PregaçõesConsolem, consolem o meu povo
Amados irmãos, amadas irmãs,
existem momentos em que precisamos daquele abraço, aquele aconchego, de belas palavras ou de um silêncio respeitoso. A vida humana é, de fato, humana e por vezes nos pega de surpresa com acontecimentos completamente inesperados. Neste ano de 2020 experimentamos bastante o que isso significa. Tivemos acontecimentos que não estavam no planejamento. Acabamos sofrendo exatamente com a falta daquele abraço, daquele aconchego, da simples presença das pessoas que amamos. Sentimos falta da comunhão presencial, de cantar juntos, de celebrar juntos, de ter a ceia juntos, de sepultar irmãos e irmãs queridos juntos, enfim, de estarmos juntos em alegrias e tristezas, de ter aqueles laços que são como uma teia resistente. Sentimos falta das conversas em conjunto, do chimarrão em conjunto, das risadas em conjunto e até das lágrimas em conjunto. Sentimos falta dos nossos irmãos e irmãs.
Talvez a palavra consolo se encaixe bem em toda essa situação. Consolo é uma palavra usada para momentos não fáceis, para quando surgem as surpresas da vida tão humana, para quando as coisas não estão bem. Consolo é uma palavra a ser usada para pessoas que precisam de consolo. Na língua portuguesa, a palavra consolo possui um significado muito bonito: vem do latim com + solari que literalmente significaria tomar sol juntos. No português, consolo traz essa ideia de alguém que está passando por uma fase de nuvens, talvez até trevas, mas em que outra pessoa vem e traz ao sofredor um pouco de luz, deixando passar alguns feixes de luz pelas nuvens de sofrimento, seja em palavras, no silêncio, no abraço, no aconchego, no derramar lágrimas, assim por diante.
Consolo não é para fortes e potentes. Consolo não é para quem nunca sofre. Super pessoas não precisam de consolo. O consolo é sim para os fracos, para os sofredores, os enlutados, os oprimidos, os deixados à margem, os esquecidos, para aqueles que são considerados “sujeira” da sociedade e alocados a viver em favelas, ou considerados intrusos indesejáveis que são “desinfetados” da civilização e talvez até do direito de serem chamados humanos1.
Consolo é para quem sofre; quem não sofre nunca, não precisa ser consolado; consolo é pra humanos; quem se acha super-humano, não precisará de consolo. A novidade da luz se destaca em um ambiente com pouca iluminação. Assim o consolo faz ainda mais sentido quando parece que não há mais como se consolar.
O texto que ouvimos de Isaías começa com a palavra consolo. E não apenas uma vez, mas é repetida: consolem, consolem. É o próprio Deus que coloca estas palavras na boca do profeta. É a boca do Senhor que a disse (cf. Is 40.5). Esta palavra de consolo vem do próprio Deus. Ele deseja consolar o seu povo.
A situação não era nada fácil. O povo de Judá havia se afastado completamente do Senhor. O Senhor Deus que os tirou da terra do Egito e da casa da servidão havia sido abandonado. Toda a memória sobre como o Senhor os amou e conduziu através do Mar Vermelho e do deserto havia sido esquecida. Esqueceram-se completamente do Senhor. Ao invés de levarem a sua crença aos outros povos, eram os outros povos que levavam as suas crenças a Judá.
