PregaçõesFariseus e Escribas
Diz o ditado que as aparências enganam. É o que Jesus confirma no texto do Evangelho que acabamos de ouvir. Em sua época, haviam grupos que queriam ser mais do que eram e, como já ouvimos em prédicas anteriores, queriam saber de Deus mais do que o próprio Deus. Os fariseus e os escribas não eram fáceis de lidar. Criavam leis espirituais que nem mesmo eles conseguiam cumprir. Aliás, estas leis que eles criavam eram para ser cumprida pelos outros e não somente por eles. É muito fácil jogar todo o peso nas costas de alguns poucos.
Os fariseus e escribas queriam ser vistos pelo povo. Mas as aparências enganam. Diz o v. 5: “Tudo o que eles fazem é para serem vistos pelos outros. Vejam como são grandes os trechos das Escrituras Sagradas que eles copiam e amarram na testa e nos braços! E olhem os pingentes grandes das suas capas!” Esta não é uma frase simbólica. De fato, os fariseus e escribas amarravam na sua testa uma caixinha com versículos bíblicos do Antigo Testamento. Eles queriam mostrar como eles são certinhos e são exemplos a serem seguidos. Jesus, porém, não olha para a casca que está para o lado de fora, mas para o interior do ser humano.
Não é á toa que Jesus chama os escribas e fariseus, no v. 27, de sepulcros caiados: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque são semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos mortos e de toda podridão”. As aparências enganam e Jesus sabe muito bem disso. Não adianta mostrar algo por fora que não combine com o que está por dentro, no nosso coração. Pouco adianta nos mostrarmos com uma boa aparência cristã se nosso coração permanece no orgulho e na arrogância.
Nem tudo o que parece, é de fato alguma coisa. Jesus desmascara os fariseus e escribas em seu orgulho. Por mais que os fariseus e escribas procurassem um lugar de destaque, o Reino de Deus é recebido pelos humildes. Para Jesus, não bastava cumprir um monte de leis humanas para haver acesso a Deus e receber a salvação; o que é preciso se resume em uma palavra: amar! A quem? A Deus, ao próximo e a si mesmo. As mulheres e os homens são tornados/as justos/as perante Deus não pelos seus méritos e boa aparência, mas por causa de Cristo que nos dá a sua justiça de graça. Deus nos deu algo que não podemos comprar ou comercializar: a sua misericórdia. Para Lutero, é preciso deixar Deus ser Deus.
Mas também aqui é preciso ter cuidado. Ao pesquisar esta frase na internet, “deixem Deus ser Deus”, encontrei usos (ou abusos) absurdos. Há alguém que diga “não limite o poder de Deus, ele pode lhe dar vitória e cura quando quiseres”.
Parece que o deus da grande maioria dos cristãos é o próprio ser humano. Porque, via de regra, é ele quem quer controlar seu próprio destino. É ele quem quer escolher os seus próprios caminhos. Deus, quando tem palavra, é só para perdoar e abençoar, mas não para guiar. Não planeje sem a orientação de Deus. Deixe Deus ser Deus. Deixamos Deus ser Deus quando não limitamos o seu agir por nossas leis humanas ou por nossos hábitos e vícios religiosos, como faziam os fariseus e escribas.
Cada vez que o ser humano quer chegar a Deus por forças próprias acaba colocando-se no lugar de Deus e não deixa Deus ser Deus. Martin Dreher que palestrou Domingo no Dia Sinodal da Igreja, diz: “Esse é o grande grito da reforma: Vamos deixar Deus ser Deus! Vamos aceitar Deus assim como ele é. Deus assim como ele é encontra sua expressão na descoberta de Lutero que designamos de Justiça de Deus. Deus aceita o ser humano assim como ele é, incondicionalmente. A justiça de Deus é diferente de nossa justiça. Ele transforma a pessoa e torna-a justa. Não exige dela que primeiro se torne justa para depois ser aceita por ele.”
