PregaçõesAlvo mais que a neve
Amados irmãos, amadas irmãs,
Isaías cresceu e viveu em um período conturbado da história do povo de Deus. Trata-se de uma época de crise política e econômica causada por uma crise na espiritualidade. A adoração ao Senhor tinha se tornado ritos vazios e repetitivos, sem sentido algum ou, pior ainda, sem nenhuma sinceridade do coração. Quanto mais religiosos eram, mais se afastavam do Senhor Deus, muitas vezes, inclusive, caindo em uma falsa religião ao adorar os deuses dos povos vizinhos.
Porém, a pergunta que fica é: como chegaram a este ponto? Afinal de contas, esta história não começou com Isaías, mas muito antes dele.
Quando o Rei Salomão, filho de Davi, morreu em 931 a. C., Roboão, seu filho, assumiu o trono de Israel com 41 anos de idade. Diz a Palavra de Deus em 1 Rs 11.43: Salomão “descansou com seus pais e foi sepultado na Cidade de Davi, seu pai; e Roboão, seu Filho, reinou em seu lugar.” O problema é que Salomão não deixou uma boa herança para Roboão administrar. Salomão quebrou a Aliança de Deus e desobedeceu aos mandamentos. Isso o levou a uma má administração da nação que estava dividida. A monarquia era importante, mas não era maior do que o próprio Deus. Salomão esqueceu que o segredo para manter a unidade da nação estava na adoração ao único Deus. Samuel já havia avisado anos antes que sem a adoração, tanto o rei como a nação sucumbiriam: “Se temerdes ao Senhor, e o servirdes, e lhe atenderdes a voz, e não lhe fordes rebeldes ao mandado, e seguirdes o Senhor, vosso Deus, tanto vós como o vosso rei que governa sobre vós, bem será. Se porém, não derdes ouvidos à voz do Senhor, mas, antes, fordes rebeldes ao seu mandado, a mão do Senhor será contra vós outros, como o foi contra vossos pais.” (1 Samuel 12.14-15).
Porém, com o reinado de Salomão, o povo se afastou cada vez mais da lei e da adoração a Deus. Com isso, a situação foi ficando cada vez pior. As terras do povo de Deus começaram a se tornar alvos dos poderosos povos vizinhos. Podemos imaginar que isso não iria acabar bem. Era esta a nação que Roboão recebeu para administrar e cuidar.
O problema é que Roboão também não estava interessado em servir a Deus e muito menos ao povo. Os anciões da nação o aconselham: “Se, hoje, te tornares servo deste povo, e o servires, e, atendendo, falares boas palavras, eles se farão teus servos para sempre.” (1 Reis 12.7). Porém, esta conversa de servir não agradou ao rei. Por isso, diz a Palavra de Deus: “Porém, ele desprezou o conselho que os anciãos lhe tinham dado.” (1 Reis 12.8a).
Outro problema é que havia um rebelde chamado Jeroboão que estava cansado dos altos impostos cobrados por Salomão e pela maneira como se conduzia a nação. Embora Jeroboão estivesse preocupado com o povo, uma coisa estava lhe faltando: Jeroboão não mencionou, em momento algum, que o rei e o povo deveriam se arrepender e se voltarem ao único Deus.
Roboão não era ouvido pelo povo. O resultado foi uma divisão do Reino: 10 tribos ficaram ao norte, chamaram-se de Israel e tinham como capital a cidade de Samaria e 2 tribos permaneceram ao sul, chamando-se de Judá e tendo como capital a cidade de Jerusalém.
Posteriormente, ambos os governos são avaliados por Deus. De Roboão, a Bíblia diz: “Fez Judá o que era mau perante o Senhor; e, com os seus pecados que cometeu, o provocou a zelo, mais do que fizeram seus pais.” (1 Reis 14.22). E continua: “Havia também na terra prostitutos cultuais; fizeram segundo todas as coisas abomináveis das nações que o Senhor expulsara de diante dos filhos de Israel.” (1 Reis 14.23). Roboão permitiu que a abominável religiosidade dos povos vizinhos invadisse Judá, o Reino do Sul. Isto começou a levar Judá à decadência. Já de Jeroboão, a Bíblia nos diz: O Senhor “Abandonará a Israel por causa dos pecados que Jeroboão cometeu e pelos que fez Israel cometer.” (1 Reis 14.16). Por isso, “foi de vinte e dois anos o tempo em que Reinou Jeroboão.” (1 Reis 14.20).
Logo, a nação de Deus estava dividida. Com pouquíssimas exceções (como Josias, por exemplo), a maioria dos reis tanto de Israel ao Norte como de Judá ao Sul haviam abandonado completamente o verdadeiro e único Senhor. O afastamento espiritual da nação estava levando-os a uma ruína também econômica. Chegou um momento em que o Reino do Norte, Israel, foi dominado pelos Assírios, e o povo foi levado ao exílio e nunca mais voltou. Deus levantou vários profetas, mas não foram ouvidos. O Reino do Sul, Judá, presenciou este acontecimento e sabia que poderia acontecer a mesma coisa consigo. Deus chama Isaías, o primeiro profeta que atua em Judá!
