Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Pessoas compartilhando o peso de uma carga.Pregações

Lutero, Staupitz e levar as cargas uns dos outros

Fardo, peso, carga pesada. Se podemos aprender algo sobre isso é com as formigas. São seres da criação tão pequenos, mas capazes de suportar grandes pesos e transportá-los por metros. Tudo isso para que ao chegar o inverno não falte comida no aconchego do ninho. As formigas trabalham, trabalham e trabalham. Elas não vão ao sindicato reclamar, elas não protestam, não reivindicam seu direito de folga. Pelo contrário: fazem tudo o que a formiga-rainha manda. Enquanto a formiga-rainha permanece bem no ninho, as outras trabalham, trabalham, trabalham. “Quanta injustiça social, diríamos”. As formigas fazem isso não por que podem escolher, mas por que é de sua natureza. De grão em grão elas formam o ninho, de pedaço em pedaço alimentam sua habitação.

A comunidade cristã na região da Galácia, formada por gentios, é inconstante. Fundada por volta de 48 ou 55 d. C., aparentemente uma heresia judaica invadiu a igreja tornando-a legalista. Paulo chama os gálatas de inconstantes afirmando que eles não seguem o evangelho de Cristo. Paulo chega a dizer que eles perverteram o evangelho. A partir do cap. 2, o tema transversal da carta é a lei. O homem não é justificado por obras da lei, mas mediante a fé em Cristo Jesus. Nosso velho homem está crucificado com Cristo. Já não somos nós que vivemos, mas Cristo vive em nós. Pelo cumprimento da lei ninguém pode ser salvo, pois o justo viverá pela fé (6.11). Paulo não é inimigo dos gálatas. Contudo, querer se auto-justificar pela lei significa desfazer o escândalo da cruz. Por isso Paulo afirma que toda a lei se cumpre em um só preceito: amarás o teu próximo como a ti mesmo (5.14). O fruto do espírito é o amor: contra isto não há lei! Palavras estas escritas por Paulo de próprio punho.

O texto lido aponta algo que os gálatas devem fazer. Já que os gálatas gostam de ordens, Paulo usa um imperativo: Levai as cargas uns dos outros. O termo original significa também pegar. Já a expressão uns dos outros é um genitivo: os gálatas devem tomar as cargas do outro como uma propriedade própria. Fazer das cargas do outro as próprias cargas. Tomá-las como minhas. Os gálatas devem ter pensado: Paulo enlouqueceu. Há tantas coisas que podemos ter como posse, mas justamente devemos pegar as cargas do irmão. É.

Ninguém poderia arriscar dizer que não tem cargas para levar: pecados, problemas relacionais, excesso de estudo ou trabalho, idade. A própria vida pode se tornar um fardo. Podemos ter vontade de dormir e não acordar mais. Talvez você não saiba: ser cristão não significa estar prevenido de carregar os pesos da vida. O próprio pecado é uma maldição que nos persegue dia após dia. O pecado é um peso diário, um fardo insuportável.

Paulo deseja aconselhar os gálatas. O texto inicia afirmando “se alguém for surpreendido nalguma falta.” O pecado é a doença humana. Entretanto, há remédio: “corrigi-o com espírito de brandura”. Quem corrige deve se precaver para que também “não seja tentado.” Não é difícil repetir o pecado alheio. Quem acusa o pecado alheio deve cuidar de si mesmo para não cometer o mesmo erro. Nisto vem a ordem: levai as cargas uns dos outros por que assim cumprireis o que? A lei de Cristo. Já que os gálatas tem uma queda, um vício pela lei, então Paulo decide falar com eles de lei. Levar o fardo alheio é cumprir a lei de Cristo. Mas, qual lei? A lei do amor. O amor ensinado e praticado por Jesus até às últimas consequências, até a cruz. Contra o amor não há lei, pois toda a lei se cumpre no preceito amarás o teu próximo como a ti mesmo (5.14). O amor não vê somente a si mesmo, o amor vê o outro. Foi isso que Jesus ensinou e fez. Jesus não disse apenas “eu te amo” no sentido “eu te quero bem”. Não, ele amou na prática. Jesus não trouxe um discurso do amor, mas o ato de amar. Amor que não podemos ter ou produzir por nós mesmos, mas que ele deu a nós na sua cruz. Levar as cargas uns dos outros é um o amor ato.

