PregaçõesEstética e Ética
Amados irmãos, amadas irmãs,
o ser humano vê por fora, mas Deus vê por dentro; o ser humano enxerga o exterior, mas Deus conhece o nosso interior; o ser humano enxerga a ação, mas Deus conhece a intenção. O espelho reflete a aparência; Jesus conhece a essência. O ser humano se contenta com a superficialidade; Jesus nos conhece com profundidade.
Aqui está o significado e a essência da leitura do evangelho conforme Marcos que acabamos de ouvir. Os fariseus e os escribas se contentam com o que há por fora; Jesus olha para aquilo que está do lado de dentro. Eis o dilema entre estética e ética: estética é aquilo que aparentamos por fora; ética é aquilo que nosso caráter manifesta por dentro.
Não! Os fariseus e os escribas não estavam preocupados com a higiene e com a saúde de Jesus e seus discípulos – que estavam se alimentando sem lavar as mãos. Pela estética, poderíamos dar razão aos fariseus e escribas; mas não pela ética – e logo vamos descobrir o motivo. Não! Os fariseus e os escribas também não estavam preocupados se Jesus estava ou não praticando a tradição. Obviamente que a tradição era importante para eles. Mas aqui a tradição não é um fim, mas um meio para conseguir o que querem. Pela estética, novamente poderíamos dar razão aos fariseus e escribas, afinal de contas, as tradições têm sua importância; contudo, pela ética, novamente vamos descobrir que estão plenamente equivocados.
Mas, então, o que querem os fariseus e os escribas? O que eles querem é preparar uma artimanha para “pegar Jesus”; o desejo dos seus corações é criar uma armadilha para que Jesus caia nela como um passarinho que veio se alimentar debaixo de uma caixa sustentada por uma vareta. A grande verdade apontada por Jesus é que eles pouco estão preocupados com a higiene ou com as tradições. O que eles realmente querem é girar a roda do mal! E quando o coração do ser humano está inclinado para o mal, qualquer pequeno motivo – como lavar ou não as mãos – já se torna motivo suficiente para fazer essa roda girar rapidamente: quando chegamos nesse ponto, cancelar, excluir e crucificar se torna apenas o próximo passo.
Estética e ética. Estética, por fora; ética, o caráter, por dentro. Jesus percebeu a artimanha; Jesus não caiu na armadilha; Jesus não se conformou com questões estéticas e superficiais. Jesus olha para dentro. Jesus não navega na superficialidade das palavras, mas mergulha nas profundezas desse oceano chamado ser humano. Jesus mergulha no coração do ser humano e entra no âmago da intencionalidade. Ao fazer isso, Jesus revelou um segredo oculto nas profundezas da miséria humana: aqueles fariseus e escribas não buscavam o bem com suas palavras e preocupações, mas o mal.
É realmente interessante como muitas vezes o mal se veste com as roupas do bem para aparentar boas coisas – quando, na verdade, a essência está toda contaminada. Por isso, Jesus disse: “Não existe nada fora da pessoa que, entrando, posa contaminá-la; mas o que sai da pessoa é o que a contamina” (Marcos 7.15). As palavras que usamos revelam quem somos! As palavras que usamos revelam o nosso caráter! As palavras que usamos revelam o que realmente habita em nossos corações. E Jesus disse: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” (Mateus 5.8). Palavras! E Jesus continua: “Porque de dentro, do coração das pessoas, é que procedem os maus pensamentos” (Marcos 7.21). De dentro!
Palavras! Palavras podem gerar o bem e o mal. Jesus disse: “A boca fala do que o coração está cheio” (Mateus 12.34). Com palavras, podemos construir pontes; com palavras, podemos erguer muros. E tenha certeza que toda palavra mal-intencionada e grosseira coloca um novo tijolo entre você e as outras pessoas – e você corre o risco de ficar sozinho/a.
Estamos diante de um texto profundo. A superficialidade não convence a Jesus. Ele nos conhece por dentro! Jesus não se contenta com a aparência, mas nos conhece na nossa essência – e em nosso caráter.
Hoje, mais do que nunca, vivemos a partir da estética. No mundo individualista e narcisista que vivemos, ética não dá “ibope”; essência não dá curtidas; profundidade não dá compartilhamento. Todos querem superficialidade. E pelos likes, vale tudo – todo tipo de post. O que importa não é ser, mas aparecer – e satisfazer os próprios desejos consumistas e individualistas.
E então, como ficamos? Deus nos conhece por dentro – e quer nos transformar de dentro para fora! Ele conhece o caos que habita em nós. Conhece também os medos que moldam a intencionalidade das nossas ações. Deus quer nos curar da nossa superficialidade. Mas pra isso, precisamos permitir a profundidade.
Na cruz, Deus revelou a nós uma nova estética: na cruz, contemplamos o rosto misericordioso e amoroso de Deus no Cristo crucificado. Quem é este pendurado na cruz? É o Deus-Filho, Jesus Cristo, a segunda Pessoa da Trindade. Deus morreu na cruz! E essa imagem penetra e se interioriza profundamente na alma humana. Diante da cruz, somos desmascarados – toda a nossa essência maliciosa e pecaminosa é revelada! Na sua obra Paixão Segundo São Mateus, Johann Sebastian Bach escreveu na introdução que diz:
Olhem! Para onde? Para nossa culpa.
Vejam-no, por amor e clemência
ele mesmo carrega sua cruz.
Oh, inocente Cordeiro de Deus,
no tronco da cruz sacrificado,
o tempo todo sempre paciente,
mesmo quando foi desprezado.
Suportou todos os nossos pecados,
sem ti estaríamos em pleno desespero.
Tem piedade de nós, ó Jesus!
Nossa nova estética não é a aparência humana, mas a misericórdia do Cristo crucificado; nossa nova ética é seguir a Jesus até que nosso caráter seja parecido com o dele. Eis a profundidade da vida cristã contra toda superficialidade do tempo em que vivemos.
Que Deus nos abençoe para que o nosso exterior possa ser manifestação da transformação que Cristo já realizou em nosso interior. Nossas palavras revelam as intenções que habitam em nosso coração. Sejamos sóbrios e vigilantes.
Hoje, navegamos em superficialidades; mas que Jesus nos presenteie hoje com o presente da profundidade do seu amor, da sua graça e da sua misericórdia. Em Cristo está a profundidade do amor de Deus. Sejamos totalmente envolvidos por esse amor – por dentro e por fora. E que possamos partilhar desse amor profundo para outras pessoas que navegam na superficialidade da maré contemporânea.
Na profundidade de Cristo, fiquemos em paz. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém.