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Dicas filosóficas para uma leitura aproveitável

Ler é lazer; hermenêutica é arte! Não basta ler. É preciso interpretar o que se está lendo. E há diferentes maneiras de fazer isso.

Nesse breve texto, quero dar a vocês ferramentas bem fundamentadas que tem me ajudado muito. Essas são as dicas que alguns pensadores importantes não dão para uma leitura melhor aproveitável:

Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher(1768-1834),

teólogo e filósofo alemão; fundador da Universidade Moderna em Berlim.

DICA 01: Predisposição: Eu desejo mesmo ler este livro? Isso significa ter uma atitude favorável a ele. Uma leitura indisposta se torna maçante e prejudica todo o processo cognitivo. Leia o que deseja ler, a não ser que seus professores ou o seu trabalho lhe obriguem a ler coisas contra a sua vontade... Se este for o seu caso, procure encontrar algo de agradável na leitura obrigatória para que a predisposição seja criada.

DICA 02: Psicologia: No que o autor está pensando? Tente descobrir o que está por detrás do pensamento do autor, seu fundamento e quem o autor realmente é. Nenhuma obra é totalmente objetiva: em algum momento a mente do autor vai aparecer. Um livro outra coisa não é senão uma extensão mental do seu escritor. A mente do autor pode ser mais importante do que o texto que ele produziu. Em muitos casos, essa é a chave para a compreensão de uma leitura difícil.

DICA 03: Vocabulário: Que palavras o autor usou para escrever sua obra? Dê atenção à maneira cujo autor escreveu o texto. Que palavras ele usou, por que ele as usou e quais palavras foram deixadas de lado? Qual a voz verbal do texto? Em que pessoa está escrito? Ao ler um livro estrangeiro traduzido para o português, caso possível, procure as palavras-chave da tradução e confira que palavras o autor usou na língua original. Muitas vezes uma tradução não chega nem perto do significado original de uma palavra, pois toda tradução é uma interpretação – e uma traição

Wilhelm Dilthey (1833-1911)

filósofo hermenêutico alemão.

DICA 04: Contexto: Qual o contexto histórico do autor? É muito importante que o/a leitor/a saiba quando o escritor redigiu a obra. Em seguida, descubra o lugar geográfico do autor. Não se pode interpretar um autor da Idade Média ou da Grécia Antiga como se eles tivessem vivido nos tempos modernos. Que traços o autor mostra da cultura da sua época? Conhecer a história geral contribui muito para esta dica.

Ernst Troeltsch (1865-1923)

historiador, sociólogo e filósofo alemão.

DICA 05: Desconfiança: Isso é realmente verdade? Procure identificar possíveis falhas no autor, pois, enfim, ninguém é perfeito. Saber que o autor também é um ser humano e não um deus ou “alguém perfeito” nos torna mais próximos dele. Busque confiar e desconfiar na medida certa. Essa dica não se aplica tanto a literaturas como romances e contos, mas a livros filosóficos e polêmicos ligados à realidade.

DICA 06: Conjunto: Mais alguém pensa assim? Identifique livros e pensadores que parecem ter a mesma ideia do autor que você está lendo. A concordância de uma mesma opinião de pensadores diferentes abre o leque para a discussão de uma mesma ideia. A concordância de ideias é uma grande evidência da verdade. Mas atenção! Nem sempre é assim.

DICA 07: Analogia: Há recorrências dos fatos citados? Perceba se os fatos descritos no livro (enquanto realmente históricos) são também descritos por outros autores de um mesmo período. Contudo, se o autor citar um fato do seu tempo sem nenhum outro relato que o corrobore, desconfie. Mas atenção! Uma única referência de um fato não significa exatamente que ele não aconteceu. Pense nos fatos e tome sua posição.

Hans-Georg Gadamer (1900-2002)

filósofo alemão.

DICA 08: Pré-conceito: Quem está lendo o livro? Para ler um livro, antes é preciso conhecer a si mesmo, ou seja: qual é o meu ponto de partida enquanto leitor/a? O cuidado está em não colocar para o livro perguntas que ele não fez. Devemos definir quem somos, onde estamos e de onde estamos partindo ao ler o livro. Em última análise: quem sou eu? O pré-conceito outra coisa não é senão a verdade, a tradição e a própria pessoa do leitor. Importante: pré-conceito aqui não é o conceito equivocado do outro, mas o conhecimento de si mesmo.

Immanuel Levinas (1906-1995)

filósofo francês.

DICA 09: Alteridade: O que o outro está comunicando? O livro não é somente um objeto de leitura individual, mas é outro sujeito que conversa diretamente com o sujeito leitor. Já ouvi relatos de pessoas que relutaram em terminar um livro: quanto mais se chega ao final, mais lenta a leitura se torna. Há também quem sinta saudade de um livro ao terminar sua leitura. Estes casos são exemplos de livros que deixaram de ser objetos para se tornarem sujeitos. Portanto, uma dica é não tratar o livro apenas como um livro, mas como o outro, uma pessoa viva que se comunica com seu leitor. Afinal, é a linguagem que media e possibilita a comunicação entre alteridades, bem como entre o passado, o presente e o futuro.

Conclusão

Estas dicas auxiliam para uma leitura prazerosa e proveitosa. Com elas, o/a leitor/a pode descobrir o livro, o/a autor/a e a si mesmo. Obviamente a aplicação de todas pode ser difícil, até por umas contradizerem outras. Troeltsch, por exemplo, não concorda com Levinas. Enquanto Troeltsch julga a veracidade do livro, objetificando-o, Levinas o trata como outra pessoa. Mas isso não nega o fato de que cada tipo de livro pode indicar uma dica específica. Deseja-se ao/à leitor/a uma boa leitura e que possa ir além do óbvio, adentrando nos mistérios da literatura.