Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Bíblia junto a um caminho iluminado pelo amanhecer.Pregações

Discipulado

Amados irmãos, amadas irmãs,

todos nós possuímos pessoas que admiramos. Muitas vezes, nossos hábitos repetem os hábitos dessas pessoas. Talvez sejam nossos pais, amigos, algum professor, professora, de repente até mesmo o pastor.

A nossa vida é cheia de influências. Sem perceber, nosso agir pode se comparar ao agir das outras pessoas. Eu, por exemplo, daqui algum tempo estarei automaticamente falando melhor o sotaque gaúcho, pois serei influenciado por vocês. Sei disso porque isso aconteceu em Novo Xingu. Lá em Joinville, perdi o sotaque gaúcho, mas, convivendo com vocês, ele logo voltará. Só não esperem que eu torça para o Inter ou para o Grêmio. Esse tipo de coisa não me influencia.

Amados do Senhor, está na moda também os seguidores de redes sociais. Curtimos e seguimos pessoas no Facebook, instagram e twitter. Queremos saber tudo das suas vidas em cada frase que postam, muitas vezes, até se foram ao banheiro, hospital, etc. Seguir outras pessoas está na moda entre jovens e adultos. Fato é que como seres humanos, precisamos de referências. Por isso, buscamos pessoas em quem podemos espelhar nosso agir.

A comunidade cristã na cidade de Filipos era a comunidade da alegria do apóstolo Paulo. De todas as cartas que Paulo escreveu, Filipenses é a que mais recebe elogios e, consequentemente, a que menos recebe críticas.

Paulo estava preso quando escreveu esta carta. Não havia cometido crime algum. Apenas havia pregado o Evangelho. Na época, isso não era permitido. As prisões da época não eram como as de hoje onde, a partir do imposto recolhido, há alimento para os presos. Na época de Paulo, o preso só comia se alguém levasse algo para ele. Paulo podia se alimentar e escrever suas cartas porque os caridosos filipenses recolhiam e preparavam o alimento e levavam até ele. Filipos era conhecida como a comunidade da diaconia. Não tinham vergonha de servir a Deus por meio do próximo. E Paulo se alegrava muito com esta comunidade da sua época.

Entretanto, mesmo em meio aos elogios, o apóstolo Paulo não deixa de falar o que deve ser dito. Paulo alerta a comunidade para que não caiam em um falso evangelho que estava sendo pregado por outras pessoas. Já na época de Paulo haviam seitas e ideias estranhas à Palavra de Deus.

Paulo pede que os filipenses o imitem. De início, pensamos: “nossa, que prepotente; se acha tanto que pede para os outros o imitarem”. Amados e amadas do Senhor, Paulo pode pedir que os outros o imitassem não porque era orgulhoso, mas porque era humilde. Paulo havia conhecido a Jesus. Jesus havia transformado a vida de Paulo. Sem medo ou vergonha, Paulo pode pedir que as pessoas o imitassem. Mesmo sabendo que era pecador, Paulo sabia que estava correndo em direção à vida eterna e dando o melhor de si em prol do Reino de Deus. Por isso, os filipenses poderiam fazer como o apóstolo.

Queridos e queridas, todos nós também somos discípulos de Jesus, se nele crermos como nosso único e suficiente Senhor e Salvador. Só ele pode nos salvar! Só Jesus possui as palavras da vida eterna. Como está a nossa imitação de Cristo? Será que teríamos a coragem de, assim como Paulo, dizer aos outros que nos imitassem? Se as outras pessoas imitassem o nosso agir, o que elas fariam? Seriam amorosas? Bondosas? Honestas? Buscariam a Palavra de Deus? A Oração? A comunhão? Como as outras pessoas seriam se elas nos imitassem?

No v. 18, Paulo chama a atenção (e parece não ser a primeira vez) para aqueles que distorcem o Evangelho. Quanto mais conhecemos ao Evangelho, mais saberemos distinguir a verdade da mentira, a luz da escuridão, a Palavra de Deus da palavra do inimigo. O apóstolo se emociona e chora ao escrever que entre os cristãos há os inimigos da cruz de Cristo.

A grande pergunta é: quem são os inimigos da cruz de Cristo? Por quê inimigos da cruz e não somente do próprio Cristo?

Amados e amadas, lembro-me que quando eu era adolescente, após a confirmação comecei a participar ativamente da comunidade. Era uma comunidade recém construída, com apenas 5 anos de existência. Na parede de trás do altar, não havia nada. Era uma parede branca. Eu estava acostumado que, desde o início da comunidade, isto era sempre assim. Entretanto, um dia, ao ir ao culto, me assustei quando vi que na parede do altar haviam colocado uma grande cruz de madeira. Lembro que fiquei revoltado. Afinal de contas, nós cremos no Cristo vivo; então por que uma cruz no altar?