Quando Judá perdeu o 1º Mandamento, perdeu também todos os outros. Judá era o povo eleito para ser bênção para os outros povos e agir de uma maneira como não havia em nenhum outro povo. Os outros povos valorizavam os fortes e poderosos, mas Judá deveria se lembrar dos fracos. Porém, a perda da fé no único Deus os levou também à perda do amor ao próximo. O Senhor precisa lembrar eles através de Isaías 1.17: “Aprendam a fazer o bem; busquem a justiça, repreendam o opressor; garantam o direito dos órfãos, defendam a causa das viúvas.” Judá era o único povo que previa direitos aos órfãos e viúvas, aos fracos, aqueles que seriam chamados pelos outros povos de “sujeira da sociedade”. Com a perda da fé, houve também a perda do amor. Já não se olha mais pelos fracos do próprio povo, mas apenas para a força dos povos vizinhos e a ambição de querer ser tão forte como eles eram. Ao invés de olhar para baixo, para quem sofre, Judá começou a olhar para cima, para quem era maior do que eles. No lugar da fé no Deus misericordioso será colocada a fé nos deuses dos povos vizinhos. Mas Deus diz em Isaías 2.17: “A arrogância das pessoas será abatida, e a soberba humana será humilhada.”
Judá não olha pelos fracos. Deus pergunta ao seu próprio povo em Isaías 3.15: “Com que direito vocês esmagam o meu povo e moem a face dos pobres? O Senhor, o Senhor dos Exércitos, é quem está falando.” Em Judá, não havia mais lugar para os fracos.
Por causa disso, o povo precisava ser purificado. Precisava ser rememorado de como é ser fraco, oprimido, pobre e escravo. Precisava ser lembrado de como é não ter fé. Por isso, é permitido por Deus que os babilônios invadam Jerusalém. Eles a cercam por três anos. Nesta semana nós vimos o assustador assalto na cidade de Criciúma em Santa Catarina; houve também na cidade de Cametá no Pará. Ambos os crimes contaram com o fechamento de ruas onde ninguém entrava e ninguém saía. No caso de Criciúma, até o túnel da BR 101 foi fechado para impedir a Polícia de chegar. Cenas de filme de ação na vida real. Quando há esse tipo de fechamento de fronteiras, o nome dado a isso é sítio ou sitiar. Todas as fronteiras ficam fechadas e ninguém entra e ninguém sai. Os ataques dos bandidos foram de algumas horas. Os babilônios, porém, sitiaram, ou seja, cercaram a cidade de Jerusalém por três anos. Ninguém entrava e ninguém saia; também não entravam nem saiam alimentos. Por fim, quando o povo estava fraco, não foi difícil destruir a cidade de Jerusalém, derrubar o Templo da cidade, matar muitos dos seus cidadãos e outra parte ser arrastada como escravos na Babilônia.
Quem descreve bem a cena é o livro de Lamentações. No cap. 2, vs. 11-12, diz: “Com lágrimas se consumiram os meus olhos, a minha alma se agita; o meu coração se derramou de angústia por causa da calamidade da filha do meu povo, porque as crianças e bebês desmaiam pelas ruas da cidade. Perguntam às suas mães: “o que temos para comer e beber?”, ao mesmo tempo em que desfalecem como o ferido pelas ruas da cidade ou quando dão o último suspiro nos braços de sua mãe.” No cap. 4, v. 4, diz: “A língua do bebê que mama fica pegada, pela sede, ao céu da boca; as crianças pedem pão, mas não há quem as alimente.” Em sua Lamentação, o autor diz no cap. 1, v. 18: “Escutem, todos os povos, e vejam a minha dor; as minhas virgens e os meus jovens foram levados para o cativeiro.” E os inimigos dizem, conforme o cap. 2, v. 16: “Nós acabamos com ela! Certamente este é o dia que esperávamos! Conseguimos! Este dia chegou!”. É por isso que o livro de Lamentações tem esse nome, pois quem o escreveu presenciou uma desgraça sem igual.
E agora, o antigo e próspero povo de Judá que vencia todas as guerras e batalhas foi vencido e está escravo em uma terra estrangeira e sem o seu próprio lugar de culto. Perderam tudo o que dava significado à identidade da nação. Perderam tudo!
É a este povo agora fraco e sofrido que Deus dirige a sua palavra através do profeta Isaías. O povo escolheu um caminho de pecaminosidade e orgulho, deixando o Senhor Deus de lado e esquecendo-se dos fracos do meio do povo. Porém, o Deus da Esperança não deixa de consolar o seu povo.
