Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Homem em oração diante das muralhas de Jerusalém.Pregações

Estêvão

Amados irmãos, amadas irmãs,

ser cristão no início da Igreja não era uma tarefa fácil. O Espírito Santo desceu sobre os discípulos, fundou a Igreja e os impulsionou a levar o Evangelho tanto a Jerusalém, Judeia, Samaria e até aos confins da terra. Contudo, isso teria que ser feito com cautela.

Porém, nos perguntamos: quão ameaçadora era a pregação de uma mensagem de amor? Como os perseguidores dos cristãos se sentiam ameaçados com a pregação de uma boa notícia? Do Evangelho? O problema não era a mensagem, nem os mensageiros, mas as mudanças que ela causaria na vida das pessoas.

Elas deixariam de viver sua velha e ultrapassada religiosidade. Não cumpririam as tradições de seus antepassados, pois descobriram o que é viver pela graça de Deus. Fazer a circuncisão ou não já não era algo tão importante; não fazer nada no Sábado não era algo que pudesse dar Salvação às pessoas; fazer sacrifícios uma vez por ano no Templo se tornou algo dispensável, afinal de contas, o sacrifício de Cristo era único e suficiente para todos aqueles que nele creem.

E, quando lemos Atos 7.54-60, encontramos a história daquele que foi, possivelmente, o primeiro mártir da História da Igreja: Estêvão. Pessoas estavam enfurecidas com aquilo que Estêvão anunciava. A pregação de Estêvão doía nos ouvidos de seus perseguidores.

Tudo começa em Atos 6.8-15 em um julgamento. Estêvão é levado diante do Sinédrio, i. é, o Superior Tribunal de Justiça – o STJ – dos judeus. Qual a acusação? O v. 14 nos diz: “porque o temos ouvido dizer que esse Jesus, o Nazareno, destruirá este lugar (o Templo) e mudará os costumes que Moisés nos deu.” Inclusive, diz o v. 11 que algumas pessoas recebiam suborno para falar mal e denunciar a Estêvão. Uma justiça corrompida e injusta.

Porém, o cap. 7 inicia com a defesa de Estêvão. Ele é acusado de deturpar a tradição religiosa do seu povo. Então o que ele diz? Estêvão apresenta um resumo dos livros de Gênesis até Deuteronômio, incluindo, depois, a construção do Templo de Jerusalém.

Estêvão é acusado de querer mudar a religiosidade judaica, mas, estrategicamente, inicia seu discurso contando a mesma tradição. Ele não era um judeu ignorante. Ele conhecia as leis e a história do seu povo. Estêvão deixa isso claro aos seus juízes. Estêvão conta a história de Abraão, Isaque, Jacó, José, Moisés, Salomão.

O Evangelho pregado por Estêvão não é o abandono da história de seu povo; ao contrário, Estêvão quer demonstrar que o mesmo Deus que se revelou a Abraão, Isaque, Jacó, José, Moisés, Salomão agora se revelou na pessoa e obra de Jesus Cristo. Jesus cumpriu toda a lei para que nós pudéssemos ter a Salvação.

Da defesa de Estêvão, porém, o que mais indignou seus ouvintes foram os v. 49-50 onde ele afirma que Deus não habita em casas feitas por mãos humanas. De fato, os judeus acreditavam que Deus habitava somente no templo. Isso, inclusive, dava margem para uma vida alheia à Palavra de Deus onde, no Templo, ela era cumprida, mas, fora dele, era abandonada. Estêvão, como profeta, denuncia isto.

Em sua argumentação, menciona também que os profetas do Antigo Testamento foram mortos por dizerem a verdade. Ou seja: a perseguição sempre existiu àqueles que anunciam a Palavra de Deus. Não é à toa que nem o próprio Deus que veio a nós em Jesus Cristo foi poupado da morte por anunciar aquilo que os ouvidos não queriam ouvir. A verdade dói!

Enfim, quanto mais Estêvão falava, mais as autoridades se enfureciam contra ele. Diz, no nosso texto, no v. 54: “Ouvindo eles isto, enfureciam-se no seu coração e rilhavam os dentes contra ele.” A verdade dói! E o resultado, nós sabemos: Estêvão foi morto por causa do Evangelho.

