PregaçõesDeus não muda – ainda bem!
Amados irmãos, amadas irmãs,
você realmente ama a Igreja de Cristo? Qual é o valor da Missão de Deus para você? O que significa ser Igreja pra você? Talvez as respostas a estas perguntas sejam positivas: amamos, valorizamos e vivemos em comunhão. Mas então faço outra pergunta: se você ama, valoriza e comunga na Igreja, qual tem sido a sua contribuição financeira à Igreja de Jesus? Estamos dispostos a uma conversão que integre todas as áreas da nossa vida, inclusive o bolso? Ou manter a aparência espiritual já é o suficiente?
O povo de Deus vivia um tempo de grandes reformas. Ciro, o Rei da Pérsia, havia permitido que os judeus voltassem à Jerusalém em 538 a. C. após os 70 anos no Exílio Babilônico. Era um tempo de reconstrução. Jerusalém havia sido devastada pelos Babilônios 70 anos antes: não sobrou nada e o próprio Templo de Salomão se tornou em ruínas. O livro das Lamentações de Jeremias descreve bem a desgraça que havia sido a invasão babilônica. Agora, tudo isso havia ficado para trás e chegou o tempo de reunir o povo e recomeçar na sua própria terra – aquela que Deus havia prometido à descendência de Abraão.
É nesse contexto que vive e profetiza Malachi (o mensageiro, em hebraico). A tradição judaica atribui a autoria do livro a Esdras; São Jerônimo é considerado o responsável por incorporar essa tradição à Igreja Cristã1. O reformador alemão Martinho Lutero menciona Esdras como autor do livro, mas destaca que não podemos saber nada sobre esse profeta além do fato de que viveu muito antes do nascimento de Cristo2. Sendo Esdras ou não, fato é que o profeta em questão viveu em um tempo de reformas, reconstrução, mas também onde, em grande medida, o povo de Deus permanecia teimoso diante do Senhor.
A grande verdade é que o povo continuava infiel ao Senhor. A denúncia do Mensageiro no texto que ouvimos possui exatamente esse caráter: de nada adiantaria reconstruir o Templo e a cidade de Jerusalém se o povo continuasse infiel à Aliança do Senhor. Não adiantava realizar a reforma do culto e manter a desonestidade diante de Deus. Malaquias denuncia que, mais que uma reforma da cidade e da religião, o povo de Deus precisava de uma reforma do coração. A estética religiosa não era mais importante, mas sim a ética (ethos) – o comportamento precisava mudar! A grande verdade é que esse povo chamado Israel continuava fraudulento e astuto como era Jacó. A verdade é que Israel jamais deixou de ser Jacó, aquele que fraudou o seu irmão Esaú – e que agora quer fraudar o próprio Deus!
Os dízimos e as ofertas eram guardados como mantimentos no templo (cf. Malaquias 3.10) e destinados à reconstrução e manutenção do segundo Templo. Contudo, a sonegação dos dízimos e das ofertas não buscava apenas enganar os administradores do Templo, mas o próprio Deus. E mesmo que nas tradições o povo fosse muito piedoso, a sonegação dos dízimos e das ofertas sinalizava que, no coração, o povo continuava distante de Deus.
A reforma no coração precisava ser completa. Vejamos com muita clareza como o Mensageiro é usado por Deus para denunciar a infidelidade do povo e anunciar a fidelidade de Deus, o Senhor:
1 DEUS DENUNCIA A INFIDELIDADE (v. 5)
Deus chama o seu povo para o juízo, pois parece que eles não aprenderam nada com o exílio na Babilônia. Seus pais foram enviados para aquela terra estrangeira por causa da sua infidelidade – e, aparentemente, os filhos nada aprenderam com a tragédia dos pais. Ao contrário, entregaram-se novamente a tudo aquilo que é ab0minável ao Senhor (cf. Deuteronômio 18.9-14). A cidade está tomada pela injustiça: “serei testemunha veloz contra os feiticeiros, e contra os adúlteros, e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o salário do jornaleiro, e oprimem a viúva, e o órfão, e torcem o direito do estrangeiro, e não me temem, diz o Senhor dos Exércitos” (Malaquias 3.5).
O povo pratica aquilo que é mau aos olhos de Deus. Normalizam a injustiça diante do deus da justiça. Praticam o mal como se Deus não estivesse vendo. Não há temor ao Senhor.
2 DEUS DENUNCIA O ASSALTO (v. 8-9)
Deus diz ao seu povo que está sendo roubado! Esta é uma acusação forte! Deus tudo vê e sabe como procede o ser humano. O Senhor olha para a terra e vê que a desonestidade muitas vezes pode estar vestida com as roupas da falsa religiosidade. O povo tem aparência de fidelidade, mas é infiel nas suas contribuições financeiras. No mundo caído pelo pecado, ao Reino de Deus são dadas as “sobras” – não apenas de dinheiro, mas também de tempo e de disposição. Acreditamos que cumprir o rito religioso é suficiente, quando, na verdade, a fidelidade ao Senhor precisa integrar toda a nossa vida – também o bolso!
