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Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Pessoa caminhando por um caminho rural ao amanhecer junto a uma igreja distante.Pregações

Ano Novo

Acabou a folga. É o que muitos começam a dizer. Em um começo de ano, todos temos expectativas, apesar de estarmos tão acostumados à rotina diária. Passou o natal, passou a virada do ano e agora tudo começa novamente. Ao mesmo tempo em que temos memórias, boas ou não tão boas do ano que passou, é lógico que todos esperamos um ano melhor, com menos problemas, menos tragédias, menos mortes, mais vida.

Bom, antes de tudo, devemos pensar que o passado é importante. Já disse alguém certa vez que “não poderemos entender o presente se não olharmos para o passado”. De fato, aquilo que vivemos hoje é consequência daquilo que foi feito ontem, no passado. Entretanto, o passado nunca deve ser motivo de confiança, muito menos de condenação. “Águas passadas não voltam mais” diz o ditado, ou, “não adianta chorar o leite derramado”. Do passado podemos aprender a construção de um futuro melhor, começando pelo perdão, pelo amor, pela reconciliação. Da mesma forma referente ao ano de 2018. O que dele podemos aprender para que 2019 seja melhor? Claro, coisas novas aparecem, situações que nunca jamais enfrentamos, mas enfim, como ter um bom ano?

O texto que lemos é uma profecia de Jeremias. Não devemos imaginar os profetas como videntes que preveem o futuro, pelo contrário, os profetas fazem suas constatações a partir da realidade do presente, do agora. A partir da situação em que está ele consegue pensar em um futuro melhor, ele tem esperança. Aliás, os profetas fizeram ótimas críticas no seu tempo: aos governos, ao modo de viver. Mas, antes de tudo, alertavam o povo de Israel a permanecerem com seu Deus.

Um desses profetas é o Jeremias. Ele é escolhido, vocacionado a levar a palavra do Senhor ao seu povo.1 O povo de Israel se encontrava no cativeiro babilônico. O que isso significa? Imaginem: Vocês aqui de Agrolândia são capturados por Indianos e não há escolha, entretanto todos devem ir para a Índia. Vocês, os seus pais, seus filhos, todo mundo. Aqui vocês vêm ao culto, acreditam no Deus Pai, Filho, Espírito Santo, tem seus costumes, tem sua profissão. Na Índia, porém, eles adoram outros deuses, tem seus cultos a estes deuses. Eles plantam, mas plantam outros tipos de alimentos. Trabalham, mas são outras profissões. Isso seria o caos. Em longo prazo poderia acontecer de o povo daqui começar a seguir os costumes de lá, inclusive na adoração de outros deuses. Pois bem, é exatamente esta a situação que o povo de Israel vivia. Estavam longe, com saudade da sua terra, da sua pátria, no meio de culturas e modos de viver totalmente diferentes. Também tinham saudades do templo onde faziam seus sacrifícios ao único Deus. O templo foi destruído pelos babilônios. Nisto, há dificuldade no povo de manter sua fé original no único Deus, no livro da lei Os profetas são levantados por Deus para levar esperança, mas também palavra de juízo ao povo. Deus permitiu que fossem levados, pois desobedeceram as suas ordens.

Na Babilônia não há esperança, mas escuridão somente. Poderiam pensar que nunca mais voltariam à sua pátria original, que nunca mais teriam seu templo de volta. Eles não têm perspectiva de futuro melhor, mas sofrem a dor do passado e do presente. Arrependem-se de sua desobediência a Deus, contudo, não sabem se um dia serão um povo com sua pátria e religião novamente. Destes que foram levados à babilônia, a grande maioria faleceu. Ficaram cerca de 80 anos no cativeiro. Seus filhos nasceram ali e já nada mais sabiam da terra, do templo. Já nasceram em uma cultura desconhecida.

Neste contexto difícil, o profeta Jeremias foi chamado por Deus para dar esperança nova ao povo. Deus chamou o profeta Jeremias e diz que diga ao povo que promete levá-los novamente à sua terra natal. Deus promete cumprir sua palavra de os trazer de volta. Em meio á escuridão, permanece a promessa de Deus. Ele quer tirar o povo do cativeiro e fazê-los retornar. Ele promete isso com sua palavra, pois assinala “palavra do Senhor”. Esta expressão é como a assinatura de Deus, como uma aliança, um contrato onde Deus assina em baixo: “palavra do Senhor”. Deus faz sua promessa: Vou tirar vocês daí, palavra do Senhor.

