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Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Entrada humilde de Jesus em Jerusalém, com ramos de palmeira.Pregações

Expectativa X Realidade

Amados irmãos, amadas irmãs,

todos nós possuímos expectativas em relação ao futuro. Todos nós queremos que as coisas melhorem, seja na comunidade, na família, na cidade e até no país. Todos nós queremos uma melhor educação para os filhos, segurança pública, qualidade de saúde, qualidade de vida, etc.

O mesmo, por exemplo, quanto ao futebol. Quem não quer que o Grêmio ou o Inter vença a Libertadores da América? Quem não quer que o Brasil seja vencedor da próxima Copa do Mundo?

Hoje à tarde, como sapiranguenses, temos outra expectativa: que a Luiza Barbosa, nossa conterrânea, vença o The Voice Kids.

Ou seja, nós vivemos em expectativas. São os alvos da vida que nos colocam em movimento. Sem alvos, a vida não sai do lugar. Nunca podemos deixar de ter esperança, de sonhar com um futuro melhor.

Os discípulos de Jesus também tinham muitas expectativas quanto ao seu Senhor. Já caminhavam há três anos com ele. Viram sinais e obras fantásticas. Por isso, vislumbravam um futuro na qual Jesus seria seu grande líder político e espiritual. Sonhavam que seu Mestre poderia assumir o trono e governar com Justiça para os pobres. Era assim que tinham entendido a missão de Jesus até aquele momento.

Quando Jesus pergunta aos discípulos o que o povo diz a seu respeito, eles dizem que alguns o comparam a João Batista, outros a Elias e outros a Jeremias (cf. Mt 16.13-20). A expectativa que havia sobre Jesus era enorme. Ele seria, de fato, para os discípulos e para o restante dos seus seguidores, o grande libertador de Israel.

Entretanto, será que o plano de Deus ao enviar o seu Filho ao mundo era só este? Que ele fosse um líder político e um libertador? Que ele fosse um curandeiro e pregador de uma “teologia da prosperidade” como se diz hoje?

Pedro, iluminado pelo Espírito Santo, respondeu que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo. Nem por isso, deixou de negar a Jesus quando a “coisa apertou.” Antes de o galo cantar, Pedro “caiu fora”.

A mulher de Zebedeu chega a pedir a Jesus que seus dois filhos assumam lugares ao lado de Jesus quando este ascender ao poder (cf. Mt 20.21-22). Mal sabia ela o que estava pedindo. De fato, a expectativa que os discípulos tinham em relação a Jesus era a de que ele de fato assumiria o trono político de Israel. Porém, Jesus respondeu à mulher de Zebedeu, dizendo: “Sabeis que os governantes dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo”. Queriam um Jesus Rei (o que de fato ele é). Porém, Jesus preferiu assumir a forma de servo (cf. Fp 2.5-11). Quem quer ser o maior, que parta para a diaconia, para o serviço.

Nos chama a atenção como Jesus começa a demonstrar a realidade diante dos discípulos e diante do restante do povo. Ele não entra na grande e poderosa Jerusalém montado em um grande cavalo branco ou em um tanque de guerra, mas em um jumentinho, filho de jumenta. É assim que ele cumpre a profecia de Zc 9.9.

Os discípulos adoram o seu mestre montado em um jumentinho ainda com grandes perspectivas de que ele assumiria o trono do governo. Quem poderia impedir Jesus? Quem poderia travar o caminho daquele que curou enfermos, expulsou demônios e até ressuscitou alguém que estava morto a quatro dias? A expectativa era enorme.

De um lado, Jesus aceita a aclamação do povo, pois ele é, de fato, o Rei de Israel e quer ser aclamado como tal. Ao mesmo tempo, Jesus corrige falsas expectativas messiânicas. Ele não vem com tanques de guerra e espada na mão, não é um opressor que deve ser temido por ser imprevisível, mas é o príncipe da paz1.

Hoje também vivemos em expectativas. No mundo, há muita disputa de poder:

Donald Trump X King Jo Un;

Vladimir Putin X Theresa May ;

entre outros.

Entretanto, e Deus?

Ele entrou na cidade de Jerusalém montado em um jumentinho! Jesus não quer poder, mas autoridade! Ele é o Cristo! Ele é o Deus-Filho! Ele é a 2ª Pessoa da Trindade que monta em um jumentinho e vai a cruz por amor de nós.

