PregaçõesIgreja que serve, serve
Amados irmãos, amadas irmãs,
hoje é o dia de Pentecostes. Lembramos hoje quando o Espírito Santo foi derramado sobre os discípulos em Jerusalém. Após a Ascensão, eles ficaram em Jerusalém, como ordenado por Jesus. Agora, através do empoderamento do Espírito, eles são enviados para proclamar o Evangelho a todo o mundo conhecido da época. Pentecostes, assim como a morte e ressurreição de Jesus, é um evento que não se repete. O Espírito Santo desceu uma vez e não desce mais. Clamores para que o Espírito Santo desça são inúteis, pois ele já está entre nós. Ao contrário, a nossa tarefa é orar e clamar por aquilo que ainda não aconteceu: a volta de Jesus. Clamar que ele venha e traga o seu Reino.
Após o Pentecostes, o Evangelho começou a ser espalhado. A coragem que os discípulos receberam não os deixava viver a fé de maneira privada, mas eram fiéis na divulgação do Evangelho que é uma mensagem pública. Após o Pentecostes, surge o apóstolo Paulo que, após uma verdadeira mudança de vida, torna-se o grande anunciador da Salvação Eterna. Paulo anunciava a transformação que aconteceu na sua vida e que poderia transformar outras vidas caídas no pecado e no afastamento completo de Deus.
O Evangelho chegou também a Corinto. Esta era uma importante cidade do Império Romano e capital da Província da Acaia. Corinto era como a capital de um estado. Estima-se que sua população no tempo bíblico era de 250 mil habitantes. Em Corinto havia muitas indústrias, principalmente de cerâmica; também o comércio era muito forte. Corinto era palco de uma cultura bastante diversificada. Sua localização estava onde havia um grande trânsito de pessoas. Por isso, havia em Corinto italianos, gregos, egípcios, sírios, judeus, romanos, etc. Estamos falando de uma cidade grande, rica, diversa e complexa. Corinto também era conhecida pela imoralidade. Era um lugar de muita prostituição e também onde acontecia uma série de relacionamentos descabíeis, como incesto e pedofilia. Corinto era a cidade da luxúria. Era uma cidade do Império Romano que vivia um verdadeiro carnaval o ano inteiro. Inclusive, usavam disso para movimentar a economia local.
Nós podemos sentir pudor ao conhecer uma cidade assim, mas Deus olhou para esta cidade com misericórdia. Também lá, onde havia plena escuridão, precisava chegar a luz. Somente o Evangelho da Salvação de Deus poderia transformar aquela cidade. Para isso, era necessário levar o Evangelho até ela.
Por isso, em sua Segunda Viagem Missionária, Paulo chegou a Corinto. Nela, Paulo fez uma grande campanha evangelística que resultou em muitas vidas transformadas pelo Evangelho. Lucas nos relata tudo isso em Atos 18 da qual leio alguns versículos, como o v. 4 que diz: “E todos os Sábados Paulo falava na sinagoga, persuadindo tanto judeus como gregos.” De Sábado em Sábado Paulo anunciava o Evangelho da Salvação na Sinagoga que é o templo dos judeus. E continua no v. 5: “Quando Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo se entregou totalmente à palavra, testemunhando aos judeus que Jesus é o Cristo.” A pregação de Paulo, Sábado após Sábado, era o anúncio de que Jesus é o Cristo, e a palavra Cristo significa Ungido ou Escolhido. Paulo pregava que Jesus era o Messias escolhido por Deus e prometido no Antigo Testamento que veio dar a Salvação aos que nele crerem. O resultado da evangelização está no v. 8: “Crispo, o chefe da Sinagoga, creu no Senhor, com toda a sua casa; também muitos dos coríntios, ouvindo, creram e foram batizados.” Assim nasceu uma igreja, do zero, em Corinto. Tudo por causa do Espírito Santo que foi derramado e convence as mentes e os corações que Jesus é o Cristo, o messias de Deus que concede a Salvação. Assim, “Paulo permaneceu em Corinto um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus”, conforme o v. 11. Foi um longo período. Um ano e meio pregando o Evangelho. Assim nasceu uma igreja em Corinto.
Após isto, Paulo seguiu a sua viagem missionária. Então os problemas surgiram. Começou a haver várias divisões e partidarismos dentro da igreja de Corinto. Muitos começaram também a desacreditar que Paulo era um apóstolo de Cristo. A própria imoralidade começou a entrar dentro da igreja. Após a saída de Paulo, Corinto se tornou a igreja mais problemática do Novo Testamento. Se em Filipos ia tudo bem, em Corinto ia tudo de mal a pior.
Os problemas eram tantos que o apóstolo Paulo precisou escrever 4 cartas para se defender dos coríntios e defender também o Evangelho. Infelizmente, com o tempo, duas destas cartas foram perdidas. Mas, graças a Deus, duas permanecem na Bíblia. Nestas duas temos evidências das outras duas que sumiram com o tempo. Nenhuma igreja do Novo Testamento recebeu 4 cartas. Isso indica que a coisa era muito séria.
A 1ª Carta aos Coríntios inicia afirmando que há divisões na igreja. Se há algo que lentamente mata uma igreja são as divisões e os partidarismos. Quando todos não são mais iguais, mas uns querem ser melhores que os outros. Corinto chegou a tornar o próprio Cristo um partido. Isso não significa que os/as irmãos/ãs não podem ter opiniões diferentes, mas as opiniões nunca podem chegar ao ponto de esconder que Jesus é o Cristo, o escolhido de Deus. Paulo tenta solucionar o problema apontando para a cruz de Cristo que é loucura para os que se perdem, mas, para nós que somos salvos, é o poder de Deus. A cruz é símbolo de unidade. Por isso temos uma cruz no altar das nossas igrejas.
