PregaçõesCorrupção X Serviço
Amados irmãos, amadas irmãs,
quem de nós não gosta de uma boa refeição. É muito bom estar com a família e com os amigos, ter um momento juntos, conversar, rir, comemorar, contar aquelas piadas sem graça que aprendemos por aí, ter lembranças do passado, assim por diante. Penso, inclusive, que deveríamos valorizar cada vez mais este espaço de comunhão ao redor da mesa.
O texto do Evangelho que ouvimos traz a nós a cena de uma refeição. Naquela época, as refeições não tinham cadeiras como nos dias de hoje. Esta pintura é do séc. XVI, mas na época de Jesus as mesas eram baixas e as pessoas se deitavam no chão para comer, apoiando-se nas mesas. Não havia bancos ou cadeiras. Estes foram inventados bem mais tarde. Também não haviam talheres, mas tudo era comido com as próprias mãos.
Diz o texto que seis dias antes da Páscoa Jesus foi para a cidade de Betânia. Esta cidade fica a cerca de 3 Km de Jerusalém, conforme João 11.17. Naquela cidade, algo muito muito importante aconteceu: Lázaro foi ressuscitado! Lázaro era um amigo de Jesus e mesmo estando sepultado a 4 dias, quando Jesus o chamou, Lázaro saiu “vivinho da silva” da sepultura. Vale lembrar que Lázaro e Jesus eram muito amigos. Ali Jesus manifestou seu poder diante dos judeus que o perseguiam.
Por isso, conforme João 11.54 diz que Jesus havia se retirado par uma região vizinha ao deserto, a uma cidade chamada Efraim onde permaneceu com os seus discípulos. Jesus sabia que os judeus iriam mata-lo, mas ainda não era a hora. Os judeus queriam “dar um fim” em Jesus antes da Páscoa para não “estragar a festa”. Entretanto, eram eles que não podiam estragar os planos de Deus.
Perto da Páscoa (6 dias antes dela), Jesus retorna para a terra de Betânia onde se encontra novamente com Lázaro. O texto não informa com clareza em qual casa aconteceu uma refeição. Mas, ali está o Lázaro novamente. Por isso, os árabes até hoje chamam a cidade de Betânia de Lazariyeh que significa “lugar de Lázaro”. Betânia era a cidade dos amigos mais próximos de Jesus.
Por isso, nesta refeição estão também outras pessoas: Maria, Marta e Judas. O texto não menciona os nomes, mas é muito provável que os outros discípulos também estivessem naquele lugar para uma boa refeição. Alimentar tanta gente também não é algo fácil.
Chama a nossa atenção pelo menos duas coisas: 1) Há ali alguém que voltou da morte para a vida. Como seria ter, na sua refeição em casa, alguém que estava sepultado há quatro dias? 2) Maria que unge os pés de Jesus e os enxuga com os próprios cabelos. Como você reagiria se em alguma refeição na sua casa alguém começasse a fazer o que Maria Madalena fez? Acharíamos estranho, não é?
Fato é que a atuação de cada personagem neste texto nos ajuda a entender aquilo que Deus quer nos dizer através da sua Palavra hoje. Aquela era uma refeição comum onde não caiu fogo do céu e nem ouve qualquer tipo de manifestação extraordinária. Mesmo assim, Jesus estava presente!
Há muita diaconia (do gr. diakonia = serviço/ministério) nesta refeição:
Marta serve a mesa com alegria. Inclusive, um dos significados de diaconia na língua grega secular é servir a mesa e cuidar das necessidades do lar1. Marta é, de fato, uma diaconisa que serve à mesa com alegria. Temos apenas duas palavras no texto: Marta servia (v. 2), mas já é o bastante para entender o amor que ela tinha por Jesus e pelo serviço cristão.
Maria se dispõe a servir a Jesus de outra forma. Ela não serve a Jesus de qualquer jeito, mas faz dá o que melhor tem: o perfume utilizado por Maria era raro e puro. Não se encontrava em qualquer lugar e, quando se encontrava, não era barato. Maria demonstra humildade diante do Senhor. É assim que Maria revela seu compromisso com Jesus e com o Reino de Deus: servindo-o com humildade e alegria, dando-lhe o que melhor tinha.
E temos também o Judas. Judas só está na refeição. Em outras palavras, ele não está fazendo nada além de ser servido. Se isso não fosse o suficiente, ele vê a atuação da Maria e solta uma reclamação. É interessante notar que a reclamação de Judas aparece de maneira mascarada. Judas é como uma galinha: ele faz muita propaganda para um ovo muito pequeno. A verdade é que Judas tinha interesses pessoais que não revelou.
