Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Cruz de pedra em um cemitério tranquilo com flores e luz do amanhecer.Pregações

Finados

Amados do Senhor, hoje queremos lembrar da cruz de Cristo como símbolo de consolo. Por onde quer que andemos, sempre haverá uma cruz. Às vezes na torre ou no altar de uma igreja, ou nos túmulos de um cemitério, ou na parede de uma casa ou comércio, ou pendurada no pescoço de uma pessoa. Certamente que a cruz é o símbolo universal da fé cristã.

Precisamos notar que um instrumento de tortura se tornou um símbolo de esperança. Um símbolo que ajuda a nós, cristãos e cristãs, a compreendermos o amor de Deus. Com uma travessa, uma deitada e outra de pé, uma se estende sobre a outra e entra em contato com o amor de Deus; a outra se eleva a santidade de Deus; uma travessa representa a largura do seu amor, e a outra a altura de sua santidade.

Deus sempre nos reúne debaixo da cruz, em frente da cruz ou até debaixo do sinal da cruz, no inicio e no final do culto. Também debaixo da cruz realizamos batismos, casamentos, orações e bênçãos; também despedimos e entregamos pessoas falecidas aos cuidados de Deus pelo sinal da cruz. Nela morremos e ressuscitamos.

A cruz de Jesus Cristo nos apresenta uma dupla realidade: primeiro, a do sacrifício do Cordeiro de Deus para o perdão de nossos pecados; em segundo, a vitória de Cristo sobre a morte.

Não é à toa que hoje estamos cantando hinos de Páscoa. A morte é algo natural da vivência humana e todos sabemos que um dia iremos morrer. Por isso, não precisamos nos preocupar com a morte, pois ela é um fato. Quer queiramos ou não queiramos, ela chegará a todos. É por isso que devemos nos preocupar com a vida, ou seja, como estou vivendo enquanto a morte não chega? Amados de Deus, é preciso viver em paz para morrer em paz.

Dentre a comunidade dos Coríntios havia muita confusão quanto ao que vêm após a morte. Havia aqueles que pensavam que o corpo se entrega à terra e que a alma logo sobe para o céu; outros diziam que com a morte tudo termina e que não há nada depois; Paulo têm a difícil tarefa de explicar aos dois grupos que ambos estão em erro.

Por isso, o apóstolo aponta que se ao morrermos, apenas nossa alma vai ao céu e o corpo se desmancha na terra, então teríamos que perguntar pelo corpo de Jesus, pois só a sua alma teria ido par ao céu. Ao contrário, nós confessamos a ressurreição do corpo. Cristo não ressuscitou apenas com uma alma ao céu. O seu corpo foi ressuscitado, inclusive, com as marcas da cruz que possibilitaram Tomé reconhece-lo. Por vezes, a mídia coloca em nossa mente um imaginário sobre a morte que não possui ligação nenhuma com a ressurreição de Jesus Cristo dos mortos. Precisamos ter cuidado.

Já para o segundo grupo, os que dizem que não há nada após a morte, Paulo, de uma maneira pastoral e graciosa, aponta que se os mortos não ressuscitam, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé. Se existe fé cristã é por causa da crença de Cristo venceu a morte; se Cristo não tivesse ressuscitado, sua mensagem até continuaria sendo importante, mas não teria o mesmo impacto. Pois a esperança que ele trouxe não foi uma esperança simplesmente anunciada, mas que ele provou ser a verdade através da sua morte e ressurreição. A ressurreição de Jesus Cristo é, para Paulo, o carimbo que dá validade ao seu anúncio.

A morte não é a separação do corpo e da alma e nem mesmo é o fim de nossa existência. Ao contrário, a morte é o repouso na sepultura até o dia da Ressurreição dos mortos. Esta é a nossa esperança.

No dia de hoje, há muitas pessoas em bancos de igreja ou em corredores de cemitérios com corações cheios de saudade de pessoas queridas e amadas que partiram há muito ou pouco tempo. Eu mesmo no dia de hoje lembro-me com ainda mais intensidade do meu pai que partiu para o descanso em Agosto do ano passado.

Cada vez mais tenho em mente a convicção de que a ressurreição de Jesus é um imenso consolo no processo de luto e aceitação da morte. Todos nós perdemos pessoas queridas; lembremos também de Maria, mãe de Jesus, Maria Madalena e João aos pés da cruz. Que cena horrível uma mãe ver o próprio Filho morrer daquele jeito. Uma família que também passou pelo luto. Entretanto, no terceiro dia, Maria é a primeira a ouvir a boa notícia da ressurreição, sendo desacreditada pelos homens. Jesus Cristo tem a última palavra sobre a vida e a morte. A morte não tem poder acima daquele que é o autor da vida. A cruz vazia lembra sempre de novo que Cristo venceu a morte. Seu túmulo está vazio.

Podemos olhar ao nosso redor. Quantas sepulturas, não é mesmo? Quantos entes queridos que nos deixaram em um mar de lembranças e saudades. Paulo deseja alimentar a nossa esperança para que confiemos em Deus e creiamos que, de fato, a vida não termina na morte. Ao contrário, em Cristo, a vida dura para sempre.

É por isso que aguardamos novos céus e nova terra, o Reino de Deus, onde as ameaças de morte e luto já não terão mais lugar, pois estarão diante daquele que é o Senhor da vida. Quando nos desesperarmos por causa da morte, podemos lembrar-nos da ressurreição de Cristo e nele encontrarmos verdadeiro consolo.

Martinho Lutero diz no seu Sermão sobre a preparação para a morte: “Acontece da seguinte maneira: deves ver a morte na vida, o pecado na graça, o inferno no céu. Cristo tira de ti o teu pecado na cruz, o carrega por ti e o afoga — isso é graça e misericórdia. Crer firmemente nisso, tê-lo diante dos olhos e não duvidar disso — é isto que significa atentar na imagem da graça e gravá-la.”

E continua: “Jesus não apenas venceu o pecado, a morte e o inferno em si mesmo e nos conclamou a crer nisso, mas, para nosso maior consolo, sofreu e venceu, ele mesmo, a tribulação que essas imagens nos causam. Ele foi atribulado pela imagem da morte, do pecado e do inferno tanto quanto nós o somos.”

Na morte nos despedimos dos relacionamentos deste mundo. Por um tempo, Deus oculta nossa vida na sepultura. Mas promete que não permaneceremos ali para sempre. O melhor está por vir. Basta que creiamos na ressurreição de Jesus Cristo e naquilo que Deus prometeu.

Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé. Se dissermos que os mortos não ressuscitarão, então estamos afirmando também que Cristo não ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou, podemos correr pelo mundo com lágrimas de desespero, pois não há nada que possa nos consolar.

Lutero diz: “Também não devemos temer tanto a morte, mas louvar e amar tão-somente a sua graça, porque o amor e o louvor aliviam a morte em muito”. Todos nós hoje nos lembramos de pessoas especiais e que deixaram um vazio na nossa existência, mas também lembranças em nossos corações. A vitória de Cristo sobre a morte nos dá a certeza de que os que nele morreram também vencerão a morte.

Isso não quer dizer que não iremos sentir a dor da perda. Nós sentimos e, realmente, dói muito. Mas a nossa dor está ancorada na ressurreição de Cristo e na esperança da nossa própria ressurreição. Nós choramos, nos entristecemos, sentimos falta, mas também confiamos na ressurreição mesmo que ainda não a vemos. É poder de Deus e a ele pertence. Ninguém está impedido de lembrar, chorar, se entristecer; isso é parte do nosso jeito humano de lidar com a perda; mas também confessamos que a morte não é o ponto final da nossa existência e nem daqueles que já partiram. A Palavra de Deus é fonte imensurável de consolo. E ela testemunha: Cristo ressuscitou.

Ao mesmo tempo, quando cremos na ressurreição, também agimos a favor da vida em nosso mundo. Por isso, não podemos nos calar diante daqueles que querem apenas a destruição e a morte. Promovemos vida ao cuidarmos da criação de Deus, ao acolher o necessitado, ao abraçar o enlutado, assim por diante. A cruz de Cristo é o sinal de que Deus está presente e sofre com o sofredor ao mesmo tempo em que lhe dá vida através da esperança.

A vida não termina na morte. A morte não é o fim de tudo. As promessas de Deus são fiéis e verdadeiras e se cumprem no seu devido tempo. Enquanto o dia da ressurreição não chega, ele não nos abandona em nosso sofrimento, mas na força do Espírito Santo nos consola e motiva a vivermos em paz, fé e esperança. Cristo ressuscitou primeiro. Um dia os que já partiram e também nós seremos ressuscitados.

A cruz de Cristo continua sendo símbolo de consolo a todos os cristãos e cristãs. Ela é o símbolo da nossa fé em Deus. A cruz já não é mais vista somente como símbolo de tortura e morte, mas anuncia a vida e ressurreição além do túmulo.

Termino citando um poema escrito pelo gaúcho Mário Quintana:

Na mesma pedra se encontram,

conforme o povo traduz,

quando se nasce - uma estrela,

quando se morre - uma cruz.

Mas quantos que aqui repousam

hão de emendar-nos assim:

"Ponham-me a cruz no princípio...

E a luz da estrela no fim!"

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes em Cristo Jesus, amém.