O Senhor concedeu muitas bênçãos ao seu povo ao retirá-los da Babilônia. Contudo, a ingratidão demonstra que o povo de Deus não consegue ter uma leitura espiritual da realidade. Talvez, para muitos deles a libertação da Babilônia tenha sido apenas um grande acontecimento político; jamais teológico. E é aqui que reside o erro: esvaziar a realidade da vida da sua sacralidade! “Tirar Deus da jogada”. Interpretar tudo com os olhos da imanência somente. Eis o grande perigo! Esse é o veneno que mata as Comunidades de Fé – quando os céus são esvaziados e tudo o que sobra é antropologia! Malaquias denunciou isto como mensageiro de Deus.
3 DEUS PERMANECE FIEL E NOS CHAMA DE VOLTA (v. 6-7)
Apesar da má-notícia da desonestidade do povo até mesmo diante de Deus, a boa-notícia é que o Senhor não muda! O seu amor permanece apesar das falhas humanas! Não é Deus quem precisa mudar. O Senhor não precisa ser reformado, reformulado, recaracterizado; a Palavra de Deus não precisa ser reformada, reformulada ou atualizada! O Senhor permanece o mesmo. O Senhor não muda – ainda bem!
A Palavra de Deus chama o ser humano à mudança: “Desde os dias de vossos pais, vos desviastes dos meus estatutos e não os guardastes; tornai-vos para mim, e eu me tornarei para vós outros, diz o Senhor dos Exércitos” (Malaquias 3.7). No hebraico do Antigo Testamento, tornai-vos para mim é שׁוּבוּ אֵלַי (šūvū ʾēlay) que designa a palavra arrependimento e conversão. Não é um mero sentimento de culpa, mas uma mudança radical e prática de direção na vida, significando literalmente dar meia volta. Portanto, o que Deus está pedindo é arrependimento e conversão do comportamento do povo de Deus. Eles devem parar de praticar a injustiça; eles devem parar de roubar o Senhor; eles devem parar de oprimir seu próximo. E a grande notícia do texto bíblico é que, se o povo se converter ao Senhor, também o Senhor se converterá ao seu povo. Deus desistirá do juízo, mudará de ideia e concederá sua graça. O povo virou às costas para o Senhor; mas se virarem e estarem novamente diante do Senhor, Deus também olhará por seu povo.
É isso que Deus faz conosco hoje! Deus nos chama a uma nova vida! O Senhor nos chama a uma fidelidade plena e completa que envolve todas as áreas da nossa vida, inclusive a financeira. Não contribuímos com a Igreja apenas por causa daquilo que nossos olhos veem; contribuímos com o Reino de Deus principalmente por causa daquilo que nossos olhos não veem: Deus agindo entre o seu povo. A motivação é ser tão apaixonado pela missão de Deus que queremos ver o Reino de Deus crescendo e progredindo. Queremos ver mais pessoas crendo no Evangelho. Queremos ver mais pessoas sendo tocadas pelo amor de Deus. Então, contribuímos financeiramente com alegria para que isso aconteça – na certeza de que Deus abençoa os recursos colocados à disposição do seu Reino. O Senhor quer uma reforma completa – que envolva também o bolso! E essa reforma e conversão muda a nossa maneira de pensar e agir:
4 VOLTAR PARA DEUS TRANSFORMA A NOSSA MANEIRA DE REPARTIR (v. 10-12)
O Senhor diz: “Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimentos na minha casa; e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e derramar sobre vós bênção sem medida” (Malaquias 3.10). A graça de Deus nos liberta do egoísmo. A partilha se torna um dom – o dom de doar. Não contribuímos com a missão de Deus porque queremos receber algo em troca, mas porque sabemos que já recebemos tudo o que precisamos. O Senhor é o nosso pastor e não deixa faltar nada que seja realmente necessário (cf. Salmo 23.1). Viver com Deus significa estar disposto a repartir para que o Reino cresça e o Evangelho continue sendo proclamado até os confins da terra (cf. Mateus 28.18-20). Quem ama a missão de Deus, contribui com a missão de Deus.
Amados irmãos, amadas irmãs,
O Senhor Deus é aquele que fez a maior oferta de todas! Ele doou o que era mais valioso para ele. O Senhor Deus entregou seu Filho Unigênito para morrer na cruz pela nossa Salvação. O Pai doou o Filho para que você e eu fôssemos salvos dos nossos pecados. E, com essa oferta, o Senhor está doando a eternidade inteira nos céus a todos nós. Como reagimos a isso? Qual é a nossa resposta diante de tamanha graça? O que fazemos com tamanho amor?
A resposta que Deus espera de nós é gratidão – que se torna ação também através de doações financeiras. Não doamos para ganhar algo em troca; não! Contribuímos porque queremos ver o Reino de Deus avançando e sua Igreja crescendo, não diminuindo. O apóstolo Paulo escreveu: “Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria” (2 Coríntios 9.7).
Que a graça de Deus te liberte hoje de todo egoísmo e avareza e que o amor doado por Deus te leve a doar toda a sua vida ao Reino de Deus, com teu tempo, talentos e tesouro. Esse é o convite evangélico de hoje: voltem para Deus! Arrependam-se de todo egoísmo! Aprendam a partilhar com generosidade. Aprendam a abençoar o próximo.
Deus nos abençoe.
Amém.