O Novo Testamento não nos ensina a vivermos somente para nós mesmos, pelo contrário, a vida sempre é uma vida a serviço do outro. O pronome uns aos outros é frequente. Uns aos outros é a maneira deixada por Jesus para que a igreja viva o evangelho. Mas uns aos outros não é um fim em si mesmo: depende do verbo que lhe dá sentido: amar, servir, consolar, suportar, sujeitar-se, edificar, acolher, consolar, exortar, etc. O amor cristão não vive para si e não age somente para si, mas a ação é sempre recíproca: de uns para com os outros. Esta é a lei que Jesus deixou e este preceito tão básico que norteia a vida cristã no Novo Testamento. Já que os gálatas desejam tanto cumprir leis, Paulo deixa a eles a lei do amor.

O mesmo Paulo afirma em 1 Co 13.7: o amor “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” Levas as cargas uns dos outros é dar suporte em momento de fragilidade. Mais simples que isso: levar as cargas uns dos outros é amar. Isso não se faz para a salvação; ela já está consumada. Levamos as cargas uns dos outros por que assim fez e ordenou Cristo.

Mas temos também o v. 5. Poderíamos ficar até o v. 4, pois o v. 5 parece contradizer tudo o que foi dito até aqui. Será? Devemos levar as cargas uns dos outros ou carregarmos tudo sozinhos? Paulo não está contradizendo o que disse. Aqui revela-se o cuidado pastoral de Paulo. Voltemos às formigas: estes pequenos animais dividem muito bem as cargas que tem para levar. Às vezes uma tenta levar algo um pouco maior, é verdade, mas já imaginou se uma só formiga tivesse que carregar tudo? Impossível. Assim é na vida de fé. Devemos levar as cargas uns dos outros, mas não podemos esquecer da nossa própria carga. Os cristãos dão suporte uns aos outros, contudo o pecado sempre é individual. Irmãos na fé podem nos ajudar a carregar, mas sempre haverá algo que será nosso dever levar. Os cristãos cuidam e carregam uns aos outros, mas isso não cancela a nossa própria responsabilidade.

Todos pecaram e carecem da glória de Deus. É inegável que todos tenhamos fardos a ser carregados. É disto que surge a confissão. Quanto mais achamos que podemos esconder nosso pecado de Deus e do próximo, mais ele tende a pesar em nossas costas. Quanto mais acharmos que podemos carregar o mundo sozinhos, tanto mais iremos perceber que não aguentamos tanto peso. É preciso confessar.

Há pouco tempo fiquei espantado ao conversar com um pastor de nossa igreja. Ele afirmou que a grande maioria dos pastores não possuem um confessor. Há uma pesquisa que afirma que apenas 10% dos pastores buscam outra pessoa para confessar seus pecados. 90% prefere levar as cargas sozinhos.

Disto queremos aprender algo com o reformador Martinho Lutero. Sábado comemoramos 498 anos da fixação das 95 teses na porta do Castelo de Wittenberg. Contudo, muitas águas correram antes disso.

Lutero possuía um confessor chamado Johann Staupitz. Como sabemos, Lutero decidiu estudar Teologia para ser salvo. A teologia da época afirmava que a salvação era um processo que acontece dentro do ser humano a medida em que ele se aperfeiçoa. Por isso, a salvação seria algo conquistado totalmente por obras.

