Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

Voltar a Pregações
Velas acesas iluminam o altar de uma igreja.Pregações

Culto das Velas

Amados irmãos, amadas irmãs,

sabemos o que é a luz porque sabemos o que é a escuridão; sabemos o que é algo revelado porque sabemos o que é algo escondido; sabemos o que é algo descoberto porque sabemos o que é algo coberto. Uma lâmpada não se destaca em um ambiente luminoso, mas na escuridão; algo revelado não se destaca quando já conhecemos todas as coisas, mas exatamente quando não conhecemos e algo nos é revelado; uma descoberta só faz sentido se antes não era conhecida, mas quando o que estava coberta e de repente aparece diante dos nossos olhos.

Assim nós percebemos como funciona a dinâmica da vida. Sabemos o valor do amor porque sabemos o valor do ódio e da indiferença; sabemos o valor da amizade porque sabemos o que é uma inimizade; sabemos o que é ter fé porque sabemos o que é ter dúvidas – e as dúvidas não são eliminadas, mas fazem parte da vida de fé. Percebem como as coisas estão ligadas umas com as outras? Como saberíamos o que é o calor se não sentíssemos frio? Como saberíamos a importância da água se não sentíssemos sede? Como valorizaríamos o alimento se não sentíssemos a fome? É assim que funciona a dinâmica da vida, como um motor de ideias bem contraditórias que colocam a vida para girar, onde cada coisa tem o seu oposto e em que uma coisa não pode existir sem seu oposto. O grêmio precisa do internacional para existir; o internacional precisa do grêmio para existir. Se a contradição natural foi retirada, ambos se anulam.

Assim, há sempre uma interdependência entre algo e o seu oposto. Sabemos o que é algo molhado porque sabemos o que é algo seco; sabemos o que é o inverno porque sabemos o que é o verão; sabemos o que é vida porque sabemos também o que é a morte; sabemos o que é uma verdade porque sabemos o que é uma mentira; sabemos o que é a paz porque sabemos o que é uma guerra; sabemos o que é a memória porque sabemos o que é o esquecimento; sabemos o que é algo limpo porque sabemos o que é algo sujo; sabemos o que é o barulho porque sabemos o que é o silêncio; E assim, sabemos que para saber de algo, precisamos saber também do seu oposto. Tudo depende do seu oposto para realmente existir.

É dessa dinâmica que o apóstolo Paulo está falando em Romanos 16. É com essa dinâmica das coisas e seus opostos que ele termina a sua carta. Temos que lembrar e imaginar que esta era, de fato, uma carta ditada por Paulo e redigida por Tércio (cf. Rm 16.22) para aquela comunidade. As cartas de Paulo geralmente iniciam com uma saudação, tem então seu conteúdo e terminam novamente com uma saudação. Nesta de Romanos, o apóstolo Paulo terminou colocando um hino de glória e louvor. Paulo termina a sua carta exaltando a Deus pelo seu poder (v. 25), exaltando a Cristo como conteúdo do Evangelho (v. 25-26), exaltando as Escrituras como Revelação de Deus (v. 26) e exaltando a Deus por sua sabedoria (v. 27). Qual resposta a comunidade de Roma deve dar após ler tudo isso? Amém! Que assim seja! (v. 27).

O apóstolo Paulo fala da revelação do mistério guardado em silêncio desde os tempos eternos (v. 25). Apenas sabemos o que é uma revelação se soubermos também o que é um mistério. Deus sempre fora um ser misterioso, inalcançável, inatingível. Deus sempre foi um ser que dava a Palavra ao seu povo por meio de líderes e profetas, mas que não podia ser visto nem tocado. Deus sempre fora o Deus misterioso, Santo, entronizado nos céus. Deus disse para Moisés em Êxodo 33.20: “ – Você não poderá ver a minha face, porque ninguém verá a minha face e viverá.” O rosto de Deus era um rosto misterioso, um rosto escondido, um rosto encoberto, um rosto não revelado, um rosto não conhecido. Mesmo que caminhasse pelo Jardim do Éden com Adão e Eva, continuava sendo o Deus transcendente cuja presença está em todo lugar mesmo não podendo ser visto. É o Deus desconhecido, o Deus que falava sua palavra, mas ocultava o seu rosto.

