Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

Voltar a Pregações
Pessoas partilhando pão em um gesto de cuidado.Pregações

As bem-aventuranças do mundo pós-moderno

Culto

Comunidade Rio Bonito | Joinville/SC | XVII / II / MMXIX

Amados irmãos, amadas irmãs,

mais alguns domingos e nós terminamos o período da epifania.

Este é o período do Calendário Litúrgico onde nós Domingo após Domingo aprendemos um pouco mais sobre quem é Jesus. Por isso é importante virmos ao culto, para, assim, não perdermos nem um capítulo daquilo que Deus quer nos ensinar na História da Salvação.

Nas últimas duas semanas, nas OASEs, tenho dito que no natal todos/as nós ganhamos um maravilhoso presente. Aliás, quem de nós não gosta de ganhar um presente, não é mesmo? Na Epifania, passamos a descobrir o que este presente chamado Jesus Cristo significa, ou seja, quem é Jesus. A ideia que nós temos de Jesus certamente moldará a maneira como nós cremos em Deus.

No texto previsto para hoje, temos um trecho de um sermão pregado por Jesus, o mesmo Jesus que:

1º Domingo após epifania: foi batizado no Rio Jordão (Lucas 3.15-17, 21-22);

2º Domingo após epifania: fez o primeiro sinal em um casamento (João 2.1-11);

3º Domingo após epifania: foi “ordenado” ao ministério na Sinagoga (Lc 4.14-21);

4º Domingo após epifania: foi pregador da verdade e ameaçado de morte (Lc 4.21-30);

5º Domingo após epifania: impulsionou os discípulos a missão (Lc 5.1-11);

6º Domingo após epifania: pregou para aqueles que ninguém queria por perto (Lc 6.17-26);

Enquanto Mateus relata que Jesus pregou em um monte, Lucas relata que Jesus proferiu suas palavras em uma planície. Mateus escreve seu evangelho para os Judeus. Moisés recebeu as tábuas da Lei no Monte Sinai, portanto, Mateus quer ensinar que Jesus é o novo Moisés que vem com as bem-aventuranças, às boas notícias de Deus; já Lucas está preocupado em levar o evangelho para os pobres e desprezados da sociedade, por isso coloca o sermão como proferido na planície, indicando que Deus está perto de nós.

Onde foi realmente? Não importa! Importa a mensagem deixada por Jesus.

Chama a atenção que uma multidão seguia a Jesus. Entre eles haviam aqueles que queriam ser curados, tinham interesses políticos, curiosos, etc. Todos queriam o Jesus poderoso. Acreditavam que este Jesus lhes seria muito útil, caso precisassem de seu poder, seja nas curas, na política ou na prosperidade.

Porém, quando Jesus vira para eles, profere palavras que podem ter sido um verdadeiro “banho de água fria” para aqueles que queriam apenas “consumir” Jesus, sem compromisso com o Reino de Deus. Jesus lhes diz: “bem-aventurados, vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus.” Para uma sociedade que valoriza a riqueza e a nobreza, estas palavras são um choque! Em um mundo onde só há valorização dos fortes e belos, Jesus anuncia seu amor aos fracos e desamparados.

Clóvis de Barros Filho, um filosofo brasileiro, diz: “O abestado, o monstruoso, o fraco, o raquítico, o deficiente. Graças ao pensamento cristão, todos esses passam a ter a mesma dignidade que o forte, o belo, o extremamente inteligente, o competente, o astucioso, o deslumbrante”. E continua: “O pensamento cristão inaugura a ideia de igualdade. Uma igualdade que não é de fato, porque de fato somos desiguais. Mas uma igualdade que e de direito”1. Jesus concede dignidade àqueles que eram esquecidos de propósito pelos maiorais da sociedade.

Gianni Vattimo, um filósofo italiano, diz: a “mensagem cristã fala de um Deus que se encarna, se rebaixa e confunde todas as potências deste mundo”2. Deus se coloca do lado dos fracos e dos que sofrem. Ele não rejeita os ricos, desde que tenham misericórdia em seu coração.

