Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Jesus escuta a mulher samaritana junto ao poço.Pregações

Dignidade, o nosso valor e a missão de Deus!

Amados irmãos, amadas irmãs,

Queremos relembrar um antigo artigo de uma renomada revista de nosso País. Ele retratava uma importante passeata evangélica numa de nossas megalópoles. Nesse evento, houve louvor, mensagens, pessoas se abraçando e vários cartazes, camisetas e faixas manifestando o desejo de justiça social, fé, respeito, versículos bíblicos, amor a Deus e cuidado com o próximo. Poderia ser, apenas, mais uma matéria qualquer, mas uma foto chamou a atenção. Nela foram retratadas as últimas pessoas dessa passeata, onde, no caminho percorrido, havia um homem idoso, morador de rua, sentado na calçada, com as mãos estendidas pedindo algo para comer. Aquele homem não foi notado pela multidão de pessoas. Isso pode nos trazer a percepção de que algumas ações piedosas são tão vazias, quanto o estômago daquele homem idoso sentado na calçada. Pois, em nossos lábios até, reproduzimos as palavras de Cristo, mas nem sempre reproduzimos as suas ações. O texto bíblico, proposto para a mensagem de hoje, nos fala sobre a atitude de Jesus Cristo em palavras e ações. Um texto inspirador que transmite a certeza de que Deus nos enxerga onde nos encontramos.

1 A DIGNIDADE QUE NÃO PASSA DESPERCEBIDA

Jesus nos ensina que a vida não passa despercebida por Deus. Ele é um homem de multidões, mas, simultaneamente, um Deus que não deixou de enxergar e se relacionar de forma pessoal com o ser humano, conhecendo-lhe o nome, a história e o seu sofrimento. O texto bíblico proposto não fala que Jesus estava cercado pela multidão, mas que estava sozinho, cansado e com sede. O texto apresenta-nos a humanidade de Deus na pessoa do Filho, que se esvaziou de sua glória, tornou-se carne e vivenciou a nossa humanidade, com a missão de nos encontrar e salvar. Jesus encontra aquele que está morto em seus pecados e que se percebe excluído, perdido, ferido e sedento da verdadeira vida.

O Senhor estava a caminho, havia deixado a Judéia e se dirigia para a Galileia, passando pela Samaria. Estava cansado e, talvez, não fosse apenas por causa da jornada percorrida, mas pelas ácidas palavras dos líderes religiosos da Judéia que diziam: “Ele está batizando mais discípulos do que João”. Estas palavras escondiam uma agressividade, não em sua constatação, mas em sua intenção. Os fariseus em seus comentários lançavam discórdia.

Nem mesmo em meio ao cansaço, Jesus, deixa de enxergar aquela mulher que, em pleno meio-dia, retirava água do “poço de Jacó”, na região da Samaria. Uma mulher que, para nós, não é apresentada pelo nome, mas que era conhecida por Deus. Por quantas pessoas eu e você passamos, dia após dia, e não enxergamos? Seres humanos que não são alvo do nosso tempo ou da nossa preocupação, nem mesmo do nosso esforço? Talvez você se sinta como essa mulher samaritana?

O encontro com aquela mulher, não foi um evento, mas a indicação de uma essência missional que deve inspirar a natureza de nossos grupos e igrejas. “Indo” pelo caminho, Jesus alcançou aquela mulher sedenta, não apenas de água, mas de vida! Vida que apenas o Filho de Deus pode nos oferecer.

Uma mulher que foi “coisificada” como ser humano, que sofreu preconceito, exclusão, dificuldades relacionais, também como consequência do pecado e da falta de misericórdia daqueles que estavam à sua volta. Uma pessoa que não se percebeu ou foi percebida pelo outro, como alguém com dignidade. O mundo reconhece nossa dignidade enquanto somos produtivos para a sociedade e tivermos valor para algo, uma serventia, ou nos encaixarmos em algum padrão social.