A perseguição não parou por ali. Com exceção de João, todos os discípulos foram perseguidos e mortos por causa do Evangelho, por anunciarem o amor de Deus! A verdade é que os imperadores não queriam que o povo adorasse outro Kyrios, outro Senhor a não ser eles mesmos. Diz a tradição da Igreja que o apóstolo Pedro foi, inclusive, crucificado de cabeça para baixo.

Os primeiros séculos da Igreja Cristã foram terríveis para os cristãos. De um lado, a perseguição vinha dos judeus que viam os cristãos como uma ameaça à sua religião; de outro lado, a perseguição vinha dos romanos que não queriam outro senhor a não ser o imperador.

Entre os imperadores, temos Nero que chegou a incendiar a cidade de Roma para colocar a culpa do crime nos cristãos. Um historiador da época chamado Tácito, declara:

uma grande multidão foi condenada não apenas pelo crime de incêndio mas por ódio contra a raça humana. E, em suas mortes, eles foram feitos objetos de esporte, pois foram amarrados nos esconderijos de bestas selvagens e feitos em pedaços por cães, ou cravados em cruzes, ou incendiados, e, ao fim do dia, eram queimados para servirem de luz noturna.1

Infelizmente, não parou por aí. Os imperadores Vespasiano, Tito Flávio, Domiciano e ainda outros continuaram a perseguição aos cristãos. Tanto que, mais tarde, o teólogo Tertuliano, o mesmo que formulou a Doutrina da Trindade (hoje é o Domingo da Trindade), irá dizer que “o sangue dos mártires é a semente da igreja”2.

Esta perseguição existe até os dias de hoje. Uma das maiores invenções da fé cristã é a democracia e a liberdade do ser humano. Estes são princípios que foram redescobertos no período da Reforma por Martinho Lutero. No que diz respeito à vida humana, as pessoas possuem liberdade de escolha. Podem escolher a roupa que querem vestir, o carro que querem comprar, a pessoa com quem se casar.

Somente nos países da fé cristã há liberdade religiosa. Não se obriga todos a serem cristãos, mas, pode haver também judeus, muçulmanos, etc. Já nos países não cristãos, não há democracia, não há liberdade; portanto, não há espaço para outra fé a não ser a oficial que todos devem seguir. Do contrário, são denunciados pelos próprios familiares.

Hoje é o Domingo da Trindade, mas também é o Domingo da Igreja Perseguida. De modo especial, queremos orar hoje pelos irmãos e irmãs cristãos/ãs que não possuem liberdade, como nós, de viver a sua fé publicamente.

A Portas Abertas é uma agência missionária que há anos auxilia cristãos perseguidos em suas dificuldades. Traduz e envia bíblias, missionários; também promove capacitações. Nós, aqui em Sapiranga e no Brasil, temos a liberdade para viver a nossa fé; também permitimos que outros vivenciem a sua fé sem interrupção; entretanto, não é assim em todos os lugares. Enquanto comemorávamos livremente a Páscoa aqui neste templo, ao mesmo tempo cristãos que comemoravam a mesma Páscoa eram mortos no Sri Lanka.

Contudo, mesmo livres, será que não temos tido vergonha de defender a nossa fé? De dizer com gratidão que somos cristãos? Que fomos presenteados pelo amor de Deus? Não tenhamos vergonha de testemunhar nossa fé abertamente. Cremos no Deus Pai, Filho e Espírito Santo que nos criou, salvou e santifica. Deus nos impulsiona para viver e testemunhar do Evangelho. Não tenha medo de andar com sua Bíblia por aí, de trazê-la para a igreja.

Hoje queremos lembrar, de maneira especial, da Coreia do Norte. Naquele país, não é permitido outro Senhor a não ser o imperador que lá está. Queremos orar a Deus, pedindo que as portas da Coreia do Norte sejam abertas para que o Evangelho possa ser pregado sem impedimento.

Que o nosso coração possa pulsar forte pela igreja perseguida. Dois mil anos de perseguição não puderam calar a voz do Evangelho do Senhor Jesus Cristo. Foi o agir de Deus na história. Ele continuará agindo. Ele ouvirá nossas orações.

Amém.

Notas e referências

  1. TÁCITO, Annales, 15.44, disponível em: http://www.thelatinlibrary.com/tacitus/tac.ann15.shtml). Acesso em: 15. jun. 2019.

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  2. TERTULIANO. In: Dictionarium sacrum seu religiosum, A dictionary of all religions, ancient and modern - página 60, Dictionarium – 1704.

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