Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Maria com o menino Jesus, José e pastores acolhidos em um estábulo humilde.Pregações

Deus acolhe os excluídos

Era de noite. Os pastores cuidavam do rebanho de ovelhas como faziam o ano inteiro. O rebanho reservados para o sacrifício no tempo eram guardados por pastores. Como eram animais perfeitos, havia ladrões que poderiam facilmente roubar os animais para si. O perigo não eram apenas os ladrões, mas também lobos ou outros animais que poderiam atacar e matar as ovelhas. A vida de pastor de ovelhas não era nada fácil. O cuidado para com a segurança das ovelhas era algo essencial.

Por mais que tivessem um trabalho duro, os pastores eram rejeitados no seu tempo. Os judeus conservadores valorizavam a limpeza, a pureza e a santidade. Tudo o que continha sujeira era descartado como imundo. Por isso, por exemplo, eles não comiam carne de porco, pois ele vive na sujeira e é considerado um anima imundo. Também as pessoas que trabalhavam em serviços não limpos eram consideradas imundas. Qual era a consequência disso? Os imundos não podiam ir ao templo para adorar a Deus. Eram proibidos. Só aqueles que pareciam os “limpos” é que tinham esse direito. Como ouvimos em uma das prédicas mês passado, as aparências enganam. Mais tarde, Jesus Cristo disse: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” (Mt 5.8). Jesus destrói a doutrina do puro e do impuro ao afirmar que mais importante do que a aparência exterior é como está o nosso coração. E quantos, ainda hoje, julgam os outros pela pureza, beleza ou limpeza exterior, mas não olham se possuem um coração humilde e puro. Fazem de tudo para humilhar e difamar, inclusive contando mentiras, sem olharem para dentro de si mesmos.

É para aqueles pastores que estavam trabalhando no pasto, no meio de fezes de ovelhas, no meio da sujeita, são eles os primeiros a receberem a boa notícia do nascimento de Deus em Belém. Deus não escolheu os reis para saberem do nascimento de Jesus, pois sabia que seu orgulho não permitiria a existência de alguém maior do que eles; Deus não escolheu os de aparência religiosa, pois sabia que a sua casca por fora não representava o que eles tinham no coração. Deus vai, inesperadamente, anunciar a mais bela notícia que o mundo já recebeu àqueles pastores sujismundos do campo. Possuíam um coração puro e limpo para receber a notícia. E de fato, foram bem-aventurados, pois viram Deus deitado em uma manjedoura em um paiol sujo, escuro e fedido.

Deus inverte as coisas e vêm ao contrário das nossas expectativas. Ao invés de descer do céu em glória, luz e majestade, ele nasce de uma mulher, Maria, em um lugar que nenhuma mãe ousaria ter seu filho ou filha. Ao invés de anunciar com trombetas ao mundo todo que seu Filho nasceu em Belém, o anúncio é feito aos humildes pastores de coração puro. Em uma noite pra lá de improvisada, nasceu nosso Salvador. Em meio à correria de Belém, no paiol estava a Luz do Mundo e o Príncipe da Paz. Luz e Paz que ficaram despercebidos em meio à tantas outras ocupações.

Como que alguém que é Santo, Rei e Senhor pôde se colocar em um lugar tão sujo e horrendo? É um choque. O limpo se fez sujo para que os sujos se tornassem limpos. Deus vem a nós de maneira humilde e confronta nosso jeito de pensar. Ele não está longe lá no céu sem se importar conosco; ao contrário, desceu ao nosso encontro e está juntinho de nós para nos limpar, consolar e dar vida eterna.

Mas o que esta história de mais de dois mil anos atrás tem haver conosco? Nós que hoje acordamos e viemos ao culto? Vêm a notícia: “Não tenham medo; eis que aqui vos trago boa notícia que será de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje nasceu para vocês, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor”. (v. 10-11). Este Deus humilde veio para salvar a nós. É o nosso Salvador. É o mesmo Deus que passou pela cruz e ressurreição. É o Deus que enxergou aqueles estavam invisíveis ao povo; é o Deus que caminho com aqueles que ninguém queria ter por perto; é o Deus que lembrou daqueles que eram esquecidos. O nascimento de Jesus e o anúncio aos pastores nos avisam que como igreja de Jesus, não podemos deixar de fazer como Jesus fazia. Se ele está dentro de nós, em nosso coração, então nossas ações no dia a dia precisam condizer com um coração limpo por Jesus. Como ele, vamos ao encontro do outro em sua necessidade. Para nós, nasceu o Salvador. Isso é natal de verdade.

Lutero diz assim: “Esta pequena palavra “para vocês” deveria encher-nos de alegria. Pois com quem o anjo está falando, com pau ou pedras? Não! Ele fala com pessoas, e não só com uma ou duas, mas com todo o povo. E que vamos fazer diante disso? Vamos continuar duvidando da graça de Deus? (...) Para quem, então, é este tesouro? O Salvador por acaso veio para salvar os gansos, os patos ou as vacas? Se Deus quisesse salvar os animais, então ele teria vindo em forma de animal. Mas ele veio em forma de gente. Quem, então, deve se alegrar com o nascimento desta criança de Belém? Somos nós. Pois os anjos do céu não carecem de um Salvador. E o diabo não deseja a vinda do Salvador. Mas nós sim, precisamos do Salvador. E foi para o nosso bem que Deus se tornou gente. “Nasceu para vocês o Salvador”. Não é maravilhoso que um anjo tenha vindo do céu para nos trazer esta notícia? Vamos, pois, escrever estas duas palavrinhas “para vocês” com letras de fogo dentro do nosso coração. Recebamos o Salvador com grande alegria”1.

Amados, glória a Deus nas maiores alturas e paz na terra entre as pessoas que ele quer bem. Os pastores correram e logo encontraram Maria, José e Jesus. Que consolo para o casal receber uma visita inesperada em um momento tão delicado em que Deus nasceu em um paiol. O nascimento de Jesus e a visita dos pastores prova que Deus não quer a solidão, mas a comunhão dos irmãos e irmãs que creem no Deus deitado na manjedoura.

Maria medita no testemunho dos pastores e os pastores vão mundo a fora espalhar a maravilhosa notícia. Deus fez do nascimento de Jesus um marco de amor e simplicidade sem fim. “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” (Mt 5.8).

Eu desejo que em meio à nossa comemoração, a singela criança nascida em Belém, Jesus, que cresceu, venceu a morte e está vivo, possa reinar em nossos corações. Nós não conseguimos subir até Deus, então ele desceu até nós para ficar juntinho de nós. Ele não veio para os que acham que são alguma coisa. Veio para aqueles que se conhecem e sabem que sem um Salvador, não podem se salvarem sozinhos. Ele não veio para os chiques; veio para os humildes. Vamos olhar para o nosso coração e deixar que Jesus nasça dentro de nós. O Deus que nasceu no paiol em Belém confunde os poderosos deste mundo que querem crescer mais e mais. Deus, porém, se humilhou a nascer pobre e humilde em meio à animais. Onde está o verdadeiro natal? Está onde Jesus pode nos ensinar a prática do amor a Deus e ao próximo.

Termino citando mais uma vez Lutero: “Posso ver, com os meus próprios olhos, o Deus Salvador no colo de sua mãe Maria. Que sabedoria é esta que pretende investigar Deus lá no céu e não é capaz de enxergar o Salvador que está diante dos nossos olhos?”

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém.

Notas e referências

  1. http://luteranos.com.br/conteudo/a-boa-noticia-1.

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