PregaçõesCasamento e Divórcio
Amados irmãos, amadas irmãs,
O que um pregador deve falar sobre esse texto bíblico? Se o pregador disser que o divórcio é permitido, pode ser que tenhamos tristes surpresas na próxima semana; se o pregador disser que Deus não permite o divórcio, talvez quem já passou por essa situação se sinta julgado/a. Então, o que dizer? Então, o que pregar? O que você acha? Como você vê?
Bem, aí você entende o lugar delicado em que os fariseus colocaram Jesus! Se ele afirmar que permite o divórcio, alguém poderia chamá-lo de liberal; se ele afirmar uma discordância do divórcio, poderiam chamá-lo de fundamentalista e desumano.
Novamente, os fariseus não estão interessados na verdade; eles estão interessados em criar uma armadilha para eliminar a credibilidade de Jesus. Querem tão somente que Jesus perca seus seguidores. Contudo, mal sabiam que estavam falando com a própria Sabedoria que veio do alto1, a Palavra de Deus que se fez carne e habitou entre nós.
Nas suas palavras tão sábias, Jesus incentiva o casamento e o compromisso, pois o casamento é um profundo símbolo da comunhão de Deus. Tanto que Jesus é chamado no Novo Testamento de Noivo e nós, a Igreja, a Noiva. O matrimônio simboliza Cristo Jesus, o Filho encarnado de Deus e, sua Noiva, a Igreja.
Contudo, embora incentive o casamento e o compromisso, Jesus não interpreta as Escrituras de maneira fundamentalista. Prova disso é o dia em que os escribas e fariseus levaram uma mulher adúltera a Jesus para que fosse apedrejada. Outra vez, não estavam interessados na verdade; queriam novamente preparar uma armadilha pra colocar Jesus em contradição e fazê-lo se perder em seu discurso. E então, novamente, aquele que é a própria Sabedoria do alto, se senta, desenha no chão e profere as impressionantes palavras: “Quem de vocês estiver sem pecado seja o primeiro a atirar uma pedra nela” (João 8.7).
É possível que tenhamos aqui nesta manhã casais que já celebraram, com alegria, bodas de prata, de ouro, ou, quem sabe, até de diamante; quero que saibam: o amor, a graça e a misericórdia de Deus estão com vocês; e é possível que tenhamos aqui nesta manhã pessoas que passaram pelo divórcio e que estão em outro relacionamento – ou não; quero que saibam: o amor, a graça e a misericórdia de Deus também estão com vocês. Uma separação é um momento difícil na vida de uma pessoa e de uma família. E em um momento delicado como esse não cabem pedras, julgamentos ou teorias; ao contrário, nestes momentos é muito oportuno o silêncio, o abraço e a compreensão.
Importante é dizer que a intimidade do casal faz parte da boa criação de Deus. Um casamento apresenta seus desafios. Uma vida a dois requer sacrifícios. E quando ninguém quer ceder, o relacionamento realmente se torna muito difícil. O reformador Martinho Lutero exemplifica as dificuldades da vida matrimonial ao citar um provérbio de sua época em um dos seus escritos sobre o casamento. Lutero diz: “Quem quer ter fogo também tem que suportar a fumaça”2. Um casamento vai ter suas alegrias e suas tristezas, seus momentos altos e seus momentos baixos, a saúde e a doença... E cabe ao casal conseguir criar a resiliência para passar por todos esses momentos. Isso requer não esperar perfeição do/a parceiro/a, sabe por quê? Porque você também não é perfeito/a!
E agora falando com quem já experimentou o divórcio, novamente lembro que você também recebe o abraço amoroso de Deus. Se a outra pessoa errou e perdeu a sua confiança, Deus te abraça; se foi você quem errou, Deus também te perdoa – e você precisa mudar sua vida. O que não podemos é obrigar que a pessoa que foi afetada te perdoe. O perdão não é um botão de liga e desliga; o importante é que você consiga se perdoar para seguir em frente.
Um relacionamento a dois foi instituído por Deus para ser uma parceria e não um peso ou sofrimento. É isso que significa o símbolo bíblico da primeira mulher, Eva, ter sido criada da costela do primeiro homem, Adão. A mulher está ao lado do homem, em igualdade. Não está abaixo, para ser pisada, nem acima, para pisar. E o poema de Adão corresponde a esta ideia: “Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gênesis 2.23a).
Amados irmãos, amadas irmãs,
como está a tua família? Casais, como está a saúde do casamento? Esposo, você tem lutado pelo seu casamento? Esposa, você tem lutado pelo seu casamento? Pessoas divorciadas ou solteiras, como tá esse coração? Saibam todos que a misericórdia, o abraço e o amor de Deus é para todos. Pra quem está namorando, também!
O mais importante é que vivamos o amor de Deus. Não! Não vivamos a dureza de coração dos fariseus que buscavam com artimanhas concretizar apenas os seus próprios interesses. Isso não é amor! Isso é egoísmo! E não há família que consiga prosseguir quando em seu coração só há ego. Viver o amor de Deus é uma oportunidade para todas as pessoas: solteiros, namorados, noivos, casados, divorciados e viúvos.
Viver em família não significa perfeição, mas é uma maravilhosa oportunidade. Na família é que experimentamos primeiramente o amor de Deus. O P. Gottfried Brakemeier que já foi Pastor Presidente da IECLB, diz: “A família é preciosidade insubstituível, uma comunidade em miniatura, célula de exercício e reprodução de comunhão cristã, razão pela qual, em tempos normais, merece ser promovida e receber os maiores cuidados”3. A nossa primeira experiência em comunidade acontece em nossa família.
Que hoje, assim como sua vida amorosa está, você receba o fraterno, amoroso e cuidadoso abraço de Deus. Que esse abraço traga consolo onde há dor, esperança onde há incerteza e paz onde há tumulto. Que você sinta a presença constante de Deus em cada passo que der, sabendo que, mesmo nos momentos de solidão ou dúvida, ele está ao seu lado, sustentando e guiando. Que esse amor divino fortaleça seus relacionamentos, cure as feridas do passado e renove sua confiança no futuro, lembrando sempre que você é profundamente amado e cuidado por aquele que conhece cada detalhe do seu coração.
E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes, em Cristo Jesus. Amém.
Notas e referências
Teofilacto de Ócrida. in: AQUINO, Santo Tomás de. Catena Aurea. v. 2: Evangelho de São Marcos. Campinas: Ecclesiae, 2019. p. 182.
↩LUTERO, Martinho. Da Vida Matrimonial – 1522. in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas: ética: fundamentos – oração – sexualidade – educação – economia. v. 5. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2011. p. 173.
↩BRAKEMEIER, Gottfried. A Primeira Carta do Apóstolo Paulo à Comunidade de Corinto: um comentário exegético-teológico. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2008. p. 101.
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