Na pesquisa bíblica, percebeu-se que o livro do profeta Isaías trata de três períodos distintos da história de Judá. Pessoas que se debruçam sobre a Bíblia afirmam que, na verdade, não se trata de um profeta, mas três que, posteriormente, ficaram com o nome Isaías:
1-39: Primeiro Isaías: antes do exílio babilônico. Avisa que o juízo virá;
40-55: Segundo Isaías: no exílio babilônico. Consola o povo no exílio;
56-66: Terceiro Isaías: após o exílio babilônico. Pede pela fidelidade do povo.
O nosso texto se encontra no primeiro capítulo. Portanto, faz parte do Primeiro Isaías, quando o povo de Deus estava sob a ameaça dos povos vizinhos, mas ainda era uma nação independente. E qual a função deste primeiro profeta? Para que Deus o chamou? Para anunciar o juízo de Deus tanto a Israel como a Judá.
Compreendemos bem a situação de Israel quando lemos o primeiro capítulo do livro de Isaías. Após o péssimo reinado de Salomão, a divisão do Reino por Roboão e Jeroboão, uma série de reis vazios de adoração e o sucumbir do Reino do Norte, Israel, era assim que se encontrava Israel: “o boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende. Ai desta nação pecaminosa, povo carregado de iniquidade, raça de malignos, filhos corruptores; abandonaram o Senhor, blasfemaram do Santo de Israel, voltaram para trás.” (Isaías 1.3-4).
O pior de tudo é que Judá vive como se o relacionamento deles com Deus estivesse bem por causa do cumprimento das tradições da sua religiosidade. É isto que Deus, através da boca do profeta, denuncia em Isaías 1.10-18: “Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais cevados e não me agrado do sangue dos novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes.” (v. 11). Quanto à festa das Luas que era realizada todos os Sábados, Deus diz: “não posso suportar a iniquidade associada ao ajuntamento solene.” (v. 13b). Ou seja, o povo misturava o pecado com a adoração a Deus. Deus sofre com os pecados do povo: “já me são pesadas; estou cansado de as sofrer.” (v. 14b). Deus não aguenta mais a hipocrisia e a falsidade de seu povo. Tanto, que não ouve mais as suas orações: “Pelo que, quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue.” (v. 15). Judá falava muito com o Senhor, mas não se importava em parar para ouvir a sua voz.
O que deveriam ouvir e fazer? O bem (v. 17) e o arrependimento (v. 18). Deus não queria um culto hipócrita onde se repetiam coisas vãs com corações vazios. O que Deus esperava era um arrependimento sincero e uma disposição à purificação. E purificação não é algo simples. Israel deveria passar pelo juízo! E o juízo veio. Israel foi levada cativa à Assíria em 722 a. C. e Judá foi levado cativo à Babilônia em duas deportações: 598 a. C. e 587 a. C.
Amados irmãos e amadas irmãs,
em Mateus 9.10-13, Jesus come com pecadores e logo é acusado por aqueles que viviam uma falsa adoração a Deus e não estavam dispostos à purificação, arrependimento e conversão: os fariseus. A resposta que Jesus dá a eles nos lembra do livro de Isaías: “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não sacrifícios; pois não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento.” (Mateus 9.13). Deus espera o nosso arrependimento e não nossa falsa religiosidade.
Podemos estar tentando agradar a Deus através do cumprimento de regrinhas ou de rituais, como acontecia com o povo de Deus. Entretanto, o que mais agrada a Deus é um coração quebrantado, humilde e arrependido. Deus não quer nossos sacrifícios religiosos; Deus aguarda o sacrifício do nosso coração. Ele deseja ser o único Senhor das nossas vidas.
O reformador Martinho Lutero diz sobre Isaías 1.10-18: “nada pode agradar a Deus – a não ser o que é executado em humildade”. Assim como Israel e Judá, também nós, povo de Deus, estamos exilados do Reino verdadeiro que é aquele que nos aguarda na pátria celestial.
Assim como o texto indicado, não terminamos a pregação de hoje com uma proposta de juízo, mas de graça: “ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã.” (v. 18). O perdão dos pecados é obra divina. Basta arrependimento.
A melhor notícia é que Deus enviou Jesus para nos lavar de nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. O sangue que Jesus derramou na cruz nos lava e nos purifica de todos os nossos pecados. Apegamo-nos a Jesus e não a uma falsa religiosidade. Cheguemos hoje aos pés da cruz de Cristo e confessemos a ele os nossos pecados.
Assim nos diz a Palavra de Deus conforme Tito 3.5-7: “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna.”
Existe um hino que fala sobre isso e se chama “Alvo mais que a neve”. Vamos aprendê-lo juntos.
Hino >> Alvo mais que a neve;
Oração >>>
Credo Apostólico.