Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Elias contempla a luz suave à entrada de uma caverna.Pregações

Altos e Baixos

Amados irmãos, amadas irmãs,

há momentos em que estamos plenos de alegria, com a boca ceia de riso, com as emoções super pra cima e, de repente ou em outros momentos, estamos plenos de tristeza, com lágrimas nos olhos e com as emoções lá em baixo. Muitas vezes vivenciamos uma montanha-russa emocional. Em alguns casos, é algo normal da vida humana; em outros casos, há o diagnostico de transtorno de bipolaridade.

A vida não é sempre alegre; mas a vida também não é sempre triste; O simples fato de viver proporciona que vivenciemos coisas boas e ruins, alegrias e tristezas, melhoras e pioras, bem-estar e mal-estar. A maioria de nós já nasce chorando porque fomos tirados do conforto de estar no útero da nossa mãe.

O grande problema é que a nossa cultura tem tornado especialmente a tristeza como algo que não faz parte da condição humana. Somos incentivados a postar fotos alegres nas redes sociais, mas dificilmente alguém posta uma foto triste; na nossa sociedade, a alegria é a regra; a tristeza é considerada doença. Atualmente psiquiatras estudam se não criamos doenças demais com aquilo que sempre foi normal da vida humana. Em muitos casos, estamos tristes e a recomendação é que um comprimido é capaz de fazer-nos voltar ao normal do que a sociedade exige. Medicalizamos demais a vida para estarmos sempre alegres e adequados à cultura enquanto, na verdade, a tristeza e dias “para baixo” são coisas completamente normais da vida humana que é uma arena de afetos em conflito.

Com isso, não estou dizendo que não devemos tomar remédios ou (aproveitando para emendar) receber vacinas. Certamente há casos em que são muito necessários. Entretanto, em muitas situações, medicamos nossas emoções para que possamos ser aceitos pela coletividade. Entristeço-me profundamente com tantos jovens já cheios de remédios para controlarem as suas emoções. Não são apenas as pessoas que estão doentes, mas o próprio mundo.

Muitas vezes, há a impressão também de que quem serve a Deus é uma pessoa de ferro. Vai encontrar apenas alegria na vida. Nunca vai passar por tristeza ou dor. Há a falsa ideia de que o cristão é alguém que, por ser amado por Deus, nunca sofre. Há uma idealização do cristão como alguém perfeito em todos os aspectos: espiritualmente, fisicamente e emocionalmente.

Elias é um importante profeta do Antigo Testamento. Sua trajetória está em I e II Reis, dois dos livros menos lidos da Bíblia. Portanto, embora Elias seja muito importante, infelizmente ele é pouco conhecido. Mas, hoje queremos conhecer um pouco da sua história, dos seus altos e baixos.

Elias era da cidade de Tisbé, uma cidade pequena e insignificante de Gileade/Naftali. Era um vilarejo desconhecido. Um lugarzinho inexpressivo e sem importância. Se você dissesse que era de Tisbé, as pessoas iam dizer: “onde é isso? Isso existe? Nunca ouvi falar. Nunca nem vi!” Não conhecemos muito sobre a infância de Elias. Seu nome no original hebraico significa O Senhor é Deus! Mais adiante vamos ver a importância do significado do seu nome.

