Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Pessoa em oração junto a uma janela.Pregações

Deus ainda conhece a tua voz?

Amados irmãos, amadas irmãs,

nossa espiritualidade está sufocada! Uma agenda cheia sufoca o nosso relacionamento com Deus! A correria do dia a dia com muita facilidade destrói a nossa vida de oração. São tantos compromissos, são tantas atividades, são tantas coisas que o essencial acaba se tornando banal, o fundamental acaba se tornando complementar, o que é principal acaba se tornando secundário. E sem uma vida de oração, não há vida com Deus!

Uma vez fiz uma visita a uma família à noite. Chegou o momento do jantar e me foi pedido que conduzisse uma oração de agradecimento pelo alimento. Fiz a oração. Quando terminei, uma menina de uns 5 anos de idade olhou para os pais e perguntou: “Por que a gente só ora quando o pastor vem aqui em casa?” Você pode imaginar agora a vermelhidão que deu no rosto daqueles pais. Então, o pai simplesmente respondeu: “é verdade filha. Poderíamos orar mais em casa”.

A ausência da oração é um problema espiritual muito comum nas famílias. Contudo, a correria que atrapalha a oração não é um problema moderno. Hoje, claro, corremos bastante de lá para cá. É preciso levar e buscar os filhos na escola; é preciso fazer as compras no supermercado; é preciso ir e voltar do trabalho; é preciso um monte de coisas... E, claro, o celular rouba hoje consideravelmente o nosso tempo. Entretanto, o reformador Martinho Lutero já reclamava da falta de tempo à oração em seu tempo. Lutero escreveu um livrinho para seu amigo Pedro Barbeiro, onde inicia confessando: “Em primeiro lugar: às vezes sinto que, por causa de ocupações e pensamentos alheios, fiquei frio ou perdi a vontade de orar. Pois a carne e o diabo estão constantemente dificultando ou impedindo a oração”1. Aqui encontramos a humanidade de um servo de Deus. Lutero tem a coragem de ser sincero – e confessa sua própria dificuldade!

Também hoje a nossa vida de oração é sufocada por tantas ocupações, preocupações e talvez até pré-preocupações. Deus sempre fica para depois. Falar com Deus sempre fica para outro momento. Relacionamento com Deus fica para quando der tempo – mesmo que o tão afirmado tempo esperado nunca apareça.

Por isso, pergunto a você: Deus ainda conhece o som da sua voz? Embora conheça tudo, Deus escuta você colocar sua gratidão, confissão, louvor e pedidos diante dele? A oração faz parte da sua vida e da sua comunhão familiar?

Orar é mais do que apenas falar com Deus porque Deus usa a oração para nos transformar! Quando não estamos dispostos a deixar Deus agir em nossas vidas, a oração acaba ficando em segundo, terceiro ou quarto plano. Através de um relacionamento íntimo com Deus por meio da oração, Deus vai aos poucos revelando a sua vontade às nossas vidas para que estejamos cada vez mais próximos do seu querer – que muitas vezes confronta as coisas que nós queremos!

Por isso, o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard certa vez observou: “Um homem orava e, no início, pensou que a oração equivalia a falar. Contudo, à medida que foi ficando cada vez mais quieto, percebeu que a oração é ouvir”2. Com o tempo, através da vida de oração, vamos aprendendo a silenciar para que Deus mostre a sua vontade em nossos corações. E talvez, com o tempo, nem perceberemos que pediremos pela vontade de Deus e não a nossa própria.

Uma vida dedicada à oração cria a possibilidade do crescer, florescer e verdejar de uma nova vida em nosso relacionamento com Deus. E, tenha certeza de que os frutos virão! Na História da Igreja, temos o exemplo de Agostinho de Hipona, um dos grandes sábios cristãos que passou pela terra. Agostinho vivia uma vida pervertida e longe de Deus. Sua mãe Mônica, porém, insistia por sua conversão em oração. Um dia, o bispo disse a Mônica que seria impossível perder esse filho de tantas lágrimas3. De fato, após trinta e três anos de oração, Agostinho se converteu ao cristianismo. E Mônica, antes de morrer, viu seu filho seguindo o caminho de Cristo. Isso foi tão importante que mais tarde o pensamento de Agostinho influenciou profundamente um monge alemão chamado Martinho Lutero.

Amados irmãos, amadas irmãs,

como está sua agenda? Como está a sua vida? Como está seu relacionamento com Deus? Como está a sua vida de oração? Como está o seu tempo? Comecemos com a humildade: “Jesus estava orando em certo lugar e, quando terminou, um dos seus discípulos lhe pediu: – Senhor, ensine-nos a orar como também João ensinou os discípulos dele”. (Lucas 11.1-2). Sem saber, aquele discípulo tinha acabado de fazer uma oração. O seu pedido para que Jesus lhes ensinasse a orar já era uma oração, embora ele nem tivesse se dado conta disso. Se não souber como ou o quê orar, ore pedindo isso a Deus.

Trago de maneira prática algumas dicas que o próprio Lutero deu ao seu amigo Pedro Barbeiro para que desenvolvesse uma vida de oração. Antes de tudo, Lutero menciona em seu livrinho algumas vezes que não quer que ninguém siga suas palavras literalmente, mas que possam ser um começo para uma verdadeira vida de oração.

1) Disciplina: “Por isso, é bom que de manhã cedo, se faça da oração a primeira atividade, e de noite, a última”4.

2) Concentração:

Assim, um barbeiro aplicado e competente tem que voltar seu pensamento, sua atenção e seus olhos, com muita precisão, para a navalha e os cabelos, e não se descuidar, não sabendo se está afiando ou cortando. Se, no entanto, quisesse ao mesmo tempo fazer muita conversa ou ficar pensando ou olhando outras coisas, certamente iria cortar fora a boca ou o nariz, e até o pescoço. Desta forma, para ser bem feita, cada coisa exige a pessoa toda, com todos os seus sentidos e membros, como se diz: “Quem pensa em muita coisa não pensa em nada, também não faz nada direito”. Tanto mais a oração precisa ter o coração todo para si, por inteiro e exclusivo para que seja uma oração boa.5

3) Temor:

Uma boa oração não deve ser longa, nem repetida muitas vezes. Deve ser frequente e calorosa. E suficiente quer consigas tratar um ponto ou mesmo só a metade, com que possas acender uma chama em teu coração. Bem, isso nos dará o Espírito Santo e tem que ser dado por ele, e há de continuar a ensiná-lo no coração quando este estiver em sintonia com a palavra de Deus e livre de negócios e ideias estranhas.6

4) Liturgia: Lutero associa a oração sempre à Palavra de Deus. Incentiva seu amigo Pedro Barbeiro a iniciar orando, a cada dia, meditando em uma das petições do Pai-nosso ou até dos 10 Mandamentos a partir da seguinte estrutura: a) orar pelo ensinamento da Palavra de Deus; b) orar fazendo agradecimentos ao Senhor; c) confessar os pecados; d) colocar os próprios pedidos diante de Deus.

Disciplina, concentração, temor ao Senhor e liturgia. Minha oração é que Deus abençoe a sua vida de oração. Comece. Se tiver dificuldades, não desista, mas insista! E que os frutos possam vir no seu próprio tempo. Ore. Deus quer ouvir o som da sua voz. Ele inclina o ouvido para ouvir o seu clamor.

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém.

Notas e referências

  1. LUTERO, Martinho. Uma singela forma de orar, para um bom amigo - 1535. in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas: ética: fundamentos - oração - sexualidade - educação - economia. v. 5. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2011. p. 134.

    ↩
  2. KIERKEGAARD, Søren. Christian Discourses. Oxford: Oxford University Press, 1940. p. 324. apud: FOSTER, Richard. Celebração da Disciplina. 2. ed. São Paulo: Vida, 2007. p. 74.

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  3. Cf. AGOSTINHO, Aurélio. Confissões. Série Patrística. v. 10. São Paulo: Paulus, p. 65. Edição do Kindle.

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  4. LUTERO, 2011. p. 134.

    ↩
  5. LUTERO, 2011. p. 139.

    ↩
  6. LUTERO, 2011. p. 134.

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