Jornadas EspirituaisCaminhando com Jesus até à cruz
Nesta Semana Santa, convido você para uma Jornada Espiritual onde caminharemos com Jesus até sua cruz através das 5 estrofes do hino “Ó Fronte Ensanguentada” do pastor luterano alemão Paul Gerhardt. Acomode-se confortavelmente, respire fundo e prepara-se para uma jornada profunda e inspiradora. Para aproveitar bem cada meditação diária, faça isso com tempo e ouvindo os hinos com atenção. Nos momentos de oração, aproveite para respirar fundo e perceber a presença de Deus com você.
Segunda-feira da Paixão — O Rosto Machucado de Deus

Como traduzir momentos de sofrimento em palavras? Bem, essa pode ser uma tarefa bem difícil. Há sentimentos e sofrimentos que parecem não ser possíveis de serem traduzidos em palavras. Parece que a nossa linguagem é limitada quando precisamos comunicar algo que não sabemos como descrever.
Paul Gerhardt foi um teólogo e pastor luterano alemão que nasceu na Alemanha em 1607. Sua vida foi muito influenciada pelos sofrimentos – especialmente a chamada Guerra dos 30 anos, um conflito devastador que assolou grande parte da Europa Central. A guerra foi fundamentalmente um conflito religioso e político entre forças católicas e protestantes, tendo consequências profundas para a população, incluindo a morte de muitas pessoas.
Paul Gerhardt nasceu e cresceu em meio a esse tumulto bélico. O sofrimento estava bem presente naquele contexto de ameaça, destruição e morte. De maneira peculiar, Gerhardt conseguiu traduzir seus sentimentos na linguagem da música onde, na contemplação do Cristo crucificado, encontrou ajuda e consolo em meio aos seus próprios sofrimentos. Gerhardt é lembrado como um símbolo de resiliência, fé e confiança em Deus em tempos de crise. Seus hinos transcendem sua própria época e até hoje são uma fonte de consolo e esperança.
Oremos: Senhor, tu conheces os nossos sofrimentos. Sabes tudo o que sentimos e pensamos. Conheces todas as nossas angústias e os nossos medos. Vês as feridas no corpo e na alma. Nesta Semana Santa, contemplamos teu rosto ensanguentado, ferido pela dor. E viemos com toda a humildade diante de ti em contemplação e adoração. Amém.
Assim nos diz Mateus 27.29: “E, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e uma cana na sua mão direita; e, ajoelhando diante dele, zombavam, dizendo: Salve, Rei dos Judeus!”
Jesus é um Rei com uma coroa de espinhos. Aquele jovem com pouco mais de 30 anos que há pouco tempo, com tanto vigor, levou esperança a multidões através das suas palavras e dos seus gestos, agora tem seu rosto desvanecido. É um rosto marcado pela dor da crucificação.
A primeira estrofe do hino de Paul Gerhardt, “Ó fronte ensanguentada”, diz:
Ó fronte ensanguentada, ferida pela dor, de espinhos coroada, marcada pelo horror! Ó fronte, outrora ornada de eterna glória e luz, agora desprezada, adoro-te, Jesus!
O rosto do Messias está banhado pelo seu próprio sangue. Aquele rosto sorridente e acolhedor agora está tomado pelo horror, como escreveu Gerhardt. Espinhos perfuram a sua cabeça! O sangue escorre pelo seu rosto, pelo pescoço e por todo o seu corpo! É um rosto marcado pela dor mais crônica que já existiu – não apenas a dor física, mas a dor de carregar os pecados do mundo inteiro em si!
Em seu rosto, Jesus demonstrou a dor do desprezo, da humilhação e da rejeição. E ainda assim, Jesus demonstra a nós seres humanos um rosto amoroso e misericordioso – pois esse sangue foi derramado pela nossa salvação. É tudo pela nossa salvação! Todos os acontecimentos – a traição de Judas, a negação de Pedro, o julgamento do Sinédrio, a violência dos soldados, o julgamento romano, a condenação – tudo aconteceu fundamentalmente para que estejamos nesse exato momento em que o Filho de Deus morreu na cruz em nosso lugar e pela nossa salvação – assumindo a nossa condenação para nos dar de graça sua inocência.
