Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Jesus lavando os pés de um discípulo em um gesto de humildade e serviço.Pregações

Deus se fez gente como a gente!

Quem morreu na cruz? Este é o sentido do texto bíblico que lemos: ele quer mostrar quem é aquele que se entregou à morte em uma cruz em nosso favor. Aliás, o texto bíblico que nós lemos era um hino que os primeiros cristãos entoavam com gratidão e alegria. O apóstolo Paulo coloca este hino na sua carta para nos ensinar quem foi Jesus.

Paulo afirma que os cristãos da comunidade devem ter o mesmo pensamento que Cristo Jesus. Que pensamento seria este? A resposta nós encontramos nos versículos 2 e 3 onde devem ser destaca-se a frase penseis a mesma coisa e a palavra humildade. A comunidade de Filipos é considerada a comunidade da alegria de Paulo. Ela o auxiliou em momentos difíceis como a sua prisão. Entretanto, a comunidade não deve cair no erro do orgulho perante os elogios que Paulo faz, mas que complete a alegria de Paulo sendo humilde, pensando a mesma coisa que Cristo Jesus. Isto significa: ter a mesma atitude que Cristo Jesus teve. Mas o que Cristo Jesus fez para que se pense igual?

Cristo Jesus fez uma ação sobre si mesmo: esvaziou-se a si mesmo tomando sobre si a forma de servo, obediente até a morte e morte de cruz. Ele não deixou de ser Deus ao se despir de si mesmo, mas é, ao mesmo tempo, Deus e homem. Aquele que é Deus poderoso se humilhou de tal maneira que morreu a morte de cruz. Quanto mais os filipenses também devem serem humildes a partir do exemplo de Cristo Jesus. Se Deus fez isso, quem são os homens para se orgulharem de seus feitos? A partir disso, Deus realizou algo a Cristo Jesus: Deu a ele, gratuitamente, o nome que está sobre todo nome. Deus exaltou a Cristo por causa da sua humilhação. Isto não significa que humilhar-se garante a exaltação, pois isto não se parece em nada com a verdadeira humildade. Aliás, foi ainda concedido a Cristo Jesus que diante dele todos os joelhos se dobrem e que toda língua o confesse como Senhor. Toda realidade se dobra perante aquele que se humilhou. Além disso, toda língua confessa abertamente que este que se humilhou a si mesmo é o Senhor para a glória de Deus Pai. Nosso texto é um hino cujo motivo de sua presença na carta de Paulo aos filipenses é a humildade de Cristo Jesus que é exemplo para todos. O hino cantado na comunidade cristã expressa, resumidamente, todos os quatro evangelhos: a pessoa e obra de Cristo Jesus.

Paulo, por isso, afirma. Pensem o mesmo que Cristo Jesus. Isto significa, “em seus passos, o que faria Jesus?” Ter em mente as atitudes de Jesus e aplica-las no nosso dia a dia é fazer o que ele faria. Em nosso dia a dia, nas nossas atitudes, nos nossos estudos, em nossos compromissos, vale a pena lembrar o que Jesus faria? Como ele agiria? Ele se exaltaria a si mesmo ou, por causa do seu amor, serviria incondicionalmente? Muitas vezes queremos seguir nossos próximos pensamentos e ideias deixando de lado o exemplo de Cristo Jesus. No fundo, sempre queremos fazer do nosso jeito. Deus, porém, em Cristo Jesus, nos ensina que com a nossa própria força sempre nos exaltaremos, mas ao seguir o exemplo de Cristo, então o referencial já não somos mais nós mesmos, mas Cristo. Pensar o mesmo que Cristo Jesus, portanto, não é algo que pode ser produzido pelo ser humano, mas esta humildade somente pode vir do próprio Deus a nós.

Conforme Martinho Lutero, não devemos imitar a Cristo! Quando nós imitamos alguém, temos aquela pessoa como um referencial para as nossas vidas e, na verdade, aquela pessoa está fora de nós! Quando queremos imitar outras pessoas, perdemos a nossa identidade e fazemos daquela pessoa um ídolo. Por isso é um erro, conforme Lutero, imitar a Cristo, pois ao invés de ser servido como Deus, ele é tratado como um ídolo e apenas como uma pessoa que fez coisas boas, igual a outros personagens da história. Cristo é o próprio Deus que se fez homem! Por isso, não é imitar a Cristo, mas viver o Cristo que vive dentro de nós. Esse Deus que se humilhou quer morar dentro do nosso coração e causar uma mudança de dentro para fora. Não imitar o Cristo, mas viver o Cristo que vive em nós. E Paulo aprendeu isso e diz: Cristo vive em mim, por isso posso pensar e agir como ele. Não como alguém que está fora de mim que é um ídolo ou referencial, mas como aquele que habita em mim e age em mim. Isso é ser cristão.

