Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Cruz de madeira e coroa de espinhos sob céu luminoso.Pregações

De malas prontas

Amados irmãos, amadas irmãs;

hoje nós chegamos ao fim do ano eclesiástico. No próximo Domingo já entraremos no Ano Novo da Igreja. Neste ano, Domingo após Domingo, meditamos na Palavra de Deus com lições muito importantes para as nossas vidas. A cada culto fomos alimentados pela Palavra de Deus de um modo diferente e especial. Agora vem um novo tempo.

No último Domingo do ano eclesiástico lembramos que Jesus Cristo é o Rei. Mas isso nós já lembramos desde o natal. Jesus é um Rei diferente. Nasceu em um paiol, mas foi visitado por pastores e sábios, ganhando presentes. Herodes, ao saber que estava para vir um bom Rei, manda, em seu orgulho e ciúme, matar todas as crianças recém-nascidas de Belém e no entorno. Aqui já encontramos a diferença entre os reis deste mundo e o Rei que Deus enviou a nós. Jesus é um Rei que começa sua vida de maneira humilde em um paiol e precisa fugir de um tirano.

Este menino cresce e aos 30 anos começa seu ministério, seu serviço de pregação da Palavra. Jesus chamava pessoas que prontamente se colocavam à disposição para segui-lo. Entretanto, que expectativas as pessoas tinham em relação a Jesus?

Muitos achavam que ele seria um Rei como os reis deste mundo. Viam em Jesus um tipo de revolucionário que tomaria Jerusalém e a livraria do Império Romano e dos altos impostos que precisavam ser pagos. Criaram expectativas completamente humanas para aquele que veio ser Rei dos reis e não apenas um governante deste mundo.

Estavam tão empolgados com um possível reinado terreno de Jesus que uma mãe chegou a pedir a Jesus que quando ele se assentasse no trono, ela gostaria que seus dois filhos se sentassem ao seu lado, um à direita e outro à esquerda. Jesus respondeu: “Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que estou para beber? Responderam-lhe: Podemos.” (Mt 20.22). Eles mal imaginavam que o trono do Rei Jesus seria uma cruz! Por isso, Jesus lhes disse: “Bebereis o meu cálice, mas o assentar-se à minha direita e à minha esquerda não me compete concedê-lo;” (Mt 20.23).

Todos se assustaram ainda mais quando este Rei chamado Jesus entra na cidade de Jerusalém montado em um jumentinho. Isso pegou a todos de surpresa. Não era algo esperado. Era algo completamente indigno para alguém que “assumiria o trono e o governo da nação.” Porém, havia em seus corações a fome pelo poder. Imaginavam que naquele momento era um jumentinho, mas no futuro com certeza seria um cavalo. Temos na Escritura a fome de uma população por um rei poderoso e um Rei poderoso que se esvazia para servir.

As pessoas gostam de ver “poder”. Correm rapidamente para onde há algo que prometa mudar as suas vidas completamente. Isso acontece na igreja onde se procuram “pregadores poderosos” quase capazes de trazer o céu para a terra, fazendo curas, milagres e todo tipo de ação poderosa. As pessoas correm procurando esse tipo de coisa. Ou procuram o poder nas superstições e nas simpatias que prometem coisas, mas não podem conceder nada! Ou procuram o poder na política, em todos os lados, através da busca do status e do estar perto dos poderosos. Outros procuram o poder na idolatria a artistas famosos, sejam atores, atrizes, cantores ou cantoras (o problema é a idolatria, não a admiração). Procurar pelo poder é uma maneira humana de empoderar a si mesmo. As pessoas querem poder. Quem oferecer poder, ganhará seguidores!

Este foi o choque quando o Rei Jesus tão aclamado e seguido vai parar em uma cruz. Não dá de acreditar! Procuramos Jesus em um trono humano, mas seu trono era para ser uma cruz! Estamos acostumados com os reis deste mundo em seu poder e, naquela época, ainda mais onde tinham autoridade, inclusive, para arbitrariamente, mandar matar ou salvar. Já Jesus é encontrado na cruz. Na fraqueza do Deus que morre na cruz está a grandiosidade do poder de Deus. É fácil reconhecer um rei nos tronos humanos, mas é difícil reconhecer um Rei pendurado em uma cruz. “Coisa de louco”.

A sabedoria humana é confundida pelo Rei amoroso pendurado no madeiro. O teólogo católico Franz Hinkelammert diz: “Não é a maldade que explica a crucificação, mas a cegueira e a própria loucura da sabedoria deste mundo”1. Quando as autoridades deste mundo autorizam a crucificação de Jesus, o fazem sem saber que estavam cumprindo a sabedoria de Deus. “Jesus aceitou ser crucificado na cruz, obedecendo à vontade do Pai, que desejava sua morte para salvar – e conquistar – a humanidade”2.