Quem é este que está com a fronte ensanguentada no madeiro da cruz? Quem é este que tem sua cabeça coroada por uma coroa de espinhos? Quem é esse cujo rosto expressa a dor que está sentindo? Não! Não é meramente um homem. Não é meramente um grande sábio. Não é meramente um filósofo. Não é meramente um revolucionário. Ele é Deus! É o Deus-homem! Ele é a Segunda Pessoa da Trindade. Ali na cruz está o rosto de Deus. A fronte ensanguentada ferida pela dor é o rosto de Deus no Filho. A cabeça de espinhos coroada marcada pelo horror é a cabeça de Deus no rosto do Filho. O Deus-homem morreu na cruz.
Em meio aos seus sofrimentos, Paul Gerhardt contemplou o Cristo crucificado. Talvez tenha associado o sangue derramado por Jesus ao sangue de tantos mortos na guerra. Em Cristo, Deus tem empatia por nossos sofrimentos. É isso que Deus demonstrou a nós em Jesus.
Oremos: Senhor, Deus e Pai, em teu Filho Jesus Cristo, o único gerado, contemplamos e adoramos a face do sofrimento por nós seres humanos. E, tal qual Paul Gerhardt, nossa resposta diante dessa face ensanguentada é tão somente “adoro-te, Jesus”. Em meio às nossas feridas e sofrimentos, mostra-nos a tua face misericordiosa. E não permitas, Senhor, que deixemos de crer neste mistério que foi a Sexta-feira da Paixão quando teu Filho Jesus Cristo, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, se entregou pela nossa Salvação. E agora, oramos como teu Filho nos ensinou, dizendo:
Pai nosso que estás nos céus,
santificado seja o teu nome.
Venha o teu reino.
Seja feita a tua vontade,
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
E perdoa-nos as nossas dívidas,
assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.
E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do mal.
Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.
Que Deus te abençoe e esteja contigo nesta semana de reflexões. Que o Espírito Santo lhe ajude a ter ainda mais clareza na fé sobre tudo o que Deus, em Jesus Cristo, fez por nós. Amém.
Terça-feira da Paixão — A luz ofuscada

Paul Gerhardt passou por momentos difíceis. Como vimos ontem, a Guerra dos 30 anos assolou a Europa central. E Gerhardt, com muita profundidade, soube traduzir bem seus sentimentos em palavras e na linguagem da música através da contemplação e adoração do Cristo crucificado. No rosto de Jesus, Gerhardt enxergou claramente a misericórdia de Deus – o Deus que sofre! Sim, não cremos em um Deus que não pode sofrer! Ao contrário, o próprio Credo Apostólico nos comunica que cremos no sofrimento de Deus. E esse é o ponto central da Semana Santa. O sofrimento de Deus é a própria essência da fé cristã!
Oração: Senhor, fizeram-te sofrer. Transformaram teu rosto transcendente em um rosto cheio de sofrimentos, banhado em sangue e doído. Contudo, tua glória continua presente neste rosto. Sim, tua glória continua presente nesse rosto que transparece o sofrimento. Contudo, Senhor, não queremos ver tua glória nos sofrimentos. Buscamos sempre ver tua glória no brilho, na alegria, no prazer. Em Jesus, mostraste que tua glória também está no rosto cheio de sofrimentos, banhado em sangue e doído! Ensina-nos a contemplarmos o teu rosto em adoração. Ensina-nos a vermos a tua misericórdia em cada sofrimento deste mundo. Amém.
A nossa leitura bíblica de hoje vem de Isaías 53, onde o profeta nos diz: “Porque foi subindo como um renovo diante dele e como raiz de uma terra seca. Não tinha boa aparência nem formosura; olhamos para ele, mas não havia nenhuma beleza que nos agradasse. Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores e que sabe o que é padecer. E, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso. Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o considerávamos como aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado por causa das nossas transgressões e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos sarados.”
O rosto de Jesus está mudado. Pela sua idade, poderíamos dizer que Jesus estava “na flor da idade”. Era um jovem de 33 anos de idade com uma vida inteira pela frente. Tinha tido apenas três anos de ministério. Quanto ainda teria pela frente... Mas houve uma interrupção... “Na flor da idade”... Não pela atuação humana. Aqueles que condenaram a Jesus à morte pensaram ser grandes e poderosos, mas não passam de servos e instrumentos de Deus para a concretização do plano de Salvação. O rosto jovem de Jesus está mudado! Ali está a dor!
A segunda estrofe do hino de Paul Gerhardt, “Ó Fronte Ensanguentada”, diz:
Ó rosto glorioso que sempre fez tremer o mundo poderoso: fizeram-te sofrer! O quanto estás mudado! O teu sublime olhar, cruelmente atormentado, deixou já de brilhar”.
