Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Maria com Jesus e José em um estábulo humilde.Pregações

Entre fezes e urina

“Deus não pode nascer entre fezes e urina”, afirmou, no Terceiro Século da era cristã, um irmão muito devotado à obra do Senhor chamado Ario. A vinda do Salvador à a humanidade é algo escrupuloso e contrária à qualquer lógica humana, pronta a levar qualquer um à loucura! Deus nasceu entre fezes e urina! Deus veio até nós como humano, como carne. Não temos dúvida da sua humanidade: nasceu e foi amamentado por uma mulher; ao mesmo tempo, foi criado por um pai. Este nascido em Belém não é outro senão algo idêntico a todos nós, cujas necessidades básicas foram as mesmas que as nossas. Ao mesmo tempo, esta pequena criança nascida em Belém é Deus. O Deus totalmente outro que se torna totalmente aqui; o Deus que sente o que é ser humano; o Deus que vive a nossa vida e morre a nossa morte. Que Deus é este que nasce entre fezes e urina? Este é o Deus da cruz, que desce ao mundo com o claro objetivo de morrer pela humanidade e salvá-la do seu pecado. Este é o Deus escandaloso que quebra a lógica humana para mostrar que ele não é outro senão Deus; Este é aquele que se torna Deus e homem ao mesmo tempo.

Deus nasceu entre fezes e urina, aliás, mais do que isso: Deus nasce dentro de uma humanidade pecadora. Deus nasceu entre humanos que não conseguem cumprir a sua própria lei. Deus nasceu entre humanos para, de alguma forma, nos salvar do pecado que há tanto tempo atrapalha a nossa vida. Aquele que é a luz nasce em uma escura estrebaria, mas também em uma escura humanidade, em uma escura criação escondida da luz de Deus. Já que o ser humano não consegue subir até Deus, então Deus vem até o ser humano, simples, humano, na manjedoura de uma estrebaria.

O texto nos diz que o Messias nasceu em Belém. O Imperador Romano decretou que todos do império deveriam atualizar o seu cadastro. Isto é algo parecido com o que hoje chamamos de “sendo do IBGE.” Todo o povo foi, cada um para a sua cidade natal atualizar seu cadastro seguindo o decreto do governo. Imaginem o movimento! Maria, esposa de José, estava grávida e próxima do dia de dar à luz. Embora não fosse obrigada, Maria acompanhou seu marido José até o recenseamento. O casal habitava em Nazaré. Os dois viajaram até Belém que fica a cerca de 170Km de Nazaré. Naquele tempo, uma viagem difícil: poeira na estrada, falta de água, má alimentação, esforço excessivo, mas tudo isso o casal suportou. Em seu ventre estava o Deus-homem. Maria carregava dentro de si o Filho de Deus, o próprio Deus que se tornou carne. Ao chegarem na cidade, uma triste surpresa: não há lugar! Não havia lugar em nenhuma hospedaria! Não havia lugar para Deus nascer. Por causa do recenseamento que movimentava pessoas de todos os lugares, Maria e José acabam completamente desamparados. Como não há lugar para uma mulher pronta a dar à luz seu filho? diríamos. Como alguém pode rejeitar alguém na situação na qual Maria e José se encontravam? Cansados, mal alimentados e prontos a ter um filho? Infelizmente, o que sabemos é que não havia lugar. O fato que dividiu a história não tinha lugar para acontecer. Ninguém pôde oferecer os recursos básicos para que uma criança pudesse nascer. O único lugar que Maria e José encontraram foi uma estrebaria suja, fedida e escura. Um lugar completamente indigno para nascer o Salvador, mas foi assim, Deus nasceu sim entre fezes e urina. E ali, em Belém, nasceu o Salvador. Tamanho foi o acontecimento capaz de dividir a História em antes de Cristo e depois de Cristo. O fato do nascimento do Messias Jesus Cristo é o centro da História da Humanidade! O nascimento humilde do Salvador mudou a História para sempre!

Ao mesmo tempo, um grupo inteiro de pobres pastores recebem uma revelação. Os pastores de ovelhas eram pessoas fortemente excluídas e discriminadas no seu tempo. Na tradição levítica, pastores de ovelhas eram considerados imundos por causa do seu trabalho com as ovelhas. Não eram dignos nem de entrar no templo. Pois bem, são estes simples pastores os primeiros fora da estrebaria a receberem a maravilhosa notícia do nascimento do Salvador. Os pastores são os primeiros a ouvir sobre a encarnação de Deus. De onde eles ouvem? Da boca de um anjo! O anjo lhes apareceu e a glória do Senhor brilhou sobre eles. Anjo significa mensageiro e aqui a sua mensagem é sobre a vinda do Messias em Belém. A vinda do anjo provoca um mar de luminosidade. Aliás, estranha aparição esta dos anjos: Deus nasceu em uma estrebaria e anjos aparecem rodeados de luz! Na noite de natal, os papeis são invertidos: Deus veio se tornar servo! Os pastores, ao contemplarem tamanha visão, ficam com medo. Uma revelação desta natureza é demais ao ser humano, ele se assusta, se desespera. Contudo, o anjo menciona apenas duas palavras: não temais. Esta é a primeiríssima mensagem de natal, tão pequena, simples e sem ornamentações. Não temer, não ter medo diante do desconhecido. A mensagem que o anjo traz é de grande alegria, tanto aos pastores como ao povo: nasceu, na Cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. Não tenham medo, Deus já nasceu! Ele de fato nasceu na Cidade de Davi, Belém, como previsto pelo Antigo Testamento. Ele realmente era o Messias, o Salvador, o Redentor, a Luz da humanidade. Como os pastores saberão quem é o messias? O anjo responde: vocês o encontrarão deitado em uma manjedoura, enrolado em panos, este é o sinal. Assim está Deus deitado num coxo de animais.

