PregaçõesCalendário novo, vida velha?
Amados irmãos, amadas irmãs,
Chegou o último dia do ano. Daqui algumas horas ouviremos foguetes que anunciarão um novo ano. Já não falta muito para a meia noite.
Ao chegarmos até aqui, cabe-nos avaliar como foi o ano que passou. Certamente que a exato um ano atrás traçávamos expectativas para o ano que se iniciava. Fizemos promessas, prometemos mudanças, construímos sonhos. Com que sentimento chegamos ao final deste ano? Satisfeitos? Tristes?
Por vezes nos entregamos ao “deixa a vida me levar, vida leva eu”, afinal de contas, a cada ano as mesmas coisas se repetem novamente. Por vezes, chegamos ao final de cada ano e já não sonhamos mais com um futuro maior e melhor. Chegamos até aqui com a língua arrastando no chão de tão cansados que estamos e mal conseguimos reunir forças para o ano que há de vir.
O texto que nós ouvimos de Eclesiastes é um lindo poema sobre o tempo. É um texto usado em muitas ocasiões. É um texto importante para um dia como hoje. Estamos aqui para celebrar um novo tempo de Deus para as nossas vidas, para não seguirmos a marcha do tempo sem sentido, mas para caminharmos com o próprio Deus.
Há tempo para todas as coisas debaixo do céu. Embora o texto seja bonito, ao compreendermos o contexto de Eclesiastes, descobrimos que, na verdade, quem o escreveu não estava tão bem quanto parecia. Salomão escreveu Provérbios em sua juventude. Quando envelheceu, escreveu Eclesiastes que significa “O Pregador” (Kohelet). Assim como nós fazemos no dia de hoje, Salomão também olha para trás da sua vida e prega para que seus ouvintes tenham uma vida sábia.
Entretanto, uma das grandes curiosidades é que em Eclesiastes é um dos poucos da Bíblia, juntamente com Ester e Cantares, não menciona o nome de Deus. A palavra deus no sentido genérico até aparece, mas não a identificação comum de YHWH que era o Senhor de Israel. Há na Bíblia livros que não mencionam o nome de Deus, mas foram mantidos nas Escrituras por serem fonte de grande sabedoria.
Afinal de contas, por que não aparece o nome de Deus em Eclesiastes? Havia uma crise profunda no relacionamento com Deus. “Em Eclesiastes, Deus não fala mais ao ser humano e ele próprio também não é mais acessível aos mesmos”1. Se Salomão for mesmo o autor de Eclesiastes (ou seja lá quem for), estava tão distante de Deus que esqueceu de mencionar o próprio Deus em sua pregação. É como se hoje eu viesse aqui na frente pregar a vocês, mas não mencionasse nada a respeito da Palavra de Deus.
O grande problema é que quando há uma crise no relacionamento com Deus, outras coisas irão tomar o seu lugar. Eclesiastes menciona várias delas: a vaidade no sentido de olhar apenas para si; o vento como símbolo de acaso que conduz uma vida sem propósito; o sol que vigia todas as coisas como um astro rei, um esoterismo; e, também, o tempo. Uma vida em crise em seu relacionamento com Deus também se deixará levar pelo tempo. “Deixa a vida me levar, vida leva eu”.
Embora o texto do tempo seja muito bonito e, sim, deva ser usado de maneira positiva, ele nos revela que o autor de Eclesiastes preferiu se entregar ao destino ao invés de nos braços do próprio Deus. O Sl 1.4 nos diz: “os maus são como a palha que o vento espalha”. Uma vida sem Deus é uma vida sem propósito. Uma vida sem propósito não chega a lugar nenhum.
Não conseguimos atingir os objetivos que colocamos para nossos anos porque não sabemos para onde queremos ir. Na história da “Alice no país das maravilhas”, a Alice pergunta ao gato: O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui? Isso depende muito de para onde você quer ir, respondeu o Gato. Não me importo muito para onde, retrucou Alice. Então não importa o caminho que você escolha, disse o Gato. Para escolhermos o melhor caminho, precisamos saber exatamente o que queremos. Qual nosso objetivo?
Projetamos objetivos que não somos capazes de cumprir e esquecemos daquilo que está ao nosso alcance. Uma vida sem propósito é uma vida sem sentido. Uma vida que se entrega ao tempo. E o tempo se torna o senhor de todas as coisas. E o tempo passa rápido, muito rápido. Desperdiçamos tempo com coisas inúteis e esquecemos do mais importante.
Amados e amadas do Senhor, sem alvo, a vida não sai do lugar. Muitas vezes tenho a impressão de que o calendário muda, os números do calendário mudam, a moda muda, o dólar muda, a política muda, o futebol muda, mas o ser humano continua o mesmo de sempre. O ano é novo, mas a vida permanece velha. A velha vida que quer viver por si só ao invés de se entregar na presença do bondoso Deus.
Lembro-me das palavras do pastor e teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer: “Entramos em ano novo, mas nossos dias continuam parecendo velhos.”
Se nós não mudarmos, o ano novo não muda. Começa por nós e nas pequenas coisas que fazemos. Pequenas sementes de amor podem brotar em grandes árvores de solidariedade. Isso não deve ser apenas um discurso bonito de se ouvir, mas algo a ser praticado no dia a dia, ensinado a filhos e netos. A prática do amor começa dentro da família entre marido e mulher, pais e filhos. Desta maneira, não nos entregaremos ao acaso, ao tempo, mas ao próprio Deus que nos ama incondicionalmente.
2019 é quase passado. O futuro bate às portas. No novo ano, renove também sua espiritualidade. Busque ter mais intimidade com Deus na leitura da Bíblia, na oração, na comunhão com os irmãos e irmãs na fé. Volte para a casa do Pai. Faça coisas diferentes. Não precisamos nos tornar famosos aos que nem conhecemos. Precisamos é dar importância a cada um e a cada uma que está perto de nós. Renove o seu relacionamento com Deus e com o próximo.
Com certeza nós vamos pisar na bola. Somos pecadores. Pecamos contra Deus e contra o nosso próximo. Entretanto, a misericórdia de Deus continua disponível a todos nós. Ele já nos aceitou em nosso batismo. A pergunta é se nós já aceitamos a Salvação que ele nos concedeu. Uma salvação que não tem tempo de validade, mas está reservada para todo o sempre. A salvação nãos está presa nos limites do tempo, mas é poderosa o suficiente para durar para sempre, graças a Deus.
Não sejamos como Salomão que ao chegar à alta idade abandonou a presença do Senhor. Só Deus sabe o que aconteceu com ele. Mas que nós possamos a cada dia viver nossa fé intensamente tanto no espaço privado como no espaço público, sem medo de testemunhar os grandiosos feitos de nosso Senhor.
Meu desejo do fundo do coração é que todos tenhamos um 2019 repleto de novos desafios. Certamente haverá problemas e dificuldades, como há em todos os anos, seja na família, no emprego, na escola, na sociedade, no país. Contudo, Deus continua sendo Deus. O ano muda, tudo muda, mas Deus não muda jamais. Quem permanece nele, permanece para sempre.
Não coloquemos nossa esperança nas propagandas do mundo: as cores das roupas, na carne de porco, etc. Que a nossa esperança esteja firmada em Cristo Jesus.
E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém.
Notas e referências
FELDMEIER, Reinhard; SPIECKERMANN, Herrmann. O Deus dos vivos. Uma doutrina bíblica de Deus. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2015. p. 40.
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