Quão profundas são essas palavras! O rosto de Jesus é um rosto glorioso. Seu rosto fez o mundo tremer. A face de Deus em Jesus bagunçou os poderes deste mundo. Já em seu nascimento o poderoso Herodes, um assassino cruel, determinou a morte de crianças inocentes para evitar esse “novo Rei”. Jesus foi perseguido pelos poderosos desde quando ainda mamava nos seios de sua mãe, Maria.
Então, Judas fez o que tinha que fazer: trocou Jesus por trinta moedas de prata e ainda fez a baixeza de indicar quem Jesus era aos soldados com um beijo... Jesus foi preso. Iniciou-se seu julgamento. Deus, no Filho, está diante dos acusadores do Sinédrio. Um julgamento que não passa de uma farsa. Seus acusadores não estão interessados na verdade, na justiça ou nos fatos. Tudo aquilo não passa de um teatro bem encenado para condenar Jesus – o que conseguiram após se juntarem ao governador romano Pôncio Pilatos. E então, esse mundo aparentemente poderoso fez Jesus sofrer, como escreveu Paul Gerhardt. E incrivelmente os acusadores de Jesus pedem ajuda aos seus inimigos – os romanos – para conseguirem o que querem!
A luz do rosto de Jesus foi ofuscada pelo poder do mundo – mas jamais apagada! O sublime olhar de Jesus foi cruelmente atormentado, deixando de brilhar – mas apenas por um momento. Seu jovem rosto está mudado! É um rosto marcado pela dor física, mas também a dor da injustiça. Contudo, tudo aconteceu como devia acontecer – esse é o sentido de tudo o que Jesus passou em suas últimas horas até sua morte.
Oremos: Senhor Jesus, em tua vida e ministério, demonstraste o verdadeiro poder de Deus contra as violentas forças deste mundo. Mas seres humanos, alimentados pelo ódio, pela violência e pela divisão, se uniram para conseguirem o que queriam: o teu sofrimento na escura Sexta-feira da Paixão. E assim sofreste a injustiça para nos dar gratuitamente da tua justiça. Hoje, contemplamos o teu rosto, ó Crucificado; contemplamos o teu sublime olhar. Olha para nós em nossa miséria, nosso pecado e nossa insuficiência. Olha a nós e tem compaixão de nós – que também somos alimentados pelo ódio, pela violência em palavras, não apenas ações, e pela divisão. E agora, como nos ensinaste, oramos dizendo:
Pai nosso que estás nos céus,
santificado seja o teu nome.
Venha o teu reino.
Seja feita a tua vontade,
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
E perdoa-nos as nossas dívidas,
assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.
E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do mal.
Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.
O sublime olhar do Cristo crucificado esteja contigo em teus medos, angústias e sofrimentos. E a bênção de Deus – Pai, Filho e Espírito Santo, esteja contigo e permaneça contigo hoje e sempre, amém.
Quarta-feira da Paixão — Espelhos de culpa

Há uma identificação ao contemplarmos o Cristo crucificado. De alguma forma, ele revela muito da natureza humana, pois Cristo é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, em tudo igual a nós, exceto no pecado – como diz o Credo da Calcedônia do ano 451 d. C. As dores de Jesus são as nossas dores. O sofrimento de Jesus é o nosso sofrimento. A cruz de Jesus é a nossa cruz. O salário do pecado é a morte! E Jesus assumiu esse salário de morte para que recebêssemos o dom gratuito de Deus que é a vida eterna.
Oremos: Senhor, hoje viemos com toda a humildade e reverência confessarmos a ti os nossos pecados. Sabemos que pecamos em pensamentos, palavras, ações e omissões e que nos distanciamos de ti e do nosso próximo. Pedimos que nos fortaleças quando formos fracos na fé, que nos aqueças quando formos frios no amor e que tua graça transborde em nossas vidas quando a Lei nos acusar! Assim, abençoa a nossa reflexão, amém.
A nossa leitura bíblica de hoje vem de 1 Pedro 2.22-25: “Ele não cometeu pecado, nem foi encontrado engano em sua boca. Pois ele, quando insultado, não revidava com insultos; quando maltratado, não fazia ameaças, mas se entregava àquele que julga retamente, carregando ele mesmo, em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça. Pelas feridas dele vocês foram sarados. Porque vocês estavam desgarrados como ovelhas; agora, porém, se converteram ao Pastor e Bispo da alma de vocês.”