Em seguida, a primeira mensagem de natal não temas é acompanhada do primeiro hino de Natal: “Glória a Deus nas maiores alturas; e paz na terra entre os homens a quem ele quer bem.” Quem canta este hino, uma multidão, um coral celestial! Hino este que nunca mais silenciará, mas que continua ecoando século por século, por todos os cultos da Igreja Cristã. O Hino que nunca mais se calou! Anjos louvam o Deus que acabara de nascer em Belém. Eu fico pensando: quão maravilhoso deve ter sido ouvir anjos cantarem no Primeiro Natal.

Os pastores já não mais se aguentaram. Assim que os anjos sumiram, foram a Belém ver os acontecimentos como Deus lhes concedeu. Os pastores vão verificar o que lhes foi anunciado. Viajam apressadamente e encontram Maria, José e a criança na manjedoura. Encontraram, uma estrebaria escura e suja, uma criancinha indefesa, recém-nascida, tão precariamente acomodada que nem sequer tinha um berço, mas estava em um coxo de alimento para vacas e ovelhas; ainda assim a Glória de Deus estava naquele lugar e a luz brilhava no meio da escuridão. Os pastores saem do lugar e divulgam o que tinham ouvido e visto naquela noite. Aliás que noite! Uma Noite Feliz! Os ouvintes se admiraram com a mensagem dos pastores. Maria guardava as palavras e as meditava em seu coração. Os pastores retornam. Eles receberam algo completamente novo e não conseguem ficar com isso somente para si. A primeira noite de natal, quanta correria, quanta preocupação, mas no meio de tudo isso, nasceu o Salvador, sim, entre fezes e urina.

Diante deste texto, tornam-se muito claro dois grupos distintos:

1 Perderam o Primeiro Natal: alguns estavam distantes, como o Imperador César Augusto. Em seu trono, não havia a espera pelo Senhor, pois ele mesmo se considerava o Senhor. Embora longe, seu decreto para o recenseamento mostra que Deus pode usar mesmo pessoas que não creem para realizar a sua vontade. Foi por causa deste recenseamento que o Salvador Jesus Cristo nasceu em Belém, na Cidade de Davi, como afirmavam as profecias do Antigo Testamento. A mão de Deus pode mover qualquer um, e não há como resistir à mão de Deus. Também o dono da hospedaria perdeu o Primeiro Natal. Poderia receber o Salvador em seu estabelecimento, mas não havia lugar para Salvador em sua hospedaria. Pelo contrário, ela já estava cheia de gente por causa do recenseamento. Aquele que trouxe o Natal, aquele que nos deu o Natal, aquele que é o Natal, aquele que é dono de tudo, não achou um lugar para nascer: "não havia lugar para eles na hospedaria". O homem não tinha tempo, estava ocupado demais, muito envolvido consigo mesmo. Sem saber, acabou perdendo o Primeiro Natal.

2 Aproveitaram o Natal: Maria, José e os pastores são pessoas que aproveitaram o Primeiro Natal. O parto de Maria deve ter sido muito difícil, ainda mais em uma estrebaria. Mesmo assim, estavam ali com o Salvador. Os pastores não demoram muito para chegar e também aproveitam o Primeiro Natal. Para estes, houve Noite Feliz!

Como certa vez afirmou o P. John Stott:

“O Filho de Deus não permaneceu na segura imunidade de seu céu, distante do pecado e da tragédia humana. Ele de fato entrou em nosso mundo. Esvaziou-se de sua glória e humilhou-se para servir. Assumiu a nossa natureza, viveu a nossa vida, suportou as nossas tentações, vivenciou nossas tristezas, sentiu nossas dores, carregou nossos pecados e morreu nossa morte. Ele participou profundamente da nossa condição de seres humanos. Nunca se afastou das pessoas que se esperaria que ele evitasse. Foi amigo dos marginalizados da sociedade e até mesmo tocou nos intocáveis. Não poderia ter sido mais igual a nós. Foi a total identificação do amor. Mesmo assim, ao identificar-se conosco, não abriu mão de sua própria identidade, nem a alterou de maneira alguma, pois, tornando-se um de nós, mesmo assim, continuou sendo ele mesmo. Ele passou a ser humano, mas sem deixar de ser Deus.”

Amada Comunidade, é natal, é boa nova: nasceu o Salvador entre fezes e urina. Deus veio ao nosso encontro, Deus veio à terra nos buscar. Que atitude temos diante dele? Em qual dos dois grupos nos encaixamos? Vamos perder o natal ou aproveitá-lo? Perdê-lo significa comemorar sem o aniversariante. Aproveitá-lo é comemorar o nascimento daquele que nos ama, que vem ao mundo salvar os homens. Como está nosso coração? No último culto, o Pr. Osnildo citou uma frase: “Jesus pode nascer mil vezes em Belém, e de nada valeria se ele não nascer em teu coração.” De fato, que possamos aproveitar o Natal, para que ele não seja vazio, sem sentido: que em nosso natal, haja o nascimento do Salvador. Amém.