PregaçõesAgradecer?
Amados irmãos, amadas irmãs,
Será que temos pelo quê agradecer? Na situação em que estamos vivendo, há motivos para dar graças ao nosso Deus? Em meio ao que estamos vivendo, há ações de graças?
Certamente, estamos passando por um período bastante difícil. Nem sequer podemos celebrar o Culto de Ação de Graças como comunidade reunida de maneira presencial. Em nossos corações, hoje é um dia de saudade onde lembramos carinhosamente das pessoas que mal vimos e encontramos neste ano. Que situação complicada.
Ao mesmo tempo, aumentam diariamente o número das mortes pelo Novo Coronavirus. A última contagem passa das 60 mil pessoas. Com certeza que há outros problemas que também tiram as vidas de muitas pessoas. Porém, o que você e eu podemos fazer pelo câncer? O que você e eu podemos fazer para controlar a violência? O que você e eu podemos fazer para controlar outros problemas de saúde? A grande verdade é que para estas coisas podemos fazer pouco ou nada. Entretanto, quanto ao coronavirus temos muito o que fazer. Porém, parece que ao invés de eliminarmos o problema a mais que surgiu, lidamos como se não tivéssemos nada a ver com isso. Colocamos a responsabilidade na medicina, nos políticos, tudo para que não precisemos fazer nada. Enquanto isso, o vírus continua fazendo novas vítimas; novas famílias enfrentam o luto, muitas vezes, nem mesmo tendo direito a um sepultamento digno para os seus familiares, fazendo-o sem os ritos que são tão terapêuticos e importantes no processo de assimilação da perda significativa. Ao mesmo tempo, os sepultamentos coletivos são uma completa perda de identidade da pessoa falecida, pois a sua identidade se perde no todo. Este é o ano que estamos vivendo. Essa é a realidade que muitos de nós, talvez, estejamos ignorando.
De fato, hoje quero fazer essa provocação. Diante de uma realidade desta natureza, há pelo quê agradecer? Em meio a tanto sofrimento, dor, desespero e morte, há pelo quê agradecer? Outras pessoas estão enfrentando a ansiedade, o pânico, o desespero ou a depressão. Há pelo quê agradecer?
Talvez, precisemos tirar um pouco os olhos do presente e olhar para o passado. Nós não somos as primeiras pessoas a passarem pelo sofrimento. Também não seremos as últimas. Gerações passadas e futuras terão seus desafios para enfrentar com responsabilidade e coragem.
O Culto de Ação de Graças nos remete àquilo que antigamente se chamava de Festa da Colheita, Festa do Colono ou Dia do Colono. Hoje nós estamos passando por uma situação complicada. Estamos passando por algo que os colonizadores não enfrentaram. Porém, também não passamos por muitas coisas que eles enfrentaram em sua época.
Em 1824, os primeiros colonizadores alemães puseram seus pés no Brasil. Vieram para cá com muita esperança. Queriam um recomeço. Na Alemanha, o desemprego e a fome assolavam a população. Esperança era o que traziam na sua bagagem. Com seus pertences, lá estava também uma Bíblia, um Hinário e o Catecismo Menor de Martinho Lutero.
A época da vinda não era fácil. Inúmeras famílias perderam entes queridos na própria viagem. Também tinham que enfrentar o luto sem um sepultamento digno, mas onde o corpo era jogado no mar. Muitas mortes causadas por doenças graves. Exatamente no dia 25 de Julho de 1824, 39 pessoas chegaram a São Leopoldo. Logo depois chegaram mais 81 pessoas.
Se já não bastasse a viagem difícil, agora precisavam iniciar tudo do zero em meio à mata virgem. Lúcio Fleck declara no seu livro “Sereis Minhas Testemunhas”:
Este punhado de 120 indivíduos tinha a difícil tarefa de enfrentar a selva virgem, o abiente hostil, o clima inconstante do Rio Grande do Sul, o isolamento da sociedade gaúcha e a completa ausência de uma infraestrutura de qualquer tipo para iniciar a colonização alemã no Vale dos Sinos.1
Ele continua:
Mais imigrantes vinham chegando e novas picadas foram abertas. Surgiram as povoações de Hamburger-Berg (Novo Hamburgo), Stanz (Estância Velha), Baumschneis (Dois Irmãos), Berghanerschneis (Ivoti), Campo Bom e, depois, o Leoner-Hof (Sapiranga).2
Estes corajosos colonizadores enfrentaram muitas coisas para que hoje existissem estas cidades, esta igreja. Talvez tivessem muito a reclamar das dificuldades que enfrentaram. Entretanto, vale a lembrança do testemunho do professor sapiranguenses Lúcio Fleck, que diz: “Chegaram, colocaram mãos à obra e venceram”3. Podemos hoje imaginar por tudo o que passaram e enfrentaram. Mas com a fé que tinham no coração, foram capazes de vencer.
