Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Voluntário servindo sopa a uma pessoa necessitada.Pregações

Deus Diácono

Na atualidade, está na moda o “Deus poderoso” que pode fazer cair fogo do céu, curar qualquer enfermidade, libertar de qualquer vício, etc. Dizer que Jesus Cristo é o Senhor pode “dar” muito poder a alguns pastores que por aí estão. O Cristo poderoso é também o poder do pastor e da sua igreja. O pastor é considerado o “ungido do Senhor”, uma forma de aumentar seu poder de dominação sobre as pessoas. A própria palavra pastor ou pastora é usada por qualquer um e, por isso, quase se tornou em um nome feio, coisa que dá vergonha. Na época de Lutero chamava-se isto de Teologia da Glória.

Contudo, é possível fazer tais afirmações a partir do texto que acabamos de ouvir? Texto este que antecede a crucificação deste Senhor tão exaltado? O Senhor que dá atenção aos pequenos e marginalizados da sociedade? Quem é, de fato, o Deus em que cremos? Um amuleto para nos dá poder para fazermos grande nosso nome?

Amados do Senhor, o ápice da salvação de Deus não ocorreu em um trono humano, mas em um trono divino chamado cruz. Deus desce e, ao morrer, serve a nós a sua salvação por nós imerecida e humanamente inalcançável. Não só a salvação para a vida eterna. O Deus cristão concede dignidade aos fracos e pequeninos do mundo que precisam do nosso serviço cristão. No momento em que vivemos, está-se perdendo das igrejas a Teologia da Cruz tão bíblica e fundamental para Lutero. A Teologia da Cruz está sendo tirada do discurso e tirar a Teologia da Cruz é tirar a diaconia, o serviço cristão aos pequeninos. Na atualidade, a palavra “poder” está em ênfase. Falta a teologia do Deus que se fez fraco, nasceu em um paiol sujo, fedido e escuro, viveu de modo simples, como um mendigo perambulando pelo mundo anunciando uma mensagem e um amor que ninguém mais tinha anunciado e culminando na morte da cruz para confirmar seu discurso e conceder gratuitamente a salvação aos que nele creem. Fp 2.7-8 afirma que Deus, em Jesus Cristo, esvaziou-se a si mesmo assumindo a forma de servo, obediente até a morte e morte de cruz. Deus nos serve. Mc 10.45 afirma claramente que o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.

O texto lido aponta para o Julgamento Final. A chave para entendermos este texto está na frase quando não fizeres a algum destes pequeninos, foi a mim que não fizestes. Uma leitura rápida do texto poderia dar margem para a salvação por boas obras. Entretanto, o texto deixa claro que se chamamos a Jesus de Senhor e se entendemos como funciona o seu senhorio, i. é, um senhorio ao inverso como Deus diácono, i. é, servidor, logo saberemos que ao crer em Jesus como Messias Servo, como pessoas que já são salvas gratuitamente por Deus, devemos fazer boas obras. As boas obras não salvam, mas quem é salvo faz boas obras. Se chamarmos Jesus Cristo de Senhor, Messias, Salvador, mas não servimos a quem precisa, então temos que rever quem realmente é o nosso “Senhor”. Tal qual Deus nos serve gratuitamente, assim devemos servir uns aos outros. Como foi nosso serviço a Deus por meio do próximo em 2016?

