PregaçõesEsperança
Quem nunca se sentiu abandonado por Deus? Por vezes passamos situações em nossas vidas que chegam a questionar a nossa própria fé em Deus. Se Deus existe, porque existem guerras? Se Deus existe, porque não impede os desastres naturais? Se Deus existe, porque ele me abandonou e me deixou sofrer? Por que perdi uma pessoa da família que tanto amo? Seja filho/a, seja marido/esposa, seja pai/mãe, etc.
Às vezes a vida nos dá fortes golpes. Por um momento, entramos em crise e perguntamos por que Deus permite tantas coisas se ele é o Criador e o Todo-Poderoso. Às vezes, parece que Deus não está no controle, pois acontecem coisas que colocam nossa fé contra a parede.
Assim estava o povo de Israel. Um povo desolado e que perdeu a esperança. Por quê? Porque haviam sofrido uma desgraça enorme. Seu país, após uma grande crise religiosa, havia sido destruída e o povo sequestrado para uma terra distante e desconhecida. Qual foi a crise religiosa? Os reis de Israel, ao invés de servirem a Deus, começaram a servir aos deuses dos povos vizinhos. E isto é algo que o Senhor, o verdadeiro Deus, não tolerava. Ele já exigia nos 10 mandamentos que somente ele fosse adorado como Deus: Eu sou o Senhor, seu Deus. Não tenha outros deuses além de mim. Por causa da desobediência, o Senhor Deus permitiu que o povo fosse levado escravo à Babilônia. Mas por que isso era tão ruim?
Em primeiro lugar, porque os babilônios não acreditavam no Deus de Israel. Tinham seus deuses e obrigavam os outros a seguirem suas divindades. Lembrando um pouco da história de Daniel que por desobedecer às ordens de Nabucodonosor, rei da Babilônia, foi lançado na cova dos leões. Por ser obediente ao Deus verdadeiro, os leões não o comeram e até Nabucodonosor se surpreendeu com a situação. Nabucodonosor acabou se entregando ao Deus verdadeiro e enviou uma carta a todo o reinado que dizia: “O rei Nabucodonosor a todos os povos, nações e homens de todas as línguas, que habitam em toda a terra: Paz vos seja multiplicada! Pareceu-me bem fazer conhecidos os sinais e maravilhas que Deus, o Altíssimo, tem feito para comigo.” (Dn 4.1-2). Mas antes disso acontecer, foi um período difícil onde a identidade de Israel estava ameaçada. Os israelitas tinham medo que seus filhos começassem a agir como os babilônios e não como judeus. Assim, em poucas gerações, a fé no Deus verdadeiro estaria esquecida para sempre.
Em segundo lugar, porque estavam longe da terra prometida. Antes o povo foi 400 anos escravos no Egito. Deus, por meio de Moisés, os tirou da escravidão através das 10 pragas do Egito, os fez passar pelo mar vermelho e depois os manteve 40 anos em peregrinação no deserto onde ficaram andando em círculos para então, com Josué, derrubarem os muros de Jericó e conquistarem a terra prometida. Tanto sofrimento, tanta luta, tanto suor, tantas pessoas mortas na peregrinação. Aquela área possuía e possui uma terra fértil que não se encontra tão facilmente naquela região. Após muito tempo lá chegaram. Mas daí cometeram um erro: acharam que não precisavam mais de Deus. Depositaram sua fé na política, na economia, nas relações exteriores, mas não no Deus de Abraão, Isaque e Jacó, o Deus que os tirou da escravidão do Egito. Nadaram... Nadaram... E morreram na praia! Estavam, novamente, longe da sua terra prometida.