Lutero era inquieto quanto a isso. Seus pecados o atormentavam de tal maneira que nem mesmo estudar teologia solucionava o problema. O próprio Lutero mencionou: “eu me torturava com orações, jejuns, vigílias e congelamento; só a geada podia ter me matado. Jejuei quase até a morte, pois muitas vezes passava três dias sem tomar uma gota de água ou aceitar um pecado de comida. Eu levava o jejum muito a sério.” Lutero sofria por carregar um peso que já não podia suportar. Tudo o que ele fazia para tirar o peso só o aumentava. Além de Lutero, quem sofria com suas confissões era seu confessor, Staupitz. Staupitz chegou a dizer para Lutero que na verdade ele se flagelava demais e nem tinha um pecado que valesse a pena como matar os pais, blasfemar ou adulterar. Por isso Staupitz recomendou que Lutero fizesse uma lista na qual haviam pecados de verdade. Staupitz chegou a pedir para Lutero parar de fazer de cada peido um pecado. Lutero era um irmão difícil e transformava tudo em pecado. O que Staupitz faz? O encaminha para o doutorado. Isso até é engraçado, Lutero já tinha crises e seu mentor espiritual o encaminha para um doutorado. Foi no doutorado que Lutero redescobriu o evangelho. Isto aconteceu a partir de um sábio conselho de um homem de Deus. Lutero descobriu que Deus levou suas cargas na cruz e que ele pode viver pela fé. Staupitz era professor de Bíblia em Wittenberg e permitiu que Lutero assumisse seu lugar. Lutero estudou a Bíblia com profundidade e de 1517-1518 estudou Gálatas. Não é à toa que o próprio Lutero tenha escrito dois comentários para esta carta.

Para Lutero, o texto de Gálatas 6.1-5 é consolador. Para ele, levar as cargas uns dos outros é um preceito humano. Lutero também afirma que “o amor ensinado por Jesus não é simplesmente querer bem o outro, mas é amor ação. Este amor carrega aquilo que é penoso e que não se quer carregar com prazer.”. Para Lutero, “o amor é doce, benigno, paciente, não em receber, mas em dar.”

Assim como Paulo afirma aos gálatas, Lutero aprendeu a não carregar seus fardos sozinho: ele tinha um confessor. Eu não estou falando a você como alguém que entende do assunto. Pelo contrário, eu mesmo já lutei muito com a confissão. Por vezes lutei contra o pecado apenas para não precisar o confessar: “eu pequei; se eu não melhorar até semana que vem, então vou procurar alguém para confessar o pecado.” Deus nos perdoa, pois ele assumiu e matou o pecado na cruz. Contudo, creio não ter ouvido coisa melhor do que “William, teus pecados estão perdoados.” Não estamos livres para pecar de novo, mas para recomeçar.

Talvez não confessemos os pecados por que temos medo. Uma das coisas que mais faltam hoje em dia são pessoas confiáveis. A fofoca toma conta também das igrejas e isso é trágico. Encontrar alguém confiável é difícil, mas estas pessoas existem e talvez estão bem perto de você. Ao mesmo tempo, devemos avaliar se nós somos confiáveis para que pessoas venham confessar seus pecados a nós. Guardamos ou espalhamos para todo mundo?

Carregar o fardo do outro e/ou ser carregado: um preceito e um cuidado que Deus deixou para nós, para agirmos assim de uns para com os outros. Não sejamos teimosos e egoístas ao ponto de não conseguirmos nem mesmo compartilhar nosso peso. Aprendamos com Paulo, com Staupitz, com Lutero. Vamos buscar ajuda, confessar o pecado. Faça a experiência, veja como é. Vamos buscar nosso irmão que sofre ao invés de esperar que ele venha pedir ajuda. O amor cristão é atitude, é ação. Nós amamos porque Deus nos amou primeiro.

Confie em Deus, segura na mão dele. Se carregar o fardo sozinho está difícil, procure alguém de confiança para conversar. Se alguém vier confessar pecados para você, deixe isso entre vocês e Deus. Ao fazer isso, seguimos o exemplo do próprio Cristo que na cruz carregou os fardos do mundo inteiro. Muitos traumas e problemas emocionais podem surgir pelo fato de não revelar o peso que está nas costas. Amado, Deus te ama. Se queres uma prova disso, olhe para a cruz: a loucura que nos cura.

E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará o teu coração e a tua mente em Cristo Jesus, amém.