Só fui entender porque as igrejas luteranas possuem uma cruz no altar no tempo da faculdade. Comecei a entender que a cruz é importante por nos lembrar sempre de novo que Jesus Cristo, o Deus-homem, morreu por nós e em nosso lugar. A partir de 1 Co 1, entendi que somos salvos pela loucura da cruz onde Deus se entrega, sangra e morre por nós. Entendi que não entender isto significa ser inimigo da cruz de Cristo.

Na moda, está o Cristo poderoso que quer ser seguido e imitado por todos. O Jesus das curas, milagres, prosperidade. Quem fica com um Jesus só de prosperidade pode ser considerado um inimigo da cruz de Cristo! Eu creio na vitória da páscoa, mas também creio na loucura da sexta-feira da paixão.

Ao entrar em qualquer igreja, repare no que há bem aqui na frente. Ao fazer isso, você vai entender o que é mais importante naquela igreja. Para nós, luteranos, é a cruz de Cristo e a Palavra de Deus.

Queridos irmãos e irmãs, mas também é inimigo da cruz de Cristo as pessoas que não compreendem que tudo o que fazemos neste mundo respinga na eternidade. Não é errado adquirir coisas com trabalho e honestidade. Isso até é um valor muito importante. Contudo, há pessoas que ajuntam coisas e mais coisas, enchem as casas de bugigangas porque não possuem a ideia da eternidade, i. é, de que o melhor ainda está por vir e será nos dado de graça. O v. 19 nos diz que estas pessoas só se preocupam com as coisas terrenas. Posso lhes garantir: já fiz muitos sepultamentos, e em nenhum deles foi um caminhão de mudanças junto. Devemos trabalhar e ter as coisas, mas devemos também saber que a nossa pátria está nos céus (v. 20). Trabalhamos por um mundo melhor, mas também aguardamos, com paciência e perseverança, os novos céus e a nova terra.

Não crer nisso também nos torna inimigos da cruz de Cristo, pois ao invés de seguirmos a Jesus, passaremos a seguir a nossa própria vontade. Passaremos a querer viver somente esta vida como se fosse a última, sem crer naquilo que Deus tem preparado para cada um/a de nós.

Se Cristo exercer influência na nossa vida, nós passaremos a ser como Cristo. Passaremos a perdoar, amar, suportar e cuidar das pessoas que estão ao nosso redor. Desta maneira, seremos amigos da cruz de Cristo.

Dietrich Bonhoeffer, um pastor luterano morto na 2ª Guerra Mundial, escreveu a seguinte frase no seu livro Discipulado: “Assim como Cristo só é Cristo sendo aquele que sofre e é rejeitado, também o discípulo só é discípulo no sofrimento e na rejeição, como se com ele fosse crucificado”1. Há pessoas que acham que não é normal o cristão sofrer. Mas nós ainda nãos estamos no céu; ainda não estamos na pátria celestial; nós estamos no mundo caído pelo pecado onde o sofrimento está presente. O cristão não está livre do sofrimento, do câncer, etc., porém, o cristão possui, em meio ao sofrimento: 1) a cruz como lembrança de que Deus, em Jesus Cristo, sofre conosco; 2) A esperança da pátria celestial onde não haverá mais sofrimento algum.

Termino contando uma história:

Um grupo de pessoas estava caminhando e cada integrante tinha a missão de carregar uma cruz. Mas no meio deles tinha um descontente. Ele reclamou: “Senhor, está muito pesada; vou cortar um pedaço!”.

Como ninguém percebeu na primeira vez, ele logo disse: “Senhor, cortarei um pedacinho mais, assim poderei carrega-la melhor.” Após cortar mais um pedaço da cruz, chegou a agradecer a Deus, dizendo: “Obrigado Senhor”.

Então, num certo dia, chegou o momento do reconhecimento aos poucos que não desistiram de caminhar com o grupo. Era então um grupo bem pequeno e entre eles o descontente…

Ao chegar ao local da premiação, havia ainda um abismo pra ser atravessado. Deus disse a todos: “Use a sua cruz como ponte. Atravesse e siga em frente”.

O primeiro do grupo chegou, lançou sua cruz sobre o abismo e atravessou. E assim sucessivamente até que chegou e descontente. Quando este chegou e lançou sua cruz, faltou aqueles pedaços que ele havia cortado. Então ele disse: “Eita, e agora?” Sua cruz era muito pequena. Mesmo tendo chegado até ali ele não recebeu o prêmio dado aos vencedores. Ficou para trás.

Amados irmãos, amadas irmãs,

seguir a Jesus Cristo significa, entre tantas coisas, carregar a cruz. Nós estamos na Quaresma. Período de silêncio, reflexão e arrependimento. Que possamos cada vez mais ser parecidos com Jesus para que as outras pessoas, ao verem o nosso exemplo, também se tornem discípulas de Jesus. Nós somos a Bíblia que o mundo lê.

Não seja inimigo da cruz de Cristo, mas ame a Deus mesmo em meio ao sofrimento.

Amém.

Notas e referências

  1. BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Paulo: Mundo Cristão, 2016. p. 62.

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