Em terceiro lugar, porque sua liberdade foi retirada. Não há coisa pior do que não ter liberdade. Na Babilônia, os israelitas não podiam falar qualquer coisa. Precisavam era obedecer às leis civis que lá vigoravam. Escravo não tem opinião. Escravo tem é o açoite lhe esperando. A liberdade que o povo de Deus tinha na terra prometida foi perdida quando foram arrastados para a Babilônia. As orações tinham que ser feitas em silêncio, pois caso algum soldado ouvisse, poderia denunciar o judeu às autoridades. Certamente que este foi um período muito difícil na história do povo de Deus.
Por isso surgem diversas dúvidas na cabeça do povo de Israel: “Deus nos abandonou?”, “Será que estivemos crendo em um Deus que não existe?” É aí que entra a resposta de Deus, Isaías 40, que ouvimos anteriormente.
1 Consolai o meu povo
O povo havia pecado, mas a misericórdia de Deus é maior que o erro do seu povo. Por isso nosso texto inicia com as palavras Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Deus prova que ele existe e que está pronto para agir em meio ao sofrimento dos seus. Deus não consegue fechar os ouvidos ao clamor do povo, mas se apressa em atender quando a necessidade é verdadeira.
Deus decide que vai terminar com o sofrimento causado pelo pecado do povo. Deus pegou a borracha e apagou o passado para construir com seu povo algo novo. O passado já era. Deus não acoberta o pecado, mas o perdoa. O povo já havia sofrido o castigo de seus erros e agora havia chegado o tempo da bem-aventurança. Consolai! É o fim do tempo daquela escravidão; agora vem um novo tempo. O povo havia se arrependido de seus erros e isto comoveu o coração de Deus. Se há algo que comove o coração de Deus, é o arrependimento verdadeiro. Lutero defendeu a mesma coisa muito tempo depois. Uma das suas 95 teses diz: “Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência.” (Tese 36). O perdão de Deus não pode ser comprado. Ele é conquistado com um coração arrependido e que deseja mudar o caminho pela frente. O consolo do Senhor enxuga nossas lágrimas para que possamos olhar melhor para o futuro e, assim, sermos fieis a Deus e a agradecermos por sua especial bondade e misericórdia.
2 Preparem no deserto um caminho para o Senhor, abram ali uma estrada reta para o nosso Deus passar!
Do deserto vem a possibilidade de um novo caminho: a passagem para a vida, a libertação. A voz vem do deserto e anuncia um caminho novo que atravessa os desertos. É o deserto que está separando os israelitas da terra de origem. Esse caminho novo é o caminho que permite a saída triunfal dos cativos. O caminho de Deus é o caminho da liberdade. A grande mudança que traz esse caminho mostra-se nas afirmações: os montes e outeiros serão nivelados, o que é tortuoso será endireitado e os lugares escabrosos aplanados. Chegou o momento da revelação da glória de Deus, para que o povo possa acreditar que Deus não os abandonou, mas que ele os perdoou e que ele realmente existe.
A palavra do profeta tem que ser forte, convincente. E quem será o escolhido para levar o “povo” de volta? Haverá um novo Moisés? Não, apenas Ciro, o ungido de Deus (Is 45.1). Ciro, Rei da Pérsia, emitirá um decreto que permitirá o povo de Deus voltar à sua amada terra. É o que nos conta a Palavra de Deus no primeiro capítulo de Esdras: “No primeiro ano do reinado de Ciro, rei da Pérsia, cumpriu-se o que o Senhor Deus tinha dito pelo profeta Jeremias. O Senhor tocou no coração de Ciro, e este ordenou que fosse comunicado em todo o seu reino, por escrito e também por meio de leitura em público, este decreto: “Eu, Ciro, rei da Pérsia, declaro o seguinte: O Senhor, o Deus do céu, me fez governador do mundo inteiro e me encarregou de construir para ele um templo em Jerusalém, na região de Judá. Que Deus esteja com todos vocês que são o seu povo! Vão a Jerusalém para construir de novo o Templo do Senhor, o Deus de Israel, o Deus que é adorado em Jerusalém. Os vizinhos devem ajudar todos os israelitas que precisarem de ajuda a fim de voltarem para a sua terra. Devem lhes dar prata e ouro, mantimentos e gado e também ofertas para apresentarem no Templo de Deus, em Jerusalém.”
Deus não responde ao seu povo apenas com palavras, mas com ações. Por meio do rei de outra nação, Deus devolve a terra ao seu povo e o seu povo à sua terra.
Não é assim também conosco? Gostamos da nossa terra, do nosso cantinho. Ficamos um tempo fora, já bate aquela saudade. Eu me lembro de que quando eu era criança, meus pais decidiram passar uma semana passeando nos parentes de longe, uns dias em cada um. Após três dias, eu não via a hora de voltar para casa, não tem coisa melhor do que isso. Imagina então a alegria do povo de Deus em receber a notícia de que poderão voltar para as terras da sua nação.
3 O que clamar?
Os vv. 6,7 e 8 mostram o tom do poder de Deus. O que acontece quando o sopro de Deus passa sobre a erva? Seca a erva, caem as flores. Toda carne é como a erva. O povo é como a erva, também o imperador; a Babilônia é como a erva. Tudo passa; a palavra de Deus e o poder de Deus permanecem eternamente.
Deus, que castiga o pecado, também é poderoso para erguer e consolar. Ele tem poder. O profeta mostra a fraqueza do povo; parece morto, sem condições de crer em suas palavras. Faz-se necessário um tom mais forte para conclamar o povo à esperança e à mudança eminente.
Para nós hoje, isso se aplica muito bem. Advento é tempo de esperança. Anúncio de mudança. Voz do que clama no deserto, como diz em Isaías e também no Evangelho de Marcos; pode ser um forte convite para falar da transformação pessoal e coletiva. Somente a vinda de Deus, de Cristo, é luz para a transformação na busca pelo novo. O novo é possível. A libertação, o perdão dos pecados se traduz em nova vida. O Segundo Domingo de Advento (2 velas acesas) aponta para o Jesus menino, que de uma estrebaria vem e anuncia com palavras e ações a graça de Deus, o seu Reino. Agora não queremos mais somente o fim do sequestro de Israel, do sequestro mais suave da Pérsia, mas vida abundante com comunhão, paz e justiça.
O bom combate dos males e a transformação pelo perdão são elementos fundamentais para nós cristãos hoje. Só há mudança quando acontece o perdão dos pecados. O passado não dá para mudar; é daqui para frente. O anúncio da boa-nova da graça de Deus, que transforma e compromete, é sem dúvida a melhor mensagem de Advento.
A história do povo de Israel tem muito a ver conosco. Também nós nascemos escravizados pelo pecado. Mas a boa notícia é que Deus providenciou o perdão para nós. Seu Filho Jesus Cristo, nasceu e viveu de maneira humilde, morrendo em uma cruz para nos reconciliar com o seu Pai. A pergunta é: que valor temos dado a isso? Só no natal? Só na páscoa?
Deus providenciou o Messias para nos dar perdão, salvação e libertação. Por isso não precisamos andar como se fossemos culpados, perdidos e escravos. Como cristãos/ãs, andamos firmes nas promessas de Jesus, sabendo que Deus não nos abandonou, mas permanece conosco.
Termino contando uma história.
Um dia, uma criança de seis anos foi passear no interior com seus pais. Ao darem uma volta pela propriedade, o menino prestava atenção a um cavalo com cabeça baixa. O pai do menino reparou na cena e perguntou:
- O que foi, meu pequeno filho?
- Papai, ali está um cristão, respondeu o pequeno.
- Por quê? Disse o pai.
- Porque ele está de cabeça baixa.
Estamos no Advento, época de esperança. Vamos levantas a cabeça minha gente e anunciar ao mundo escuro a melhor notícia que o mundo já recebeu: Em Belém, na cidade de Davi, nasceu Cristo, o Salvador. Amém.