Este Cristo Jesus é tanto forma de Deus como forma de servo. Ele que é poderoso se torna, ao mesmo tempo, servo. Deus vem ao ser humano e o serve. Deus se torna escravo. Este Deus é Deus existente, pois ele se despiu de sua roupa e se torna humano. Como afirmou Nicolaus Ludwig von Zinzendorf, “Esvaziou-se de tudo, menos do amor, e sangrou em prol da raça indefesa de Adão”. Deus se faz gente como a gente, é Deus e humano ao mesmo tempo. Ele se torna o servo, o escravo, o de baixo.

Mas não terminou por aí: ele foi obediente até a morte. O autor do hino faz questão de mencionar que não é qualquer morte, mas a morte de cruz. A mais horrível e suja. A morte de Deus é a morte da loucura humana. O ponto alto de tal humilhação é a morte na esdruxula rude cruz. Quem quer se humilhar tendo o mesmo pensamento que Cristo Jesus deve estar disposto a humilhar-se a tal ponto de morrer como Cristo Jesus. Na perseguição, muitos morreram por causa de Cristo. Atualmente, em nosso país, não há esta perseguição institucionalizada, embora exista em alguns âmbitos da sociedade. Mas se hoje tivéssemos que morrer por Cristo ou no lugar de alguém, estaríamos dispostos? Cristo Jesus, Deus, morreu na cruz por mim. Ele se humilhou a tal ponto de morrer nela. Não houve vida humana que não foi vivida por Cristo: inclusive a morte ele sentiu. Como diz Lutero:

A saber, que o homem é criatura de Deus constituída de corpo e alma viva, feita no princípio à semelhança de Deus, sem pecado, a fim de se procriar e de dominar sobre as coisas, sem nunca morrer. Mas que, após a queda de Adão, [a criatura] ficou sujeita ao poder do diabo, ao pecado e à morte, um mal duplo, insuperável para as suas forças e eterno. E disso nada pode ser libertada e receber a vida eterna a não ser pelo Filho de Deus Jesus Cristo (se nele crê).1

Há pouco tempo uma pessoa (que não é daqui) me perguntou: quando o nosso nome é escrito no Livro da Vida? No Batismo ou na aceitação da fé? Nesta frase de Lutero temos a resposta: se nele crê! Podemos ser batizados mil vezes, como muitos procuram “rebatismos” mundo afora. Se não crermos em Cristo e não o reconhecermos como único e suficiente Senhor e Salvador, estamos completamente perdidos.

Ele se tornou como nós, da mesma forma, igualzinho, sem deixar de ser Deus. Ele inclusive morreu a nossa morte. O seu amor por nós o levou para a humilhação. A nossa culpa o crucificou. Deus morreu numa rude cruz e fomos nós quem o matamos. Ele se faz humilde a tal ponto de deixar que os seres humanos o pendurem em uma cruz. Embora nós sejamos os culpados de sua cruz,

“Deus nos carrega nos seus braços, apesar e em meio às nossas imperfeições e aos nossos insucessos. Deus nos abraça na cruz de Cristo. O perdão sempre é incondicional, porque recebemos perdão incondicionalmente. Assim, trilhamos a vida cristã sendo justos e pecadores, por causa de Cristo”. [Euler Renato Westphal].

A mesma Cruz que é pesada traz alivio.

A mesma Cruz que condena, liberta.

A mesma Cruz tão desesperadora traz esperança.

A mesma Cruz que mata, traz a vida.

A mesma Cruz que faz sofrer traz alegria.

A mesma Cruz que humilha, também exalta.

A mesma Cruz que separa junta de novo.

A mesma Cruz odiada mostra o amor.

A mesma Cruz que encerra, traz o início.

Entretanto, não terminou na cruz. Nós o matamos, mas o Pai o tornou grande. Deus o exaltou. Exaltar, na Bíblia geralmente é ato exclusivo de Deus sobre alguém, seja líder, rei, sacerdote ou profeta.

Deus concedeu a Cristo Jesus, gratuitamente, o nome que está acima de todo e qualquer nome. Aquele que se humilhou é exaltado pelo Pai. A exaltação é algo da vontade livre do Pai que conhece o que está realmente em cada coração humano. O nome do humilhado se tornou o maior nome.