Lutero interpreta o 5º Mandamento à luz da diaconia e isso é algo bem interessante. Vamos lembrar um pouco do Catecismo Menor? O que Lutero diz sobre o 5º Mandamento? “Devemos temer e amar a Deus, de maneira que não causemos dano ou mal algum ao nosso próximo em sua vida, porém lhe ajudemos e o favoreçamos em todas as necessidades da vida.” Quem teme e ama a Deus serve ao próximo com alegria. Também no Catecismo Maior Lutero fala do serviço cristão: “Em segundo lugar, transgride também este preceito não só quem pratica ações más, mas, também aquele que, podendo fazer o bem ao próximo e guarda-lo, protege-lo, salvá-lo, de modo que nenhum mal ou dano lhe suceda no corpo, todavia não o faz. Assim, se despedes uma pessoa desnuda quando poderias vesti-la, deixaste-a sucumbir ao frio; se vês alguém que sofre fome e não o alimentas, estás permitindo que morra de fome. Da mesma forma, se vês alguém condenado à morte ou em apertura similar e não o salvas, posto conheças meios e maneiras de fazê-lo, então o mataste. E coisa nenhuma te valerá alegar incumplicidade só porque não entraste com ajuda, conselho e atos, pois lhe negaste a caridade e o despojaste do benefício que lhe teria salvo a vida.” Lutero continua: “É com justiça, portanto, que Deus chama de assassinos a todos os que em apertura e perigos de corpo e vida não aconselham nem auxiliam, E mui terrível sentença há de proferir contra eles no dia do juízo, conforme o próprio Cristo anuncia. Dirá: “Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso não fostes ver-me”. (...) Que outra coisa seria eu, mesmo aos olhos de todo o mundo, senão assassino e patife?”.

Logo, omitir ajuda também é “matar” na compreensão de Lutero. Ao não fazermos o bem a quem precisa, seria como se estivéssemos negando ajuda ao próprio Cristo. Jesus, ao contrário, acolheu os famintos (Mc 6.34-36; 8.1-10) e se serve a si mesmo a nós na Santa Ceia (Mc 14.12-16, 22-26). Não foram poucas às vezes em que Jesus foi hospedado por pessoas, pois era um andarilho e não tinha onde pousar a cabeça senão na casa de quem lhe convidava:

• Sogra de Pedro (Mc 1.31);

• Levi (Mc 2.15);

• Fariseus (Lc 7.36-50, 14.1ss);

• Marta e Maria (Lc 10.38-42, Jo 12.1-8);

• Zaqueu (Lc 19.1-10);

• Simão, o leproso (Mc 14.3-9);

• Bodas de Caná (Jo 2.1ss);

• Samaritanos (Jo 4.40);

• Discípulos de Emaús (Lc 24.29-32).

Ao mesmo tempo, Jesus nos ensina o que devemos fazer após fazermos algo de bom a alguém que está em necessidade:

• Não esperar retorno Lc 14.12-14 = banquete para quem não podia retribuir;

• Critério para o julgamento final (Mt 25.34-36, 41-43);

• Identificação com os necessitados (Mt 25; Mc 9.37;

• Jesus = servo Maior = servo (Lc 22.27);

• Os excluídos da sociedade terão lugar à mesa de Jesus;

Fragilidade humana não é somente a falta de pão, comida, bebida, lar, etc. Ajudar a quem precisa não envolve somente os pobres ou enfermos. Há muitas pessoas que estão financeiramente bem na vida, mas carecem de um amor, de um abraço, um carinho, da comunhão, enfim, de todo tipo de capital simbólico como a fé, a esperança, de Deus, etc. Todo tipo de pessoa precisa ser alcançado pelo serviço cristão, pobres e ricos e, assim, cada um poderá responder ao serviço recebido também servindo a Deus por meio do próximo.

Portanto, cabe-nos olhar para a nossa sociedade e verificarmos onde podemos colocar nossas mãos à obra. Como certa vez afirmou o professor Dr. Werner Wiese da faculdade em que estudei: “A salvação é exclusivamente por graça e fé; o Julgamento será pelas obras.” O texto que ouvimos anteriormente deixa isso muito claro. Ao não fazermos o bem, negamos o próprio Cristo. Como pessoas que já são salvas para a eternidade, é nosso dever proclamar salvação ao mundo presente com suas dores e pesares.

Importar-se com o outro é necessário. Importar significa trazer para dentro. Quando nos importamos com alguém que sofre, isso é como se tivéssemos nos colocado no lugar do outro, sentindo na nossa pele aquilo que ele está sentindo. Deus fez isso em Jesus Cristo, pois na cruz ele sentiu nosso pecado, nossa miséria, nossa fraqueza e nossa tragédia. Como Deus-homem, conhece cada um dos nossos sofrimentos e não está longe de nós. As tuas dores são sentidas na cruz de Cristo. Ao mesmo tempo, como cristãos, como Igreja, i. é, Corpo de Cristo, somos chamados a encarnar neste mundo doído e a fazer diferença se importando com as dores pessoais e com todo tipo de necessidade. Precisamos ter um olhar atento e amoroso para com o que acontece ao nosso redor sem querermos receber algo em troca. Deus não cobrou nada pela nossa salvação, mas pagou por ela com o seu Filho Jesus Cristo na cruz. Como crentes nesse Deus, proclamemos o Evangelho e ajamos como verdadeiros cristãos atuantes no cuidado. Assim poderemos levar pão a quem tem fome, água a quem tem sede, lugar a quem não tem teto, roupa a quem não a tem, alívio a quem está doente, companhia ao solitário, etc. Deus veio ao nosso encontro do céu à terra. Vamos nós ao encontro das pessoas que sofrem no mundo presente. Contudo, ao levar pão, água, hospedagem, roupa, alívio companhia, etc., não esqueçamos de que o próprio Jesus Cristo diz: “Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6.35). E diz também: “Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida” (Ap 22.17). Ao proclamarmos o amor de Deus, não podemos esquecer-nos de anunciar o autor do amor: Deus que perdoa pecados e concede gratuitamente a salvação aos batizados que nele creem e o reconhecem como único e suficiente Senhor e Salvador, sabendo que esse senhorio não é como os poderosos do mundo presente, mas o Senhor que se humilha para servir. Ter Jesus Cristo como Senhor da nossa vida implica em uma vida de serviço a Deus por meio do próximo.

Um outro modo de servir é fazendo o trabalho bem feito. Para nós, luteranos, todo trabalho é sagrado e não só o pastor ou pastora. Todo trabalho é uma maneira de servir a Deus por meio do próximo cumprindo bem o dever da nossa vocação. Deus chamou pessoas para serem agricultores, pedreiros, empresários, pastores, padres, professores, diretores, atendentes, padeiros, etc. Com a marca do Deus que serve, somos cordialmente convidados por Deus a colocarmos nossas mãos a obra, não, em primeiro lugar, para o enriquecimento; ao contrário, para servir e se colocar à disposição de quem precisa; o conforto e bem estar serão consequências do serviço bem feito.

Talvez 2016 não foi um ano muito feliz. Quem sabe perdemos alguém, quem sabe passamos por dificuldades e privações, quem sabe seja um ano que, como diz a mídia, deverá ser esquecido. Em 2017 temos uma nova chance de sermos felizes mesmo quando as circunstâncias lutam contra nós. Uma destas maneiras é o serviço cristão. Que possamos ser uma igreja presente, acolhedora, que socorre quem precisa. O resultado não é o nosso reconhecimento, mas o louvor a Deus por servir a nós e nos dar esta preciosa lição de amor.

O Deus que se fez fraco confunde os poderes deste mundo. “Os homens querem ser reis, os reis querem ser deus; Deus se fez homem.” Ser cristão significa fazer o contrário do que nossa natureza pecaminosa quer: queremos ser deus, mas Deus se fez homem. Com esse exemplo sigamos adiante cumprindo bem a missão que Deus nos deu. Ele nos salvou de graça, que com graça e amor possamos ir ao encontro das pessoas que tanto anseiam da nossa diaconia, do nosso serviço. Todos somos cristãos, não só a pastora e o ministro candidato. Não tenho pedido a Deus que conceda somente alegria e felicidade em 2017. Ao contrário, peçamos que ele nos conceda oportunidades de agirmos de verdade a favor de quem precisa. Essa proposta é mais realista. Que Deus nos mostre onde podemos colocar mãos à obra e nos conceda uma vontade incontrolável de ajudar as pessoas em todo tipo de necessidade: material ou simbólica.

2017 é um ano importante para nós como Igreja Luterana. Faltam 303 dias para os 500 anos da Reforma e nós ouvimos a opinião de Lutero a respeito do serviço. Como cristãos luteranos, nos engajemos pela transformação da sociedade conforme for possível.

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o teu coração e a tua mente em Cristo Jesus, amém.