Elias viveu em um dos piores períodos da história do Reino de Israel. No governo estava o tirano Acabe, o pior Rei de Israel no Antigo Testamento. Acabe não andava com Deus e ainda trouxe muita desgraça sobre o povo. Acabe se casou com Jezabel não por causa de amor, mas por interesses políticos. Jezabel era filha do Rei de Tiro e Sidom. Ao se casar com Jezabel, Acabe queria se tornar mais poderoso e ficar amigo de Tiro e Sidom. O grande problema é que os habitantes de Tiro e Sidom não adoravam ao Senhor Deus de Israel; ao contrário, eles adoravam ao deus da fertilidade Baal. Ao se casar com Acabe, Jezabel não se submeteu ao Senhor Deus de Israel, mas trouxe para Israel as suas divindades de Tiro e Sidom. Jezabel começou a levar o povo á idolatria, a descumprir o primeiro mandamento. Jezabel seduziu todo o povo a se desviar de ouvir a Palavra de Deus. O povo quebrou a Aliança com seu Deus. Aquilo que Acabe como político pensava ser uma grande aliança para empoderar sua nação, na verdade, trouxe sobre ela a desgraça. Foi “Jezabel a principal responsável pelo extermínio sistemático da adoração ao Senhor e pela propagação do culto a Baal em Israel (1 Rs 18.4, 13, 19; 19.10, 14).”1

É nesse período da história de Israel que surge Elias como alguém que andava com Deus e que foi levantado por Deus para levar o povo de volta ao Senhor. Em Elias,

o que vemos é o coração de um homem santo, um homem que andou com Deus, um homem que veio de uma família extremamente humilde e desconhecida, e que se tornou um servo tremendamente usado por Deus.2

Elias não tinha uma missão fácil pela frente. Mas ele seguiu confiante. Elias predisse uma grande seca para o povo (1 Reis 17.1-7), esteve no milagre da farinha e do azeite que não acabaram para a viúva de Sarepta (1 Reis 17.8-24). Mas o maior feito do ministério de Elias foi afrontar os profetas de Baal no monte Carmelo. Resumindo a história, enquanto Elias era o único profeta que restou de Israel; já os profetas de Baal eram Quatrocentos e Cinquenta (cf. 1 Reis 18.22). Os idólatras eram maioria!

Houve um desafio onde deveriam ser levados novilhos que seriam cortados e postos sobre a lenha, mas não deveria ser posto fogo para o sacrifício. Os adoradores de Baal deveriam adorar o seu deus e Elias deveria adorar o único Senhor Deus. A ideia era ver qual deus era o verdadeiro. O que o povo respondeu ao Elias? “É uma boa proposta”. (1 Reis 18.24). Resumindo o desafio (que você pode conferir depois na íntegra em 1 Reis 18), os adoradores de Baal ficaram clamando e não aconteceu nada! Elias chega a dizer: “Ao meio-dia, Elias começou a caçoar deles. Ele dizia: — Orem mais alto, pois ele é deus! Pode ser que esteja meditando ou que tenha ido ao banheiro. Talvez ele tenha viajado ou talvez esteja dormindo, e vocês terão de acordá-lo!” (1 Reis 18.27 NTLH).

Por mais que os adoradores de Baal clamassem, nada acontecia. Então chegou a vez de Elias. O que ele fez? Não bastavam as lenhas e as carnes do sacrifício. Elias mandou molhar bem tanto o sacrifício quanto à lenha três vezes. Era tanta água que ela também enchia uma vala aberta. No seco, os adoradores de Baal não conseguiram que o fogo se ascendesse; será que com tudo bem molhado, Elias, adorador do Senhor, conseguiria? A resposta está em 1 Reis 18.36-37: “ – Ó Senhor, Deus de Abraão, de Isaque e de Israel, que hoje se fique sabendo que tu és Deus em Israel, e que eu sou o teu servo e que, segundo a tua palavra, fiz todas estas coisas. Responde-me, Senhor, responde-me, para que este teu povo saiba que tu, Senhor, és Deus e que fizeste o coração deles voltar para ti.” E o que aconteceu vem no versículo 38: “Então caiu fogo do Senhor e consumiu o sacrifício, a lenha, as pedras e a terra, e ainda lambeu a água que estava na vala.” Quatrocentos e cinquenta profetas de Baal não conseguiram queimar um altar seco, mas o Senhor Deus de Elias queimou e consumiu tudo. Grande é o Senhor e mui digno de ser louvado.

