Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Eliseu segura o manto de Elias à margem do rio.Pregações

Agora, é a nossa vez

Amados irmãos, amadas irmãs,

despedidas são difíceis. Entre as “idas e vindas de Deus”, Jesus subiu aos céus diante dos seus discípulos – tal qual Elias foi elevado às alturas diante de Eliseu no Antigo Testamento. Foram muitos os ensinamentos; foram muitas as lições; são muitas as memórias... Mas há algo diferente aqui: a história de Jesus não terminou com a sua morte! Quarenta dias após a vitória da Ressurreição, Jesus “subiu aos céus e está assentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso, de onde virá para julgar os vivos e os mortos”, conforme resumem muito bem as palavras do Credo Apostólico.

Fico imaginando como os seus discípulos se sentiram ao contemplarem esse evento glorioso. Talvez tenham experimentado sensações que não podem ser expressas por palavras. De um lado, a gratidão por contemplar tamanha cena... De outro lado, o sentimento de despedida: ele está indo embora. Eu imagino que seus corações devem ter doído, seus pensamentos ficaram um pouco embaralhados e suas vidas receberam um novo propósito de vida!

Despedidas nunca são fáceis e são ainda mais difíceis quando sabemos que nunca mais veremos alguém. As despedidas podem vir com a raiva e a amargura de relacionamentos rompidos, ou podem vir através da tristeza e luto pela morte. As despedidas podem ocorrer quando alguém está partindo para uma grande aventura, quando um capítulo se fecha, quando um trabalho é concluído. Despedidas podem trazer choque e confusão. Despedidas podem trazer lágrimas, risos, memórias, esperanças, arrependimentos, resoluções. Despedidas podem ser muitas coisas. Mas uma despedida é sempre um novo começo, para quem parte e para quem fica.1

Em sua história, Jesus consumou de uma vez por todas a História da Salvação. Ele morreu por nós; ressuscitou por nós e subiu aos céus por nós. A memória dos seus anos de ministério e da sua obra permanecem de geração em geração na Igreja. Ele subiu aos céus, mas continua presente tal qual prometeu. Onde o Evangelho é pregado de maneira pura e os Sacramentos são administrados retamente, ali está univocamente a presença de Jesus. Por isso, o culto cristão é o lugar especial onde celebramos a presença de Cristo, pois embora ele esteja diariamente em nossas vidas, é na pregação do Evangelho que ele fala diretamente às mentes e corações e no Sacramento da Ceia do Senhor que conforta e confirma o perdão na vida do cristão.

Ao subir aos céus, Jesus consumou a glorificação da sua identidade. “Somente ao entrar no céu, isto é, na intimidade exclusiva do Pai, Cristo Jesus é, plena e indissoluvelmente, o perfeito e consumado Deus-homem”2. Jesus não subiu aos céus apenas como um “espírito” ou como uma “alma”, mas com seu corpo e com as marcas da dor da cruz: ele quer ser reconhecido por suas feridas. E tal qual seu corpo glorificado entrou na presença do Pai, da mesma forma, no dia da ressurreição do corpo, também nós, com toda a nossa identidade entraremos com um corpo incorruptível na presença de Deus.

Amados irmãos, amadas irmãs,

eis o grandioso e misterioso dia da Ascensão de Jesus. A despedida é sempre uma oportunidade para o recomeço. Agora, é o momento do futuro, de olhar para o próximo capítulo: há muito trabalho a ser feito! Os discípulos receberam um novo propósito e uma nova direção para as suas vidas a partir da Ascensão do Senhor. Assim precisa ser também nas nossas vidas hoje!

Sempre que confessamos através das palavras do Credo Apostólico “subiu aos céus e está assentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso”, estamos assumindo o compromisso de arregaçar as mangas, porque isso significa que agora é a nossa vez! A obra da pessoa de Jesus Cristo na cruz nos salvou. Ele fez tudo pela nossa Salvação. Ela está consumada! No Sacramento, sua obra é recebida. Na pregação do Evangelho, sua obra é ouvida. No culto do dia a dia, sua obra deve ser vivida!

Agora é a nossa vez! É a nossa vez de continuar no mundo com a missão de Jesus. É a hora de amadurecermos espiritualmente. É a hora de um novo começo, um novo capítulo, uma nova jornada. Jesus reuniu, pregou, amou, se entregou. Agora, é a vez da Igreja de Jesus (nós) reunirmos mais pessoas, falarmos do amor de Jesus e amarmos ao próximo como Jesus nos amou. Com seus pés, Jesus caminhou por vilas e cidades; com suas mãos, Jesus acolheu, abraçou, curou, alimentou; com seus olhos, Jesus viu o sofrimento; com sua boca, Jesus proclamou a vinda do Reino de Deus; com seu corpo, Jesus se entregou inteiramente por nós. Agora, no novo propósito após a Ascensão, nós devemos ser os pés, as mãos, os olhos e a boca de Jesus. A Igreja é o Corpo de Cristo – a presença de Cristo na terra! É a nossa vez de, com o coração de Jesus, fazer a diferença no mundo e proclamar o Evangelho a toda criatura. É a nossa vez!

O chamado de Deus não é à uma fuga da realidade, mas a encararmos a realidade de frente e a caminharmos como Igreja em missão. Igreja não é um “clube do bolinha” cujo dono é o pastor ou o presbitério. A Igreja é o Corpo de Cristo cujo Senhor é o próprio Cristo. Na Igreja, não servimos a nós mesmos, mas ao Senhor da Igreja que nos vocacionou a proclamar seu amor por todo o mundo em palavras e ações. Não somos chamados a “brincar de igrejinha”, mas a nos comprometermos com o chamado divino enquanto o Evangelho provoca transformações nas nossas vidas.

Agora, é a nossa vez. “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mateus 28.19-20). E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes, em Cristo Jesus. Amém.

Notas e referências

  1. Sharon Grenham-Thompson no programa de rádio “Daily Service” da BBC Radio 4 LW em 25 de Janeiro de 2024. < https://www.bbc.co.uk/programmes/m001vl98 >. Acesso em: 27. mai. 2025.

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  2. GUARDINI, Romano. O Senhor: reflexões sobre a pessoa e a vida de Jesus Cristo. São Paulo: Cultor de Livros, 2021. p. 623.

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