Judas pergunta: “Por que este perfume não foi vendido por trezentos denários valor não foi dado aos pobres?” (v. 5). Com um denário seria possível comprar cerca de 8 Kg de pão. Faça as contas: 300 x 8 = 2,4 toneladas de pão. Isso daria para alimentar 133 pessoas durante um ano inteiro2. Ou seja: a propaganda de Judas é muito boa. Vamos vender este perfume e, com o dinheiro arrecadado, ajudar os pobres. Entretanto, a sua intenção do coração era bem outra. E Jesus sabia disso!
Judas provavelmente era o tesoureiro do grupo. Eles tinham uma espécie de caixa onde mantinham o Ministério de Jesus para que pudessem comprar comida no caminho. O texto diz: “Ele disse isso não porque se preocupava com os pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa do dinheiro, tirava o que era colocado nela.” (v. 6). Ou seja: a verdadeira intenção de Judas não era ajudar os pobres, mas que o dinheiro fosse colocado no caixa para que ele pudesse tirar a mais do que devia. A intenção de Judas não era servir, mas ser servido; Judas não queria um compromisso com o Reino de Deus, mas, sim, com o “reino do seu bolso”.
A refeição ia bem. Pode até parecer estranho ter nela alguém que voltou à vida e alguém que enxuga os pés de Jesus com os próprios cabelos. Entretanto, aquele que, na mesa, parecia ser o mais comportado e correto era o que, na verdade, mais continha a corrupção em seu coração. Marta, Maria e Lázaro são por fora exatamente o que são por dentro; já Judas mostra uma imagem que não corresponde ao que está dentro do seu coração sujo e corrupto. Judas é chamado de Ladrão. Nós sabemos onde isso vai dar: trocou Jesus por 30 moedas de prata! Perdeu a própria vida por causa da corrupção. Não porque Jesus não o aceitaria de volta, mas porque não aceitou se arrepender e chorar amargamente como Pedro fez após negar Jesus três vezes.
Amados e amadas do Senhor,
serviço e corrupção não são compatíveis. O serviço cristão (diaconia) vê o bem das outras pessoas; a corrupção enxerga apenas o próprio bem. Onde há corrupção não pode haver serviço e onde há serviço não pode haver corrupção. Nós costumamos pensar e dizer que a corrupção só está entre os políticos, enquanto também tentamos, muitas vezes, tirar vantagem indevidamente. O texto do Evangelho de hoje é um convite aberto a não ceder ao “jeitinho brasileiro”, mas a servimos aos outros com alegria.
O reformador Martinho Lutero diz: “Deus não precisa das tuas obras, mas teu vizinho sim.” Quando nossa vida se torna uma vida que tem como missão amar ao próximo, começamos a entender que tirar vantagem não nos leva a lugar nenhum. Isso não é tarefa apenas dos políticos. Essa tarefa é nossa! É minha! É sua!
O amor ao próximo não olha para seus próprios interesses, também não avalia se a obra é grande ou pequena, mas apenas pergunta pela utilidade e necessidade que tem para o próximo ou para a comunidade.3
Assim como os personagens do texto, nós também estamos próximos da Páscoa. Hoje é o último Domingo na Quaresma. Este é o tempo de mudar, transformar, reconciliar. Nós sabemos para onde a corrupção nos leva. O desejo de Deus é que sejamos levados para a cruz de Cristo onde há perdão e reconciliação.
Termino contando uma história que certamente alguns de vocês já ouviram:
“Em uma cidade do interior de colonização italiana, havia muitos viticultores. A produção de vinho era grande. Havia, inclusive, na cidadezinha, uma festa anual do vinho. Todos os anos um barril enorme era colocado no centro da cidade. Ele era abastecido com a produção dos próprios viticultores. Ano após ano, cada um derramava um pouco da sua produção no grande barril para dividir com as outras pessoas e celebrar a colheita.
Em um ano, certo viticultor pensou: “Esse vinho para o barril vai me fazer falta. E se eu colocar água? No meio de tanto vinho, ninguém vai saber”. Dito e feito!
Quando chegou à noite, o prefeito da cidade fez um belo discurso, cortou a fita abrindo oficialmente a festa. Quando ele abriu a torneira do grande barril, ele e todos se surpreenderam quando só saiu água.” Jesus chegou a transformar água em vinho, mas certamente, naquele dia, não houve a transformação de vinho e água. A corrupção individual apareceu escancarada diante de toda a cidade, para a vergonha de todos.
Amados e amadas,
mais serviço, mais amor, mais compaixão.
menos corrupção, menos indiferença, menos ódio.
Deus nos ajude. Amém.
Notas e referências
HESS, Klaus. “diakonew”. in: BROWN, Colin; COENEN, Lothar. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 2342.
↩Contando só o pão, levando em conta que a média anual de consumo de pão francês é 18 Kg por pessoa, cf. <https://super.abril.com.br/mundo-estranho/quanta-comida-uma-pessoa-adulta-come-em-um-ano/>. Acesso em: 06. abr. 2019.
↩OSEL 6, p. 96.
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