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Bíblia e folhas de estudo junto a uma cruz de madeira.Teologia Sistemática

Deus e a gramática

Diz uma lenda que Agostinho de Hipona – um importante cristão e Pai da Igreja que viveu nos séculos IV e V – caminhava à beira-mar na praia do Mar Tirreno na Itália, quando encontrou uma criança que, insistentemente, com uma concha, procurava transportar a água do mar para um buraco que havia aberto na praia. Naqueles dias, Agostinho estava estudando a Santíssima Trindade. Ao se aproximar de menino, foi surpreendido pela criança que lhe disse: “Seria mais fácil colocar o mar inteiro dentro deste buraco na areia da praia do que para ti explicar o mínimo que seja sobre os mistérios da Trindade.”1

Ao falarmos sobre o Deus-Trindade, nos encontramos diante de um grande mistério. Os cristãos não creem em três deuses; da mesma forma, não creem nas Pessoas da Trindade de maneira isolada. O Deus cristão é o Deus uno em três Pessoas. Não se trata, portanto, de três manifestações diferentes ou três versões distintas de Deus2, mas o Deus que é sempre e ao mesmo tempo ele mesmo: a Trindade. E explicar esse mistério pode ser até mais difícil que colocar o mar inteiro dentro de um balde.

Entretanto, Deus decidiu se revelar. Ele quis falar de si mesmo em linguagem humana. A linguagem é importante, pois é a linguagem que cria as mediações entre os sujeitos e os demais tempos. Só temos acesso ao passado histórico e ao futuro esperançado através da linguagem. Tal comunicação só pode ser dada através de símbolos comunicativos, ou seja, da linguagem. Deus literalmente entrou para dentro do mundo e da história na encarnação do Filho, a segunda Pessoa da Trindade. O Deus cristão não é “antimundo” ou “ahistórico”, mas “conosco” e “histórico”.

Como Deus se revelou e se comunicou conosco através da linguagem, certamente que a gramática possui um papel fundamental nesse processo, embora a própria linguagem e a própria gramática em si não deem conta de Deus tal qual o balde não dá conta do mar. Assim diz Euler Renato Westphal (1957- ), teólogo luterano brasileiro:

As palavras técnicas, os conceitos sobre a Trindade, fixam um determinado conteúdo. Mas essas palavras-chave não exaurem a profundidade do mistério da Trindade, pois Deus transcende a linguagem humana. Assim mesmo, os conceitos nos fazem entender a tradição e a linguagem da nossa fé.3

Assim, embora a linguagem não esgote a realidade divina, é a linguagem e os símbolos (metáforas) comunicados pela linguagem que possibilitam compreender os significados dos conteúdos da fé. Contudo, é teológico o pressuposto de que “toda tentativa de falar do Deus-Trindade está sob o signo da precariedade da linguagem humana”4.

Colocados esses pressupostos fundamentais, convido a olharmos para a Trindade a partir da gramática que foi revelada pelo próprio Novo Testamento.

Jesus, O Verbo de Deus

Em seu primeiro capítulo, o apóstolo João, já bastante idoso, nos diz algo impressionante em seu testemunho sobre a Pessoa do Filho – Jesus Cristo, a segunda Pessoa da Trindade: “No princípio era o Verbo”. (João 1.14). No grego original: “Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος” (Em archē ēn ho Logos). Logos é um termo importante na filosofia de Heráclito de Éfeso. Contudo, não irei aprofundar a questão nesse texto. Para saber mais, acesse um texto já escrito sobre esse assunto:

Leia também: Unigênito

Em português, a palavra Logos foi traduzida por João Ferreira de Almeida como Verbo. Além de se associar ao Logos de Heráclito, o termo também está bilateralmente associado ao termo hebraico דָּבַר (dabar) que significa “dizer, falar”5. Portanto, o que significa na “teologia da gramática” a afirmação joanina de que Jesus é o λόγος / דָּבַר?