Aliás, toda língua deve confessar abertamente que Jesus Cristo é o Senhor. Há alguém muito maior que qualquer outro: é Cristo Jesus, o que se humilhou à morte de cruz. Não podemos falar de graça sem citar Jesus Cristo: ele fez tudo por nós, para nos salvar, nos perdoar os pecados. Assim podemos viver com Cristo dia após dia. Ele nos salva sem merecermos, isso é graça.

Desejo contar ainda uma breve história: Domenico Vetti foi um pintor da cidade de Düsseldorf na Alemanha. Certo dia, o vigário da cidade, o padre Hugo, visitou-o com um pedido especial: que ele pintasse um grande quadro que ficasse no altar da Igreja sobre a crucificação de Cristo. Um membro da Igreja iria pagar pelo quadro. Domenico fez os esboços e de vez em quando o padre o visitava para ver o andamento da obra. Domenico queria relatar muito bem o drama da paixão e morte de Jesus.

Em um dia de primavera, decidiu sair pela sua cidade. Ele encontrou na beira de uma floresta uma bela cigana que fazia cestos de palha. Ela era muito bonita, tinha cabelos longos, um bom vestido velho, mas muito bonito. Os olhos dela também lhe chamaram a atenção. Domenico resolveu fazer um retrato ela como uma dançarina espanhola. Ela aceitou e de vez em quando ia ao ateliê de Domenico. Quanto entrou pela primeira vez, notou o quadro que ele estava pintando. Ela perguntou quem era aquele homem? Domenico respondeu de maneira indiferente: é o Cristo! O que estão fazendo com ele? Perguntou ela. Domenico respondeu novamente: estão o crucificando. Ela não tirava os olhos do quadro. Domenico era impaciente e não queria responder todas as perguntas da cigana. Ela, porém, todos os dias se emocionava com a pintura. Mas o que ele fez, ele era uma pessoa muito má? Se ele era uma pessoa boa, por que não o deixaram ir embora? Domenico resolveu contar a história de Jesus à mulher, como ele veio ao mundo, como viveu entre nós e como se entregou a nós na cruz assumindo a nossa culpa, o nosso pecado, pagando com sua própria vida a morte que nós mereceríamos. Quanto ele terminou, a cigana ficou emocionada. No último dia em que Domenico terminou o retrato da cigana, ele vendeu o seu retrato e ela foi buscar a sua comissão. Ao olhar novamente o quadro de Cristo, disse: “você deve amá-lo muito, pois ele fez tudo isso por você!”. Esta frase cortou o coração de Domenico, gerando inquietações. Domenico conhecia muito bem a história de Jesus, mas estava indiferente até ali.

Um dia, caminhando pela sua cidade, percebeu como várias pessoas entravam em uma casa. Perguntou o que estava acontecendo? Não teve resposta, mas entrou e ali encontrou um pastor dos chamados reformados. O pastor pregou a palavra expondo a centralidade de Cristo. Nesta pregação, Domenico compreendeu o amor de Deus e saiu do culto já com o propósito de pregar esta palavra, porém, ele não sabia pregar. Então, resolveu pregar pintando um novo quadro retratando a crucificação de Jesus, mas colocando no rosto de Jesus não uma expressão de sofrimento, mas de compaixão. Ao terminar, doou o quadro ao museu da cidade. No rodapé do quadro escreveu: “tudo isso fiz por ti; que fazes tu por mim”? Esta obra chamou a atenção de todos que passavam pelo museu e inclusive a cigana o viu e também compreendeu o amor de Jesus Cristo. Desta vez, Domenico tinha muito tempo para ela e contou toda a história e de seu amor que aceitava a todos incondicionalmente.

Anos mais tarde, chegou ao museu um jovem rico. Ele também viu o quadro e a frase no rodapé “tudo isso fiz por ti; que fazes tu por mim”? Este jovem era Nicolaus Ludwig von Zinzendorf. Ele também decidiu investir sua vida na centralidade do Cordeiro.

Eu desejo que nós também possamos ser humildes como este Cristo Jesus Deus cordeiro, que possamos estar dispostos a servir como Cristo Jesus nos serviu, a segui-lo como salvador exaltado pelo Pai. Ele se humilhou, fez tudo por nós, ele nos amou primeiro. Que possamos proclamar e confessar abertamente, sem ter vergonha, que o nome de Cristo Jesus é o nome que está acima de todo nome, para a glória de Deus Pai.

Tudo isso fiz por ti; que fazes tu por mim?

Amém.

Notas e referências

  1. LUTERO, Martinho. Debate acerca do homem – 1536. In: Obras Selecionadas. Vol. 3. Debates e Controvérsias, I. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Canoas: Ulbra, 2007. p. 195.

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