O resultado não foi apenas este. Diz o 1 Reis 18.39: “Quando o povo viu isso, todos se prostraram com o rosto em terra e disseram: - o Senhor é Deus! Só o Senhor é Deus!” Eles disseram exatamente o que significa o nome Elias: O Senhor é Deus. Aquele foi um feito e tanto. Houve arrependimento naquele dia. O povo iria voltar para o seu Senhor. Este foi o ponto alto do ministério de Elias.

Porém, “havia, sem sombra de dúvida, uma expectativa no coração de Elias por reconhecimento da parte dos reis”3. Elias acreditava que além do povo, também o Rei Acabe e a sua esposa Jezabel se arrependeriam de seus pecados, especialmente da sua idolatria. Elias acreditava que também Acabe e Jezabel iriam confessar “O Senhor é Deus!”. Mas, não foi o que aconteceu. No lugar do reconhecimento de Elias, veio uma promessa de assassinato. Jezabel prometeu que acabaria com a vida de Elias. Foi aqui que o mundo caiu na cabeça de Elias. Ele testemunhou com seus próprios olhos um grande feito de Deus, mas queria mais, queria ser reconhecido pelo Rei e sua esposa, o que não aconteceu. Enquanto o nome Elias significa O Senhor é Deus, o nome Jezabel significa Baal é senhor. Jezabel estava disposta a reverter o fracasso de Baal no monte Carmelo com a morte do profeta Elias.

Elias estava no ponto alto e subitamente desceu ao ponto baixo, mergulhado em profunda tristeza. O mundo caiu na sua cabeça. Elias caiu naquilo que hoje conhecemos como depressão. A montanha-russa que subiu ao Monte Carmelo também desceu quando Elias recebe a promessa de assassinato por parte de Jezabel.

O que Elias fez? 1 Reis 19.4: “Ele mesmo, porém, foi para o deserto, caminhando um dia inteiro. Por fim, sentou-se debaixo de um Zimbro.” Foi uma longa caminhada. “Zimbro é uma árvore que atinge de um a três metros de altura, com folhas curtas e espinhosas que raramente caem”4. Ao chegar ali, o que Elias diz? “Basta, Senhor! Tira a minha vida, porque eu não sou melhor do que os meus pais.” Nestas palavras percebemos um claro sintoma de depressão ou de no mínimo uma tristeza profunda. O que aconteceu com aquele grande profeta adorador do Senhor que viu fogo cair do céu e queimar todo o sacrífico, as lenhas e secar a água? Agora ele está embaixo de uma árvore e pede para morrer. De um alto ponto em sua vida Elias desceu para bem baixo em profunda tristeza.

O que Deus fez? Cuidou de Elias. Primeiro, um anjo acorda Elias e lhe pede que se levante e coma (cf. 1 Reis 19.5), depois o anjo pede que Elias continue a sua viagem por mais quarenta dias até chegar ao monte Horebe (cf. 1 Reis 19.7). Ali ele entrou em uma caverna onde se inicia o texto que ouvimos lá no início da pregação.

Na caverna, Deus pergunta a Elias: 1 Reis 19.9: “O que você está fazendo aqui, Elias?” Deus foi muito cuidadoso com o profeta em sua profunda tristeza. O amor de Deus não nos abandona quando enfrentamos situações de tristeza ou depressão. Deus olha para a nossa condição e se coloca perto de nós. Elias não apresenta nenhuma novidade, mas apenas responde que o seu povo abandonou o Senhor e matou os profetas à espada. O que Deus faz? Elias deve sair da caverna! Elias deveria ficar diante do Senhor no monte.