A resposta pode ser encontrada na missão do Filho. Leia com atenção essas palavras escritas pelo teólogo católico italiano Romano Guardini (1885-1968) que foi professor de Joseph Ratzinger, o Papa Emérito Bento XVI. Assim Guardini diz especificamente sobre João 20.21:

Aqui aparece claramente uma sucessão de envios. Jesus está consciente de ter sido enviado pelo Pai, que habita “em uma luz inacessível” (1Tm 6,16). O Pai está longe; ninguém jamais teve acesso a ele; somente o Filho traz notícias dele. O Pai não nos fala diretamente. Seu Filho, o seu Verbo vivo, é quem o revela.6

Quão profundas são essas palavras! Enquanto o Pai é o mistério abissal, o Filho revela o Pai. Por isso o Filho é o Verbo enviado pelo Pai. A primeira Pessoa da Trindade – o Pai – se comunica com o ser humano e em linguagem humana através da segunda Pessoa da Trindade – o Filho – que é o Verbo divino. Guardini diz: “O Pai permanece inacessível, escondido em si mesmo; a revelação de seu ser é o seu Filho”7. O Filho (Jesus) é o Verbo ( λόγος / דָּבַר) por meio do qual Deus fala com o ser humano. Na “gramática de Deus”, o seu amor é comunicado através do Filho unigênito Jesus Cristo: tanto em sua vida quanto em sua morte e ressurreição.

Mas João ousa muito mais. Sabemos que um verbo significa uma ação. Na “teologia da gramática”, o que Deus diz nunca está separado de alguma ação concreta. Quando deus diz, acontece! Assim aconteceu desde o início. Olhemos para o primeiro capítulo de Gênesis – no hebraico:

ויאמר אלהים יהי אור ויהי- אור

(Vayomer Elohym yëhy or vayëhy-or)

Tradução: “E disse Deus: Haja Luz. E houve luz”. (Gênesis 1.3).

Este é um exemplo de ação concreta: Deus falou e algo aconteceu! A fala de Deus sempre é sucedida por alguma ação. A dura realidade das trevas não pôde permanecer onde estava quando Deus disse que deveria haver a luz. Bastou Deus dizer e a luz apareceu, escanteando o poder das trevas.

Qual é, então, a relação entre a palavra dita por Deus e a ação que sucede sua pronúncia? Qual é a ligação disso com Jesus? Olhemos outra vez para João:

πάντα δι’ αὐτοῦ ἐγένετο, καὶ χωρὶς αὐτοῦ ἐγένετο οὐδὲ ἕν. ὃ γέγονεν.

(panta di’ autou egeneto, kai chōris autou egeneto oude hen ho gegonen.)

Tradução: “Todas as coisas por meio dele foram feitas, e sem ele não seria feito, nem uma só coisa.” (João 1.3).

João nos afirma que Jesus é o Verbo pelo qual o Pai criou todas as coisas. Jesus não passou a existir apenas no Novo Testamento. Ao contrário, João nos informa que Jesus sempre existiu juntamente com o Pai. E ainda mais: tudo o que o Pai criou foi feito por meio do Filho. Por isso o Filho (Jesus) é o Verbo. O Pai diz e as ações se dão por meio do Filho. Logo, bastou o Pai dizer “Haja luz” que prontamente, através do Verbo – Jesus – “houve luz”. Por meio de Jesus – o Verbo divino – a Palavra dita pelo Pai se torna ação.

Isso revela algo muito importante. A Palavra de Deus – que é a própria Pessoa de Jesus – não se revela de maneira abstrata. Não é uma ideia ou um conjunto de ideias. Ao contrário, a Palavra de Deus se manifesta de maneira concreta e real: aquilo que Deus diz, acontece, pois foi Deus quem o disse. E em Jesus, um verbo ganha destaque especial: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, com todas as suas forças e todo o seu entendimento.” E: “Ame o seu próximo como você ama a si mesmo”. (Lucas 10.17). Ame, no grego original, é ἀγαπήσεις (Agapēseis). O amor revelado pelo Verbo divino Jesus Cristo não é apenas uma ideia, um mero sentimento ou algo distante e platônico (como era para os gregos). Em Jesus, Deus comunica ao mundo um amor que é prático. É ação! De fato, o Verbo de Deus revelou a nós o verbo amar! E um amar incondicional e irrestritamente!

Como Verbo de Deus, Jesus comunica a nós o amor de seu Pai. Guardini diz:

O Pai permanece inacessível, escondido em si mesmo; a revelação de seu ser é o seu Filho. “Quem me vê, vê o Pai” (João 14,9). Toda tentativa de chegar diretamente ao Pai não consegue obter senão uma noção abstrata da divindade. Ao verdadeiro Pai, ao mistério último, somente se chega por meio do Filho. Jesus foi enviado precisamente para isso, para dá-lo a conhecer.8

Em Jesus, o rosto de Deus não se comunica ao ser humano de uma maneira amedrontadora, rancorosa ou abstrata; ao contrário, Jesus como Verbo revelou o rosto amoroso e misericordioso de Deus. Assim, Deus não é amado por medo, mas por espontaneidade, gratidão e alegria. E esse amor-ação leva a pessoa que crê a colocar o amor em prática no dia a dia, amando ao próximo como a si mesmo. Amor ao próximo se torna verbo/ação de aceitação, humildade e diaconia/solidariedade. Deus não é servido diretamente, mas somente por meio do próximo.