Como já dito, há uma identificação entre Jesus e o ser humano. Olhar para Jesus crucificado é como se olhar no espelho – e o espelho só diz a verdade! Contemplamos a nossa humanidade em Jesus Cristo crucificado. E num momento de introspecção, contemplamos inevitavelmente a nossa responsabilidade pessoal pelos sofrimentos de Cristo em um momento de reflexão, arrependimento e redenção.
A terceira estrofe do hino “Ó fronte ensanguentada” de Paul Gerhardt nos fala sobre isso, onde o teólogo e pastor escreveu:
O que tens suportado foi minha própria dor; eu mesmo sou culpado de tua cruz, Senhor. Ó vê-me, aflito e pobre: castigo mereci; com tua graça encobre o mal que cometi.
A terceira estrofe é uma confissão de pecados. Após as duas primeiras estrofes onde Gerhardt aponta para o rosto ensanguentado e o brilho ofuscado de Jesus, agora chegou o momento de, a partir da contemplação e adoração ao Cristo crucificado, olhar para si. Como um espelho, o Cristo crucificado reflete quem nós realmente somos. Ele suportou a nossa própria dor – carregando-a sobre si! E olhar para essa cena leva à inevitável conclusão: “eu mesmo sou culpado de tua cruz, Senhor”. Em um primeiro momento, essa conclusão pode levar o ser humano ao desespero – pois nós somos os responsáveis pelos sofrimentos e pela morte de Deus. Como diria Nietzsche, o filósofo alemão, nós somos os algozes, ou seja, os assassinos de Deus. Pensar sobre isso é desesperador! A boa notícia é que essa não é a conclusão. Ao contrário, Deus nos enxerga em nossa aflição e, com sua graça, encobre o mal que cometemos. Deus nos concede salvação.
Está claro que o tema principal da terceira estrofe é o arrependimento. O sofrimento de Cristo não é apenas uma abstração distante. Deus não é o totalmente outro distante dos sofrimentos do eu e do nós. O pecado é algo grave. Não pode ser banalizado. Da mesma forma, a graça de Deus não pode ser barateada. O preço pelo perdão foi a morte de Deus na cruz. Contemplar essa cena significa olhar para si e arrepender-se. Somente em Cristo podemos encontrar o perdão e a restauração da comunhão com Deus.
Diante da cruz de Cristo, o ser humano se enxerga no espelho de Deus onde vê quem realmente é. Ênio Müller, teólogo e pastor luterano, escreveu um poema que vai nessa direção: “Mas também vejo a cruz e, no espelho, Jesus, a perfeita imagem de Deus. Vejo então como sou aos olhos de Deus, simplesmente porque ele me amou, simplesmente porque ele me amou”.
Oremos: Ó Deus, obrigado que escutas a nossa oração e que falas conosco através da tua Santa Palavra – Jesus Cristo, que enviaste ao mundo para a nossa salvação. Através dessa Palavra e desse espelho – o teu Filho Unigênito – conceda que vivamos um relacionamento contigo através da fé e do amor a ti e ao próximo.
Pai nosso que estás nos céus,
santificado seja o teu nome.
Venha o teu reino.
Seja feita a tua vontade,
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
E perdoa-nos as nossas dívidas,
assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.
E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do mal.
Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.
Vá hoje sob o perdão, a graça e o amor curador de Deus que te perdoa e purifica de todos os teus pecados. Amém.
Quinta-feira da Paixão — Refúgio na dor

Senhor, teu sofrimento conforta o coração. Por teu cruel tormento obtenho a salvação. Ó dá que eu permaneça contigo, fiel Senhor! Morrendo eu adormeça em ti, meu Salvador!”
diz a quarta estrofe do hino “Ó fronte ensanguentada” de Paul Gerhardt, uma letra que parte da confissão e arrependimento da terceira estrofe para o alívio e conforto da graça de Deus na quarta estrofe. E aqui, já temos também um olhar sublime não apenas para as coisas deste mundo, mas para a esperança da vida eterna.
Oremos: Senhor Jesus, sofreste por nós. Morrendo e sofrendo em nosso lugar, somos salvos do pecado, da morte e do inferno. Sim, tão somente pelo teu cruel tormento é que recebemos gratuitamente a salvação. Abençoas a nossa reflexão no programa de hoje para que, assim como Paul Gerhardt encontrou essa firme esperança e fé em ti, também nós possamos crer e confiar em ti agora e na hora da nossa morte. Amém.
Hoje vamos ler duas leituras bíblicas. A primeira, conforme carta de Paulo aos Romanos 5.6-9: “Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente alguém morreria por um justo, embora por uma pessoa boa alguém talvez tenha coragem para morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira.” A segunda leitura vem da carta de Paulo aos Filipenses, capítulo 3, versículo 10, onde está escrito: “O que eu quero é conhecer Cristo e o poder da sua ressurreição, tomar parte nos seus sofrimentos e me tornar como ele na sua morte, para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos.”
Dois “Paulos” separados pelo tempo, mas unidos pela mesma fé. O apóstolo Paulo experimentou em sua vida o peso da lei, o arrependimento e aprendeu a contemplar a loucura da cruz como poder da Salvação. Em seus sofrimentos e no seu “espinho na carne”, o apóstolo Paulo pôde testemunhar da suficiência da graça, pois o poder se aperfeiçoa na fraqueza. O apóstolo Paulo contemplou e adorou a cruz em meio aos sofrimentos e perseguições de sua época.
Como o apóstolo Paulo é parecido com outro “Paulo”; estou falando do compositor da música, Paul Gerhardt que, em meio aos sofrimentos da guerra dos trinta anos, pôde contemplar no Cristo crucificado o conforto para os momentos mais difíceis da sua vida. Tal qual o apóstolo Paulo, Paul Gerhardt encontrou conforto para seus sofrimentos na contemplação do Deus crucificado em Jesus Cristo.
O apóstolo Paulo enxergou o sofrimento como algo que faz parte da jornada Cristã. Em suas cartas, fala frequentemente sobre a redenção e justificação em Jesus Cristo – especialmente em sua carta aos Romanos; Paul Gerhardt, através dos seus hinos, também refletiu sobre o sofrimento e a salvação. Na quarta estrofe de “Ó fronte ensanguentada”, Paul Gerhardt viu nos sofrimentos de Cristo uma fonte de conforto, promessa de salvação e esperança.
Tanto o apóstolo Paulo quanto Paul Gerhardt destacam a centralidade da morte de Cristo na teologia cristã e que a salvação está ligada inerentemente, intrinsecamente e exclusivamente à Cristo. Isso significa que não há como falar da salvação sem falar de Cristo. É preciso falar de Cristo para falar sobre a Salvação.
Ao mesmo tempo, tanto o apóstolo Paulo quanto Paul Gerhardt apontam que Cristo é o nosso refúgio em meio à dor. A cruz é o ápice da revelação do amor de Deus. E em meio aos nossos sofrimentos, podemos nos refugiar na contemplação e adoração ao Cristo crucificado – com fidelidade, permanecendo com o fiel Senhor!
E assim até o fim! Assim, até que, morrendo, adormeçamos no Salvador – e em nenhum outro, pois não há salvação em outro. E só assim descansaremos em paz no Senhor.
Oremos: Pai Celestial, que em Tua infinita misericórdia enviaste Teu Filho amado para carregar a cruz dos nossos pecados, nós Te louvamos e agradecemos a salvação que nos foi dada através do sofrimento e morte de teu Filho. Pedimos, Pai amado, que nos ensines a encontrar paz em meio às tribulações, sabedoria nas provações e força na fraqueza. Que a lembrança do cruel tormento de Teu Filho nos lembre do imenso amor que tens por cada um de nós, amor este que nos redime e nos liberta. E ao final de nossa jornada terrena, quando o último sopro de vida nos deixar, que possamos adormecer em paz, seguros em Teu amor, esperando a promessa da ressurreição e da vida eterna ao lado de Cristo, nosso Senhor e Salvador.
Pai nosso que estás nos céus,
santificado seja o teu nome.
Venha o teu reino.
Seja feita a tua vontade,
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
E perdoa-nos as nossas dívidas,
assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.
E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do mal.
Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.
Que você encontre nos sofrimentos de Cristo o conforto e a paz da salvação. Amém.
Sexta-feira da Paixão — Promessa de Esperança

Hoje é o dia em que lembramos a morte de Jesus. Esse tema nos acompanhou a semana inteira. De segunda até hoje nós pudemos ver e contemplar a fronte ensanguentada de Jesus Cristo, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem na cruz. A cada estrofe, Paul Gerhardt nos ensinou algo novo e profundo sobre o Deus crucificado. E hoje, chegamos ao último programa desta profunda série de mensagens – onde vamos refletir sobre o nosso próprio fim enquanto novo começo, já com olhos voltados para a esperança da Páscoa.
Oração: Senhor, teu Filho Jesus Cristo gritou as palavras do Salmo 22 no alto da cruz, dizendo: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” Teu Filho Jesus sofreu o abandono de ti para que tivéssemos a tua presença constante. Através da morte e ressurreição de teu Filho Unigênito, nunca mais estaremos abandonados. Assim, pedimos por tua presença conosco também nesta Sexta-feira da Paixão. Que ao nos voltarmos para a nossa própria finitude, contemplemos em teu Filho Jesus Cristo o conforto da tua presença na nossa hora e a esperança da vida eterna. Amém.
Convido você a ouvirmos a leitura bíblica de João 14.1-6, onde Jesus disse: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também. E vós sabeis o caminho para onde eu vou. Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho? Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.”
Certa vez levei uma dinâmica em um grupo da Juventude Evangélica. Eles receberam duas folhas diferentes: em uma, deveriam escrever sobre os seus sonhos; em outra, deveriam escrever sobre os seus medos. Após a escrita, as folhas foram dispostas em formato de um jogo de tabuleiro onde os jovens jogavam um dado que determinava quantas etapas deveriam avançar. Ao chegar em uma folha, lia-se o que havia sido escrito. E uma coisa chamou a atenção: nas folhas do medo, o que mais apareceu foi o medo da morte – não apenas o medo da própria morte, mas também o medo da morte de familiares. Confesso que isso me pegou de surpresa, pois costumeiramente imaginamos que os jovens não refletem muito sobre essas coisas. Estamos errados! Eles pensam sim sobre o assunto e demonstraram anonimamente nas folhas os seus medos em relação à morte.
Bem, a morte é o tema da última estrofe do hino “Ó fronte ensanguentada”, onde Paul Gerhardt escreveu:
No termo desta vida, ó, não me deixes só! Concede-me guarida, levanta-me do pó! E se na dor pungente meu coração tremer, vem tu, Jesus clemente, lembrar-me o teu sofrer!
O autor confessa aquilo que é óbvio: um dia nós vamos morrer! E o que ele pede? Que quando o fim chegar, não esteja só, mas seja acompanhado por aquele que também morreu e conhece as dores da morte! Em Jesus Cristo, há guarida; em Jesus Cristo há a esperança da ressurreição. E se em meio às dores da morte houver o esquecimento, que o próprio Cristo sofredor nos lembre que ele também sofreu essa dor.
Nós cremos no Deus que morreu! Não foi apenas o homem Jesus que morreu na cruz. Deus morreu na cruz. O Deus-homem Jesus Cristo morreu na cruz. Portanto, Deus conhece a morte! A morte não é estranha para Deus. Deus não está alienado da morte. Na morte de Deus na cruz, Deus estabelece alteridade conosco na hora da nossa morte.
Há esperança. Contamos com o suporte e a ajuda divina nos momentos finais da nossa vida. Somos encorajados a buscar conforto na promessa de que o Deus-homem Jesus Cristo está conosco até o fim! Gerhardt não diz nada sobre não sentir medo nesse momento; mas Gerhardt aponta para Jesus – e que Jesus mesmo nos lembre do seu sofrer se o nosso coração tremer quando chegar a nossa hora. Em Jesus, não estaremos sós!
Oremos: Pai Celestial, que maravilhosa promessa nos concedeste através de teu Filho Unigênito que hoje rememoramos ter morrido na cruz pela nossa salvação, entregue por nosso pecado. Em tua presença, encontramos refúgio e conforto. Conforme nos aproximamos do fim de nossa jornada terrena, voltamos nossos corações em ti, para que, quando chegar a nossa hora, seja próxima ou ainda demorada, estejamos certos da tua companhia conosco – e assim estaremos em paz. Em meio ao medo, à dor e a dúvida, vem, Jesus Clemente, e fortalece nossa fé com a lembrança do sofrimento de teu Filho Unigênito por nós. E quando deixarmos esta vida, acolhe-nos na esperança da ressurreição – pois sabemos que permaneceremos vivos em tua memória até o dia em que nos ressuscitarás em um novo corpo para a vida eterna. E agora, oramos a confortante oração que teu Filho Jesus nos ensinou, dizendo:
Pai nosso que estás nos céus,
santificado seja o teu nome.
Venha o teu reino.
Seja feita a tua vontade,
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
E perdoa-nos as nossas dívidas,
assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.
E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do mal.
Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.
Que Deus abençoe você em todos os momentos da sua vida. E desde agora, que Deus abençoe você com uma abençoada sexta-feira da Paixão e um abençoado Domingo de Páscoa. Amém.