PregaçõesCombati o bom combate
Amados irmãos, amadas irmãs,
enquanto o personagem principal do Evangelho de Lucas é o Senhor Jesus, no segundo livro de Lucas, Atos dos apóstolos, o personagem principal é o apóstolo Paulo. Este homem de Tarso que era um perseguidor impiedoso dos judeus que se convertiam ao cristianismo e que após ter um encontro com Jesus e, literalmente, cair do cavalo, teve uma vida transformada e investida na missão. Jesus pregou e foi o Evangelho a 12 judeus. Agora Paulo tem a tarefa de levar esta mensagem para além de Jerusalém: para todo o mundo conhecido. Uma missão que não foi fácil. Paulo sofreu perseguição, sofrimento, um naufrágio, coisas inimagináveis.
A cidade de Tarso fica na atual Turquia. Era uma cidade próspera desde o séc. IV a. C. Além de tudo, possuía uma grande riqueza cultural. Em Tarso, havia, inclusive, uma escola de filosofia estoica que ensinava o panteísmo, i. é, todas as coisas eram “deus”, desde a formiga, as árvores e até você e eu. A cidade de Tarso possuía também terras férteis onde se produzia algodão e se criavam cabras das quais se aproveitavam as peles1. O próprio Paulo diz sobre ela em At 21.39: “Eu sou judeu, natural de Tarso, cidade não insignificante da Cilícia.” E continua: “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus, assim como todos vós o sois no dia de hoje.” Ele nasceu em Tarso, mas foi educado no judaísmo em Jerusalém.
O apóstolo não menciona muito da sua história pessoal. Não estava preocupado em falar de si mesmo, mas do Evangelho de Jesus Cristo. Temos apenas um pequeno registro em Fp 3.5-6 onde ele diz: “circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, quanto à lei, fariseu, quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível.”
Paulo recebeu boa educação. Toda a sua trajetória foi moldada por Deus para que ele viesse cumprir a sua missão como apóstolo de Cristo. Mesmo antes de Paulo conhecer Deus na pessoa e obra de Jesus Cristo, Deus já o conhecia e escrevia sua história com o alvo na missão de levar o Evangelho a todos os lugares. Paulo era um cidadão romano, de cultura Cilícia, i. é, grega e de educação judaica. Era alguém capacitado a falar com qualquer um que encontrasse, quer judeu, grego ou romano, tanto pelas línguas que falava quanto pelas culturas que amplamente conhecia.
Até que um dia, enquanto viajava, na cidade de Damasco, sua vida tomou um rumo completamente diferente. O apóstolo tem um encontro com o Senhor Jesus e chegou a cair do cavalo e a ficar cego por alguns dias. Após isto, começa a anunciar Jesus Cristo como Filho de Deus. Jesus era, de fato, o messias prometido pelas Sagradas Escrituras. Deus se revelou ao apóstolo Paulo e isso mudou suas convicções e o futuro da sua história. O próprio Paulo diz em Gl 1.15-16: “Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça, aprouve revelar seu Filho em mim, para que eu o pregasse entre os gentios, sem demora, não consultei carne e sangue.” Paulo reconhece que foi o próprio Deus quem mudou completamente a sua trajetória.
Na sua Primeira Viagem Missionária, Paulo é acompanhado por Barnabé. Porém, houve um desentendimento entre os dois e, por isso, acabaram por seguir na missão separados. Como vimos no culto do dia 26 de Maio de 2019, Paulo parte sozinho para a sua Segunda Viagem Missionária. Porém, não permaneceu sozinho por muito tempo, pois quando chegou à cidade de Listra, conheceu Timóteo que passou a ser seu companheiro de viagem, um amigo na missão. E a carta que lemos anteriormente é uma epístola de Paulo a Timóteo.
Timóteo era filho de uma mulher judia que havia se casado com um grego. Em algum momento, Timóteo já havia ouvido o Evangelho e provavelmente era fruto da 1ª Viagem Missionária de Paulo. Timóteo creu no Evangelho desde criança. Em 2 Tm 3.15, Paulo diz a ele: “e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus.” Diz o v. 2 que o testemunho sobre Timóteo era muito bom. Por isso, Timóteo se torna companheiro de missão de Paulo. A amizade de ambos foi tão forte que, depois das viagens, Paulo endereçou duas cartas a Timóteo.
Timóteo e Paulo levam o Evangelho cidade após cidade, pois os cristãos haviam decidido em At 15, no Concílio de Jerusalém, que o Evangelho deveria ser pregado tanto entre os judeus quanto entre os gentios. Algo interessante é que as igrejas que se formavam nestas cidades, cf. At 16.5, “cresciam em número, de dia para dia”, ou seja, o agir do Espírito Santo estava tão presente na missão que as comunidades cresciam espontaneamente, mesmo em meio à perseguição e proibições.