No amor aos pobres, marginalizados e vulneráveis da sociedade é que o Verbo de Deus Jesus Cristo se faz presente. As palavras de Jesus sobre “o grande julgamento” elucidam isso:

“Venham, benditos de meu Pai! Venham herdar o Reino que está preparado para vocês desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; eu era forasteiro, e vocês me hospedaram; eu estava nu, e vocês me vestiram; enfermo, e me visitaram; preso, e foram me ver.” (...) “Em verdade lhes digo que, sempre que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizeram”. (Mateus 25.34-36, 40).

Erli Mansk e Rodolfo Gaede Neto traduziram bem estas palavras na linda canção chamada Diaconia:

Do pequeno ser amigo

ao faminto dar o pão;

com o nu buscar abrigo,

com o doente comunhão.

Acolher o forasteiro.

ao sedento saciar;

libertar o prisioneiro

e os mortos sepultar.9

Na gramática de Deus, amar é Verbo. Não é teoria; não é mero discurso; não é promessa; não é palavra vazia; não é sentimento; não é mera declaração ou marketing. Ao contrário, é ação; é entrega; é compromisso; é sacrifício; é algo concreto. É tão essencial que na verdade tudo seria inútil sem esse amor, inclusive um diverso conhecimento linguístico. Pelo menos essa é a opinião do apóstolo Paulo que diz:

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine”. (1 Coríntios 13.1).

Sem amor-ação, palavras bem ou mal-ditas são apenas barulhos a soarem in-comodamente pelo tempo e espaço. Amor sem ação é como um corpo sem vida; amor sem ação é como uma forma sem conteúdo; amor sem ação é teoria sem prática. Assim já dizia o teólogo luterano Brasileiro Gottfried Brakemeier (1937 - ):

Mil prédicas sobre o amor de Deus não podem substituir o gesto de amor humano que o faz palpável. Teoria sem prática não convence. Ela fica sem efeitos.10

Amor-palavra sem amor-ação (amor-substantivo sem amor-verbo) é discursinho barato, é palavra vazia, é mera moralina e mera propaganda narcísica pessoal. Mais que falar do amor, o Deus-Trindade mostrou que é preciso agir em amor. Cumprindo a missão do Pai, Jesus levou essa ação até às últimas consequências: passou pela morte e morte de cruz, pois o amor pressupõe sacrifício: a abrir mão de vontades e desejos pessoais pelo bem do/a outro/a – alteridade. O filósofo inglês Roger Scruton (1944-2020) descreve esse sacrifício amoroso com belas e poéticas palavras no seu romance As memórias de Underground:

Deus, disse ele, só poderia estar presente entre nós se primeiro se despojasse de poder. Entrar nesse mundo investido do poder que o criou seria ameaçar todos nós de destruição. Por isso, Deus entra em segredo. Ele é o verdadeiro impotente, cujo papel é sofrer e perdoar. Esse é o sentido do sacrifício, em que o corpo e o sangue do Redentor são compartilhados entre seus assassinos.11

O próprio e polêmico Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) descreve o amor-prático de Jesus com certa maestria. Ele descreve Jesus como um

“bom mensageiro” que “morreu tal como viveu, como ensinou – não para “redimir os homens”, mas para mostrar como se deve viver.”12 Conforme Nietzsche, “A prática foi o que ele deixou para a humanidade. Sua atitude diante dos juízes, diante dos esbirros, diante dos acusadores e de todo tipo de calúnia e escárnio – sua atitude na cruz. Ele não resiste, não defende seu direito.”13

O que Jesus – enquanto Verbo divino que comunica ao mundo o amor-ação do Pai – deixou para a humanidade foi o amor prático. A gramática de Deus é inclusiva, acolhedora e prestativa. Na gramática de Deus, o amor nunca é preconceituoso, intolerante, violento, armado ou imperativo, mas invocativo/convidativo – e na voz ativa. E Jesus não apenas falou/testemunhou/pregou desse amor; ao contrário, ele deu o exemplo: aceitou o sacrifício que pôde tornar toda a humanidade bem-aventurada/feliz ao compreender que a felicidade não está em ter, mas em praticar a paz, a justiça, a igualdade/equidade, enfim, o amor.