Também havia imoralidade dentro da igreja, incluindo prostituição religiosa onde alguns irmãos, presos à velha vida, adoravam a deusa Afrodite através de praticas sexuais dentro da igreja. Só este fato mostra que Corinto não era brincadeira. Aquele avivamento do início agora se reduziu a uma igreja morta e presa a costumes que não combinavam com o Evangelho.
Tudo isso culmina no problema espiritual, pois os/as irmãos/ãs não sabiam mais em que crer e nem quem era Jesus. Perderam-se completamente. Não sabiam mais como viver em culto. Não sabiam mais como viver entre irmãos e irmãs. Tudo se tornou achismo e competição, calando cada vez mais o Evangelho de Jesus Cristo. Jesus passou a ocupar o segundo lugar na igreja. Outras coisas assumiram seu lugar. Então os problemas começaram a aparecer. E eram graves!
É neste contexto que Paulo escreve também o cap. 12 da sua primeira carta aos Coríntios. Na sequência, ele irá defender que Cristo é o cabeça da igreja e que os membros servem a Cristo. Ao invés das divisões, Paulo nos dá a ideia de que a Igreja é um corpo vivo na qual cada membro é importante. Quando cada um cumpre bem sua função, a igreja cresce; quando cada um compete com o outro, a igreja fica doente e corre o risco de morrer.
Todos nós recebemos dons que podemos usar para servir a Deus por meio do próximo. Os dons na igreja não são para a própria glorificação, mas para a glorificação de Deus. Os dons não servem para a promoção de si mesmo, mas os dons servem para promover a Cristo e o seu Reino. Não há dom mais importante e dom menos importante. Todos os dons servem e agradam igualmente a Deus, desde uma música bem tocada, uma pregação bem proferida ou um altar bem arrumado e um chão bem limpo. Ninguém vai ter todos os dons. Quem acha que tem todos os dons, ele se acha.
Por isso, vamos aos três pontos deste texto:
1 O DOM DA FÉ (v. 1-3)
O único dom que todo cristão tem é o dom da fé. Quem não tem o dom da fé, não irá crer e confiar em Deus, buscar um relacionamento íntimo e pessoal com ele. É através do milagre de Pentecostes que podemos receber o dom da fé. Quem não tiver este dom, nunca vai crer em Jesus e nem confessá-lo como seu único e suficiente Senhor e Salvador. Por isso, Paulo diz: “Ninguém pode dizer: “Senhor Jesus”, senão pelo Espírito Santo.” (v. 3). Lutero irá falar disso na sua explicação do Credo Apostólico no Catecismo Menor, onde ele afirma: “Creio que por minha própria inteligência ou capacidade, não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem chegar a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo Evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé”1. O Missionário Prof. Dr. Euler Renato Westphal afirma:
Fé é dom de Deus que renova o ser humano. Pela fé, morre o velho homem, aquele que se fundamenta nas suas possibilidades e nos seus recursos. Quem vive é Cristo e não mais o eu piedoso, que quer fazer por merecer a graça e os favores de Deus. Por meio de Jesus, somos, ao mesmo tempo, pecadores e justificados.2
2 OS DONS DA FÉ (v. 4-11)
Quem crer vai receber dons. E os dons são usados para servir a Deus por meio do próximo. E cada um tem um dom. Nenhum dom deve ser desprezado. Todos os dons são importantes. Fundamental é que “Um só e o mesmo Espírito realiza todas essas coisas, distribuindo-as a cada um, individualmente, conforme ele quer.” (v. 11). Os dons são dados conforme Deus quer para a edificação da Igreja. Cada um deve ficar contente com o seu dom por poder usá-lo a serviço do Reino de Deus. E temos muitos dons em nossa Paróquia, desde a música, oração, pregação até artesanato, bons doces e salgados, assim por diante. Continuemos usando o dom que Deus nos deu com muita alegria.
3 UM SÓ CORPO (v. 12-13)
Não há dois cristos. Não há dois espíritos. Não há dois deuses. Não há duas igrejas. Todos os que creem e confessam a Jesus Cristo como Senhor e Salvador pertencem ao corpo de Cristo e confessam o mesmo Deus. E aqui estamos falando da Igreja Invisível, ou seja, todos os verdadeiros cristãos do mundo inteiro, pertencentes as mais diversas denominações. Fora da Igreja enquanto Corpo de Cristo não há Salvação, pois a Igreja é o Corpo de Cristo e fora de Cristo, não há Redenção.
É Pentecostes. O Espírito Santo cria e mantém a unidade da Igreja. Hoje, somos convidados a deixar as diferenças de lado e a seguirmos adiante na prática do amor, pois o amor é o dom supremo, conforme 1 Co 13.13. Podemos ter uma diversidade de dons, mas sem amor, eles não valem nada e vão para o lixo.
Que Deus abençoe e crie cada vez mais a unidade entre nós como irmãos/ãs. Somos diferentes. A igreja não precisa ser uniforme. Continuamos sendo diferentes uns dos outros, mas temos o amor para nos aceitarmos mutuamente ao invés de nos excluirmos através de julgamentos.
Que Deus nos abençoe.
Amém.