Lei e EvangelhoSimul justus et peccator
Um Pastor Luterano

Was Christum Treibet (Martin Luther).

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Homem curado agradecendo a Jesus.Pregações

Gratidão

Quem dentre nós já pegou catapora? Talvez alguns pegaram quando ainda eram bebês e por isso não se lembram, o que é muito bom. Talvez outros a tiveram já com mais idade e se lembrem do quanto essa doença é incômoda. Coça bastante, além de dar febre e outros problemas bem sérios.

Lá em casa, minha mãe sempre dizia: “quem tem medo pega, quem não tem medo não pega catapora”. É o que mostra também um episódio do programa de televisão chamado Chaves. É bem engraçado, ele quer pegar porque assim iria ao hospital onde teria o que comer; já os outros da vila fogem da Chiquinha com medo da doença. No final das contas, todos os que tinham medo pegaram, e o Chaves, o único que quis pegar, não pegou.

Quando eu tinha uns 12 anos de idade, uma sobrinha minha, de 2 anos, pegou catapora. Com essa mentalidade na cabeça, não tive medo de estar perto dela, pois não tendo medo, certamente não pegaria. Aconteceu que peguei e bem nas férias de Julho. Foram férias não muito aproveitadas, confesso.

Na época de Jesus não era muito diferente. Lepra também é uma doença que dá na pele. Naquela época incurável. Com medo de pegar, os leprosos eram isolados da sociedade e viviam o restante de suas vidas em quarentena. Sem sombra de dúvida, uma enorme injustiça social.

E não acaba por aí! Além disso, se lermos o livro de Jó vamos perceber que para os judeus a lepra era consequência de algum pecado grave que a pessoa cometeu. Mais uma vez, uma grande injustiça, pois se lermos a história de Jó, perceberemos que ele era justo, correto e que estava no trilho certo, sem se desviar nem para um lado, nem para outro.

Jesus estava a caminho de Jerusalém, onde depois foi crucificado. Jesus já sabia o que iria lhe acontecer, pois revelou isso aos discípulos algumas vezes; mesmo assim, eles não acreditavam no próprio Mestre.

Durante a viagem, passava Jesus por uma região de fronteira: Galileia e Samaria. O mesmo como se ele estivesse indo de Novo Xingu para Constantina (Ronda Alta para Três Palmeiras, Três Palmeiras para Ronda Alta, Constantina para Sarandi). Ali em cima, no meio do caminho, praticamente na fronteira, dez pessoas o avistam. Todos eram leprosos. A fama de Jesus já tinha corrido pela região. Era o Messias de Deus que poderia curá-los de sua enfermidade. Ao verem Jesus, a esperança é renovada em seus corações. Eles dizem o mesmo que cegos e outras pessoas já tinham dito a Jesus em outros textos: “tem piedade de nós”.

Em um primeiro momento, Jesus aparenta estar indiferente à situação deles, pois ele simplesmente responde: “vão e se mostrem aos sacerdotes.” Jesus diz isso porque os sacerdotes eram os responsáveis, na época, pela avaliação da doença e determinar se a quarentena era necessária ou não. Dependendo da gravidade da doença, o sacerdote determinava o que o doente deveria fazer.

Eu imagino a tristeza dos discípulos: Jesus simplesmente disse que procurassem os sacerdotes. É só isso mesmo? Não, ao contrário, assim que se colocaram a caminho do sacerdote, todos foram curados. Jesus foi misericordioso, ele teve piedade para com o sofrimento daqueles homens. Poderiam ir ao sacerdote e este comprovaria que não tinham doença alguma, estavam curados.

Diante da cura, a maioria continuou seu rumo. Ao que parece, sua memória era muito pequena, pois nem sequer lembraram-se de voltar para agradecer a Jesus. Estavam curados, tinham mais o que fazer. A maioria se tornou indiferente ao Senhor Jesus, mas um deles voltou. Quem? Um samaritano!

Esta informação é muito importante, pois os samaritanos não eram qualquer povo, mas inimigos de Israel. Os samaritanos eram discriminados pelos judeus por possuírem uma forma um pouco diferente de viver a sua fé. Além disso, os judeus se vangloriavam por se acharem melhores do que os samaritanos. Judeus e samaritanos não se davam.

Mas, apesar das diferenças, parece que a doença os uniu. Em momentos de desgraça o povo se junta novamente. Na minha região, em Santa Catarina, acontecem enchentes quase todos os anos. Na última mais forte, em 2011, era triste olhar as cidades. Parecia que tinha caído uma bomba nelas de tanta destruição. Mas, ao mesmo tempo, a solidariedade voltou à ativa. Vizinhos que nem se conheciam passaram a compartilhar roupas, comida, água, ou até mesmo encontraram um espaço para abrigar pessoas que tiveram a sua casa tampada pela água. A desgraça une as pessoas, pena que é só na desgraça.