Para os fariseus e escribas, quando mais eles faziam coisas boas, mais eles eram bem vistos diante de Deus; para Jesus, quanto mais Deus é bom, mais bem vistos somos por Deus. Deus não olha para nós por nós mesmos, mas a partir dele mesmo em sua bondade, graça e misericórdia.
Se Deus olhasse para nós por causa dos nós mesmos, que miseráveis seríamos, pois pecamos todos os dias em pensamentos, palavras e ações. Por isso Deus olha para nós por meio da sua bondade. Não fazemos boas obras para sermos salvos, mas porque já somos salvos, fazemos boas obras; não fazemos coisas boas para sermos cristãos, mas por sermos cristãos, fazemos coisas boas. Jesus apresenta uma inversão do nosso jeito de pensar a salvação: não é o que nós fazemos, mas o que Deus já fez em Jesus Cristo. Como tenho dito várias vezes, nós não conseguimos subir até Deus; então Deus desceu até nós em Jesus Cristo. Logo vem o Advento e o Natal onde vamos pensar nisso com ainda mais profundidade.
Quando deixamos Deus ser Deus, entendemos que ser cristão não é lei, mas privilégio. Isso têm suas consequências: vir ao culto não é obrigação, é privilégio. Salmo 122.1: “Alegrei-me quando me disseram: vamos à Casa do Senhor”. Contribuir não é lei, mas privilégio. Atos 2.45: “Todos os que criam estavam juntos e unidos e repartiam uns com os outros o que tinham.” Ajudar na comunidade não é um peso, mas privilégio. Somos privilegiados por termos sido encontrados pela graça de Deus que já agiu antes de nós. Isso os fariseus e os escribas não conseguiram compreender. Não é pela lei, mas pela graça.
Não é mais a utilidade, mas o amor; se antes era a troca religiosa: eu faço algo bom e em troca tenho as bênçãos de Deus, como ainda se prega ainda hoje, agora é o amor; se antes eu queria me auto justificar e provar que sou digno, agora eu entendo que sou digno por causa do Deus que se fez fraco e morreu em uma cruz.
Nosso mundo prega que temos valor enquanto somos úteis. Assim como um copo de plástico é descartado após seu uso, acredita-se que o ser humano também pode ser descartado e excluído quando já não possui mais utilidade para o trabalho, assim por diante. A graça de Deus diz que somos dignos não pela utilidade ou não, mas por causa de Cristo que mostrou a face de Deus. O farisaísmo está mais presente do que nunca. E por vezes nós nem o percebemos. Ainda existem aqueles e aquelas que querem chegar a Deus fazendo isso ou mais aquilo. É preciso deixar Deus ser Deus. Não é guardando o Sábado, se deixando rebatizar ou cumprindo regras que subimos a Deus; ao contrário, é Deus quem desce até nós e nos acolhe mesmo em meio à nossa injustiça. É ele quem faz, não nós.
Vivemos em uma época na qual somos julgados e justificados pela lei do mercado, da beleza, da saúde, da prosperidade e da utilidade. Pecado é viver no insucesso, na doença, na solidão e no infortúnio. O ser humano, muitas vezes, é visto como um ser descartável. A graça para a sociedade de consumo é estar no topo. Graça é viver do consumo, ter bens, ser forte e bem-sucedido.
Por isso cantamos na 2ª estrofe do Castelo Forte: A minha força nada faz, sozinho estou perdido; um homem a vitória traz, por Deus foi escolhido. Quem trouxe esta luz foi Cristo Jesus, o eterno Senhor, outro não tem vigor; triunfará na luta. Os fariseus e escribas cantariam ao contrário: “a minha força tudo faz, sozinho estou bem”. Eles não queriam deixar Deus ser Deus.
Por isso, Jesus diz no texto bíblico que um só é o nosso Mestre e que somos todos irmãos e irmãs. Jesus também pede que a ninguém chamemos de pai. Com isso, ele não quis dizer que não podemos chamar nossos pais de pai, mas que reconheçamos que acima de nossos pais terrenos está o Pai Celestial, ou seja, aquele que está nos céus.