Primeiramente os próprios colonos tinham a tarefa de ensinar e também dar os cultos. Com o tempo, vieram pastores da Alemanha que também enfrentaram a difícil e honrada tarefa de pastorear o rebanho de Deus que passava pelas dificuldades da colonização. Cumpriram bem sua tarefa e estabeleceram a fé luterana tanto em Sapiranga como em todo o Estado do Rio Grande do Sul.
Bem mais tarde, um pastor chamado Hans Erdmann Götz percebia a necessidade de se aproximar das comunidades do interior. Tudo começou com encontros de estudos bíblicos. Mais tarde, a primeira resposta positiva surgiu aqui no Bairro Sete de Setembro4. No dia 19 de Outubro de 1981 foi lançada a pedra fundamental do que viria a ser a Comunidade Evangélica de Confissão Luterana Vida Nova5, a nossa comunidade. Com certeza, muitos irmãos e irmãs irão lembrar deste tempo e poderiam testemunhar muito de como foi o frutífero ministério do P. Götz.
Através da união das forças, estes colonos não apenas desbravaram as matas, as construíram escolas, cemitérios e igrejas. Através da união de forças, possibilitaram o futuro. Hoje nós colhemos o que eles plantaram no solo do passado. Certamente que o próprio Deus os abençoou em cada momento. Em muitos momentos deve ter sido bastante difícil, mas eles perseveravam.
Amados irmãos, amadas irmãs,
temos pelo quê agradecer, mesmo em meio à pandemia? Acredito que a resposta em nossos corações seja: Sim! Deus age na história. Não chegamos até aqui como colonizadores de um modo fácil. Foi difícil e houve muito sofrimento no caminho. Mas, “Chegaram, colocaram mãos à obra e venceram”6. Os problemas não devem nos paralisar. Ao contrário, os problemas devem nos colocar à ação. Assim, auxiliamos a geração futura a desfrutar do cuidado que temos agora, caso seja da permissão de Deus.
Estamos passando por uma situação difícil. Mas não somos os primeiros e não seremos os últimos. Dependendo da maneira como lidarmos com essa situação, venceremos ou seremos apenas um capítulo passado da história com alto risco de esquecimento.
É assim que a palavra do apóstolo Paulo que ouvimos no início é capaz de ajudar a nós: “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança, a perseverança produz experiência e a experiência produz esperança.” (Romanos 5.3-4). Paulo passou por muito sofrimento. Foi apedrejado, perseguido, açoitado, preso, passou fome, esteve prisioneiro em um navio que naufragou, e, no fim de sua vida, decapitado. Não há perseverança e esperança sem sofrimento. O sofrimento é uma oportunidade de crescimento. Assim foi com Paulo, assim foi com os colonizadores, assim está sendo conosco em 2020.
Mesmo assim, somos convidados hoje à gratidão. Podemos olhar para o passado e testemunhar: “Chegaram, colocaram mãos à obra e venceram”7. Com muita perseverança e esperança os colonizadores venceram seus medos, a mata, as dificuldades para formarem a nossa sociedade. Temos muito que agradecer.
Mas nossa gratidão hoje se volta especialmente ao que os fortaleceu em todos os caminhos tortuosos. O Deus sofredor que morre na cruz compreende nosso lamento e nossa dor e, por isso, ao ser empático, está conosco dia após dia. Assim como Jesus Cristo sofria com Paulo, com os imigrantes, Cristo também sofre conosco hoje. Podemos agradecer pela sua vitória na cruz que nos concede pleno perdão de nossos pecados.
Apesar de tudo, hoje é dia de agradecer. Pelas bênçãos reveladas, pela dor pela aflição; pelas rosas no caminho e os espinhos que elas têm; pela escuridão da noite, pela estrela que brilhou; pela prece respondida e a esperança que falhou; pela cruz e sofrimento e pela ressurreição; pela lágrima vertida e o consolo que é sem par; pelo dom da eterna vida, sempre graças hei de dar.
Amém! Amém! Amém!