Aparecem três manifestações extraordinárias, ou seja, fora do comum: um forte vento que despedaçava os montes (cf. 1 Reis 19.11a), um terremoto (cf. 1 Reis 19.11b) e o fogo (1 Reis 19.12a). Entretanto, Deus não estava em nenhuma destas manifestações extraordinárias. Em nosso sofrimento, muitas vezes queremos que Deus revele um grandioso sinal, que faça uma grande revelação, que efetue um grande milagre, que seja Pentecostes todo os dias... Mas para Elias, onde Deus estava? v. 12“E depois do fogo, veio o som de um suave sussurro.” Deus estava em uma brisa suave! A voz de Deus é calma, mansa, serena e tranquila.

Deus age através das coisas ordinárias. Basta um simples sussurro de Deus para que o coração aflito de Elias se acalme e sua tristeza profunda vá embora. E se antes Elias não havia compreendido a pergunta, agora Deus a refaz exatamente com as mesmas palavras: v. 13: “ – O que você está fazendo aqui, Elias?” As palavras são exatamente as mesmas, mas a circunstância é completamente diferente: é a voz calma, mansa e tranquila do Senhor que é Deus.

É a voz de Deus que acalma o coração. É a voz de Deus que acalma a depressão. É a voz de Deus que acalma aquele que nem tem nome para o que está sentindo. Calma!

Elias foi encontrado pelo amor e pela misericórdia de Deus. Já Acabe e Jezabel acabaram muito mal. Acabe se disfarçou para entrar na guerra e foi morto em batalha (cf. 1 Reis 22.34-35), já Jezabel foi jogada pela janela e atropelada pelos carros do rei (cf. 2 Reis 9.32-33). Triste? Infelizmente sim.

E Elias? Elias estava caminhando com Eliseu e algo magnífico aconteceu: 2 Reis 2.11: “Enquanto iam caminhando e falando, eis que um carro de fogo com cavalos de fogo, os separou um do outro, e Elias subiu ao céu num redemoinho.” Após tudo o que passou, Elias não morreu, mas foi levado por Deus diretamente ao céu em um momento de muita glória.

Amados irmãos, amadas irmãs,

não sei como são os seus altos e baixos. Porém, acredite: seja em bons tempos ou em tempos difíceis, seja na alegria ou na profunda tristeza, seja o que for, Deus não deixa de ser Deus e de acompanhar o seu povo. Elias experimentou o auge do seu ministério e em seguida mergulhou em uma profunda tristeza, mas Deus permaneceu o mesmo.

Entrega as tuas tristezas a Deus. Ele vem com voz calma, mansa e tranquila para cuidar de ti. Deixa Deus ser Deus. Deixa-o cuidar de ti. Chega desse orgulho. Chega dessa prepotência. Chega de ficar dentro dessa caverna escura e triste. Saia da caverna porque Deus quer falar com você.

No Novo Testamento, temos outro personagem que ficou preso três dias em uma sepultura que também era uma caverna, mas que saiu dela vitorioso e está vivo! Jesus é o Senhor Deus! O auge do ministério de Jesus foi a cruz e a ressurreição. Ele sentiu tuas dores na cruz, mas também promete a feliz ressurreição.

Hoje Deus quer te salvar. Se você tem enfrentado problemas emocionais, creia que hoje Deus é capaz de efetuar uma mudança completa e verdadeira em ti. Eu creio! E se precisar conversar, entre em contato comigo, vamos entregar nas mãos de Deus e confiar que ele pode te tirar dessa caverna e te fazer seguir a vida. Isso não significa que não haverá mais dor, mas agora Deus caminhará contigo.

Que Deus nos abençoe. Amém.

Notas e referências

  1. DOUGLAS, J. d. (ed.). O Novo Dicionário da Bíblia. 3. ed. São Paulo: Vida Nova, 2008. P. 406.

    ↩
  2. PORTE JÚNIOR, Wilson. Depressão e Graça. O cuidado de Deus diante do sofrimento de seus servos. São José dos Campos: Fiel, 2016. p. 145.

    ↩
  3. PORTE JÚNIOR, 2016. p. 148.

    ↩
  4. PORTE JÚNIOR, 2016. p. 149.

    ↩