PregaçõesCreio na ressurreição do corpo
Amados irmãos, amadas irmãs,
a fé cristã defende a importância do corpo. No texto que ouvimos, torna-se claro que Jesus ressuscitou com um corpo. O evangelista Lucas vai ainda mais longe ao dizer que a ressurreição de Jesus foi tão corpórea que ele comeu um peixe com os seus discípulos (cf. Lucas 24.36-43).
Talvez, seria muito mais fácil afirmar a ressurreição da “alma” ou do “espírito” de Jesus. Quem sabe mais pessoas iriam acreditar na ressurreição se ela fosse a separação da alma do corpo de Jesus. Bem, ideias assim apareceram em toda a História da Igreja. Na Igreja Antiga, a ideia da supervalorização da alma em detrimento do corpo era chamada de gnosticismo. A Igreja Cristã rejeitou o gnosticismo através de uma frase bem curta presente no final do Credo Apostólico: “Creio na ressurreição do corpo”. Não cremos que Jesus ressuscitou como um “espírito” ou uma “alma” apenas, mas corporalmente; da mesma forma, cremos, pelo testemunho bíblico, que a ressurreição dos mortos também será corpórea, pois a fé cristã defende que o corpo e a alma são inseparáveis e descansam mutuamente na sepultura até o Dia do Senhor (cf. 1 Coríntios 15.1-54 e 1 Tessalonicenses 4.13-18).
O gnosticismo, porém, nunca “saiu de moda”. Na Reforma do século XVI, Lutero dará grande ênfase à encarnação de Deus em Jesus corporalmente e que a fé cristã não é vivida apenas de forma “espiritual”, mas também “material” onde, através da profissão, a pessoa cristã cumpre a sua missão no mundo – e não fora dele – servindo a Deus por meio do próximo. É no corpo que a pessoa cristã crê em Deus; e também é no corpo que a pessoa cristã ama ao seu próximo. Por isso, a reforma luterana acompanha os credos da Igreja Antiga e rejeita com a mesma veemência o gnosticismo por supervalorizar a alma e rejeitar o corpo e a carne.
Claus Westermann (1909-2000), professor luterano de Antigo Testamento, escreveu:
Por isso, Deus não tem a ver só com a “alma”, mas do mesmo modo com o corpo. Uma valorização maior do espiritual ou ideal frente ao carnal ou material não tem fundamento na fé cristã.1
Bem, infelizmente a heresia do gnosticismo permanece presente e hoje é bastante encontrada até mesmo dentro das Igrejas Evangélicas que dão a supervalorização à alma e deixam de lado o corpo. Algumas frases revelam exatamente isso: “o que importa é o espiritual, não o material”; ou: “não preciso da Igreja. Já leio a Bíblia e oro em casa”; ou: “pessoas sofrem porque não tem fé de chega”; etc. A Bíblia, porém, nos diz que Deus se fez carne em Jesus (cf. João 1.14), que Jesus era verdadeiramente Deus (cf. João 1.1; Colossenses 2.9) e verdadeiramente homem (cf. Filipenses 2.5-11; 1 Timóteo 2.5; Hebreus 2.17), que Deus morreu na cruz (cf. 1 Coríntios 1.18-25) e que Jesus ressuscitou com um corpo (cf. Lucas 24.36-43; João 20.26-31). Ou seja: o Novo Testamento dará total ênfase à importância do corpo para a fé cristã. Por isso, o texto do Evangelho previsto para hoje é para muitos cristãos um “banho de água fria”; já para outros é realmente uma boa-notícia: Deus ama os nossos corpos e quer que os usemos para a sua glória e para o seu louvor. “Aprendemos como os nossos corpos são locais de culto não como uma ideia abstrata, mas por meio da prática de cultuar com os nossos corpos”2.
Hoje, a cultura tem treinado as pessoas a verem seus corpos primariamente como meios de conquista ou de prazer3. E devemos dar atenção aqui à palavra primariamente, pois o prazer também faz parte da boa Criação de Deus; não apenas o prazer sexual, mas também o prazer de conversar e rir com amigos, o prazer de comer uma refeição deliciosa; o prazer de beber um bom vinho; o prazer de contemplar as belezas da criação de Deus. O corpo e suas sensações também são parte da boa Criação de Deus – e a fé cristã valoriza isso.
Porém, vivemos em uma cultura pornográfica que tem estragado a noção da pessoa e seu corpo como imagem e semelhança de Deus. O filósofo inglês Roger Scruton (1944-2020) escreveu no seu livro “O Rosto de Deus”:
Na pornografia, o rosto não tem um papel a desempenhar exceto o de ser submetido ao império do corpo. Os beijos não têm importância, e os olhos olham para o nada, já que não buscam nada além do prazer imediato. Tudo isso corresponde a uma marginalização – efetivamente uma espécie de profanação – do rosto humano. E essa profanação do rosto é também uma anulação do sujeito. O sexo, na cultura pornográfica, não é uma relação entre sujeitos, mas uma relação entre objetos.4
Tish Warren então arremata, dizendo: “Se a igreja não nos ensinar para que servem os nossos corpos, a nossa cultura certamente irá”5.
Amados irmãos, amadas irmãs,
a fé cristã valoriza o corpo. Jesus não ressuscitou apenas como um espírito, mas com um corpo glorificado. Por isso também o seu corpo é importante. Use o seu corpo para adorar a Deus. Ao se olhar no espelho durante a rotina diária, veja sua imagem no espelho e diga a si mesmo que você foi criado à imagem e semelhança de Deus. Ao colocar seus pés no chão ao levantar-se de manhã, sinta a sensação de segurança por baixo dos seus pés e agradeça a Deus por mais um dia. Ao parar em um semáforo, use esse tempo para refletir sobre a glória de Deus. O seu corpo é importante. Por isso, merece ser cuidado através de exercícios físicos e outras atividades importantes à saúde – algo que, confesso, também preciso começar a fazer.
Cuidado com as novas formas de gnosticismo presentes no mundo evangélico. Seu corpo e sua alma são uma realidade só e que se afetam mutuamente. Ambas são igualmente importantes para Deus. Pense e reflita sobre isso. Amém.
Notas e referências
WESTERMANN, Claus. O Livro do Gênesis. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2013. p. 35.
↩WARREN, Tish. Liturgia do Ordinário. 2. ed. São Paulo: Pilgrim; Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021. p. 63. Grifos da autora.
↩Cf. WARREN, 2021. p. 65.
↩SCRUTON, Roger. O Rosto de Deus. São Paulo: É Realizações, 2015. p. 144-145.
↩Cf. WARREN, 2021. p. 65.
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