Porém, qual é o testemunho do apóstolo Paulo no final da sua carta aos Romanos? O mistério foi revelado, a luz veio para diluir a escuridão, o desconhecido se tornou conhecido! E tudo isso aconteceu em Jesus! Jesus é a revelação do amor de Deus. Jesus é a revelação do rosto amoroso e misericordioso de Deus, o Deus que não quer castigar, mas salvar e se auto entrega a morte para este fim. O Deus-Filho por meio de quem o Deus-Pai criou todas as coisas agora se faz gente como a gente, possui um rosto como nós o possuímos, sentimentos como os que nós sentimos, necessidades como as que nós necessitamos. Ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante a nós (cf. Fp 2.7). Foi obediente até à morte e morte de cruz (cf. Fp 2.8). Jesus é o próprio Deus que se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e de verdade e nós vimos a sua glória, glória como a do único Filho gerado do Pai (cf. Jo 1.14).

Este é Jesus. É a revelação do rosto de Deus. Rosto que não é entroncado, reclamão e ranzinza, mas o rosto do Deus por meio de quem tudo foi criado e se faz um bebê dentro de um paiol. Sim, o rosto de Deus no natal é o rosto gracioso de um bebê indefeso, mas que já era considerado uma ameaça por Herodes e outros poderosos daquele tempo.

Sabemos o que é o Deus misterioso porque sabemos o que é o Deus revelado! Não somos nós que vamos até ele, mas foi ele quem veio até nós! Cheio de graça e de verdade! Glória não revelada em palácios e muita pompa, mas glória no bebê deitado no coxo onde os animais comiam e em um paiol cheio de coco e xixi de animais. Era ali naquele paiol que a glória de Deus foi revelada e não nas hospedarias que estavam todas cheias e sem lugar para o Deus, que é o dono de tudo, nascer.

Amados irmãos, amadas irmãs.

Hoje é o Culto das Velas. Hoje é dia de lembrar que sabemos o que é a luz porque sabemos o que é a escuridão. Sabemos o que é perdão porque sabemos o que é o pecado. Sabemos o que é reconciliação porque sabemos o que é estar desligado. As velas querem nos remeter a Deus que antes era misterioso, mas que agora em Jesus Cristo é a própria luz do mundo (cf. Jo 8.12). As velas também nos lembram do sacrifício: para iluminar um ambiente, uma vela precisa lentamente morrer; ela morre para doar a luz, assim como Jesus Cristo morreu na cruz para ressuscitar, foi apagado na cruz para depois iluminar o mundo inteiro. As velas que nos lembram que também nós devemos ser a luz do mundo para fazer diferença em meio à escuridão, levar o amor ao invés da indiferença, ter humildade ao invés de orgulho, não ser para que Jesus seja!

Não estamos aqui reunidos em um culto bonito e diferente como tivemos no ano passado, por exemplo. E todos nós sentimos falta disso. Dessa comunhão pessoal que aquece os corações. De fato, sentimos falta. Sabemos o que é presença quando sabemos o que é a ausência; sabemos o que é um abraço quando sabemos o que é não poder abraçar; sabemos o que é comunhão quando sabemos o que é solidão; sabemos o que é cear na mesa do Senhor quando não podemos cear na mesa do Senhor;

Entretanto, Deus não deixou de ser Deus e Jesus não deixou de ser a luz. Isso continua igual, aconteça o que acontecer, independentemente até da vida e da morte. As velas hoje à noite nos lembram de que Deus continua sendo Deus, o misterioso que foi revelado, o desconhecido que deu seu rosto a conhecer em Jesus: rosto de amor e misericórdia.

Que Deus nos ampare, conforte e fortaleça nesse período difícil que estamos passando. Que as velas nos lembrem de que a verdadeira lâmpada para os nossos pés e luz para os nossos caminhos é a Palavra de Deus (Cf. Sl 119.105). O Deus da luz ilumine e abençoe nossas vidas e famílias nesta semana de Natal.

Amém.

Oração:

Senhor,

Fazei de mim um instrumento de vossa Paz.

Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,

Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.

Onde houver Discórdia, que eu leve a União.

Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.

Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.

Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.

Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.

Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!

Ó Mestre,

fazei que eu procure mais:

consolar, que ser consolado;

compreender, que ser compreendido;

amar, que ser amado.

Pois é dando, que se recebe.

Perdoando, que se é perdoado e

é morrendo, que se vive para a vida eterna!

Amém.

[ Francisco de Assis (1181-1226) ].