Por isso, o texto de Isaías 40 inicia com estas duas palavras e exatamente por isso são duas palavras: Consolem, consolem. A situação era delicada e complicada. Podemos imaginar uma nação inteira de luto e que não sabe o que será das gerações futuras. Não há perspectiva de amanhã. Aquele povo que sempre produzia muitos descendentes agora não tem certeza se ainda é importante colocar filhos no mundo. É a este povo sofrido que Deus fala por meio do profeta. E Deus anuncia evangelho, ou seja, boa notícia.
O consolo no original hebraico possui a ideia de tranquilizar, acalmar, confortar. Não é um ato isolado, ou um falar algo e terminou. Ao contrário, consolar no hebraico do Antigo Testamento expressa também uma repetição ou continuidade do consolo. Não é apenas um consolo que acontece em um momento específico, mas é um consolo que possui continuidade de geração em geração. O consolo que Deus está prometendo em Isaías 40 não está restrita a um consolo pelo momento de sofrimento; ao contrário, o consolo que Deus está prometendo em Isaías 40 é um consolo contínuo que terá como alvo a própria libertação do povo de Deus. Não é um consolo para o momento, mas um consolo visando o futuro, com uma linha do tempo reta e com um alvo muito claro!
O próprio Deus diz no v. 2: “Falem ao coração de Jerusalém e anunciem que o tempo da sua escravidão já acabou, que a sua iniquidade está perdoada e que ela já recebeu em dobro das mãos do Senhor por todos os seus pecados.” O consolo que vem de Deus não é um consolo vazio, mas é um consolo que recria a possibilidade do futuro. O consolo que vem de Deus abre as portas do amanhã. Haveria libertação! Como acontecerá? V. 10: “Eis que o Senhor Deus virá com poder, e o seu braço dominará; eis que o seu galardão está com ele, e diante dele vem a sua recompensa.” Deus virá com poder! Mas qual poder? O mesmo dos povos vizinhos? Que tipo de poder é esse? V. 11: “Como pastor, ele apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos e os carregará no colo; as que amamentam ele guiará mansamente.” O poder de Deus não virá ao povo de Judá como uma força esmagadora, mas com o cuidado de um pastor para com o seu rebanho, o pastor que carrega os cordeirinhos no colo. Que poder é este? O poder do consolo, do amor, do cuidado!
De fato, a libertação chegou! Em 538 a. C., Ciro, o Imperador Persa que já controlava toda a região, permitiu que os judeus voltassem às suas terras e também que tivessem direito aos seus costumes religiosos. O alvo do consolo aconteceu em grande parte não para os que foram escravizados, mas para os seus filhos. A mão de Deus agiu para que o seu povo estivesse reunido novamente. O consolo de Deus não é uma mera palavra, mas sempre é também uma ação. Deus consola não apenas falando; ao contrário, Deus consola agindo de maneira bem concreta na História.
E obviamente que a promessa de consolo não está restrita apenas à aquele tempo. Dos vs. 3-4 nós temos a promessa daquele que preparará o caminho do Senhor. Este será João Batista que não era o messias, mas veio antes para testemunhar do messias, do Ungido de Deus que é o Χριστός. João não era a luz, mas veio preparar o caminho para aquele que é a luz do mundo. E essa promessa não está restrita aos judeus, mas se abre ao mundo inteiro. Pertencer ao povo de Deus não significa mais ter um determinado sangue ou praticar alguns rituais; ao contrário, pertencer ao povo de Deus era uma questão agora apenas de fé! Confiar! Crer!