É na loucura da fraqueza da cruz que nós encontramos o poder salvífico de Deus.

A grande verdade é que nós queremos tudo, menos um Deus crucificado. Hoje é o Domingo de Cristo Rei, lembrança daquele que está assentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso, de onde virá para julgar os vivos e os mortos. Porém, antes ele passou pela cruz e com uma coroa não feita de ouro, mas de espinhos.

O Deus de quem as próprias autoridades debocham e fazem pouco caso, dizendo: “Também as autoridades zombavam e diziam: Salvou os outros; a si mesmo se salve, se é, de fato, o Cristo de Deus, o escolhido.” (Mt 23.35). Um Deus pendurado sangrando em uma cruz é motivo de deboche, de desonra, de humilhação; mas é exatamente ali que está o poder de Deus que inverte a maneira humana de ver as coisas. Deus coloca o poder na fraqueza. Quando sou fraco, então sou forte!

O conhecido teólogo alemão Friedrich Nietzsche irá dizer que na cruz, Deus faz da terra um hospício3, pois é loucura que Deus faça esse tipo de coisa. Mas é exatamente o que aconteceu! Ele chega a dizer em tom de provocação:

O Antigo Testamento – sim, este é outra coisa: todo o respeito perante o Antigo Testamento! Nele encontro grandes homens, uma paisagem heroica e algo raríssimo sobre a terra, a incomparável ingenuidade do coração forte; mais ainda, encontro um povo. No Novo, porém, nada senão pequeninas manobras de seitas, nada senão rococó da alma, nada senão volutas, tortuosidades e bizarrias, mero ar de conventículo, não esquecendo ainda um ocasional sopro de doçura bucólica, próprio da época (e da província romana) e não tanto judeu quanto helenístico.4

Resumindo, enquanto no Antigo Testamento encontramos grandes heróis da fé como Abrão, Moisés, Davi, etc., no Novo Testamento, encontramos a loucura de um Deus que morre de maneira horrível em uma cruz: “já a palavra “cristianismo” é um mal-entendido – no fundo, houve apenas um cristão, e esse morreu na cruz. O “evangelho” morreu na cruz”5. Assim como as autoridades, o teólogo Nietzsche também debocha de Jesus, dizendo: “se faz bem ao calçar luvas quando se lê o Novo Testamento. A proximidade de tanta imundície quase obriga a tanto”6

Nietzsche repudia o Deus crucificado do Novo Testamento como uma das maiores vergonhas que a humanidade assistiu em seu decurso na história. Nietzsche e as autoridades deste mundo não conseguem enxergar na cruz a loucura que nos cura.

Eu gosto muito de assistir séries do Netflix. Há uma série que já terminei há um tempo chamada “House of Cards” que significa “A casa das Cartas”. Sem dar spoiler, a série fictícia conta a história de um político estadunidense que tem fome de poder e é capaz de derrubar tudo e todos para chegar onde quer. Em dado momento, quando ele já se tornou presidente dos Estados Unidos, acontece uma cena que quero mostrar a nós nesta manhã. Ela é legendada, porém, é mais visual do que falada:

Amados irmãos e amadas irmãs,

esta cena nos mostrou exatamente como os poderosos deste mundo rejeitam e debocham de Jesus em sua fraqueza. Porém, vamos crer que é ali que Deus revelou seu poder a nós. Jesus é um Rei amoroso e misericordioso, capaz de perdoar um pecador que se arrependeu no último momento ao também estar pendurado na cruz.

Deus nos conceda o dom de enxergar que na loucura da cruz está o nosso Rei que posteriormente foi ascendido e glorificado aos céus. Jesus Cristo é o nosso Rei e Senhor.

Termino citando uma frase do teólogo católico Leonardo Boff: “os homens querem ser reis, os reis querem ser deuses; Deus se fez homem”.

Amém.

Notas e referências

  1. HINKELAMMERT, Franz. A maldição que pesa sobre a lei. São Paulo: Paulus, 2012. p. 38.

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  2. HINKELAMMERT, 2012. p. 27.

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  3. NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009

    . p. 76

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  4. NIETZSCHE, 2009. p. 124.

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  5. NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Anticristo – 1888. In: NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Obras escolhidas. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 404.

    ↩
  6. NIETZSCHE, 2013. p. 412.

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