igreja, mais amaremos o nosso próximo; quanto mais amarmos o nosso próximo, mas amamos ao nosso Deus.
Esquecemos de Deus, mas ele não esqueceu de nós. Vamos agradecer. Amém.
Notas e referências
“Die Menschen haben vergessen, dass sie Gott vergessen haben.” In: VORLÄNDER, Karin. Superando a depressão. Os cristãos da Alemanha Oriental ainda estão procurando seu futuro. In: Rheinischer Merkur No. 18/2000, 25.
↩MERKEL, Angela. In: Revista Ultimato. 358. ed. . São Paulo: Abu Editora, Jan-fev. 2016.
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