O teólogo presbiteriano brasileiro Tim Carriker fez as contas de quantos quilômetros Paulo percorreu em sua missão. Por terra, foram 13.730 Km em 552 dias (24 Km por dia = velocidade média de 1Km/h). Por mar, foram 11.050 Km em 111 dias (99 Km por dia = velocidade média de 4,1 Km/h). No total: 24.780 Km em 663 dias (37 Km por dia = velocidade média de 1,5 Km/h). Paulo estava realmente engajado em sua obra missionária. Percorreu muito mais do que qualquer um de nós percorre de carro hoje.
Timóteo estava muito próximo a Paulo, inclusive quando as duas cartas aos tessalonicenses foram escritas: “Paulo, Silvano e Timóteo, à igreja dos tessalonicenses em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo, graça e paz a vós outros.” (1 Ts 1.1); “Paulo, Silvano e Timóteo, à igreja dos tessalonicenses, em Deus, nosso Pai, e no Senhor Jesus Cristo.” (2 Ts 1.1). Timóteo estava com Paulo quando o apóstolo escreveu suas cartas aos Romanos: “Saúda-vos Timóteo, meu cooperador.” (Rm 16.21) e Coríntios: “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à igreja de Deus que está em Corinto e a todos os santos em toda a Acaia.” (2 Co 1.1).
Timóteo não acompanhou Paulo apenas nas alegrias, mas também em seu sofrimento. Paulo escreveu sua carta aos filipenses quando estava na prisão e Timóteo estava com ele: “Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus, inclusive bispos e diáconos que vivem em Filipos.” (Fp 1.1). O mesmo acontece com a comunidade dos colossenses: “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, por vontade de Deus, e o irmão Timóteo, aos santos e fiéis irmãos em Cristo que se encontram em Colossos, graça e paz a vós outros, da parte de Deus, nosso Pai.” (Cl 1.1).
O apóstolo Paulo podia contar com a confiança de Timóteo. Por isso, no final da sua vida, quando está preso e sabe que será morto por causa do Evangelho, escreve duas cartas a seu amigo Timóteo desabafando sobre coisas bem delicadas.
Paulo era um cidadão romano. Por isso, defendeu sua causa afirmando que tinha direito a um tribunal imperial. Ele revela a seu amigo Timóteo: “Na minha primeira defesa, ninguém foi a meu favor; antes, todos me abandonaram. Que isto não lhes seja posto em conta!” (2 Tm 4.16). Paulo já sabia que a sua causa era perdida. Por isso, ele confidencia a seu amigo Timóteo: “Eu, agora, estou sendo oferecido ao derramamento do sangue, mas o tempo da minha partida se aproxima;” (2 Tm 4.6). Paulo viveu intensamente a missão de Deus. Espalhou o Evangelho por todos os lugares. Vivenciou conversões e no poder do Espírito Santo, viu com os próprios olhos o crescimento da Igreja. Porém, como um ser humano, chegou ao fim com Deus e alguns poucos irmãos ao seu lado. Apenas Timóteo e Lucas (2 Tm 4.11). Mesmo assim, o apóstolo pode dizer: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé.” (2 Tm 4.7).
Paulo iria sofrer a pena da justiça dos homens, mas também estava preparado para passar pelo juízo divino: “Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam sua vinda.” (2 Tm 4.8). “O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém!” (2 Tm 4.18). 2 Timóteo é a última carta escrita por Paulo. Podemos, portanto, considerar, estas as suas últimas palavras: “O Senhor seja com teu espírito. A graça seja convosco.” (2 Tm 4.22).
Paulo não termina a sua vida em desespero, mas em esperança. Paulo cumpriu seu chamado, passou pelo sofrimento e se entregou em paz. Ele combateu o combate, completou a carreira e guardou a fé.
Este versículo é muito utilizado. Na maioria das vezes, não no seu sentido verdadeiro de uma vida inteira de compromisso com o Senhor. Não é um versículo para ser utilizado quando se quer ou quando se passa por qualquer “briguinha” na vida. É um versículo para situações verdadeiras de sofrimento em que a ameaça da morte é iminente.
Podemos dizer esse versículo antes da nossa morte, como Paulo? Ou estamos levando a vida de qualquer jeito e morreremos em desespero? Temos medo das perseguições, da perda dos familiares e amigos ou do deboche dos outros e, por isso, não estamos nem aí para um compromisso verdadeiro com o Senhor?
Em Rm 1.16 (1 v. antes do 17), Paulo diz: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego.” Não tenhamos vergonha do Evangelho para que no fim da nossa jornada, possamos dizer: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé.” Amém.
Notas e referências
Cf DODD, Charles Harold. A mensagem de Paulo Para o homem de Hoje. 2.ed. São Paulo: Paulinas.1981. p.18; Cf. O’CONNOR, Jerome Murphy. Paulo: Biografia Crítica. São Paulo: Loyola. 2000. p.48-50; Cf. O’CONNOR, Jerome Murphy. Paulo: história de um Apóstolo. São Paulo: Loyola. 2007 p.25-26.Cf: PERUZO, José Antônio. A Personalidade de Paulo. Revista Coleções. Rio de Janeiro. n.13 – 2008. p.86-87
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