Quando estamos na escuridão da vida, no cativeiro do passado, na prisão da rotina que se torna monótona, isto é, igual, Deus promete nos tirar desta escuridão. Ele nos concede nova esperança, esperança de um tempo melhor. Ele assina embaixo “palavra do Senhor”. Ele não quer que em meio ao nosso desânimo procuremos cair nas ciladas alheias como adoração a falsos deuses. Na escuridão em que podemos estar é fácil cairmos no “atalho”, no mais fácil, no “jeitinho”. Na época de ano novo é comum as pessoas caírem em superstições vazias que, na verdade, não lhes traz garantia nenhuma. Deus não quer que procuremos outras soluções para os nossos problemas, mas ele mesmo quer estar ali, em nosso sofrimento. Mesmo que não tenhamos boa perspectiva para o ano novo, Deus quer nos acompanhar em nossas aflições, estar ao nosso lado. Isto não significa um ano de plena paz, prosperidade como dizem certos pastores da TV, não, pelo contrário, crer nesse Deus é saber ter alguém que sente o que eu sinto, pois minhas dores foram sentidas na cruz. Deus quer nos fazer retornar a ele antes de retornarmos a nossa terra, ou, “vida normal”. A maior preocupação de Deus para com o seu povo é que caiam na idolatria, que o esqueçam, por isso promete tirá-los dessa escuridão.

Por isso, Deus concede, por meio de seu profeta, esperança ao povo. Esperança nada mais é do que esperar, a espera. Há um teólogo e historiador, Dr. Martin Noberto Dreher, que diz “sem a memória não há esperança; sem a esperança a memória se vai”.2 De fato, é a partir do passado, daquilo que ficou para trás, da lembrança, da memória, disso vem a nossa esperança: quando olhamos o passado e esperamos um futuro melhor. Nós vivemos em uma sociedade onde tudo acontece muito rápido, onde as pessoas já não sabem mais o que significa esperar. Um filósofo e teólogo brasileiro chamado Mário Sérgio Cortella fala da “despamonhanização do mundo que é a miojização da vida”. Diz ele que

“Estamos vivendo a despamonhanização do mundo. Nós paramos de fazer pamonha, a gente passou a comprar pamonha pronta e isso é um perigo. Porque fazer pamonha significou não fazer pamonha para comer pamonha, mas para ficar junto. Sábado de manhã os homens adultos iam colher o milho, traziam, tiravam a palha básica, as crianças tiravam o cabelinho que ficava no meio do milho, as mulheres faziam o mais complicado que era ralar aquele milho todo. Às 4 horas da tarde iríamos comer aquela pamonha. A finalidade não era comer, era ficar junto. Nós paramos de fazer pamonha, portanto, paramos de ficar juntos e aquilo que foi a despamonhanização do mundo foi acompanhado da miojização da vida, isto é, a vida miojo. Namoro miojo, casamento miojo, sexo miojo, religião miojo, leitura miojo”.3

Com isso, ele quis dizer que o ser humano atual quer tudo para agora. Não há mais paciência, não há mais tempo, não ficamos mais juntos. Isso acontece especialmente com os jovens que lidam com a velocidade da internet. Queremos tudo para ontem. Inclusive se prega que com Deus também é assim: Peça a Deus e ele rapidamente o atenderá. Com Deus não funciona assim, não podemos domesticar Deus, não podemos ordenar a Deus que realiza tudo hoje e já. Não, Deus é livre e age como quer. O que nos resta é termos esperança, fé que Deus não esqueceu de nós e que ele está presente em nosso cativeiro, em nossa vida.