Aqui encontramos algo muito bonito do Reino de Deus. Jesus é o Filho de Deus. Jesus, ao se encarnar e se tornar um homem, se tornou nosso irmão. Bom, se Jesus é nosso irmão, então o seu Pai é também o nosso Pai. Pelo único Filho legítimo e gerado de Deus, somos acolhidos/as como Filhos/as de Deus pela sua graça e amor. Nós, cristãos e cristãs, fazemos parte da família de Deus. Ele nos acolhe com graça e amor assim como o pai da parábola do filho perdido acolheu seu filho que havia se desviado.
Deus nos carrega nos seus braços, apesar e em meio às nossas imperfeições e aos nossos insucessos. Deus nos abraça na cruz de Cristo. O perdão sempre é incondicional, porque recebemos perdão incondicionalmente. Assim, trilhamos a vida cristã sendo justos e pecadores, por causa de Cristo.
Não precisamos imitar os fariseus e escribas que se consideravam os certinhos para termos a salvação; não precisamos fazer isso ou mais aquilo para sermos salvos. Ao contrário, já somos salvos pela graça de Deus. Por isso praticamos o bem neste mundo confuso. Amós 5.14: Busquem o bem e não o mal para que vivais.
Nosso único guia é Cristo e não outro. Seguindo a ele, seguimos o caminho para o Reino de Deus. O maior no Reino de Deus não é aquele que é servido, mas aquele que se dispõe a servir. Não por lei, mas por privilégio, em gratidão. Marcos 10.45: “O próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos”. Nosso agir no mundo é motivado pela bondade e graça de Deus.
E nosso texto termina dizendo: “Quem a si mesmo se exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado”. Aqui Jesus não apresenta uma receita para que sejamos exaltados como se para conseguir a exaltação, tenho que parecer humilde. Isso é viver pela lei, não pela graça. Ao contrário, somos naturalmente humildes por causa da humildade de Cristo que foi obediente até a morte e morte de cruz (Fp 2.8). O serviço humilde não é caminho para reconhecimento, senão estaremos imitando os fariseus e escribas que queriam ser imitados por todo o povo.
Os fariseus e escribas levaram um baita puxão de orelha, pois seus corações eram duros e não conseguiam compreender o amor e misericórdia de Deus, reveladas em Jesus Cristo, o Salvador. Que Deus possa encontrar a nós com um coração amoroso para receber a sua palavra de graça. Não é o que nós fazemos, mas o que Deus fez por nós.
Termino contando uma história:
Ciríaco não tinha o que fazer; por isso foi visitar o compadre Nemésio. Quando chegou à sua casa, viu que Nemésio estava trabalhando na horta. Tinha arrumado tudo certinho, a terra, os valos, as ferramentas. Ciríaco não quis distrair o compadre. Apoiou-se na cerca e esperou até que ele terminasse o serviço. Foi esquisito o que enxergou. Nemésio tinha feito uns valos compridos e altos. O compadre caminhava uns metros, fazia um buraco com o pé. Colocava a mão no bolso, pegava alguma coisa, colocava-a no buraco e então, com o pé, fechava o buraco. Depois, voltava a fazer tudo isso uns metros adiante. Esteve trabalhando desse jeito umas duas horas sem notar a presença do Ciríaco. Quando terminou, viu o compadre e o cumprimentou:
– Oi compadre, o que fazes?
– Estava esperando que você terminasse seu trabalho. Mas o que estava fazendo?
– Você viu: estava semeando.
– Semeando? O que você estava semeando?
– Melões.
– Melões? Olha que estive observando você o tempo todo. Eu vi que você fazia quase tudo certinho, mas não vi você colocar uma semente no buraco.
– Ah, é que esses são melões sem semente!
Nemésio acreditava que, para nascerem melões sem sementes, tinha que fazer tudo igualzinho como se semeasse melões normais. A única diferença era não colocar a semente. Talvez por esse simples detalhe nada cresceu!
Podemos fazer tudo certo, mas se não deixarmos Deus ser Deus, tudo está perdido. Se não colocarmos a semente, a planta não nasce.
E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém.