Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

Voltar a Pregações
Batismo de Jesus no rio Jordão.Pregações

Batismo = relacionamento

Amados irmãos, amadas irmãs,

Jesus cresceu rápido. Há duas semanas estávamos comemorando o nascimento de Jesus no natal e agora já estamos no Domingo do Batismo do Senhor. Em duas semanas, passaram-se 30 anos da história da vida de Jesus. Os discípulos começaram a escrever sobre a vida do Senhor quando ele iniciou seu ministério aos 30 anos de idade.

O apóstolo João, mais do que Lucas, irá demonstrar em seu evangelho que há uma estreita intimidade entre Jesus e o seu Pai, pois foi o Pai quem o enviou. Ambos possuem um relacionamento muito íntimo. Isto é comprovado com ainda mais vigor no batismo de Jesus que marca o início de seu ministério. Do alto, vem a voz de Deus que diz “este é o meu Filho amado, que muito me agrada” (v. 22). Também o Espírito Santo apareceu em forma de pomba. No Batismo de Jesus temos uma revelação da Trindade: o Filho sendo batizado, o Pai o amando e o Espirito Santo descendo sobre seu povo.

Para ter ainda mais intimidade com seu Pai, Jesus vai para o deserto procurando o silêncio. Jesus vai para o deserto para buscar intimidade com seu Pai. Entretanto, o evangelista Mateus nos revela um fato perturbador: “Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo” (Mt 4.1). O mesmo Espírito que pairou por Jesus em forma de pomba, agora o leva para a tentação. Deus prova a intimidade que tem como seu Filho unigênito. Satanás tenta quebrar a intimidade que há entre Jesus e seu Pai.

O tentador faz a mesma pergunta a Jesus duas vezes: “Se és Filho de Deus” (Mt 4.3, 6). A última tentação foi a mais forte. Satanás não pergunta se Jesus é o Filho de Deus, mas propõe que Jesus o adore. Jesus, porém, professa o primeiro mandamento: “Ao Senhor teu Deus adorarás e a ele só prestarás culto”. O inimigo não conseguiu destruir a intimidade que há entre Jesus e seu Pai. Jesus continua revelado como Filho de Deus.

Deus foi tão bondoso que providenciou alguém para preparar o caminho de Jesus: João Batista. Muitas pessoas achavam que João Batista era o Cristo, o ungido de Deus. Mas João se mantém firme e revela o senhorio de Cristo. João Batiza com água e anuncia aquele que batizará com o Espírito Santo.

Já me perguntaram se eu fui batizado no Espírito Santo. Eu respondi que sim. A pessoa me perguntou como aconteceu. Respondi que não me lembro, porque eu era um bebê.

Muitas pessoas pensam que precisa acontecer algo extraordinário para que elas recebam o batismo no Espírito Santo. Inclusive, chegam a criar medidas para testar se uma pessoa foi batizada no Espírito Santo ou não. Ela falou em línguas? Ela queimou no Espírito por dentro? Ela foi curada? Queremos sinais extraordinários enquanto Deus age no ordinário; queremos sinais anormais enquanto Deus age naquilo que é normal. Nosso batismo de criança também é batismo no Espírito Santo. Sem a Palavra, o Espírito Santo e o sinal visível, não há batismo.

Jesus Cristo também foi batizado no Espírito Santo. Neste momento ele foi revelado como Filho de Deus. Isto é epifania: Deus se revela ao ser humano pecador. Cristo foi revelado, pelo Espírito, como Filho do Pai.

E nós como cristãos/ãs, só cremos em Jesus a partir do agir do Espírito Santo. Martinho Lutero, no Catecismo Menor, irá nos dizer:

Creio que, por minha própria inteligência ou capacidade, não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem chegar a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo Evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé1.

Contudo, Jesus precisava ser batizado? Se ele era o próprio Filho de Deus, precisava receber a salvação? O Batismo de Jesus não era para sua salvação, mas para que ele fosse revelado como Filho do Pai. O Batismo de Jesus é a sua revelação como Messias prometido. Ele é o Ungido de Deus. Seu batismo marca seu ministério de 3 anos. Deus Pai se tornou ainda mais presente na vida e ministério de Jesus. Por isso, batismo também significa um relacionamento íntimo com Deus.

Muitas pessoas perguntam se o batismo deve ser feito na infância ou na idade adulta? Há aqueles que dizem que o batismo só é valido quando feito na infância; já outros dizem que o único batismo válido é o batismo adulto. A Palavra de Deus esclarece esta dúvida.

Em Cl 2.11-12 está escrito: “Nele fostes circuncidados, por circuncisão não feita por mão de homem, mas pelo desvestimento da vossa natureza carnal; essa é a circuncisão de Cristo. Fostes sepultados com ele no batismo, também com ele ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos.” Ou seja, o batismo é uma substituição à prática da circuncisão. Os meninos eram circuncidados no 8º dia após o nascimento. Agora esta prática é trocada pelo batismo que podia também incluir meninas. É preciso lembrar também que famílias inteiras eram batizadas por João Batista no rio Jordão e certamente no meio delas havia também crianças. Portanto, a graça de Deus não escolhe a idade. Porém, há um só batismo (Ef 4.5). Rebatizar ou ser rebatizado é uma prática que vai contra a Palavra de Deus e contra sua vontade. Não é a igreja, o pastor ou a água quem batiza, mas o próprio Deus. Por isso, se for feito em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo como Jesus ordenou em Mt 28.18-20, é batismo do Senhor e ninguém deverá negá-lo ou repeti-lo.

Porém, a promessa de Deus precisa ser acompanhada da fé. Mc 16.16 nos diz: “Quem crer e for batizado será salvo; porém, quem não crer, será condenado”. Deus deu o presente da salvação, mas este presente precisa ser aberto e usado no dia a dia. Lutero irá dizer:

Que significa batizar com água? Significa que, por arrependimento diário, a velha pessoa em nós deve ser afogada e morrer com todos os pecados e maus desejos. E, por sua vez, deve sair e ressurgir diariamente nova pessoa, que viva em justiça e pureza diante de Deus para sempre2.

O arrependimento diário significa a contínua busca de uma vida nova. Somos justos e pecadores por causa de Cristo. Assim como Jesus, a partir do batismo, buscou uma vida íntima com o Pai, nós também somos convidados a uma vida íntima com Deus. A promessa (o batismo) é acompanhado da fé em Jesus como Filho de Deus.

A palavra batismo significa lavagem, banho, purificação. O batismo ocorre apenas uma vez na vida, mas o arrependimento, a busca por purificação deve acontecer diariamente. Como seria se nós não tomássemos banho? O mesmo cuidado devemos ter com a nossa vida espiritual. Deus nos limpa e purifica pela sua Palavra e nos torna mais brancos do que a neve. E assim, poderemos continuamente revelar a vida de Jesus Cristo em nossa vida.

Pelo batismo, não estamos sozinhos, mas pertencemos ao Corpo de Cristo, a Igreja de Deus. Através do batismo, temos comunhão com todos os nossos/as irmãos e irmãs que professam sua fé em Jesus Cristo em qualquer lugar do mundo.

Para terminar, aplicações práticas para nosso dia a dia:

1) Epifania: O batismo de Jesus o revela como Filho de Deus;

Desta confissão depende a nossa salvação. 1 João 4.15 diz: “Se alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus.” E 1 João 5.1 diz: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama o Pai, de igual modo, ama também o que dele foi gerado.”

Uma pessoa pode ser batizada mil vezes; se ela não crer em Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador, estará para sempre perdida;

2) Adoção: O batismo de Jesus nos revela com Filhos de Deus;

A partir do batismo, somos convidados/as a termos um relacionamento íntimo com Deus: buscar a Palavra, buscar a oração e buscar ao próximo. É assim que colocamos em prática diariamente o arrependimento diário proposto por Lutero;

3) Tentação: O batismo de Jesus e o nosso batismo não nos livram do inimigo.

A nossa vida neste mundo é uma vida de luta. O inimigo (o diabo) tenta continuamente quebrar o nosso relacionamento com Deus. Ele quer impedir que nós leiamos a sua Palavra, atrapalhar a oração e perturbar a comunhão. O inimigo não quer que nós venhamos à igreja. Ele não quer que nós tenhamos comunhão com Deus e com os/as irmãos/ãs. Por isso, Tg 4.7 nos dá uma dica excelente: “Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.”

Conclusão:

Que a vida de Jesus seja cada vez mais revelada em nossa vida.

Amém.

Notas e referências

  1. LUTERO, Martim. Catecismo Menor. 17 ed. São Leopoldo: Sinodal, 1995. p. 11.

    ↩
  2. LUTERO, 1995. p. 18.

    ↩