Jesus Cristo é o cumprimento de Isaías 40.5 que diz: “A glória do Senhor se manifestará, e toda a humanidade a verá, pois a boca do Senhor o disse.” Este cumprimento é descrito em João 1.14: “E a Palavra (boca de Deus) se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” Glória revelada não em um brilho de ouro, nem em um palácio e seu rei; não! Glória revelada na manjedoura em um paiol qualquer da cidade de Belém; glória revelada no menino criado pelo carpinteiro José e sua esposa Maria; glória revelada naquele que em seu ministério não era de lugar nenhum e nem tinha onde pousar a cabeça; glória naquele que como trono tinha uma cruz e como coroa uma de espinhos. Muitas vezes, nos iludimos achando que a glória de Deus está onde tudo é bem iluminado, onde há brilho, onde há beleza; mas a glória de Deus foi revelada na fraqueza do menino nascido em Belém entre festes e urina. O Deus oculto se faz visível! Em Jesus, nós vemos o rosto de Deus!
E Jesus é a Palavra de Deus. É o profeta ao mesmo tempo em que ele mesmo é a própria mensagem a ser comunidade. O Evangelho não é apenas anunciado por Jesus, mas ele mesmo, em pessoa, é o Evangelho. Deus se faz pessoa para vir a este mundo consolar o seu povo aflito, perdido e que estava como ovelhas sem pastor. A fé cristã fala do Deus que desce, se esvazia de si mesmo e se faz carne, habitando entre nós!
O Deus cristão conhece bem a humanidade porque ele se fez humano em Jesus Cristo. O Deus cristão sabe o que é precisar de um consolo porque precisou ser consolado quando seu precursor e amigo João Batista foi morto decapitado por um mero capricho do poderoso Herodes. Deus sabe consolar! E o consolo de Deus não está ligado apenas ao presente, mas sempre tem a perspectiva do futuro!
Por isso, Jesus prometeu o paracletos, o Consolador que é o seu Espírito Santo. Através do agir do Espírito Santo, recebemos a presença consoladora de Jesus hoje ao mesmo tempo em que esperamos o amanhã. Talvez, um dos atributos de Deus que mais precisemos enfatizar é a do Deus Consolador!
Ele não se esqueceu de nós! Ele nos consola em meio aos fracassos, insucessos, incertezas, dúvidas, medos, desespero, morte, luto, dor, ansiedade, depressão, lágrimas, etc. Nós também precisamos ouvir neste ano de 2020: “Consolem, consolem o meu povo.” Precisamos de consolo. Quantas vidas perdidas que não teriam sido perdidas se não fosse a pandemia, mesmo que em relação a outras causas a porcentagem de mortes por covid-19 pareça pequena. Mas diz isso a alguém que perdeu alguém que ama e que se não fosse a transmissão do vírus, provavelmente estaria viva! A crença no destino não é uma crença bíblica, mas antibíblica. Nós não cremos no tempo, mas no Senhor do tempo e da História que é algo bem diferente do que algo como “o destino quis assim”. Quantas famílias precisam ser consoladas neste ano? Arredondando, no Brasil são 176 mil famílias. Só no Rio Grande do Sul são mais de 7 mil famílias. No mundo inteiro, já são 1.524.569 mortes! “Consolem, consolem o meu povo.” Consolo que não é apenas dizer ou repetir palavras bonitas, mas agir para o bem e para a preservação da vida.
Certamente, aconteceram também tantas outras situações difíceis e de morte. E Deus não se esquece de nenhum caso. É no momento de fraqueza, dor e sofrimento que o consolo de Deus se faz ainda mais presente como um abraço apertado e caridoso.
E você, no que precisa ser consolado neste difícil ano de 2020? Basta a gente olhar um pouco mais para a nossa vida e saberemos. Acredite: há consolo, não como o mundo o oferece, mas da maneira amorosa como Deus o quer dar. Consolo com esperança de futuro! Que sejamos imensamente consolados. O natal está chegando! Lembramo-nos do nascimento de Jesus ao mesmo tempo em que esperamos a sua vinda para colocar fim à história! Consolo e esperança. Ele se fez como um de nós e vai voltar. Deus seja conosco, Amém.
Notas e referências
Cf. BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. São Paulo: Zahar, 1998. p.13-14.
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