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Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Cesta com alimentos da colheita e mãos repartindo um pão diante de um campo.Pregações

Festa da Colheita

A Festa da Colheita rememora uma prática bem antiga do povo de Israel. Quando colhiam seus grãos, trigo e cevada. Com isso, o povo aprendia a agradecer a Deus pela colheita que tiveram. A festa da colheita era um modo de gratidão a Deus pela terra fértil e pelas boas colheitas. Haviam, inclusive, leis que determinavam como os rituais da festa deveriam ser celebrados. A cerimônia era realizada no Templo de Jerusalém. Primeiro, com uma foice, se ceifavam as espigas do milho e da cevada. Diz Deuteronômio 16.9: Contem sete semanas a partir da época em que vocês começarem a colheita do cereal. Assim, o rito e a colheita duravam sete semanas que, na Bíblia, simboliza e representa o que é perfeito, o que está completo e resolvido. Hoje queremos lembrar 4 coisas importantes relacionados à Festa da Colheita:

1 DIACONIA

É importante lembrar a recomendação que a própria Palavra de Deus dá em favor de desfavorecidos da sociedade. Levíticos 23.22 apresenta a seguinte lei: Quando fizerem a colheita da sua terra, não colham até às extremidades da sua lavoura, nem ajuntem as espigas caídas da sua colheita. Deixem-nas para o necessitado e para o estrangeiro. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês. Ou seja, as espigas de milho que sobravam deveriam ser deixadas para que as pessoas mais necessitadas pudessem pegá-las e terem algo para comer. Temos, aqui, o cuidado de Deus para com aqueles que não tinham o que comer. A diaconia, isto é, o serviço cristão, é algo destacado desde o começo da história de Deus com o seu povo. Os restos eram deixados à órfãos, viúvas e estrangeiros. Como estes não tinham como se manterem a si mesmos, tinham o direito de colherem o que restava das colheitas. Deus cuida de todos do seu povo, também daqueles que não possuem muitas coisas.

Em seguida havia uma peregrinação do povo até o local de culto, o Templo. Lá eram oferecidos sacrifícios a Deus por sua generosidade e boa colheita. Eram maneiras de agradecer a Deus pelas bênçãos recebidas. Ao mesmo tempo, esta celebração fortalecia a fraternidade entre os produtores. Eles criavam uma consciência de unidade diante de um único Senhor que lhes provém o que é necessário para viver. A Festa da Colheita era um lugar de comunhão, amor, unidade e fraternidade entre os judeus. Deus dava à terra sua fertilidade e fazia dela brotas as plantas que dariam alimento ao seu Povo. Quando alguém tinha uma colheita muito grande, dava boa parte da sua produção ao Templo de Deus onde eram organizadas e distribuídas para os pobres. A Festa da Colheita trazia também uma grande lição de serviço e solidariedade com aqueles que precisavam.

2 TERRA

Desde o Antigo Testamento, o ser humano tinha um convívio com a terra dada por Deus. Conforme o relato bíblico, o homem foi formado da terra e, portanto, tem uma ligação muito forte com ela. Da terra o ser humano passou a tirar seu alimento que mantém a vida até hoje. Do trabalho na terra vem o alimento para a mesa. Da terra em que Adão foi formado Deus faz ressurgir a vida para dar alimento ao mundo. A terra passa a ser um símbolo muito bonito na Bíblia. Ao mesmo tempo em que ela tem o sentido negativo em sepultamentos, pois o corpo é enterrado, ao mesmo tempo o símbolo da terra é positivo e bonito, pois é dela que mantemos a vida. Simbolicamente, fomos formados da terra e por isso temos uma ligação muito forte com ela. Pena daqueles que vivem em grandes centros onde o asfalto e o calçamento impedem as pessoas de terem contato com a terra.

Eu me lembro que sempre gostava muito de brincar na terra. Pegava a enxada, fazia estradas, fechava valos, assim por diante. Ainda mais se tivesse um barro pra se divertir um pouco. O ruim era quando a mãe ou o pai viam a sujeita em que eu me encontrava, aí a coisa ficava feia, porque, afinal de contas, lavar uma roupa cheia de barro não é nada fácil. Mesmo assim, ter um contato com a terra é algo muito bom. Embora seja ruim lavar as roupas, há pesquisas que mostram como é saudável deixar as crianças terem contato com a terra. O corpo delas criam defesa para diversos tipos de infecções. É uma coisa muito interessante.

Após adultos, continuamos tendo contato com a terra por meio do plantio, da colheita. Deus faz com que a terra brote os frutos e nos conceda o que precisamos para viver. No Antigo Testamento, é muito interessante que a terra fértil significa a presença de Deus. Já a terra infértil simboliza a ausência de Deus. Isso é o deserto. Um lugar seco, grande, perigoso, com um imenso calor ao dia e um imenso frio à noite. O deserto é um lugar para poucos. E, na linguagem bíblica, o deserto significa a ausência de Deus. Não é a toa que Jesus tenha sido tentado pelo Diabo no deserto. É um lugar ruim. E a Bíblia aplica esta linguagem também à vida espiritual. Uma pessoa sem Deus vive um deserto em sua vida. Ela não tem nada, não tem visão de futuro, não tem como se manter viva. Mas Deus pode transformar desertos em fontes de água viva. Assim diz o Salmo 107.33-43: Ele transforma os rios em deserto e as fontes em terra seca, faz da terra fértil um solo estéril, por causa da maldade dos seus moradores. Transforma o deserto em açudes e a terra ressecada, em fontes. Ali ele assenta os famintos, para fundar uma cidade habitável, semear lavouras, plantar vinhas e colher uma grande safra. Ele os abençoa, e eles se multiplicam; e não deixa que diminuam os seus rebanhos. Quando, porém, reduzidos, são humilhados com opressão, desgraça e tristeza. Deus derrama desprezo sobre os nobres e os faz vagar num deserto sem caminhos. Mas tira os pobres da miséria e aumenta as suas famílias como rebanhos. Os justos vêem tudo isso e se alegram, mas todos os perversos se calam.

3 GRATIDÃO X DESPERDÍCIO

É de Deus que vem a bênção da nossa colheita. É de Deus que vem a produção dos nossos alimentos. Entretanto, ainda há muita coisa a ser resolvida. O problema não é a produção em alimentos. Pesquisas mostram que há alimento de sobra para alimentar toda a população mundial. Há alimento de sobra. O problema é o desperdício. Uma pesquisa publicada pela Universidade de São Paulo em 2013 mostra que dos 4 bilhões de toneladas de comida produzidos no mundo, 50%, ou seja, 2 bilhões de toneladas não chegam a boca de alguém porque são desperdiçados. Isso é muito sério. Deus nos deu terras férteis e a Festa da Colheita é o momento de agradecermos pelas bênçãos que Deus nos concedeu. Mas também precisamos pensar nossas atitudes quanto ao alimento que Deus nos concedeu. Ele pode transformar um deserto em um manancial de água. Ele tem dado boa produção a nós. Neste ano se colheu muita soja, por exemplo, o que baixou muito o seu preço. Mas, de outro lado, o desperdício é algo que devemos repensar. O que fazemos com o alimento que Deus nos deu? Somos empurrados por um consumismo muito grande e por vezes compramos mais do que precisamos. Isso gera desperdício e desperdício é ingratidão pelo que Deus nos concedeu. Muitos passam fome porque nós jogamos alimentos bons no lixo. Precisamos repensar nossa ética alimentar. Se somos cristãos, temos que ter coerência com aquilo que cremos. Podemos festejar a Festa da Colheita mais tranquilos se sabemos o que temos feito com nossos alimentos. Eu me incluo. Eu também preciso reaprender a não jogar alimentos fora. É desperdício. Deus nos dá tantas bênçãos, vamos aproveitá-las de maneira ética, consciente e humana? Graças a Deus, temos alimento o suficiente. Uma vida grata a Deus é uma vida que poupa e cuida da criação de Deus.

Temos uma casa comum chamada Terra. Um cristão cuida daquilo que Deus lhe deu de presente e cumpri a sua ordem de guardar e cultivar seu jardim. A terra é boa. A terra produz. A terra é de Deus e nós somos os seus cooperadores na tarefa de produzir de maneira justa. Não desperdiçar, mas aproveitar o necessário. Não cair no consumismo de querer mais e mais e nem sabemos porquê, mas consumir de maneira consciente. Era assim que o Povo de Deus, Israel, aprendeu a viver em gratidão a Deus, embora por vezes eles também reclamassem muito. Gratidão não é apenas uma palavra. Gratidão é uma ação diante de Deus e em favor do próximo.

Deus é fiel. A Festa da Colheita celebra a fidelidade de Deus que nos tem concedido tudo o que precisamos para viver e até muito mais do que realmente necessitamos. Em fidelidade a ele, podemos agradecer com ações concretas com o nosso alimento. É tempo de festa, mas também é tempo de olharmos para aqueles que precisam.

Deus prometeu no conhecido Salmo 23: O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará. Deus não está prometendo prosperidade. Deus não está prometendo riquezas sem fim. O que ele promete é que não nos faltará o necessário para viver. Creiamos nisso. Deus é capaz de cumprir o que prometeu. Vamos notar aqueles que precisam de ajuda e não apenas esperamos que eles venham ao nosso encontro.

4 COLHEITA CELESTIAL

Deus veio ao nosso encontro na pessoa e obra de Jesus Cristo. No Novo Testamento, temos um símbolo de colheita que é um dos mais bonitos de toda a Bíblia. Assim diz João 12.24: Digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto. Temos a colheita da vida eterna. Esta será a melhor Festa da Colheita de todas. Assim como uma semente é sepultada para gerar uma planta viva, Cristo morreu e ressuscitou para nos dar vida nova e salvação. Ainda estamos no tempo da Páscoa e a Festa da Colheita tem a ver com isso também. O apóstolo Paulo nos diz em 1 Coríntios 15.42-44: Pois assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder. Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual. Esta será a colheita de Deus para a Salvação. Claro que á muito joio no meio do trigo, mas só Deus sabe qual é cada um. Importante é cremos que mesmo mortos e sepultados, seremos levados para uma nova existência em vida, e vida eterna. Isso não deve nos impedir de termos atitudes cristãos neste mundo. Somos cristãos, sejamos coerentes. Mas também aguardemos fielmente o Dia do Senhor onde habitaremos para sempre com o Senhor.

Diz Martinho Lutero sobre a ressurreição: Assim, devemos incutir em nossos próprios corações que quando formos enterrados no chão, nós nos levantaremos novamente e cresceremos numa nova existência e vida eterna. (...) Quando morremos, não estamos mortos. Em vez disso, somos sementes plantadas no chão para o verão vindouro. O cemitério não é um monturo para os mortos, mas um campo cheio de pequenas sementes, as quais são chamadas sementes de Deus. Um dia elas florescerão outra vez e se tornarão mais bonitas do que se possa imaginar. Esta será a maior e melhor Festa da Colheita de todas.

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o teu coração e a tua mente em Cristo Jesus, amém.