Porém, o Deus-Trindade é três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Ainda não falamos do Espírito Santo que traz uma gramática pronominal muito interessante para a hermenêutica trinitária.

O Espírito Santo, a terceira Pessoa no plural

Assim diz Euler Westphal, a quem recorro novamente:

O Espírito supera a relação Eu-Tu de Pai e Filho, introduzindo o Nós.14

Antes das questões gramaticais, quem é o Espírito Santo? “Todas as Pessoas da Trindade são Espírito, mas a terceira Pessoa é Espírito por excelência”15. É o Consolador que já pairava sobre as águas no dia da Criação de todas as coisas (cf. Gênesis 1.1-2). É o Espírito Santo que desceu sobre a Igreja em Jerusalém no dia de Pentecostes (cf. Atos 2) para ser a presença do Verbo divino no mundo e atualizar a sua mensagem para todos os tempos e eras. Sem a presença do Espírito Santo, não compreenderíamos a mensagem de Jesus e a Igreja – Corpo de Cristo na terra – não teria impulso para continuar levando a mensagem do amor. O Espírito Santo é aquele que “sopra aonde quer” (João 3.8).

Na gramática trinitária, o Espírito Santo tem uma função pronominal:

“Espírito é a união entre as Pessoas da Trindade, ele também é a força de união entre os seres e produz a comunhão entre as diversidades, para que estas não se transformem em desigualdades e discriminações”16.

É o mesmo Espírito Santo que faz o ser humano superar tanto o eu e o tu para que em alteridade possam ser um nós. Com união as forças se somam e se multiplicam. Surge a comunidade. O individualismo, a cobiça e o egoísmo são superados, mas a individualidade não é aniquilada. Cada indivíduo com sua identidade se torna diversamente importante no todo comunitário. O Espírito gera a unidade na diversidade e não uma uniformidade, preservando as identidades únicas daqueles que se unem em comunidade. Assim eram as primeiras comunidades cristãs conforme o médico Lucas nos descreve no livro de Atos dos Apóstolos:

“Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente, perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contanto com a simpatia de todo o povo”. (Atos 2.44-46).

Onde está o Espírito Santo de Deus, ali haverá a alegria de viver em comunidade e onde a diversidade de dons poderá ser colocada a serviço do amor, servindo a Deus por meio do próximo. É por meio da função pronominal do Espírito Santo na comunidade que o amor Verbal de Deus pode se tornar palpável, concreto e real. Lutero diz:

Aqui, por conseguinte, não há qualquer ira, ameaça ou terror para os cristãos; existe somente um sorriso cordial e um doce consolo no céu e na terra17.

No lugar do medo, da angústia e do desespero diante dos sofrimentos no mundo e dos gemidos da Criação, o Espírito Santo cria no ser humano em comunidade a possibilidade do sorriso, do consolo, da esperança e da transformação de realidades.

O Espírito Santo não é a “terceira versão de Deus”, mas a terceira Pessoa da Trindade, ou seja, é Deus como o Pai e como o Filho, mas com uma obra diferente da do Pai e da do Filho. Enquanto o Pai é o Criador e o Filho é o Salvador, o Espírito Santo é o nosso Consolador. O Espírito Santo não é menos Deus que o Pai e o Filho, mas Deus tal qual o Pai e o Filho; o Espírito Santo é procedente do Pai e do Filho18. O Espírito Santo faz a Trindade ser a melhor comunidade onde não há hierarquia, mas um círculo de amor – unidade na diversidade. Além disso, o Espírito Santo pensa (cf. Atos 15.28), fala (cf. Atos 1.16), guia (cf. Romanos 8.14) e pode ser entristecido (cf. Efésios 4.30). É o Espírito Santo quem nos revela quem é Cristo, o Verbo divino. Só pelo Espírito Santo alguém pode ter o dom de crer em Deus.

Conclusão

A gramática trinitária revela uma concepção de Deus completamente distinta e única. O Verbo divino encarnado em Jesus, morto na cruz e ressurreto, bem como o Espírito Santo em sua função pronominal não podem ser invenções da mente humana – creio eu. Quando o ser humano cria deuses, mitos ou heróis, os imagina todo-poderosos, cheios de habilidades e poucas fragilidades. Geralmente esses deuses, mitos ou heróis pertencem a uma grande hierarquia e travam eternas guerras com outras divindades ou seres celestiais ou humanos.

Já a linguagem do Evangelho mostra Deus exatamente ao contrário: na fraqueza, no sofrimento, na vulnerabilidade, na dor e no sacrifício. E onde houver pessoas fracas, sofredoras, vulneráveis, doloridas e sendo sacrificadas/crucificadas, é nestes pequeninos irmãos que Jesus é encontrado.

A tarefa da Igreja é continuar proclamando essa mensagem do amor Verbal ativo e do nós-comunidade, mesmo que o mundo se encha cada vez mais de ódio, individualismo e egoísmo. Essa foi a missão dos primeiros discípulos e tem sido a missão da Igreja nos últimos dois mil anos – embora muitas vezes a própria Igreja tenha abandonado a sua missão ao ser seduzida pela cobiça ao poder. Sim! Em sua história, também a Igreja tem pecados a confessar. Mas continuemos perseverantes e esperançosos.

Para encerrar, trago essas belas palavras de Romano Guardini. Se puder, leia-as calmamente e mais de uma vez:

O Espírito Santo é a interioridade viva de Deus; é ele que “sonda as profundezas de Deus” (1 Co 2,10), a medida e a posse do seu amor. Pelo Espírito Santo vive no Pai a sua Palavra eterna e essencial, o Logos... Por isso, também no Espírito se realiza a missão do Filho, porque Maria concebeu por obra do Espírito Santo (Mt 1,18). Através do Espírito, o Filho entra na história humana, como o seu conteúdo mais autêntico. Pelo Espírito Santo, em Pentecostes, Cristo vive nos apóstolos, para que o compreendam e para que possam proclamar, no Espírito, a sua palavra (At 2,1-41)... E pelo Espírito, os ouvintes compreendem essa palavra, pois, sem ele, ela não atinge senão os ouvidos ou a razão. É preciso captar a Palavra em uma santa interioridade, pois ela mesma procede da interioridade de Deus; mas é o Espírito quem cria essa interioridade.19

Notas

  1. Cf. AGOSTINHO, Aurélio. A Trindade. Coleção Patrística. Vol. 7. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1994. p. 469, nota de rodapé nº 10.

    ↩
  2. Não se trata de uma revelação progressiva hegeliana onde o Pai seria a Tese, o Filho a Antítese e o Espírito Santo a Síntese.

    ↩
  3. WESTPHAL, Euler Renato. O Deus cristão: um estudo sobre a teologia trinitária de Leonardo Boff. Série Teses e Dissertações. São Leopoldo: Sinodal, 2003. p. 175.

    ↩
  4. WESTPHAL, 2003. p. 178.

    ↩
  5. SCHÖKEL, Luis Alonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. São Paulo: Paulus: 1997. p. 147.

    ↩
  6. GUARDINI, Romano. O Senhor: reflexões sobre a pessoa e a vida de Jesus Cristo. São Paulo: Cultor de Livros, 2021. p. 174.

    ↩
  7. GUARDINI, 2021. p. 175.

    ↩
  8. GUARDINI, 2021. p. 175.

    ↩
  9. GAEDE NETO, Rodolfo; MANSK, Erli. “Diaconia”. in: SILVA STEURNAGEL, Marcell; HEINRICH EBERLE, Soraya; EWALD, Werner (Orgs.). Livro de Canto da IECLB. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, 2017. hino nº 565.

    ↩
  10. BRAKEMEIER, Gottfried. O Ministério Compartilhado: Origem, História e Teologia. Nova Petrópolis, fevereiro de 2013. In: < https://www.luteranos.com.br/conteudo/o-ministerio-compartilhado-origem-historia-e-teologia >. Acesso em: 10. dez. 2021.

    ↩
  11. SCRUTON, Roger. As memórias de Underground. São Paulo: É Realizações, 2019. p. 120.

    ↩
  12. NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Anticristo – 1888. In: NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Obras escolhidas. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 399.

    ↩
  13. NIETZSCHE, 2013. p. 399.

    ↩
  14. WESTPHAL, 2003. p. 108.

    ↩
  15. WESTPHAL, 2003. p. 108.

    ↩
  16. WESTPHAL, 2003. p. 109.

    ↩
  17. LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero. in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas: Interpretação do Novo Testamento - João 14-16 - 1 João. v. 11. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Canoas: Ulbra, 2010. p. 147.

    ↩
  18. Credo Niceno-Constantinopolitano (325-381).

    ↩
  19. GUARDINI, 2021. p. 176.

    ↩