De repente, dois lados inimigos ao extremo estavam juntos, compartilhando do mesmo problema, a doença. Os judeus se achavam melhores que os samaritanos, mas olhem o que acontece: os nove judeus vão embora sem agradecer, mas justamente o samaritano retorna para falar novamente com Jesus. A maioria se torna indiferente à misericórdia de Jesus, mas bem aquele de quem não se esperaria, esse vem e agradece com o rosto aos pés do próprio Senhor. Jesus, logo questiona: “de dez, só esse estrangeiro voltou. Do meu próprio povo não voltou ninguém, mas dos estrangeiros sim.” Isso é como se dos 10, nove fossem gaúchos e um fosse argentino. Seria uma vergonha para nós que vivemos aqui o fato de nenhum de nós agradecermos, mas aquele um de fora sim. Esse exemplo é só para entendermos o que ocorreu naquela época. É uma vergonha que gente do próprio povo não tenha agradecido a Jesus. Que vergonha para o povo judeu, se achavam tão superiores, eram tão bons, mas na hora de reconhecer o que Deus fez por eles, esqueceram-se rápido demais.

A maioria foi indiferente, mas um teve a salvação. O que vai acontecer, nesse processo, vem o seguinte: o homem que se humilhou perante Deus conseguiu a salvação pela fé, algo fundamental também para nós que somos luteranos e estamos rumo aos 500 anos da Reforma. O samaritano, logo ao ser curado, vira a volta e vai até Jesus. Ele se converteu ao Senhor Jesus. Assim, como também explica Lutero, Deus age primeiro e nós só podemos reagir. Sem a ação de Deus, o ser humano não sai do lugar. A partir da primeira ação de Deus no samaritano, ele se voltou para Jesus e foi salvo pela fé. Isso é algo extremamente maravilhoso. Deus age primeiro em nossas vidas, e somente assim podemos responder a ele, voltando a ele e tendo uma vida de fé.

Deus até hoje faz muitas coisas. Não apenas curas, embora ele tenha o poder para isso. Ele nos dá alimento, nos dá vestes, nos dá tantas coisas e a maioria continua permanecendo indiferente ao agir de Deus. Gosto muito da explicação de Lutero sobre a primeira parte do Credo Apostólico. Lutero diz:

Creio que Deus me criou junto com todas as criaturas, e me deu corpo e alma, olhos, ouvidos e todos os membros, inteligência e todos os sentidos, e ainda os conserva; além disto, me dá roupa, calçado, comida e bebida, casa e lar, família, terra, trabalho e todos os bens. Concede a cada dia tudo de que preciso para o corpo e a vida; protege-me de todos os perigos e guarda-me de todo o mal. E faz tudo isso unicamente por ser meu Deus e Pai bondoso e misericordioso, sem que eu mereça ou seja digno. Por isso devo dar-lhe graças e louvor, servi-lo e obedecer-lhe. Isto é certamente verdade.1

De dez, nove foram embora e um voltou. Esta estatística preocupa. Quanta coisa recebemos de Deus graciosamente, mas quão pouco agradecemos por tudo o que eles nos deu. Lutero explica também que quando oramos no Pai Nosso pedindo pelo pão de cada dia, isso não se refere só à comida, mas também às roupas, casa, etc. O Salmo 103 diz: “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios.”

Uma das coisas mais bonitas que tenho percebido enquanto estou aqui é que as pessoas ainda tem o costume de orar antes da refeição. Quem já faz isso, continue fazendo. Deus nos dá tudo de graça, não nos cobra nada e nem quer que façamos algo para merecer a sua graça. Ou a graça é de graça, ou não é graça. De outro lado, quando não agradecemos, vivemos reclamando: “só dá sol, só dá chuva; feijão de novo, arroz de novo; batata de novo; mandioca de novo, etc.” Deus em seu amor nos concede tantas coisas, o ar, por exemplo, essencial para a vida.

Enfim, com quem nos comparamos? Com os nove que foram embora ou com aquele único que voltou para agradecer? Se nos parecemos com os nove, podemos recomeçar nossa vida a partir da fé em Deus. Como está no texto e já foi dito, “a tua fé te salvou”. Se admitimos que parecemos com os nove ingratos, então temos um bom motivo para chegarmos a Deus começarmos, dia após dia, a agradecermos por tudo o que ele nos dá, também pela sua proteção nas viagens, etc. Se somos gratos a Deus, então esta palavra quer nos motivar a cada vez mais fazermos isso, a continuarmos reconhecendo que Deus nos dá todas as coisas e que sem ele nada podemos fazer. Quero ler um trecho de uma prédica do professor Euler Renato Westphal da faculdade em que estudei:

As famílias são marcadas pelo desperdício, isso por que perderam a dimensão do cuidado de Deus que fornece todas as coisas. Desperdiçam por que seus bens não possuem história. Tudo é rapidamente comprado, consumido e jogado fora. As coisas recebem seu devido valor quando se sabe de onde vem. O pão, por exemplo, este no interior possui uma história. O pai que corta a lenha, a filha ou o filho que levam a lenha até o forno da mãe que por sua vez faz a brasa para assar o pão. Este pão tem história e por isso não será facilmente desperdiçado. Já nas cidades, o leite vem em caixa, o pão é facilmente adquirido nas padarias e mercado, como também outros alimentos, logo, a noção de que Deus fornece todas as coisas aos seres humanos é perdida, pois, tudo vem fácil, tudo está facilmente ao alcance das pessoas.

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o teu coração e a tua mente em Cristo Jesus, amém.

Notas e referências

  1. LUTERO, Martim. Catecismo Menor. 16. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2011. p. 10.

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