Fala-se no texto que Deus ouvirá a oração do povo. O povo invocará, orará e Deus os ouvirá. É o que restava ao povo: falar com Deus. Tenho um professor, o Werner Wiese, que fala algo muito interessante. Diz ele que “a oração é algo perigoso, pois Deus pode nos atender”.4 Ao povo restava pedir que Deus os libertasse do cativeiro e os levasse de volta à sua terra. Deus fez isso, atendeu a oração do povo. Isso é graça. Não merecemos nada de Deus, mas ele atende mesmo assim, em seu amor. Mas, quanto à frase, pergunto: o que temos pedido para 2014? Ouso dizer: pedimos certo? Na TV e em redes sociais nós vemos muitas pessoas pedirem e desejarem prosperidade, paz, alegria, saúde somente. Não estou dizendo que isso não seja bom, mas tenho a impressão de que as pessoas querem trazer o céu para a terra, como se no ano novo no fosse existir sofrimento, dor, doença, pobreza. Se não acontece conosco, acontece com algum familiar. Se encararmos as coisas assim, não estamos prontos para enfrentar a realidade. Podemos cair nesse sonho irrealizável de um ano perfeito ou ver a realidade e saber que ali Deus está conosco, ali ter esperança do céu verdadeiro, que nossa pátria não está nesse mundo, mas naquilo que Deus tem preparado a nós. Assim como aconteceu com o povo de Israel, Deus ouve nossa oração, mas não age conforme queremos, mas como entende melhor em sua vontade.

E um último ponto que aprendemos nesse texto: Deus vai reunir o povo. Eles estarão juntos novamente, reconstruirão o seu templo e ali buscarão, em comunhão a Deus. Deus os reunirá quer onde estejam em um lugar só. Terão o seu templo de volta. Isto aconteceu e em Cristo é o que acontece hoje, nesta comunidade: cada um de seu canto reunido em um único lugar como povo de Deus, ao mesmo tempo em que estamos reunidos com todo o povo de Deus na terra, sim, aqui temos comunhão com todo o corpo de Cristo. Em Cristo Jesus, não é mais apenas aos judeus que Deus se revela, não são mais só eles o povo de Deus, mas em Cristo se cumpre a vocação de Abraão: “em ti serão benditas todas as famílias da terra”.5 Jesus vem dos judeus, e como foi por eles negado, se torna Senhor de todos os que nele creem, independente do povo, cultura. Deus reúne os seres humanos a partir de Cristo. Todos são iguais perante ele.

Não há uma receita pronta para um ano agradável, feliz, com sucesso. Mas há dicas que podem auxiliar no processo de passagem de um novo ano. Algo que devemos pensar é em um planejamento do ano. O que queremos conquistar nesse ano que não foi conquistado no ano que passou? O que podemos mudar na nossa vida? Como evitar erros que já aconteceram no passado? Estas e outras perguntas se encontram no momento certo. Assim como o povo de Israel se arrependeu de sua desobediência e tinham esperança em tempos melhores, nós também somos convidados a esperar em Deus somente. Agora é o momento de refletir sobre o novo ano, de como o tornar melhor aos pés da cruz de Cristo. Ali deve ser feito nosso planejamento. Talvez hoje já tenhas perdido as esperanças, quem sabe estás em uma escuridão tão grande que não saber para onde ir. Talvez, como o povo de Israel, estás sem boa perspectiva de futuro, com medo, frustrado ou acostumado achando que tudo será igual. Saiba que Deus é a esperança, somente ele pode lhe tirar do cativeiro em que estás e lhe conceder força para passar esse novo ano. Isso não significa que será perfeito, mas significa que em meios às dificuldades, Deus promete nova esperança. Ele morreu por ti, levou teus pecados, sentiu tuas dores, angústias, frustrações e vai voltar. Não houve dor ou sentimento humano que o Deus-homem não tenha sentido. Ele conhece o que se passa na tua vida e quer te acompanhar no ano novo, nas alegrias e nas tristezas, na saúde e na doença. Deixe Deus entrar na tua vida, no teu ano, deixe ele te encher de esperança, ele mesmo é a esperança. Ele quer cuidar de ti.

Que Deus te conceda um ano abençoado. Bênção não significa perfeição, mas a companhia de Deus. Que ele seja teu amigo, tua maior companhia em momentos de alegria e dor. Amém!

Notas e referências

  1. Jr 1.1-10.

    ↩
  2. DREHER, Martin. História do Povo de Jesus: uma leitura latino-americana. São Leopoldo: Sinodal, 2013. p. 14.

    ↩
  3. CORTELLA, Mário Sérgio. É preciso rejeitar a despamonhalização da vida. Brasil. Almanaque de Cultura Popular, São Paulo, n. 153, p. 12-14, jan. 2012.

    ↩
  4. Citado de memória;

    ↩
  5. Gn 2.3.

    ↩