Jesus rompe com esse paradigma e resgata a perspectiva de que a nossa dignidade está fora de nós mesmos, sendo algo que Deus nos atribuiu quando nos fez à Sua imagem e semelhança. Somos dignos, porque Deus assim nos faz ser. Por isso, Jesus fala com uma mulher mesmo que o costume ensinasse que homens não deveriam falar em público com mulheres. Jesus vai e fala com uma samaritana, mesmo que, historicamente, houvesse brigas entre esse povo irmão. Jesus vai e fala com essa pecadora, pois a enxerga como alguém que é alvo de sua graça e amor. Porque Jesus é maior do que Jacó, maior do que o costume, maior do que as brigas, maior do que o pecado.

O pecado não é capaz de nos tirar a dignidade como imagem de Deus, entretanto, ele nos embaça essa percepção. Um bom exemplo é quando olhamos o nosso reflexo em uma colher. Nela está refletida a nossa imagem, mas não como deveria ser. O pecado faz isso com a nossa percepção. As mulheres não tiravam água sozinhas em poços, por uma questão de segurança. Não tiravam água ao meio-dia, mas nas horas mais frescas da manhã. Em algum momento foi dito para aquela samaritana que ela não era digna de estar junto com as demais mulheres. Jesus fala com ela e a escuta.

Ele lhe pediu ajuda, fazendo-a se sentir útil. Ele, ao ofertar água que sacia a sede do coração, lhe oferta perdão, vida e salvação. Pois Cristo quer desembaçar a percepção de nossa dignidade e nos surpreender com os valores do Reino dos Céus.

2 VALORES QUE SURPREENDEM

Quantas vezes ouvimos as piores palavras daqueles que mais amamos e estão próximos de nós? Pais, amigos e até mesmo irmãos e irmãs na fé. Palavras duras, marcadas pelo pecado, que enfraquecem a percepção de nossa dignidade, pois estão carregadas de preconceitos e julgamentos.

Assim se sentia a samaritana, magoada, solitária e isolada. Jesus estava com sede, mas sabia que a sede da mulher samaritana não era apenas física. A sede daquela mulher era de relacionamento com Deus e essa sede interferia, diretamente, em seu relacionamento com o próximo e consigo mesma.

Cristo oferta água que satisfaz eternamente, mas como é difícil entendermos os valores do Reino dos Céus? Quando é oferecido à mulher samaritana da água viva, ela não entende muito bem. Tão acostumada em ser desvaloriza, ela recebeu essa “boa notícia” de forma desconfiada. Tinha apenas uma corda e um balde, instrumentos que faltavam para Jesus. Se fôssemos nós no lugar daquela mulher, talvez até pensássemos: Eu, hein.... Esse homem quer matar a minha sede com água viva, mas não tem como matar a sua própria sede, tanto que pediu a mim! Com isso, demonstramos apenas o quanto os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos (Isaías 55.9).

Podemos relacionar essa água, oferecida por Jesus e que sacia a nossa sede, com a “água do batismo”, o lavar regenerador de Deus. Ele nos lava do pecado e desembaça a nossa percepção de dignidade como pessoas criadas à Sua imagem e semelhança. O batismo confirma a promessa de que “somos tornados”, por Deus, seus filhos e filhas. Essa promessa no batismo relaciona-se com o proveito, e este vem pela fé. Quando Jesus percebe aquela mulher samaritana, sedenta por causa de seus pecados e suas consequências, Ele oferece água. Deus supre a nossa necessidade mais básica e primordial, exemplificando não com teorias filosóficas, mas com elementos simples do cotidiano. Os valores do Reino nos surpreendem por isso, pois Deus quer que sua mensagem seja entendida pela humanidade. Isso é possível, exclusivamente, pela revelação de seu amor, em Jesus Cristo.

Quando a mulher samaritana pede pela água viva, não é por sua própria iniciativa, mas porque foi alcançada pela Palavra de Jesus Cristo, o que para ela parecia impossível até aqui. - Como podes matar essa minha sede se nem balde ou corda tens? Quem és tu para saciar a sede causada pelo meu pecado, meu afastamento de Deus? Ou curar minhas feridas relacionais? Tudo isso é possível, pois estava ali, alguém maior que Jacó, ou Moisés, ou qualquer outro! Pela fé, a mulher samaritana responde: Sim, eu quero! Dáme dessa água viva! Isso ela disse mesmo não compreendendo tudo, mas recebendo a oferta graciosa do Senhor Jesus!

O mesmo, experimentamos em nosso batismo quando, pela fé, temos o seu proveito: – Deus, eu quero, eu creio em ti e respondo ao teu amor, porque tu Senhor, me amaste primeiro. Na questão de dignidade, mesmo quando somos feridos por quem amamos, ou somos excluídos por grupos que deveriam acolher e cuidar, devemos lembrar o que Deus nos diz através de suas promessas em nosso batismo: – Eu amo você. Você tem o seu valor e dignidade em mim. Você foi criado/a à minha imagem e semelhança. O pecado pode até ter embaçado a percepção do meu amor em você e no outro, mas EU sempre enxerguei você. Quero que você seja meu filho e minha filha! Creia! E, por meio da fé, tenha proveito de minhas promessas e sacie a sua sede!

3 A MISSÃO INEVITÁVEL

Ao experimentar da água viva e confessar Jesus como o Mestre, os efeitos desse encontro na vida da samaritana já exalaram de suas decisões e atitudes. É inevitável! Essa é a vida que jorra daquele que experimenta do amor de Cristo! Uma vez alcançada por Deus, a mulher samaritana buscou testemunhar do que encontrou, ou melhor, por quem foi encontrada. Ao invés de alimentar a raiva, a indiferença, o preconceito e o medo, ela promoveu a vida, testemunhando ao povo que outrora a excluiu, a coisificou e a fez sentir-se indigna. Essa atitude não é natural, em uma perspectiva de natureza marcada pelo pecado. Sem um encontro com Cristo, o nosso agir natural é vingativo, de vitimização, egoísta e retribui o mal com o mal.

Em Cristo, somos restaurados ao projeto inicial de Deus e o ímpeto missionário faz parte dessa nossa nova natureza. Jesus, “indo” pelo caminho, fez missão e enviou seus discípulos da mesma forma, como uma ação contínua e natural. Em Deus existe água em abundância para saciar não apenas a minha sede, mas também a sede daqueles que me cercam. Em Deus, temos a nossa dignidade, vivemos a partir dos valores do Reino dos Céus, percebemo-nos amados por Deus e com a possibilidade de amar ao próximo.

Deus enxerga e acolhe ao pecador sem distinção, mas rejeita o pecado. Sim, o amor de Deus nos transforma, mas isso não é algo ruim ou opressor como alguns, erroneamente, imaginam. Esse agir de Deus nos faz voltar ao projeto inicial de nossa vida! Pois quem nos transformou, ou melhor, “deformou” nossa percepção de dignidade, sentido de vida e missão, foi o pecado. Deus nos restaura e nos liberta, nos faz enxergar nossa dignidade, valor e missão! E nos faz enxergar o mesmo em nosso próximo!

Amados irmãos, amadas irmãs,

Que eu e você possamos ter esse encontro com Jesus e ter saciada a nossa sede. Que os nossos grupos de OASE possam ser aqueles que não condenam, mas acolhem os pecadores, tal qual nós mesmos fomos acolhidos! Que movidos pelo amor, não deixemos de transmitir o Evangelho, na intenção de que Deus transforme a todos conforme a sua vontade. Que vivamos e tenhamos o proveito de nosso batismo e que os dons estejam a serviço de Deus, em sua Missão. Amém.