Mesmo assim, os discípulos ainda não compreendiam a missão de Jesus. Quando Jesus está para ser capturado, Pedro, em uma última tentativa, corta a orelha de um soldado querendo começar uma revolução para que seu Rei não fosse preso e condenado. Jesus precisou colar a orelha no lugar para mostrar que seu reino não é deste mundo e que não era promotor de violência, mas de paz.

As expectativas dos discípulos era que Jesus assumisse um trono terreno; a realidade é que seu reino não é deste mundo (Jo 18.36); por isso sua forma de governar seu povo em nada é semelhante aos regimes dos poderosos deste mundo: não vem com visível aparência (veja Lc 17.20-21)2.

A verdadeira missão do Filho, como diz João Ferreira de Almeida, era demonstrar o amor de Deus ao mundo ao morrer na cruz. Jesus veio para a cruz! Jesus frustra a expectativa dos discípulos ao mostrar-lhes o escândalo da cruz! Nós cremos em um Deus crucificado. Não veio nem para ser político e nem para ser um curandeiro ou pregador da prosperidade. Jesus veio para morrer no meu e no seu lugar e fazer aquilo que nós, por nossa própria força, não seríamos capazes de fazer: estarmos, novamente, ligados ao Pai.

Nós vivemos em um mundo caído pelo pecado. O Reino de Deus já se manifesta aqui, mas também ainda não. “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3.16). Essa era a missão do Filho. Os discípulos só foram entender isso após a ressurreição de Jesus.

O Deus que entra na grande Jerusalém montado em um jumentinho rompe com as expectativas humanas de imaginar Deus como um ser poderoso, impetuoso e sem amor ou misericórdia; ao mesmo tempo, elimina a possiblidade de sermos nós próprios “deuses”, pois não ensina a pretensão ao poder, mas à humildade e ao serviço.

É esse Deus humilde que na sexta-feira da paixão será pregado na cruz para que você e eu pudéssemos ter uma nova chance de reconciliação com Deus. Quando fazemos isso, também buscamos a mudar o mundo em amor.

O teólogo alemão Friedrich Nietzsche, a quem gosto muito de ler, diz: “Apenas a morte, essa morte desonrosa e inesperada, apenas a cruz, em geral, reservada somente para os canalhas, apenas esse horribilíssimo fato colocou os discípulos diante das perguntas certas: “Quem foi esse? O que foi isso?”3 Caminharam por três anos com Jesus com expectativas que não correspondiam a missão de Jesus. Mas agora podiam entender!

Por isso, para nós hoje, duas lições práticas:

1) Jesus corrige falsas expectativas:

para que não caiamos em nenhum tipo de reducionismo da sua mensagem, seja em questões políticas (deu um bom exemplo; foi um revolucionário, etc.) ou teológicas (curandeiro, pregador da prosperidade), etc. A missão do Filho era morrer em nosso lugar como prova de seu amor para que, assim, pudéssemos levar seu amor adiante. E como nosso mundo está carente desse amor como autodoação.

2) Jesus aponta o lugar do seu Reino:

que ainda não é deste mundo, mas que não impede ações de melhoramento do mundo já agora. O alvo da nossa esperança está na pátria celestial, mas isso não deve nos impedir de viver de maneira cristã e de querer melhorar o lugar em que nós vivemos. O Reino de Deus não se constrói, mas se recebe! É gratuito e não obra humana!

Que o Deus Jesus Cristo que entrou em Jerusalém montado em um jumentinho nos mostre cada vez mais o caráter misericordioso de Deus. Que esse Deus da cruz possa ser, de fato, o centro do nosso coração e da nossa vida. Que na força do Espírito Santo, Deus transforme nossa vida e o lugar em que vivemos. Que possamos buscar as expectativas corretas a respeito do Reino de Deus em sua Palavra.

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus,

amém!

Notas e referências

  1. Cf. WIESE, Werner. Domingos de Ramos – João 12.12-16. in: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/joao-12-12-16>. Acesso em: 10. abr. 2019.

    ↩
  2. Cf. WIESE, Werner. Domingos de Ramos – João 12.12-16. in: <http://www.luteranos.com.br/conteudo/joao-12-12-16>. Acesso em: 10. abr. 2019.

    ↩
  3. Nietzsche em algum lugar do “O AntiCristo”.

    ↩