Entretanto, que Jesus as pessoas procuram hoje? Talvez um Jesus que, porventura, anunciasse as seguintes bem-aventuranças:

Bem-aventurados os que querem bênçãos, porque os céus se abrirão sobre suas cabeças;

Bem-aventurados os que querem prosperidade, pois são filhos de um Deus rico e filho de um Deus rico não pode ser pobre;

Bem-aventurados os que querem sucesso, pois a sua vitória terá sabor de mel;

Bem-aventurados os falsos profetas, pois enchem os bolsos em “igrejas” de sucesso;

Bem-aventurados os que estais “por cima”, pois ninguém os poderá perseguir;

Bem-aventurados os bem-aventurados, porque o mal-aventurado não está em Deus.

Que Evangelho é esse? Que palavra é essa que congrega multidões, mas deixa os corações vazios? Que corrompe o serviço a Deus por meio do amor ao próximo? Que Jesus nós seguimos? Tenho o sentimento de que as igrejas que pregam o verdadeiro evangelho estarão cada vez mais vazias; e isto não é novidade, pois a mesma multidão que seguia a Jesus o abandonou quando a “coisa ficou feia”. Até mesmo os discípulos se dispersaram. Queremos um Jesus personalizado, que satisfaça nossos desejos, mas não queremos o Jesus, Deus-homem, humilde revelado nas Escrituras, aquele que assumiu a forma de servo, obediente ao Pai até à morte e morte de cruz.

Perder o Jesus das verdadeiras bem-aventuranças é perder e matar a diaconia dentro da igreja, pois aqueles que só querem a prosperidade e o sucesso, dificilmente se lembrarão de olhar para os mais fracos em seu caminho.

Assim como Jesus pregou em uma planície, a igreja cristã é chamada a descer de seu posto, a olhar pelos mais fracos, carentes e necessitados. Há poucos dias nós enviamos mais de 20 cartas para Brumadinho. Tenho certeza de que as palavras escritas poderão ajudar muitos corações aflitos. É preciso descer de toda prepotência, orgulho e egoísmo para conseguir pensar nos outros e amá-los como a si mesmo. Assim, poderemos amar como Jesus amou!

Muitos querem o pedestal, o microfone, a glória, a honra, os elogios; poucos querem ajuntar quem está caído na rua, oferecer carona a um desconhecido que caminha na chuva, dar comida a quem não tem nem uma migalha de pão.

O desejo do coração de Deus é que possamos colocar as bem-aventuranças em prática no nosso dia a dia. É assim que já tornamos presente a salvação que Deus conquistou para nós em Jesus Cristo. No mundo aqui há pobreza, fome, choro e perseguição, mas um dia, diz o v. 23, poderemos nos alegrar ao recebermos a nossa recompensa no céu. Entretanto, não precisamos esperar até lá. Já agora podemos revelar, com pequenos gestos de amor, quem é Jesus.

Não demoremos muito para perceber que a nossa humanidade está escorregando pelas nossas mãos (imagens de tragédias). Precisamos trocar a violência pelo amor e pela bem-aventurança.

Diante disso, lembro da frase que marcou a semana, dita pelo jornalista Ricardo Boechat: “O que temos de colocar em cima da mesa, diante de nós mesmos, como sociedade, é se queremos continuar lidando com essas tragédias, pranteando-as no início e esquecendo-as logo depois.” O que ele não sabia é que ele mesmo estaria nas capas e nas manchetes dos jornais como alguém que sofreu uma tragédia naquele dia.3

Vídeo: Amor ao próximo.

Pequenas sementes de amor podem gerar grandes árvores de solidariedade.

Amém!

P. William Felipe Zacarias.

Notas e referências

  1. BARROS FILHO, Clóvis de. Somos todos canalhas. São Paulo: Casa da Palavra, 2015. p. 114.

    ↩
  2. VATTIMO, Gianni. Depois da Cristandade. Rio de Janeiro: Record, 2004. p. 12.

    ↩
  3. https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/02/11/ricardo-boechat-jornalista-morre-aos-66-anos-em-queda-de-helicoptero-em-sp.ghtml.

    ↩